O Segredo da Lua

14 Capítulo 14 - Assalto às Cegas


Théo olhava vagamente através das grades da janela de seu quarto para o amplo gramado alto, que precisava desesperadamente ser cortado. Estava esperando o tempo passar e finalmente chegar a hora em que Kalleo batesse em sua porta. Mas quanto mais ansioso ele ficava a espera das horas passarem, mas parecia que o tempo passava devagar.

Kalleo dissera que naquela noite, depois do jantar, passaria em seu quarto para irem buscar o presente misterioso que tinha para ele. Por mais que Théo tenha insistido querendo saber o que era, Kalleo bateu o pé e negou-se a contar.

Tinha-o visto na aula de artes daquele dia, cada um tentando pintar sua tela enquanto olhavam-se a todo o momento e um sorrisinho bobo cruzava seus lábios. Era inevitável não olhar para Kalleo quando estava com ele no mesmo ambiente. Seus olhos eram como um metal sendo puxado diretamente para um ímã. E pelo que pareciam, os de Kalleo também.

O dia de Théo nunca tinha sido tão magnífico desde que chegou a São Diego até aquele dia.

Ele esfregava as mãos uma na outra, ainda sentindo a umidade da água por ter trabalhado na cozinha, depois das aulas, quanto teve que lavar uma enorme pilha de pratos sujos.

Uma leve batida na porta o acordou de seu transe na janela. Correndo até a porta, abriu-a rapidamente. Kalleo estava ali, lindo e glorioso vestindo jeans e um suéter cinza, com a mão direita erguida pronta para bater novamente na porta.

― Que rápido ― assobiou.

Sem esperar que Kalleo entrasse em seu quarto, Théo o puxo pelo braço, fechando a porta atrás dele e o encostando bruscamente a parede. Passou os braços a volta do corpo do garoto e levou seus lábios até os de Kalleo, pegando-o de surpresa. Ficara na vontade de fazer isso o dia todo, desde que o vira na aula.

Aturdido pela surpresa, Kalleo levou suas mãos até ambos os lado do rosto de Théo, afagando suas bochechas com os polegares.

― Calma ― ele riu.

― Estive com vontade de fazer isso o dia todo ― murmurou, encostando sua testa na dele, limitando o espaço entre seus corpos, sentindo cada músculo pressionado contra si, querendo sentir mais a aproximação de ambos, o calor que emanavam da junção de ambos. Seus corpos se encaixando perfeitamente. Sim, o corpo de Kalleo era perfeito para o seu.

As mãos de Kalleo desceram e seguraram as de Théo mantendo-as ao lado do corpo, beijando suavemente seu pescoço.

Macias como algodão, pensou Théo, sentindo aquelas mãos o segurando.

Subitamente, pegando Théo inesperadamente, assim como fizera com Kalleo, o garoto rodou seu corpo, junto com o de Théo, pretendendo-o contra a parede, enquanto prendia as mãos acima de sua cabeça, deixando-o completamente imóvel.

― Melhor agora ― sorriu maliciosamente se aproximando para mais um beijo.

O sangue nas veias de Théo fluía freneticamente, despertando todo seu corpo. Enquanto beijava Kalleo vorazmente, preso entre a parede e seu corpo, o sentiu pressionando o quadril contra o seu. Não demorou um átimo de segundo para perceber uma protuberância sob a calça de Kalleo encostado a ele. Seus olhos se arregalaram imediatamente, uma vermelhidão se espalhando por todo seu rosto. Seu corpo tremeu, nervoso. Era estranho para ele sentir aquilo. Kalleo abriu seus olhos, olhando com expectativa para Théo. Percebendo o choque no rosto dele, afastou-se, se recompondo.

― Desculpe ― murmurou, resignado.

Théo não chegou a pensar de fato naquilo. Tinha sentido uma ereção pressionada contra si uma única vez antes, e foi quando Toby tentou agarrá-lo a força no banheiro durante a festa no quarto de Key. Tinha sido uma experiência bastante ruim para pensar a respeito, mas não chegou sequer a imaginar como seria quando o mesmo acontecesse com Kalleo. Apesar de tudo, ambos eram homens.

― Só não estou acostumado com isso ― ele baixou um oitavo sua voz enquanto falava, olhando para o chão.

― E-eu... Esperava por isso... Devia saber... ― balbuciou. ― Você nunca...?

― Não com homens ― respondeu rapidamente, sentindo a garganta secar.

― Mas já chegou a beijar outro garoto? ― perguntou ele, os olhos analisando a reação de Théo.

― Não. Só você ― falou, não contando com o beijo forçado de Toby. Não chegou a ser correspondido por ele.

Os olhos de Kalleo se iluminaram.

― É uma honra ter sido o primeiro a beijá-lo, Sr. Ângelo ― falou sedutoramente se aproximando novamente de Théo, segurando seu rosto entre as mãos. ― Gosto tanto de você. ― E beijou sua testa, depois a ponta do nariz, seu queixo, e finalmente voltando para a boca.

Théo arquejou, inclinando seu corpo para mais perto do dele, mas cauteloso. Instantes depois, se afastaram, e Kalleo disse:

― Está na hora de irmos.

* * *

A brisa fria de inverno soprava contra o rosto dos garotos enquanto ambos se esgueiravam pelo prédio dos dormitórios. Suas faces estavam pálidas e geladas como gelo, os lábios levemente arroxeados, e o ar de suas respirações eram visíveis à frente de seus rostos como fumaça.

Théo ficou agradecido consigo mesmo por ter vestido uma camisa de moletom antes de sair do quarto.

Enquanto desciam o último lance de escadas para o pátio do dormitório, Théo seguia atrás de Kalleo, refazendo os mesmo passos do garoto, se esgueirando as sombras e desviando das luzes, tudo para não ser visto por alguém. Já se passava da meia-noite quando ambos saíram do quarto e, por sorte, a lua estava encoberta por densas camadas de nuvens, deixando a noite mais fria e escura.

Tudo que Théo podia ver de Kalleo era o contorno de seu corpo no escuro e sentir a mão cálida ― mesmo ao frio ― segurando-o.

― Como vamos passar pelas câmeras no portão? ― perguntou, referindo-se as câmeras postadas na entrada do prédio dos dormitórios.

― Não se preocupe ― sussurrou Kalleo. ― Estão desativadas.

― Como sabe? ― perguntou ele, confuso.

Mas Kalleo não respondeu. Sibilou para Théo, pedindo silêncio, e o puxou pelo portal do prédio, saindo para o gramado alto.

Théo tentou se mover no mesmo ritmo do garoto, que praticamente deslizava pelo gramado de forma graciosa, como um felino. Ele, por outro lado, movia-se desastrosamente, tropeçando em seus próprios pés e em pedras que apareciam pelo caminho.

Quando chegaram perto do refeitório, encostaram-se à parede e seguiram caminho se escondendo nas sombras. De onde estavam eles tinham ampla visão para o prédio de dormitórios atrás deles, com todas as luzes dos quartos exposto daquele lado apagadas. À esquerda, podiam ver ao longe a quadra e o prédio da ala norte totalmente na escuridão. A economia de energia era algo bem rigoroso na São Diego.

Quando adentraram no saguão principal, o som de seu tênis se chocando contra o piso de linóleo emitiu um ruído grave de doer os tímpanos.

― Pisa levemente ― sussurrou Kalleo ao seu ouvido, lhe causando cócegas por te encostado a boca perto demais de sua orelha.

― O que vamos fazer? ― perguntou, ainda confuso com o que estavam fazendo, a todo o momento olhando para o teto, tentando localizar alguma câmera.

― Vamos entrar na secretaria ― disse em resposta, virando-se para Théo, seus olhos cinzentos cheio de expectativa e um brilho perverso.

Théo engoliu em seco, aturdido.

― N-na secretaria? ― balbuciou. ― O que vamos fazer lá? E se formos pegos? Não temos permissão para entrar!

― É por isso que vamos entrar a essa hora, quando estão todos dormindo.

― Mas o que vamos fazer lá?

― Pegar o seu presente, claro ― respondeu, como se fosse óbvio.

― Mas o que diabos um presente seu estaria fazendo na secretaria? ― grasnou.

― Foi confiscado ― deu de ombros.

Théo fechou os olhos, contando mentalmente até três para se acalmar. Não acreditava no que estava fazendo. Ia invadir a secretaria, zona proibida para todos os alunos, apenas para pegar um presente que foi confiscado. Isso era loucura... e totalmente excitante de se fazer.

― E as câmeras? ― desdenhou, notando uma falha.

― Estão desativas. ― Kalleo deu aquele sorriso presunçoso do qual dizia: “Não há um problema que não posso resolver”.

― Como você sabe? ― perguntou, confuso. Estava exasperado. Kalleo somente lhe dava respostas vagas e curtas, deixando-o ainda mais curioso.

― Tenho minhas fontes. ― E acrescentou após ver a careta que Théo expressou: ― Depois te conto tudo. ― E deu um selinho nele.

Esse leve toque fez empurrar os pensamentos de Théo para longe, apenas deixando-o fixo na sensação quente e contagiante daqueles lábios levemente pressionados contra os seus.

Atravessando o saguão às escuras, tentando não esbarrar em nenhuma poltrona ou sofá, se aproximaram do portão de ferro que dava acesso para o prédio restrito apenas a funcionários da escola.

Théo estava prestes a perguntar como eles iriam passar pelo portão trancado, quando Kalleo enfiou a mão no bolso da calça jeans, tirando de dentro uma pequena lanterna, que passou para Théo, e um chaveiro, com várias chaves penduradas.

Théo exclamou.

― M-m-mas c-como...?

Kalleo sorriu ao ver a expressão confusa de Théo. Com sua mão livre, levou-a até o rosto do garoto e apertou sua bochecha.

― Me preparei para fazermos isso; não se preocupe. ― Sua voz era calma e controladora, inspirando confiança. ― Agora, segure a lanterna e aponte o facho de luz para a fechadura do portão.

Prontamente, sem discutir, Théo segurou a pequena lanterna de metal frio na mão, apertando o botão e ligando o pequeno facho de luz branca que dela emitia.

Sob a luz da lanterna, Kalleo revirou o molho de chaves, procurando pela certa. Tentou três chaves, mas nenhuma girou a fechadura. Na quarta, a trava soltou, abrindo a porta de grades para dentro.

Eles tinham acabado de pisar do outro lado do portão, quando se depararam com um guarda, recostado numa cadeira, o boné do uniforme cobrindo os olhos, enquanto suas mãos estavam cruzadas sobre a imensa barriga.

Ben. Théo se lembrava dele, do primeiro dia na São Diego. Era o guarda que revistou sua mala, em busca de pertences ilegais.

― Está dormindo ― falou, após ouvir os leves roncos que emitia.

― Sempre está ― comentou Kalleo, pegando a lanterna da mão de Théo e olhando a volta. ― Segunda, quarta e sexta-feira são seus plantões.

Théo se virou para ele, indagando com o olhar. Kalleo sabia de muita coisa que não estava partilhando com Théo. Como ele conseguira aquele molho de chaves? Como sabia que as câmeras estavam desligadas? E como ele sabia que o porteiro era Ben, e que estaria dormindo?

A curiosidade era como uma agulha sendo espetada em seu braço.

Kalleo o guiou para a direita, passando por um monumento de dois metros de altura que Théo não tinha visto antes, e entrando num corredor escuro como breu se não estivesse sendo iluminado pela fraca luz da lanterna. Todas as portas ao longo do corredor estavam fechadas, ostentando uma visão fantasmagórica. Parecia uma cena de filme de terror, em que eles, como personagens, estariam fugindo de algo que os perseguia, e o único caminho a seguir fosse esse longo e estreito corredor que poderia abrigar qualquer coisa de estranho.

Os pensamentos de Théo se misturaram, levando-o até um específico, em que se deparara num corredor como esse: no seu sonho, logo após ter sido atingido na cabeça por Bryan e ter ido parar na enfermaria. Tinha sonhado com um corredor parecido com esse, no qual a última porta o levou até o seu eu do passado, quando destruiu toda a sala e incendiou seu antigo colégio.

Inspirando o ar com força para dentro dos pulmões, tentou afastar a lembrança e segurou com força a mão de Kalleo. Estava seguro agora, nada mais daquilo aconteceria de novo. Não enquanto estivesse lúcido.

Kalleo parou em frente a uma porta a sua direita e remexeu no molho de chaves, puxando uma e encaixando na fechadura. A porta se abriu com um leve rangido que fez os pelos dos braços de Théo se arrepiarem.

Théo olhou para trás, esperando que a qualquer momento Ben acordasse e percebesse que havia dois alunos quebrando as regras, mas, entretanto, isso aconteceu. Ele permanecia a dormir, e o ronco era audível da distância na qual os garotos se localizavam.

― Vamos ― sussurrou Kalleo, entrando primeiro na sala.

Pela pouca claridade do facho de luz, Théo reconheceu o ambiente no qual adentraram. Tinha estado naquela sala antes, em seu primeiro dia na São Diego, quando sua mochila foi confiscada. A sala fria que ainda cheirava a naftalina era dividida por uma bancada na parte de inferior, e na de superior, grades de ferro penduravam do teto, deixando apenas uma pequena brecha entre eles.

― O que estamos fazendo aqui?

Mas como sempre, Kalleo não respondeu. Aproximou-se de uma portinhola no balcão, enfiou uma chave na fechadura e passou para o outro lado. Théo o seguiu. Estantes pendiam das três paredes, com vários sacos plásticos jogados. Entre uma prateleira e outra, abaixo de um saquinho, havia uma etiqueta. Com a lanterna, Kalleo passou a luz por elas, vasculhando por algo.

― Procurando a sua ― respondeu Kalleo ao seu pensamento, antes que Théo emitisse as palavras.

Sem demoras, Kalleo retirou um saquinho plástico de uma das últimas estantes. Théo se aproximou e leu a etiqueta presa ao saco. Seu nome estava impresso nela.

Num movimento rápido, Kalleo rasgou borda do plástico, retirando de dentro dele o celular e os fones de ouvido.

Seu corpo esquentou com a visão de seu celular que tanto desejava para ter de volta. Olhou para Kalleo, e pela luz da lanterna, viu seus olhos o observando intensamente, seus lábios puxados num sorriso. O corpo de Théo tremeu de espanto e alegria. Eles tinham invadido o prédio restrito só para Kalleo lhe devolver seu celular? Era essa a conexão que ele achava que Théo precisava para se conectar com o mundo lá fora?

Num impulso avassalador, ele jogou-se contra Kalleo, abraçando-o. Os braços do garoto enlaçaram seu corpo, prendendo-o junto a si. Encarando seu rosto, tentou disfarçar o sorriso bobo que carregava consigo. Tinha certeza, mesmo no escuro, que Kalleo podia ver seu rosto corado.

Ficando na ponta dos pés, alcançando a mesma altura dele, Théo o beijou, puxando os lábios de Kalleo para si, pressionando contra os seus. Seus dentes se chocaram levemente, enquanto sua língua buscava a dele. Aquele não era o local mais adequado para estarem se agarrando, mas de certa forma, correndo todo o perigo de serem pegos, era irresistivelmente sexy e atraente.

― Terá que esconder bem ― disse Kalleo, soltando-o, indicando o celular. ― Eu também tenho o meu no meu quarto.

― Você já tinha vindo aqui antes? ― indagou.

― Sim... ― respondeu enigmaticamente.

Por um lado, isso explicava o fato dele saber os dias em que Ben fica de guarda no portão, por que ele já tinha vindo ali antes, e com certeza, já tinha espionado. Mas... isso não respondia as demais perguntas.

― E você não vai me contar agora como conseguiu as chaves, não é?

― Agora, não ― respondeu secamente, virando o rosto. ― Melhor irmos. ― Puxando-o pela mão, atravessaram para o outro lado da sala e trancou a portinhola.

No bolso, Théo voltou a sentir o leve peso confortável que costumava sentir com o celular ali. Não via a hora de voltar para o dormitório e ligá-lo para ouvir uma de suas músicas preferidas: “Never Let Me Go” de Florence and The Machine. Poderia passar a noite ouvindo ela e nunca se cansaria.

Ainda estava com um sorriso bobo no rosto quando os garotos saíram da Sala de Inspeção e ficaram amedrontados ao ouvir um som gritante e ensurdecedor preenchendo por todo o corredor, furando seus tímpanos, assuntando-os. Olhando alarmado a volta, os olhos saltando das órbitas, Théo viu no teto do corredor uma sirene vermelha piscando incontrolavelmente assim como as sirenes de uma ambulância correndo a cento e vinte quilômetros por hora na pista indo em direção ao hospital com alguém gravemente ferido no seu interior.

― Droga! ― xingou Kalleo, olhando para ambos os lados do corredor.

Rapidamente Kalleo desligou a lanterna e agarrou o pulso de Théo, puxando-o pelo corredor. As pernas de Théo ficaram bambas ao tentar correr com a percepção: tinham sido pegos. Alguém sabia que eles estavam ali. As câmeras com certeza tinha captado eles naquele prédio.

Dentro de seu peito, seu coração martelava convulsivamente com medo da percepção do que estava para acontecer a seguir. Já tinha arrumado confusão demais no tempo em que estava no internato.

Por cima do som berrante da sirene, conseguiram ouvir vozes e passos correndo em direção ao prédio enquanto ambos se aproximavam do início do corredor para sair no saguão de entrada.

Puta merda, estavam encurralados.

― Fuja na primeira oportunidade ― falou Kalleo, rapidamente. ― Não se preocupe comigo.

E antes que Théo pudesse dizer qualquer coisa, Kalleo o empurrou para detrás do monumento enquanto impulsionava seu próprio corpo para frente, correndo para o centro do pátio.

Se ajeitando apressadamente sobre os joelhos, Théo viu alarmado quando quatro guardas corriam para cima de Kalleo, cada um com uma arma carregada em mãos. Ben estava entre eles, e foi ele quem se aproximou do garoto e deu-lhe uma rasteira, derrubando-o de cara no chão. Outro guarda subiu por cima de Kalleo, prendendo suas mãos atrás das costas com uma algema.

Théo olhou para tudo espantado, seu estômago afundando, sendo destroçado, assim como seu peito. Tapou a boca para não emitir nenhum ruído. Sentia a grande necessidade de sair correndo de detrás da estátua e correr para Kalleo. “Fuja na primeira oportunidade. Não se preocupe comigo”, dissera Kalleo antes de empurrá-lo para ali. Ele deveria ouvir Kalleo ou o que seu coração lhe dizia? Mas mesmo que corresse até Kalleo, provavelmente seria derrubado no chão por um dos guardas antes que conseguisse chegar até ele. E tinha certeza que Kalleo ficaria bastante furioso se ele fizesse isso. Tinha se entregado para defendê-lo. Por mais que ele não tenha dito isso, Théo sabia que esse foi o verdadeiro motivo.

Todas as luzes no pátio já estavam acesas quando a diretora Sabrina cruzou o portão vestida numa jeans e uma blusa de mangas compridas. Estava dormindo quando foi acordada pelas sirenes e com certeza vestiu aquelas roupas rapidamente. Seu rosto estava mesclado de cansaço de sono e raiva.

― Levante-o ― vociferou com a voz rasgando a garganta. Quando Ben e outro guarda levantaram Kalleo, o rosto de Sabrina se contorceu de susto, depois em descrença. ― Você...

Kalleo olhou diretamente para ela, erguendo o queixo depois de cuspir no chão. Não falou nada e nem sequer olhou para os lados. Não queria demonstrar que tinha mais alguém ali.

Algo de ruim ia acontecer, Théo podia sentir a atmosfera no ar mudar, ficando um clima mais denso, abafado e sufocante. Quase parecido com o que seu quarto carregava nos primeiros dias na São Diego.

Olhando novamente para Kalleo, Théo empertigou-se, preparado para saltar dali e assumir a culpa junto com Kalleo. Não deixaria que ele pagasse sozinho. Eles tinham invadido o prédio juntos.

Estava prestes a sair de detrás do monumento cor de bronze quando a voz de Sabrina falou calmamente:

― Soltem-no ― ordenou ela, a voz hesitante.

Os guardas olharam-na confusos, sem entender bem.

― Eu disse para soltarem-no ― repetiu ela, falando pausadamente, o olhar penetrante de falcão fixo nos guardas. Tinha tomado novamente sua postura autoritária e controladora.

Théo congelou onde estava olhando aturdido para a cena a sua frente. Sabrina tinha se desarmado diante Kalleo, notando que tinha sido ele a invadir o prédio. Mas por quê?

Ben se debruçou sobre as algemas, retirando-as. Kalleo esfregou os pulsos onde elas tinham estado, todo o momento olhando diretamente para a diretora, e ela para ele.

― Vamos ― chamou ela, colocando uma das mãos sobre o ombro do garoto e guiando-o pelo corredor do outro lado do saguão, em direção a sua sala. Ben os seguiu, enquanto os outros três guardas ficaram para trás, confusos com a situação que acabaram presenciar. Olhando entre si, deram de ombros e saíram pelo portão, retornando aos seus postos de escolta.

Respirando profundamente, Théo esperou os guardas saírem de seu campo se visão. Logo ele estava correndo apressadamente pela escuridão da noite em direção ao seu quarto.