O Segredo da Meia-noite
4 À meia-noite
Notas iniciais
São Paulo, 08:02
25 de maio – 2º dia
Vittoria entrou no prédio, hesitante. Ela não sabia o que esperar, ou mesmo como agir. Ela sentia-se desarmada e frágil ali.
Entrou no sobrado, deparando-se com um simples balcão, com uma vitrine repleta de itens de magia – cartas de tarô, búzios, bolas de cristal, incenso, velas, cristais – e um homem velho, usando roupas amassadas e leves, como túnicas. Ele tinha uma expressão serena, que transmitia paz e tranquilidade.
- Vittoria Dielo? – chamou.
- Sim. – disse ela.
- Estava esperando por sua visita... – comentou, sereno. E acrescentou: — Há trinta e seis anos.
Ela estremeceu, em pensar nisso. Nessa época seus pais ainda nem se conheciam, quanto mais ela pensar que algum dia isso estivesse acontecendo.
- Vou fechar a loja. Espere um instante ali. – ele indicou uma porta, que levava a uma espécie de jardim, com diversas flores. Ela passou por ali e viu um quintal enorme, com algumas plantas ornamentais nos cantos. Era um espaço grande, o suficiente para fazer qualquer coisa. Isso a assustava.
Em poucos instantes, o velho entrou e fechou a porta. Seus movimentos eram difíceis e lentos, como se ele se esforçasse e doesse a cada vez que mexia a mão.
- Bem, você é o Segredo, então?
- Pode-se dizer que sim.
- Eu vou lhe ajudar a dominar todos os seus dons. Vamos aproveitar o tempo frio e você vai criar calor.
- Mas eu não sei como fazer isso.
- Primeiramente, você seguirá meus conselhos. Escolha um lugar daqui e sente-se.
Vit escolheu um lugar próximo à parede, onde lhe pareceu agradável. Ela sentou-se e esperou o próximo conselho.
- Agora, fique numa posição confortável. – ela obedeceu-o. – Feche os olhos e esvazie a sua mente. Concentre-se apenas nos sons que ouve. Quais ouve?
- Eu ouço pássaros cantando, um cachorro latindo, sua voz, os carros passando nas ruas.
- Ótimo. Continue ouvindo-os, como se fosse o motivo de sua existência. Fique assim até eu determinar que é o suficiente.
Vit ficou. Mas os segundos arrastavam-se, passando cada vez mais lentamente. Era cada vez mais difícil concentrar-se em ruídos... Ela respirou fundo e começou de novo. Toda vez que parecia que ia desistir o fazia. Até que começou a cansar-se.
- Pare. – ela obedeceu, e esperou ele dizer o porquê. – Você estava respirando fundo sempre que perdia a concentração. Isso está certo. Mas você começou a cansar-se. Isso estava errado. Você deve sentir-se bem ao concentrar-se nos sons.
Vit tentou, uma, duas, três vezes. E nada. Era por volta da uma da tarde, quando o velho resolveu que era melhor almoçar. Sopa, que ótimo!, pensou Vit.
Depois, ela tentou fazer o exercício. Tentou outra vez fracassada, até que resolveu perguntar:
- Para que serve esse exercício?
- Para que você aprenda a se concentrar. A concentração e a paciência é a chave para muitas coisas em suas habilidades. Quando você conseguir realmente se concentrar em qualquer coisa rapidamente, você saberá controlar o Segredo.
Vit continuou. Passou o restante da tarde tentando fazer ficar um pouco mais quente. Nada. Até que...
- Está na hora de ir, Vittoria. – disse uma voz às suas costas. Era Daniel.
Ela se levantou, despediu-se do velho, passou pela lojinha, com os braços de Daniel às suas costas e foram para o Audi preto dele.
- Como foi seu progresso? – perguntou.
- Não consegui nada.
- Puxa, que chato. – disse, visivelmente decepcionado.
- Agora temos apenas cinco dias. Eu vou conseguir, Dan?
- Claro que vai. Temos que ser otimistas sempre. – riu.
- Você sempre sabe o que dizer.
- É o meu dom.
Vit virou a cabeça para o lado, sorrindo.
Quando chegaram em casa eram quase sete e meia da noite, por causa dos engarrafamentos daquela cidade entupida de carros.
- Bem, acho que hoje eu não vou poder ir à faculdade. – disse Dan.
- Mas você vai perder um dia de aula?
- Você não perdeu?
- Sim, mas porque você me obrigou.
- Além disso, até chegarmos em casa e eu ir à faculdade já serão oito e meia.
Vittoria concordou, contrariada.
- Amanhã tenho que ir à escola. Tenho prova.
- Que horas que acaba a sua prova?
- É na segunda aula, então acabará oito e meia.
- Vou te buscar as oito e meia. Sairá mais cedo e iremos para outra sessão.
- Você é impossível.
- Persistência e determinação são qualidades.
Vit revirou os olhos e virou a cara para a janela do carro. Ficou olhando as ruas, avenidas, viadutos, pontes e prédios. São Paulo poderia ser uma cidade fantástica, mas a quantidade de problemas que enfrentava era imensa. Nem para todos compensava isso.
Eles saíram do carro e subiram para o apartamento de Daniel. Ela trancou-se logo no banheiro – precisava de um bom banho para relaxar depois desse dia. Olhou-se no espelho, para ver o que os acontecimentos dos últimos dois dias tinham feito. Ela parecia mais velha, e sua mecha roxa estava com a raiz negra aparecendo. Se crescesse mais, poderia passar por um californiano bem chique. Mas não fazia o estilo dela. Seus olhos estavam mais doces do que em geral – ela era do estilo não me toque, um pouco gótico mais ainda sim feminino. E a parte punk dela desaparecia aos poucos.
— Preciso de lentes de contato – refletiu.
Ela entrou no chuveiro e deixou que a água quente acariciasse seu corpo. Um turbilhão de coisas passou em sua mente ao mesmo tempo – sua mãe, a ameaça de morte, seus poderes, Daniel... Ah, Daniel. Os hormônios afloravam nela sempre que pensava nele. Estaria apaixonada? Era difícil para ela dizer, já que ela nunca se apaixonara. Mas, ao mesmo tempo em que ela se enchia de desejo, parecia tão errado tocá-lo... Ela mal o conhecia, e em poucas horas lhe beijara. Isso não estava certo. Ela deveria esperar mais... Mas esperar o que, se, em seu ritmo atual de progresso, ela morreria em cinco dias? Cinco dias seriam o suficiente para aproveitar ao máximo todos os prazeres da vida que nunca aproveitara? A resposta era clara. Não. Ela queria se formar, fazer faculdade, ter seu apartamento, fazer viagens internacionais... Queria ver o corpo de sua mãe. Mas como, se ele estava em algum lugar da cidade? Mas... Onde? Ela não perguntara isso a Dan. E precisava saber o que aquele desgraçado do André fizera a sua mãe.
Terminou de tomar seu banho, secou-se, trocou de roupa e foi para o quarto.
— Vou dormir, tudo bem? – disse Dan.
— Tudo.
— Está com fome? Eu posso preparar algo rápido.
— Não. Pode ir dormir. Qualquer coisa eu como umas bolachas.
— Tudo bem. Boa noite.
Ele deu um beijo na bochecha dela e foi para seu quarto.
Vittoria deitou-se. Fechou os olhos, mas não conseguia dormir. Ela não sentia vontade. Queria sair, sentir o vento gelado em seu rosto. Queria aproveitar, ter experiências novas. Só restavam cinco dias para acabar sua vida. Tinha que aproveitar seus últimos instantes naquele mundo...
Ela se levantou, colocou roupas mais pesadas e foi para a cozinha. Lá ela pegou um pacote de bolachas e saiu do apartamento, tomando cuidado para não fazer muito barulho para não acordar Dan. Passou pela escadaria do prédio, subindo até a laje do prédio. Mas a porta que dava passagem estava trancada. Ela tentou abri-la, mas nada. Deveria arrombá-la... Mas como?
— Quer ajuda? – perguntou Dan.
— Você me assustou – disse.
— Quer ajuda? – perguntou novamente.
- Se puder... Agradeço.
Dan arrombou-a com um alicate de construção. Vittoria passou, e viu mais um lance de escadas. Subiu, com Dan atrás, e saiu no alto da torre. Não havia nada que a segurasse. Se ela escorregasse, seria morte na certa. Vittoria sorriu.
Ela sentou na beira do edifício, com os pés balançando. Daniel sentou-se do seu lado.
— Achei que ia dormir.
— Achei que você não estava com fome – gesticulou para o pacote de bolachas. Ela abriu e ofereceu.
— Não, obrigado.
Ela começou a comer.
— Você me acha bonito?
Vittoria estranhou a pergunta. Mesmo assim, respondeu:
— Sim.
Ele virou o rosto, num meio sorriso.
— Você me acha legal?
— Sim. Você está salvando a minha vida, lembra?
Ele repetiu o movimento.
— É, acho que eu lembro. Eu não sou o seu tipo?
— Por que tantas perguntas?
— Por que está sendo evasiva?
— Perguntei primeiro. Xeque.
— Porque você não terminou de me beijar ontem. Disse que não podia. E eu quero saber porquê.
Ela pensou bastante antes de responder. Depois de longos minutos, disse, por fim:
— Eu não achei correto. Nos conhecíamos há poucas horas... Minha vida mudou da noite para o dia. Literalmente. E eu não consigo controlar o fluxo de mudanças.
— Entendo... E agora, você acharia correto se eu lhe beijasse?
— Nessa altura?
— Do campeonato?
— Não. Altura em seu sentido literal. – explicou, como se falasse com uma criança de sete anos.
— Você tem medo de cair? Eu te seguro. – ele ficou em silêncio. Depois completou: — Você ainda não me respondeu.
— Eu não sei. Ainda não consegui acreditar que minha mãe se foi. Parece que a qualquer instante ela entrará e me abraçará, como sempre fez...
— Isso é normal. Eu ainda acho o mesmo, há três anos.
Vit olhou a cidade. Estava há vinte e nove metros de altura, e isso lhe causava um friozinho na barriga...
— O que você vai ganhar, me ajudando a conhecer o Segredo?
- Eu falaria disso mais pra frente... Mas eu gostaria que você alterasse o tempo algumas vezes para determinados tipos. É uma espécie de favor que eu devo a um amigo. Mas se você não quiser fazer eu entendo.
— Não. Eu quero ajudar. – Na realidade, ela sentia que devia isso à ele, por ele estar salvando sua vida.
— Muito obrigado. Isso é muito importante para mim.
Ele aproximou a boca da dela, mas ela desviou.
— Isso é um não para a minha pergunta?
— Isso é uma pergunta retórica?
Dan observou a vista da laje. Eram deslumbrantes, as luzes da cidade durante a noite... Mas se fosse alguma área nobre. Alguns lugares eram escuros...
— Você se sente bem dormindo aqui?
— Sim. – apressou-se em dizer. – Por quê?
— Eu quero que você fique confortável.
Houve uma pausa.
— Você gosta de mim? – Dan quebrou o silêncio.
— Como amigo?
— Não. Como namorado.
Vittoria refletiu sobre a pergunta. Ela gostava dele? Mas em tão pouco tempo de convivência? Ou era a necessidade de carinho que ela tinha, agora que sua mãe se fora?
— Sinceramente... Não sei. Tem muita coisa acontecendo na minha vida, em tão pouco tempo...
— Entendo...
Vittoria Dielo pensou sobre um assunto que ela não percebera antes. Lembrou da noite de segunda-feira. Ela havia sentido um calafrio, por volta da meia-noite... E fora nesse horário que sua mãe morrera. Isso teria alguma coisa a ver com o assassinato? Era uma questão muito complexa, até mesmo religiosa. Acontecia a mesma coisa com relógios que paravam na hora em que o dono morria... E ela já tinha visto isso acontecer muitas vezes, como na morte de seu avô. Ela preferia não tocar em assuntos religiosos, pois seu avô dizia: “existem três coisas que não se discutem: política, esportes e religião”. E Vit completava, ironicamente: “e gosto, não é, vovô?”. Lembrar disso a fazia sorrir sempre.
Ela jogou uma bolacha longe, como quando se atira uma pedra num lago. Precisava descontar sua saudade em algo. Isso soava estranho: descontar saudade? Ela deu outro sorriso.
— Em que você está pensando? – interrogou Dan.
— Muitas coisas.
— Quais?
— Momentos felizes...
— A felicidade é algo subjetivo. Afinal, o que era a felicidade? Ter o que não se tem? Buscar algo que queremos, e não olhar para o que já temos? As pessoas são felizes até que ponto? E por que elas deixam de ser, mesmo tendo tudo e achando que não se tem nada?
- Filosofando?
- Eu gosto de filosofia. Eu iria estudar filosofia, mas preferi engenharia genética.
- Você seria um bom filósofo.
- Você acha?
- Sim. – riu Vit.
Como ele podia ser assim? Tão bonito, inteligente e tão prestativo... Sentia vontade de beijá-lo, mas não podia... E isso irritava seu alter ego*, a Vittoria malvada, aquela que a fez pintar uma mecha roxa, que quase a tornou gótica. Vit Dielo era a versão boa dela, enquanto Vittoria Dielo era a versão má. Talvez ela sofria de bipolaridade, mas não sabia dizer. Nunca fora a um psicólogo, já que mudar de humor era algo de cada ser humano, e não caso de doenças. Mas ela não sabia qual Vittoria ouvir. Vit decidiu não beijá-lo. Por enquanto.
- Que horas são? – perguntou Dan, depois de algum tempo em silêncio.
Ela olhou em seu celular e disse:
- Quinze para a meia-noite.
- Nossa! Já se passou tanto tempo?
- Sim. – ela deu um meio-sorriso.
Mais uma pausa. Em algum lugar distante, o cheiro de lenha queimada por mendigos para se aquecer durante a noite gelada, era varrido pelo vento e levado até ali.
- Eu... Acho que estou gostando.
- De quem? — perguntou Vittoria.
- De você. – ele segurou o rosto dela com a mão, virou-o na direção dele e aproximou a boca dela. Dessa vez, Vittoria não ofereceu resistência. O beijo doce, suave, delicado e gentil a fez querer mais... Ele beijava muito bem.
Vittoria não percebeu a passagem do tempo – poderia ter passado um minuto, trinta ou uma hora. Era tudo a mesma quantidade de tempo. Depois disso, ela retribuiu, beijando-o na mesma intensidade e em uma quantidade de tempo indeterminado. Ele fez uma finalização mais romântica ainda – dando selinhos, até que eles viraram o rosto, não por muito tempo.
- Você beija bem – disse Vittoria, com a face corada.
- Você também – disse olhando para ela. Ele não ficava envergonhado de dizer essas coisas, talvez porque era homem ou porque ele tinha esse dom natural. – Quero repetir a dose.
Ele beijou-a novamente. Ela perdeu o fôlego – talvez fosse isso que ele queria arrancar dela no primeiro beijo, mas não conseguiu. E só conseguira dessa vez porque ela fora pega desprevenida, repetia Vittoria, mentalmente. Será?
Nessa noite, ela sonhou. Com ele. Duas vezes.
São Paulo, 06: 15
26 de maio – 3º dia
Daniel acordou Vit, para que ela fosse à escola fazer a prova. Ele reforçou que iria buscá-la, às oito e meia, para que ela não perdesse um dia de treino. Ele não deixava ela relaxar nunca. E isso a fazia sorrir.
Ela foi à escola, e logo que chegou foi bombardeada pelas perguntas furtivas de Caroline.
- Por que você faltou anteontem e ontem? Vai me falar hoje, porque ontem você foi grossa comigo.
Vittoria estava sem paciência para explicar tudo. Então disse:
- Estou com uns problemas. E, além disso, o que você tem a ver com a minha vida?
- Não precisa ser ignorante.
- Para de se intrometer, por favor.
- Achei que éramos amigas.
- E somos. Amigas, não mãe e filha. Não tenho que te falar sempre que vou espirrar.
- Mas não precisa ser grossa comigo. Só quero saber.
- Por que tanta curiosidade?
- Eu tenho que... Comer só, fazer trabalhos só... Estou só. – como Vittoria dissera, ela necessitava urgente de atenção.
- Quer dizer que minha vida está ruindo para tudo o que eu olho e você preocupada com ficar solitária dois dias?
- Se me contasse, eu poderia ser mais prestativa e te ajudar.
- Muito ajuda quem não atrapalha.
- Vai me falar?
- Você realmente quer saber? Minha mãe morreu. Feliz agora? Vai me deixar em paz? – Vit sentiu as lágrimas tentarem sair, mas ela segurou firme. Não podia mostrar-se fraca. Não ali.
- Me desculpe... – começara Carol, mas Vittoria saiu dali antes que ela completasse. Ela fez a prova e foi embora.
Pelo menos, viu seu Dan novamente... E ele estava irresistível, para ela.
*O alter ego de Vittoria só é considerado a partir daí. Antes a seleção dos nomes por apelido ou o nome em sua forma comum era feita de modo aleatório.
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