O que você faria após descobrir que fantasmas existem?

E após lutar contra um deles até a morte?

Se as perguntas tivessem sido feitas à Janis dois dias atrás, as respostas teriam sido correria para as colinas e beberia uma garrafa de vodka sozinha respectivamente, mas depois de ter passado pelas duas situações, ela só conseguia pensar no quão fabulosa tinha se sentido. Não que ela fosse admitir para ninguém — até porque, quem acreditaria nela?

Bem... Sam acreditaria.

E o Dean, claro.

Janis olhou para Sam enterrando os restos do ossuário que ela tinha salgado e queimado. Ele a tinha obrigado a sentar no gramado enquanto limpava a cena do crime porque achava que ela tinha tido uma concussão e, até onde ela sabia, Dean estava fazendo o mesmo trabalho de limpeza na clareira.

Os dois irmãos pareciam saber exatamente o que precisava ser feito e aquilo fez Janis se perguntar por quantas vezes eles já teriam passado por situações semelhantes. Sam tinha dito que o trabalho dos dois era matar coisas. Isso fazia deles profissionais?

Janis se viu rindo. Se ela estava dentro de Os Caça Fantasmas, onde estava o Geléia?

Ela precisava se controlar. Não era hora para piadas. Janis não podia se deixar esquecer nem por um segundo o que a tinha levado até ali.

— Imagino que você já tenha encontrado com outros profetas antes. — ela disse tentando parecer despreocupada enquanto arrancava fiapos de grama e os jogava de lado. Sam endireitou-se e fincou a ponta da pá no chão.

— Conheci. — respondeu, e a Janis não passou despercebido o quão vago ele foi.

— E o que aconteceu? — a pergunta escapou sem que ela se desse conta.

— Janis... — ele começou a dizer, mas ela o interrompeu.

— Quer saber? — ela se levantou. Estava agitada demais para continuar sentada. — Eu não quero que você me conte. Esquece que eu perguntei.

— Tem certeza? — ele quis saber — Porque você mais do que ninguém tem o direito de ouvir essa história.

— Ai meu Deus, Sam! — ela reclamou. Seu estômago se comportava como se ela estivesse numa montanha russa super radical. — Desse jeito que você fala me dá certeza que profetas são os primeiros a se darem mal como nos filmes de terror.

Ele riu. Não foi uma gargalhada, mas um sorrisinho contido de lado.

— Não é tão ruim assim. Pra falar a verdade, eu não sei se é ruim ou bom. — ele parou o que estava fazendo para olhar na direção dela — O único profeta, além de você, que Dean e eu conhecemos, sumiu depois de... bem, não sabemos porque ele sumiu. Dean acha que ele se cansou de tudo e foi morar na Flórida.

— Flórida? — Janis esperava por algo com 'ele morreu uma morte horrenda' ou 'ele foi esquartejado, salgado e queimado'. Ela definitivamente não esperava por 'ele se aposentou e foi viver à beira-mar' — Mas isso é tão absurdamente normal!

— Exatamente. — Sam disse e apontou para Janis para dar mais ênfase. Ele pegou a pá e olhou em volta para ter certeza que não tinha deixado nada para trás. — Nosso trabalho aqui acabou. — disse se aproximando dela — Como você chegou aqui?

— Vim com meu carro.

Ele assentiu e os dois caminharam para a parte da frente do jardim.

O Prius azul metálico de Janis estava estacionado em cima de um canteiro de flores, os faróis estavam acesos e a porta do motorista escancarada. Ela bufou quando olhou para o carro.

— Droga! — reclamou — Só porque eu não renovei o seguro.

Havia um amassado enorme no para-choque dianteiro. Janis foi até um dos pneus e o chutou de leve.

— O que aconteceu? — Sam perguntou.

— No desespero de chegar até aqui antes do seu irmão morrer, acabei batendo numa lixeira. — ela respondeu de cara fechada.

Sam já tinha deduzido que Janis tinha tido uma visão com ele, Dean e o fantasma de Susan Bennet, ou o fim daquele caso teria sido bem diferente. Ele queria saber os detalhes do que ela tinha visto, mas aquele não era o melhor momento para perguntar. Janis estava em seu limite e ele não a pressionaria ainda mais com perguntas que ela provavelmente ainda estava tentando responder para si mesma. Ela precisava de mais tempo para assimilar tudo o que tinha acontecido.

Ela abriu o porta-malas do carro para Sam guardar a pá e ele aproveitou para roubar as chaves que ela tinha deixado penduradas na fechadura.

— Vou dirigir. — anunciou esperando que ela reclamasse e não o deixasse assumir o volante, mas ela apenas deu de ombros.

— Tanto faz. — respondeu a ele.

Os dois entraram no carro, e Sam precisou empurrar o banco do motorista para trás para que suas pernas coubessem no pequeno espaço. Ele pensou ter visto certo divertimento nos olhos de Janis, que o observava lutando para se acomodar.

Ele deu ré e entrou na estrada enquanto Janis zapeava pelas rádios locais até encontrar uma que tocava Why Does It Always Rain On Me?* do Travis. Ela cantarolou, a voz cheia de ironia, e Sam decidiu que gostava dela. Pelo menos, ela tinha o humor certo para aquele trabalho.

*Por que sempre chove em cima de mim? em português.

Quando eles chegaram no estacionamento do hotel, Dean os esperava encostado no Impala.

— Até que enfim vocês dois apareceram! — ele disse antes mesmo que Sam e Janis descessem do carro. Dean parecia ter sido mastigado por um dinossauro. Estava sujo de terra, e havia manchas de sangue e rasgos em suas roupas. Mas mesmo assim, ele estava de bom humor. — Quem tá com fome?

— Eu tô bem. — Sam respondeu e olhou para Janis, que agora parecia prestes a cair no sono.

— Eu preciso tomar um banho. Acho que caí em cima de coco de cachorro. — ela fez uma careta, enojada consigo mesma.

— Te trago alguma coisa. Quer? — Dean ofereceu. Janis pensou um pouco na proposta, mas decidiu não aceitá-la.

— Estou bem também. O que eu preciso mesmo é dormir. Mas obrigada. — Dean fez um gesto com a mão dispensando o agradecimento e Janis começou a andar na direção do quarto. — Se vocês não se importam, eu vou me recolher.

— Pode ficar com a cama. — Sam disse e ela se virou para ouvi-lo — Eu durmo no sofá.

De onde estava, Janis sorriu.

— Eu discutiria com você por isso, mas estou cansada demais até pra tentar. Obrigada Sam.

Dean esperou que ela entrasse no quarto e virou-se para o irmão.

— Quais as chances dela surtar quando acordar? — ele foi direto.

— Ela é mais durona do que parece. — e então Sam explicou para o irmão tudo o que tinha acontecido desde que ele tinha saído da clareira. Contou sobre o telefonema de Janis, contou que ao chegar no jardim dos Bennet Janis já havia começado a cavar a sepultura, contou sobre como quase foi morto pelo fantasma e contou sobre Janis ateando fogo no esqueleto de Susan Bennet mesmo depois de ter batido a cabeça no chão — Ela salvou minha vida. — completou — Provavelmente salvou a sua também.

— Supondo que assim que acabasse com você, o fantasma se voltaria para mim, é. — Dean disse — Provavelmente ela salvou sim. — ele ofereceu para o irmão uma garrafa de bolso. Sam a pegou e deu um gole no whisky barato que o irmão sempre carregava.

— O que vamos fazer com ela? — Sam perguntou, se referindo a visão que a tinha levado até eles.

— Vamos seguir seu plano. — Dean respondeu e tomou outro gole — Ficaremos por perto. Ela terá mais visões com certeza, e dependendo do que for, aí então vamos agir. Por enquanto só podemos esperar.

Sam concordava com aquilo.

— Vamos levá-la para a casa do Bobby. — disse e ouviu Dean bufar.

— Ah, ele vai pular de alegria por ter uma mulher em casa! — ele respondeu sarcasticamente a Sam, que cruzou os braços e olhou feio para o irmão.

— Então para onde? — quis saber.

— Para lá claro! — Dean respondeu, divertido com a situação — Estou louco para ver o velho passando perfume e penteando o cabelo pra não fazer feio na frente da sua namoradinha.

— Ela não é minha namorada. — Sam disse sério, só percebendo tarde demais que tinha mordido a isca exatamente como o irmão planejara.

— Ainda não! — Dean disse — Mas, pela troca de olhares a pouco, vai ser. Em breve.

Sam odiava aquela postura do irmão.

— Por que você sempre vê segundas intenções em tudo? — perguntou bravo, mas Dean não caiu na armadilha.

— Porque sempre existe segundas intenções em tudo. — respondeu dando de ombros — Eu vou dormir com minha Baby e você pode ficar com a outra cama. Talvez, quem sabe, pela proximidade, vocês dois... — Dean olhou para irmão, deixando claro o que queria dizer, e aquilo deixou Sam ainda mais irritado.

— Cala a boca Dean! — vociferou ele, deu as costas ao irmão e foi na direção do quarto.

— E diz a ela — Dean falou mais alto que o necessário — que eu resolvo o amassado do carro quando estivermos no Bobby. Vai ser um prazer fazer um favor para minha futura cunhadinha.

Sam apertou a maçaneta com toda a força que tinha antes de entrar.

Ou ele fazia aquilo, ou voltava até o estacionamento e dava um soco na cara do irmão.