Notas iniciais
Espero que gostem :D

“Faltava cerca de duas horas para amanhecer quando cheguei a casa. Lembro-me claramente de descalças os saltos altos na entrada para não acordar o meu marido, contudo, ao entrar na sala, vi-o sentado na poltrona, com o pijama e roupão vestidos, á minha espera. Tentei visualizar-me como ele me via no momento: os cabelos castanhos ondulados um pouco bagunçados, a maquilhagem quase desfeita, o vestido vermelho amarrotado e os sapatos numa das mãos. Cheirava a álcool e tabaco misturados com o meu perfume de frutos tropicais. Talvez me imaginasse nos braços de um homem mais jovem, a contorcer-se de prazer, enquanto ele não me tocava á meses. A ideia divertiu-me mais do que imaginava, mas não estava longe da realidade.

Eu, jovem – com apenas vinte e três anos – e completamente desejável, não me sentiria atraída por um velho gordo e ressentido de cinquenta e três ao qual fui obrigada a casar pelos meus pais conservadores, e ele sabia-o perfeitamente.

- Onde estiveste? – á noites que fazia a mesma pergunta. Nas outras vezes, eu limitava-me a ignora-lo e subir para o quarto, mas naquela noite, senti uma vontade enorme de lhe revelar o meu segredo, de lhe dizer com quem eu passava as noites enquanto ele remoía sobre o assunto sozinho em casa. Tive vontade de lhe jogar a verdade á cara e foi o que fiz.

- Com o Nico – respondi, com um sorriso travesso nos lábios. Queria irritá-lo, vê-lo enfurecido. Irritava-me que se mantivesse calmo quando desconfiava á muito tempo que eu o traía e não fazia nada. Ao ouvir o nome, o rosto dele retorceu-se num misto de incredulidade e mágoa. Surpreendeu-me ao levantar-se do cadeirão e dar-me um estalo. Levei a mão ao rosto, com os olhos arregalados. Esperava que gritasse comigo e me expulsasse de casa, mas nunca que me batesse. Ri, em alto e bom som, ele esperava a noite toda para me confrontar sobre o amante, mas nunca esperava que fosse o seu amado filho Nicholas. O seu filho de vinte e seis anos – já casado – traía-o a ele e á esposa ao dormir com a madrasta. Ah! Imaginava o choque dele. Ainda agora a ideia me diverte de certa forma, mesmo que eu saiba que não é correto.

- Desde quando? – gritou, voltando a bater-me. Não respondi. Berrei que fosse para o diabo, que era um corno estupido e que não passaria disso. Corri para o telefone e marquei o número de Nico, todavia, não tive tempo de ouvir a sua voz do outro lado, pois o meu marido pegou-me pelos cabelos e atirou-me ao chão. Gritei com o impacto. Doíam-me as costas e tive medo de ter partido alguma coisa. Voltou a bater-me, uma e outra vez, dando chutes com força enquanto eu me contorcia de dor – desde quando? – voltou a gritar enfurecido. Eu, já sem forças, limitava-me a cuspir sangue ao mesmo tempo em que o amaldiçoava mentalmente. Deixou-me sozinha no chão e desapareceu na direção da biblioteca. Observei-o voltar passado um tempo segurando uma arma e arfei, temendo por mim mesma. Pousou-a sobre a mesa redonda ao lado do sofá, onde estava a jarra oferecida pela minha mãe no casamento e virou-se para me encarar com um sorriso sádico. Agachou-se, pegou-me a cabeça pelos cabelos, para me olhar de frente e murmurou – vou matar-te, violar esse teu corpo imundo e depois, matar aquele filho ingrato que ousou trair-me contigo, sua vadia – estava louco. Pensei. Ficara cego de cólera e enlouquecera de um momento para o outro. Voltou a chutar-me e riu descontroladamente quando gritei de dor. Desejei que Nico tivesse ignorado o telefonema, mas Deus não me ouviu e vi com assombro quando ele apareceu na sala, horrorizado por ver-me naquele estado, e pegar na arma.

- Não és capaz de me matar, Nicholas – riu, enquanto me pegava mais uma vez pelos cabelos e socava, até eu atingir novamente o chão. Senti a minha visão ficar turva e forcei-me a manter acordada. Supliquei a Nico que fosse embora, mas ele permaneceu e segurou a arma ainda mais firmemente – divertiste-te assim tanto com esta puta, que me matarias por ela? – gargalhou enquanto Nico o encarava com ódio. Olhou-me com desprezo e tentou bater-me de novo. Tarde demais, Nico disparara e o meu marido caiu ao meu lado, de joelhos, surpreso enquanto levava a mão ao peito e encarava o sangue jorrar livremente. Segundos depois, caiu inerte no chão enquanto o filho chorava como uma criança perdida. Nico soltou a arma no chão e correu para me socorrer. Chamou a ambulância e pedia desculpas sem parar, não sei se a mim ou ao louco do pai, talvez a ambos. A policia chegou e não o vi depois de entrar na ambulância.”

O tribunal entrou em silêncio absoluto quando a gravação terminou.

- Esse é o depoimento da minha cliente um dia após o ocorrido, chega-lhe? – questionou a advogada com um rosto sério. O juiz, um homem calvo e já de idade, conhecido por ser duro de moldar, suspirou enquanto todos começavam a murmurar. Os jurados passaram a sua opinião e ele leu-as antes de decidir. Encarou a mulher originária de tanta discórdia, sentada ao lado da advogada e concluiu que o homem enlouquecera mesmo nos seus últimos momentos. Os olhos azuis-esverdeados pareciam distantes e inocentes, contudo, tinha uma aura desesperadamente sensual. Kali Stuart. O nome dela surpreendera-o desde o inicio do processo. Kali, deusa da morte e sexualidade. Ao observar aquela mulher, decidiu que o nome lhe fazia jus. Aquela mulher enlouquecera o marido e tinha acabado de vez com o casamento do amante, no entanto, apresentava-se no tribunal com uma calma invejável e pelo que via, não se arrependia de nada.

Voltou a suspirar – o supremo tribunal decreta que o réu Nicholas Tanner é considerado inocente, contudo, terá que cumprir seis meses de trabalho comunitário.

Kali sorriu, enquanto agradecia á advogada e colocava os óculos escuros no rosto. Depois de dois meses, ainda tinha marcas da violência sofria naquele dia, contudo, nada isso era comparado ao fato de que ela estava livre, ao contrário de Nico que passara todo aquele tempo na cadeia.

Viu a ex-mulher dele encará-la com raiva antes de abandonar o tribunal e revirou os olhos, abrindo um sorriso quando um par de braços fortes a abraçou por trás. Virou-se e admirou-o. Nicholas era encantador, com seus olhos cinzentos e cabelos loiros bagunçados, a pele ligeiramente morena e o corpo trabalhado. Parecia excepcionalmente bem com o terno preto e mostrava-lhe um sorriso radiante. Beijou-o com saudade e viu o olhar dele cair sobre a sua barriga. Estava grávida de quatro meses, mas ainda mal se notava. Graças a deus o bebé não tinha sofrido qualquer dano naquela noite e estava saudável. Nico parecia adorar a ideia de ir ser pai e ela tinha decidido amá-lo para sempre. Ele tinha-a salvo, tinha morto o próprio pai para salvá-la.

O seu segredo cobrara o divorcio e uma vida importante na vida de Nico, mas devolvia-lhe outra ainda melhor. Tinha certeza que seriam felizes juntos.

Notas finais
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Você chegou ao fim do livro. Parabéns!