Prólogo

Um manuscrito. Uma profecia. Porque acreditar?

Tenho motivos para acreditar, embora esta afirmação possa ser interpretada como uma brincadeira irônica, senão uma hipocrisia. Porém não cabe a mim lhes dizer a razão. Não neste momento. Mas e Lagus e Mari? Mais do que qualquer pessoa, até então, ambos acreditavam no manuscrito. O porquê de suas crenças sempre foi uma incógnita para todos ao seu redor. Não creio que seja por simples e pura fé, pois este tipo de fé pode ser ingênuo e isto seria uma aceitação crédula. Ambos são inteligentes e lúcidos para tanto. Penso que sua fé no manuscrito advinha da real compreensão do significado das palavras. O entendimento verdadeiro de seu conteúdo não pode ser facilmente interpretado pela maioria dos homens, muito menos explicado.

Afirmo-lhes que o manuscrito pode ser lido, mas isto não garante sua compreensão. Seu significado pode ser apenas sentido.

Em seu coração...

Em sua mente...

Em sua alma.

E tanto Lagus como Mari havia sentido.

Sempre desejei ver, presenciar e participar deste momento de glória vislumbrado pelo manuscrito. Imaginava o que passaria em suas mentes e corações momentos antes de dar este passo. Este grande passo. E embora somente como observador, pude contemplá-los em seu momento glória.

Então viagem comigo e vejam através de meu relato o que presenciei neste dia.

Um novo mundo, um novo propósito.

(...) As pessoas sentirão as mudanças no mundo. Oriundas não do abalo econômico e social, mas sim espiritual.

A partir de então entraremos em uma época em que as pessoas despertarão a sua consciência espiritual e poderão sentir energias que até então não eram conhecidas. Algumas poucas pessoas as podiam sentir, mas nunca houve uma prova concreta de que elas realmente existem até o momento.

Destino, sofrimento, lutas, coincidências... Estão todos interligados para um único propósito e a jornada que os habitantes deste planeta devem seguir é para entender este propósito.

1º Manuscrito

Maio de 2037. São Paulo, Brasil, América Latina.

Em meio à cidade de São Paulo abandonada, outrora uma megalópole tida como um símbolo comercial da América Latina, Lagus e Mari Whiteheart contemplam o que restou dela. Quando o preço da água disparou, há doze anos, a economia mundial, já abalada pelas sucessivas altas e escassez de petróleo, entrou em colapso. A produção de alimentos transformou-se em uma atividade de subsistência, e era insuficiente para sustentar toda população mundial. As grandes cidades passaram a ser inabitáveis devido ao grande contingente de pessoas. Logo, roubos, saques e assassinatos tornaram-se algo comum. A lei não era mais respeitada e as autoridades não tinham mais poder algum sobre a população. Surtos de doenças espalhavam-se pelo mundo em um ritmo descontrolado. Foi uma questão de tempo para o êxodo da população paulistana rumo ao interior em busca de sobrevivência como uma nuvem de gafanhotos que destrói uma plantação e segue em direção à próxima. E agora, sem população e com o aquecimento global, o maciço concreto que antes edificava a imponente metrópole rui facilmente com um simples toque.

O sol já se põe e ouço as familiares vozes do casal.

- Não pensei que um dia voltaria para São Paulo. – diz o homem, reflexivo.

- Tampouco não imaginei que voltaria para cá. E pensar que foi aqui, nesta cidade, que o primeiro manuscrito foi encontrado há sete anos. – completa a mulher.

- É verdade, Mari. Há sete anos o manuscrito foi encontrado aqui e minhas visões nos trouxeram justamente de volta para este lugar.

- Então, Lagus, será aqui onde o próximo passo será dado novamente, aqui onde tudo isto começou.

Lagus Whiteheart é um homem com cerca de trinta anos, alto, de pele clara e cabelos curtos negros. Seus trajes são simples: calça desgastada e camiseta branca, ambos sujos e rasgados. Possui um porte físico compatível com uma pessoa que faz exercícios físicos regulares e seus olhos negros lhe conferem um olhar profundo como o mar em meio a uma tempestade furiosa. Seu rosto é quadrado, com um queixo protuberante, mas não de forma exagerada. O nariz é discreto, levemente arredondado em seu extremo. Em suas costas, uma grande mochila é carregada, cheia de mantimentos.

Mari, sua esposa, é uma jovem de vinte e cinco anos, de estatura média e veste-se com um longo vestido branco, com um capuz que lhe cobre a cabeça. Detalhes azuis adornam seu vestido, e sua boca e nariz são cobertos por um véu azul claro, meio transparente, conferindo-lhe um ar misterioso. Seus cabelos dourados às vezes lhe caem sobre o rosto delicado e seus olhos azuis transmitem paz para os poucos afortunados a fitá-los.

Enquanto Mari observa a cidade vazia, Lagus com os olhos fechados está concentrado de cabeça baixa, como se fizesse esforço mental para se recordar de algo.

- Sim, posso ver algo. Uma menina realmente está aqui nesta cidade, escondida...

- Pode ver onde está? Ela é a pessoa a quem buscamos? – Pergunta Mari com uma voz calma, tentando não desconcentrar seu marido.

- Não sei. Ela é criada pelos Iluminados. Sim, ela é mantida em cativeiro e está sob forte proteção deles. Ela é a pessoa a quem procuramos, é a menina a quem o quarto manuscrito se refere. – diz Lagus, ainda concentrado, porém feliz.

- Lagus! Consegue ver onde ela está?

- Está difícil. Eles conseguem de alguma forma interferir em minha visão.

Lagus fecha seus punhos e os leva à testa, como se fizesse um esforço sobre-humano. Seu nariz começa a sangrar muito, até que cai de joelhos no chão, com a respiração ofegante.

-Lagus! Você está bem?

Mari prontamente está ao seu lado, amparando-o. Coloca sua mão direita sobre o rosto de seu companheiro e uma quase transparente aura azul a envolve por completo. Aos poucos a aura se esvai, concentrando-se em sua mão e o sangramento logo pára. Lagus levanta-se lentamente com esforço ao lado de Mari. O vento bate forte e o céu está cinza, prenunciando uma forte tempestade, esvoaçando o capuz da linda donzela. Lagus abre seus olhos, que brilham intensamente como se faróis estivessem apontados em seu rosto e exclama:

- Eu sei! Eu sei onde ela está. Estão tentando escondê-la de nós. Que Deus nos ajude.

Enquanto Lagus profere suas palavras e ambos olham para o horizonte, dez pessoas, vestidas com longas túnicas brancas com detalhes vermelhos, aparecem ao lado para ajudá-los. E então o grupo parte rumo a sua missão.

Os Iluminados

Em uma das mansões da cidade, onde ricos empresários costumavam viver com o que havia de mais luxuoso no mundo antes do grande abalo econômico, três de pessoas que fazem parte da organização chamada de Os Iluminados se reúnem em uma grande mesa de jantar. Os Iluminados são uma organização que tenta restabelecer a antiga ordem mundial e econômica.

Durante o jantar, a fartura de alimentos pode ser vista na mesa. Bens como cigarro, vinhos, quadros e aparelhos eletrônicos, que são raros nestes tempos, são encontrados neste local.

- Muito bem. Ter retornado para um local desolado como São Paulo foi muito bom. Daqui poderemos organizar melhor a reconstrução agrária no Brasil e ao mesmo tempo estabelecer a logística de suprimentos para a África e Europa. Diego, quanto tempo levará para trazermos escravos para trabalhar? – diz um homem de terno, de pele morena e baixa estatura.

- Acho que em três dias, Huitz. Se usarmos um navio, talvez uns dois dias, que será bom porque poderíamos também trazer um gerador de energia. – Responde um jovem de cabelos negros e pele clara com não mais que 20 anos.

- Diego, seu playboy mimado. Vai trazer um dos geradores só para você poder ficar no conforto? Deveríamos usar nossos recursos de forma mais inteligente. Seu cérebro é tão esquentado que não consegue pensar direito. – Intervém uma mulher de aproximadamente 35 anos, com um tom agressivo.

Na sala se encontram Huitz, Diego e uma mulher chamada de Romanov.

Huitz tem a feição de um indígena, descendente de astecas, ainda que se vista como um antigo aristocrata do século XIX. Aparenta ter aproximadamente 45 anos e é o líder da organização. Ele tem um temperamento racional, ainda que severo.

Diego é um jovem arrogante e impulsivo. Veste uma calça branca e uma camisa azul clara, com mangas curtas. Sua forma de falar é extremamente presunçosa.

Romanov é uma mulher de meia idade, sedutora e provocativa. Conhece muito bem os detalhes da psique humana. Veste um vestido vermelho curto e seus cabelos ruivos são longos e escorrem até um pouco abaixo de seus ombros.

Com a provocação de Romanov, Diego se enerva e coloca a mão em seu pescoço e a levanta do chão.

- Hunf. Romanov, para que ter tecnologia se não para desfrutar também? Não me provoque. Uma das razões para reconstruir o antigo sistema mundial é para que tenhamos uma melhor qualidade de vida como antigamente.

Huitz intervém.

- Acalme-se, Diego. De certa forma, concordo com você. Somos o que restou de ordem neste mundo. Dada a nossa importância, temos o direito de usufruir de nossa posição.

Com as palavras de Huitz, Diego se acalma e solta Romanov, que busca um espelho para examinar seu pescoço.

- Garoto mimado. Quase queimou meu lindo pescoço. Se deixasse uma marca iria se arrepender. – ameaça Romanov, com um sorriso em seu rosto.

Nervosa, Romanov pega sua bolsa e deixa a sala, caminhando lentamente com a cabeça erguida. Ao percorrer um longo e largo corredor, que se assemelha às construções inglesas antigas, acende uma cigarrilha, quando de repente ouve um estrondo. Ao final do corredor, vê um dos guardas da organização sendo atirado para longe, com a sua barriga fumegando, como se acabasse de ser atingido por raio. A mulher fica paralisada enquanto diversas pessoas invadem o ambiente. São Lagus, Mari e seus seguidores. Cinco deles se ajoelham, concentram energia vermelha na palma direta da mão e disparam em direção à Romanov.

Atingida violentamente pela energia, a mulher cai inerte no chão. Em segundos, diversos guardas carregando armas de fogo aparecem, bloqueando o corredor. Atrás deles está Diego, gritando ordens de forma autoritária.

- Não perguntem nada. Disparem agora!

Enquanto Diego comanda seus guardas, Mari acena com a cabeça para os outros cinco seguidores, que dão três passos, ficando um pouco à frente aos que há pouco dispararam contra Romanov. Dobram o braço esquerdo frente aos seus corpos, como se carregassem um escudo, invocam uma aura também vermelha e criam uma barreira. Diversos disparos são dados e o corredor é preenchido pela fumaça levantada pelos destroços de pedra das paredes atingidas.

Quando a fumaça se dispersa, Diego percebe que nenhum disparo atingiu os invasores. Lagus sinaliza para os outros seguidores, que disparam raios de energia novamente. A energia atravessa o escudo de seus companheiros e acerta os guardas. Seus corpos caem no chão e juntam-se ao de Romanov.

- Armas de fogo não podem nos ferir. Não lute contra nós. Pare de levar esta vida egoísta.

- Malditos. Gosto do mundo como ele era. Os Iluminados estão tentando reconstruir tudo e vocês não conseguem ver que isso será um benefício para todos. Vocês são criminosos.

Diego aponta seu dedo indicador para a barreira de energia e seu corpo começa a emanar uma aura laranja, como se entrasse em chamas. Um grande disparo de fogo consome todo o corredor, queimando as paredes, tapete e lustres que estão no caminho. A barreira é atingida, mas não cede. O impacto é tão forte que causa um estrondoso barulho e um dos seguidores é atirado para longe. Rapidamente ele se levanta e reassume seu posto, mesmo ferido. Diego volta a atacar com sucessivos disparos.

- Senhores, nosso escudo não vai agüentar por muito tempo. Temos que encontrar a garota o mais rápido possível – Diz um dos seguidores, com uma expressão sofrida e sua pele começa a queimar, formando bolhas em seu rosto.

Lagus volta até uma das salas do corredor com Mari, onde há uma grande porta e caminham em sua direção. Antes de abrir a porta, escuta os gritos de seus companheiros e hesita. Reflete cabisbaixo e toma sua decisão:

- Mari! Vai por esta porta. Tem um pequeno corredor e no final dele você encontrará uma escada. Desce e entra na segunda porta à direita. Lá está a menina. – Com muita pressa instrui Lagus.

- Lagus! E você? – Replica Mari, com um olhar preocupado.

- Tenho que voltar e ajudar. Vou ficar aqui e tentarei ganhar o máximo de tempo possível para você. Leva ela daqui. É o que importa e vale o preço de nossas vidas.

- Não, Lagus! Não pode acabar assim... Por favor.

Mari abraça Lagus rapidamente, em lágrimas, ciente de que talvez seja a última vez que irá ver ao seu amado.

- Você sabe o que penso. Preciso fazer isto. Agora vai! – Diz Lagus, abrindo a porta com um triste sorriso. Então estende o braço, gesticulando como um cavalheiro que permite a passagem de uma dama. Mari passa e ambos se olham mais uma vez.

- Amo você, Mari.

- Não morra Lagus. Espero por você para irmos juntos para o Santuário.

Quando Lagus volta para o corredor, seus companheiros estão estirados no chão, agonizando e carbonizados enquanto Diego caminha lentamente em sua direção e diz ironicamente, como se cantasse.

- Agora é a sua vez...

- Amigos... Muito obrigado pela vida honrosa que levaram. Farei jus à suas mortes. – Se lamenta Lagus, com o punho e olhos fechados.

- Honrosa? Morreram cremados com sofrimento. E te digo que foi fácil. Você terá o mesmo destino.

- Cale a boca. Tanta gente sofrendo e vocês continuam a explorar todos. Esse egoísmo não é o caminho... Nunca foi e nunca será!

Lagus parte para cima de Diego correndo. Diversos golpes são trocados, sem que nenhum acerto o outro. Ambos possuem habilidades de combate equivalentes, porém os golpes de Diego são carregados de fogo, como se cada vez que um golpe é desferido, uma sombra de fogo golpeasse uma segunda vez. E então cada vez que Lagus se defende, queimaduras são deixadas em seu corpo e aos poucos Diego vai sobrepujando seu oponente.

Finalmente, Diego agarra o pescoço de Lagus e o levanta do chão, queimando seu pescoço. Sua pele começa a borbulhar.

- Fácil, fácil...! – diz Diego em meio a risadas, se divertindo com a situação.

- Mari...

Sufocado e com o rosto coberto de bolhas, Lagus usa suas últimas energias para vislumbrar sua amada... Seus olhos negros brilham e o que enxerga é Mari em um quarto pomposo, luxuoso, falando no ouvido de uma menina com aproximadamente quinze anos de idade. Ao ver esta imagem, Lagus sorri em paz, fecha os olhos e seu corpo começa a brilhar intensamente, ofuscando a visão de Diego.

Fim do prólogo.