O Segredo Sob os Lábios
1 O Segredo Sob Os Lábios
Algumas garotas humanas reclamavam de como era complicado se maquiar sozinha. Vanessa sempre achou isso exagero. "Ao menos elas podem usar o espelho" pensou enquanto terminava o delineado escuro sobre um dos olhos. Maquiagem era uma habilidade importante para uma vampira de sua idade que ainda tentava viver em sociedade, e ela se orgulhava da precisão e técnica que tinha. Morava há dois anos em Santa Elena e mesmo tendo uma vida social relativamente ativa, nunca havia sido descoberta.
—É isso, a maquiagem é o segredo – ela falou em voz alta, após terminar de passar um batom igualmente escuro nos lábios. – Eles nunca iriam suspeitar que o rosto embaixo por trás disso aqui é de alguém que morreu faz seis anos.
O outro único ser com quem Vanessa poderia estar falando naquele quarto bagunçado pelas roupas e acessórios, era um gato completamente branco e de olhos tão pretos quando se poderia imaginar.
Por sorte ou azar, o gato falava:
—É verdade, você é boa. Já pensou em trabalhar em um necrotério? – a voz gotejava sarcasmo, mas Vanessa estava acostumada.
—Nossa, Gótico, você é tão engraçado – ela retribuiu a ironia enquanto deslizava pelo quarto atrás de algum vestido específico dentre a cor preta predominante entre eles – Ao menos eu não tenho que caçar ratos por aí.
—Primeiramente, eles são muito mais deliciosos do que você pensa – o gato pulou para perto dela tentando desviar das roupas que eram jogadas por todo lado – E segundo que eu ainda não entendi muito bem para onde você vai.
—Numa festa. Me encontrar com o Diego – ela respondeu rapidamente enquanto colocava o vestido finalmente escolhido.
—Ah, então não é muito diferente do que caçar ratos – Gótico provocou.
—Sabia que as vezes eu até entendo porque aquela bruxa te prendeu no corpo desse gato? – ela se jogou sobre a cama, estava quase pronta e por isso se permitiu descansar um pouco. – Diz aí, Gótico, essa roupa está boa?
—Meu nome não é Gótico e eu não sou um espelho. Já pensou em usar a câmera frontal do celular? Não é porque você é uma vampira que precisa agir como se tivesse nascido no século passado.
—Eu perdi ele – respondeu desanimada – E eu estou com medo de ligar e matar alguém de susto.
—Ué, por quê?
—Porque deve estar no cemitério.
Os dois riram com a conclusão. E o breve silencio foi interrompido quando Vanessa resolveu se levantar e vasculhar o quarto, trocando mais uma vez o que já havia vestido. Gótico perguntou:
—O que há com você, Vanny? Está tão nervosa. Achei que você já estivesse namorando esse menino. Vocês estão saindo faz uns meses, né? E você não devorou ele nem nada. Estou confuso.
—Bom, não é como se a gente não gostasse um do outro – ela começou num tom que não escondia o romance com o qual pensava no garoto.
—Uhun, eu sei – o gato deixava o tédio transparecer pela fala.
—E não é como se ele não fosse o cara mais legal... – ela se interrompeu com um suspiro
teatral.
—Ok, pode parar.
—...e gentil... – outro suspiro.
—Por favor, eu vou vomitar.
—...e bonito...
—Ou soltar uma bola de pelo. Sei lá. Eu não sou gato há muito tempo. – ele terminou fazendo com que ela inevitavelmente risse.
—Mas é que talvez eu esteja muito afim de beijar ele e as presas podem ser um problema, né? – ela falou com uma expressão infantil de inocência, dando de ombros.
—E por que você ainda não beijou ele mes... – Gótico então notou o que afligia a garota – Ah não, Vanny, não me diz que você ainda não contou pra ele.
Ela se lançou sobre uma cadeira enquanto suspirava alto. O gato foi para perto da amiga e percebeu sua expressão frustrada. Vanessa tinha o cabelo longo e liso em um tom acobreado que combinava com os olhos castanhos. Seu rosto em vida era certamente mais bonito que a média, mas o vampirismo fazia com que seus traços fossem ainda mais belos. Gótico se odiou por perceber que não suportava ver aquela garota triste.
—Você vai conseguir. É Halloween – ele disse com carinho.
—E daí? – ela retrucou, não com grosseria, mas, com um tom que indicava suas baixas esperanças quanto ao que pretendia fazer.
—E daí que hoje é o dia em que o nosso mundo mais se aproxima dele. O sobrenatural e o natural algumas vezes podem andar juntos, sabia? Eu mesmo já vi algumas vezes.
—Achei que não fosse gato há muito tempo – ela provocou baixinho.
—Achei que não fosse tão irritante – ele respondeu sem se irritar.
A vampira sorriu. Precisava ter coragem para o que iria encarar naquela noite, e entrar numa festa cheia de humanos que poderiam descobri-la era a parte mais simples de tudo. Ela iria ver ele, e só pensar no rosto daquele humano fazia seu coração ter vontade de bater mais rápido. Isso, é claro, se batesse.
Sentiu a pata do gato encostar no seu pé ainda descalço e Gótico lhe fez a expressão
mais parecida com um sorriso que conseguia.
—Vai dar tudo certo.
Vanessa percebeu que ainda sorria e lembrou que gostava do próprio sorriso. E agradeceu pela sua relação única com Gótico e voltou a se concentrar no visual enquanto discutia com o gato.
Era Halloween, e ela queria aproveitar, e se possível juntar, o melhor dos dois mundos.
***
A música estava alta e a casa, cheia de gente estranha. O que era normal. Jovens e adolescentes andavam e se esbarravam para lá e para cá em fantasias que faziam uma Vanessa, ainda em seu canto segurando um tímido copo vazio, sozinha. "Se eles vissem um demônio de verdade, iriam achar essas máscaras lindas". Isso também era normal. Ela havia chegado o quão cedo o sol havia permitido e mesmo assim, Diego ainda não estava lá. Estava atrasado. E isso não era normal.
Normalmente Vanessa evitava hipnotizar humanos. Não só porque achava errado controlar a mente das pessoas alheias, mas também porque o esforço lhe dava dores de cabeça. Entretanto considerou uma exceção e no final, não foi difícil convencer um garoto punk, mais bêbado do que a maioria, mandar algumas mensagens para o número que ela lhe deu.
Nenhuma resposta.
Controlou a raiva para não manifestar nenhum poder indesejado e caminhou para fora da casa, empurrando mais do que esquivando daqueles que ficavam em seu caminho. Não conhecia ninguém ali mesmo. Diego era o convidado real da festa, não ela. Ele que ainda podia ter amigos com facilidade porque estudava pela manhã enquanto ela se escondia em casa evitando passar perto demais de uma janela. Às vezes, ela sentia que direcionava toda sua frustração ao fato de ser uma vampira agora. Era difícil se encaixar onde quer que fosse, e por isso desencontros com seus poucos amigos eram tão dolorosos. Não esperava isso de Diego e isso a abalou. O que não melhorou depois que alguns garotos derrubaram uma pizza nela.
Por algum motivo se lembrou de quando conheceu Diego. Provavelmente o cheiro da pizza a fez pensar no que o rapaz comia quando conversaram pela primeira vez na locadora onde ia atrás de filmes dos quais não tinha paciência de procurar na Internet. Ou a insolência dos garotos que mal pediram desculpas tenha lembrado a ousadia com que ele reclamou das escolhas dela naquela noite.
"Sério, esses títulos? Achei que gostasse de filmes de terror"
Ou a raiva que ela sentiu tenha lembrado como se irritou com a provocação repentina.
"E o problema é de quem? Quem vai assistir sou eu"
Ela respirou fundo, mas não para se acalmar. Estava pronta para gritar com os rapazes que já iam embora, quando uma mão tocou seu ombro por trás e ela instantaneamente virou.
—Oi... – era Diego, num sorriso que já pedia desculpas e fazia ela lembrar de como ele desarmava ela completamente.
"Mas se você me desse seu número a gente poderia assistir junto, não é? "
Deixou os outros escaparem, mas resistiu a ser vencida tão facilmente:
—Você está atrasado.
—E você está linda – ele pegou a mão dela, e começou a andar rápido para fora da casa – Vem comigo.
A desistência enfim não pareceu um destino tão cruel e Vanessa se rendeu. Quando se estava morta, a mão de qualquer outro humano seria quente, mas mesmo assim ela sentia que o toque dele era especial.
—Por que se atrasou? – ela tentou superar o volume de uma caixa de som pelo qual passavam. Sem sucesso.
—Você está vestida de quê? Pizzaiola gata? – ele brincou.
Sendo uma vampira de verdade, era difícil pensar numa fantasia que não parecesse
estranha demais. Além disso, quando finalmente revelasse o que era para ele, ele entenderia e
provavelmente iria rir. Na melhor das hipóteses, claro. Na pior delas, ele iria fugir achando que
ela era louca e nunca mais iriam se ver outra vez.
—Claro que não, idiota – ela respondeu ainda interpretando uma garota irritada com o
atraso do seu namorado, mesmo tendo sido vencida minutos atrás – Eu estou fantasiada de
cinéfila gótica, obviamente.
—Ah, então por isso só veio com uma roupa normal, é?
Ambos riram, e finalmente saíram da casa. O quintal de trás era ocupado por alguns poucos casais em busca de privacidade longe da multidão festeira. A lua cheia contribuía para o clima romântico e para que Vanessa pudesse ver com clareza os tufos de pelo sintético saltando para fora das aberturas na camisa de botões do rapaz. Além de um pouco colado sobre as costeletas do rosto perfeito.
—Isso era pra ser um lobisomem? – ela provocou.
—Qual é, eu tive pouco tempo de me arrumar. Foi o melhor que conseguir fazer, ok? – ele era sincero.
—Ah, e se arrumando rápido assim ainda conseguiu se atrasar? – a Vanessa brava voltava rapidamente, como se tivesse sido invocada pela abertura que o rapaz deu – O que aconteceu afinal?
—Vanny – e o apelido tinha uma sensação diferente quando pronunciado na voz dele – Eu preciso te perguntar algo, tá bem? Pode parecer maluquice, mas seja sincera.
O coração era incapaz de bater mais rápido, mas por algum motivo o frio na barriga veio. Não era possível. Simplesmente não era. Se ele houvesse descoberto...
—Tem alguém seguindo você? – isso era sorte: ele não havia descoberto – Tipo algum stalker, ou coisa do tipo? – isso era azar: porque alguém bem pior provavelmente tinha.
—Não... não sei... O que aconteceu? – ela se ouviu dizer, ainda tentando firmar o raciocínio no que o instintivo já lhe fazia ficar preocupada.
—Um cara meio velho, com um sobretudo esquisito foi lá no meu trabalho hoje. Não viu nenhum filme. Só perguntou se eu conhecia alguma Vanessa, ou alguém de uma família chamada Voldaren – ele parecia preocupado, os olhos castanho claros dele iam para fora da casa vigiando com frequência – Eu nem me liguei que poderia ser você até ele me mostrar uma foto sua.
—E o que você disse? – Vanessa já estava assustada. Era uma vampira há menos de uma década e não seria a primeira vez a ter problemas com paladinos. Tinha experiência que Caçadores de Vampiros não desistiam fácil.
—Eu disse que não te conhecia, é claro! – ele estava visualmente preocupado – O problema é que quando eu estava vindo pra cá, tive certeza de que ele estava me seguindo. Fiz umas duas ou três paradas na casa de uns amigos para ver se ele desistia ou se despistava ele, mas não sei se consegui – ele olhou mais uma vez para trás dela, as mãos deles seguravam as dela numa forma que transmitia segurança, mas Vanessa sentia o tom alarmado de sua voz – Vanny, quem é ele? Ou que ele quer com você?
Vanessa sentou-se no chão, com as costas na parede, revelando que o corpo e o subconsciente já estavam em alerta e não queriam ser pegos desprevenidos. Mas o consciente precisava fazer algo e tirar um garoto importante e inocente do que poderia ser uma luta mortal. Diego sentou ao seu lado, paciente como era não a pressionou.
Ela suspirou, e disse:
—Diego, antes de tudo eu tenho que dizer uma coisa – aquilo não estava conforme ela tinha planejado. Tudo já estava indo por água abaixo – É o tipo de coisa que parece maluquice mas preciso que você acredite em...
—Você é uma vampira. Eu sei. Quem é aquele cara?
Se Vanessa já não estivesse sentada, ela teria caído para trás naquele momento. Diego olhava nos olhos dela. Incisivo. Ela havia visto poucas vezes aquela expressão séria e pela primeira vez percebeu o quanto se sentia atraída pela segurança do rapaz. Tudo que sua mente pôde formular, no entanto, foi um:
—...como?
—Só sai a noite; nunca vi comendo; tem medo de espelhos e um conhecimento particularmente estranho sobre o sangue humano e suas propriedades. – ele listou enquanto acompanhava com os dedos – Eu já vi filmes de terror o suficiente, Vanessa.
—Primeiro, o nome é hematologia. E segundo, você que seria louco se fosse só isso. Fala a verdade.
—Okay. O Gótico me contou. Eu tomei um susto quando vi seu gato falando, mas depois consegui fazer ele me dizer. Ele até que é legal.
—Não é não — ela respondeu reativa aquele diálogo completamente maluco.
—É verdade, ele é um porre — ele riu admitindo — E te arranjo um gato se quiser um. Um que não reclama das minhas roupas, que tal?
—Diego! — ela trouxe ele de volta à situação — Mas e agora?
—E agora o quê?
—Como a gente vai fazer? — finalmente as questões vinham a mente da garota. A mortalidade dela, a fragilidade dele. O quão a vida dela podia ser perigosa e tirar toda a segurança que ele poderia ter. Tudo isso subiu pelo peito de Vanessa até se condensar em lágrimas preocupadas em seus olhos.
—A gente vai ficar junto — ele abraçou ela — Eu sempre te achei única no mundo. Isso só prova o que eu sempre senti, Vanessa.
—Mas eu não sou a única vampira — ela respondeu deixando sua insegurança ser irracional.
—É a única pra mim — ele se levantou fazendo com que ela ficasse de pé — Vem, eu não vou deixar o "Van Helsing" estragar nosso encontro.
***
Não era um plano fácil, mas também não era impossível. Na verdade, Vanessa chegou a achar idiota a solução sugerida por Diego, mas confiava no rapaz. O suficiente para contar seu maior segredo.
Um carro que não era de nenhum dos convidados parou na frente da casa, mas ninguém deu muita atenção. Um homem alto de meia idade saiu dele e caminhou calmamente até a casa barulhenta onde os adolescentes saiam aos montes, notando a figura misteriosa apenas para admirar o que achavam ser sua fantasia.
A música estava mais baixa agora, numa balada romântica, e ele não desconfiou de nada. Abriu a porta com uma das mãos já numa arma escondida no sobretudo.
O que ele viu o fez entender que tinha caído numa armadilha. Uma armadilha idiota, mas incrivelmente funcional.
No salão principal, na frente de um paladino atrás de uma única vampira de aparência adolescente, existiam no mínimo duas dúzias delas. Com seus dentes afiados, abraçadas a seus pares enquanto dançavam a balada lenta. Todas desatentas ao perigo que estava ali agora.
Todas, menos uma.
—Isso é loucura — Vanessa sussurrou, abraçada a Diego, dançando lentamente — Ele vai descobrir. Como se fosse combinado, a luz diminuiu naquele momento. Algumas comemorações foram ouvidas. Diego riu.
—Desculpa, você dizia? — e o sorriso dele parecia brilhar.
—Como você convenceu elas a...?
—Eu não convenci nada. É Halloween. Toda garota usando um vestido preto quer ser uma Vampira hoje.
"E eu que sou uma vampira, queria ser só uma garota de vestido preto" ela pensou. Mas achou injusto falar isso. Permitiu apenas perguntar:
—Mas e agora? Como a gente sai daqui? Ele vai perseguir a gente.
—Não vai não. Olha ali. — e apontou para um casal que há pouco se beijava e agora iam juntos, e sorrateiramente, para fora.
O paladino, que já havia praguejado contra a escuridão e o barulho do local, mordeu a isca e foi atrás do casal que parecia suspeito em querer sair dali.
—Não é possível... — Vanessa não acreditava.
Assim que ele não estava mais lá, Diego e Vanessa correram para fora da casa, em direção ao carro do garoto. Sem rir, olhar para trás ou soltarem as mãos.
Se jogaram nos assentos da frente e Diego rapidamente deu a partida, indo para longe dali. Finalmente riram. Alto e sem restrições. O coração do garoto batia tão alto e Vanessa gargalhava com felicidade.
Ela sorriu e perguntou:
—Ainda está preocupado? — colocou a mão gélida sobre a dele — Esta tudo bem. Paladinos não podem ferir humanos. E ele cometeu tantos erros que nunca mais vão mandar ele atrás de mim.
—O quê? Por que acha que estou preocupado? — ele disse surpreso.
—Eu literalmente consigo ouvir seu coração bater rápido — ela admitiu.
Ele parou o carro e ela admirou mais uma vez a esperteza dele. Estavam num mirante, sob a lua cheia mais romântica de outubro. Longe do perigo e de qualquer outra pessoa. Perto apenas um do outro.
—Isso é culpa sua então. Pode muito bem ter me trazido aqui para me devorar — ele brincou.
—Foi você quem trouxe a gente aqui, idiota — respondeu entre sorrisos, percebendo que já não tinha mais vergonha das presas.
—E vamos para onde agora? — ele perguntou, com a luz iluminando o rosto que ela adorava tanto.
Um beijo rápido aconteceu. Num impulso que ela não conseguia mais controlar. E então outro, no prazer que queriam repetir. E no final de um terceiro, ela percebeu que do lábio dele escorria uma mais que fina linha de sangue.
Ele sorria, e não se importava.
—Para o próximo — respondeu ela.
Fale com o autor