O Santuário - Uma Jornada Espiritual
2 Ken & Wo
Planeta Terra 2050, em algum lugar no interior da Colômbia, América Latina.
Sob um sol ardente e um céu sem nuvens, um jovem garoto de quinze anos caminha em uma estrada de terra. Seu destino é uma das poucas vilas comerciais existentes no país. A brisa é intensa e faz com que os cabelos loiros e curtos do garoto atrapalhem um pouco a sua visão. Sua expressão é de um jovem alegre e despreocupado apesar do intenso rigor climático. Às margens da estrada, pequenas plantações podem ser vistas. É uma agricultura diversificada e percebe-se que não muito bem cuidada, talvez pela falta de recursos tecnológicos e técnicos. Com o colapso da economia mundial, a agricultura se tornou a principal atividade, muitas vezes de subsistência, e o dinheiro praticamente inexiste.
Não existe sinal algum de carros ou caminhões na estrada, uma vez que encontrar combustível é muito difícil nestes tempos, sendo a maior parte do transporte a cavalo ou algum tipo de animal similar. Em algumas poucas regiões se usam veículos movidos a biocombustível ou energia solar.
De longe, ao avistar o vilarejo, o jovem sorri como quem encontrou algo que há muito tempo procurava e apressa seu passo. O lugar é bem simples e sua função é servir de ponto de encontro para os fazendeiros da região, dedicado ao escambo de alimentos e ferramentas. As construções são feitas de madeira e em geral não possuem nenhum tipo de preocupação arquitetônica. Ao aproximar-se, no entanto, o garoto percebe uma brusca movimentação de pessoas e animais e seu olhar torna-se mais sério e adulto. Desesperados, muitos fogem do local.
“Espero não ter chegado tarde demais” – pensa, fechando seus olhos. “Não. Posso sentir. Ele ainda esta aqui, a salvo.”
Com estes pensamentos em mente, o garoto chamado Ken, corre em direção à vila, com pressa. Sua leve armadura faz ruídos discretos à medida que as placas de metal se chocam com o movimento de seus passos. Claramente a peça de proteção foi feita para que não restringisse os movimentos do usuário, apresentando uma fina cota de malha de correntes no abdômen. Ao adquirir mais e mais velocidade, sua pequena capa, de aproximadamente 50 centímetros de comprimento, esvoaça.
Ao chegar à vila, Ken compreende o que está acontecendo. Um grupo de quatro pessoas está atacando os moradores. Eles são de alta estatura, aproximadamente dois metros, e vestem uma proteção negra no corpo inteiro com detalhes vermelhos nos braços e no peito. Não é possível ver os seus rostos ou qualquer outra parte de seus corpos, assemelhando-se a estatuas que se que movem por vontade própria. Alguns moradores revidam com armas de fogo e outras ferramentas, como foices e enxadas, mas não conseguem causar nenhum ferimento. Os invasores, por sua vez, atacam sem a ajuda de nenhuma arma e sua força pode ser comparada à de um urso.
O jovem então leva a sua mão à empunhadura de sua espada, ainda correndo em direção à vila. Seu tamanho indica que é possível segurar a espada tanto com uma como com duas mãos e duas pedras brilhantes adornam a parte intermediária entre a haste e a lâmina: uma de cor azul, profunda como o oceano, e outra de cor vermelha, incandescente como a lava. A bainha por sua vez é feita de um metal prateado e na área de contato com a haste da espada, dois losangos em relevo parecem segurar firmemente a lâmina, para que não se desprenda facilmente. Em sua trajetória, jovem é obrigado a se desviar de carroças, cavalos e pessoas que estão fugindo do local. Alimentos são deixados na rua e algumas pessoas se aproveitam para roubar.
Os homens altos se voltam para Ken assim que notam sua presença no local e prontamente um deles o ataca com um soco com as costas da mão, fazendo um movimento arqueado. Seus braços são mais longos que o normal, chegando quase a arrastar-se no chão. O rapaz, sem sacar sua espada, esquiva-se com agilidade, rolando pelo solo. Ao levantar-se, ignora o agressor e corre em direção a uma das casas de madeira, como se fosse seu objetivo. No percurso é atacado pelos outros integrantes do grupo, mas sua destreza mostra-se soberba e evita os inimigos sem deter sua trajetória, parecendo importar-se somente em alcançar a construção o mais rápido possível. As pessoas que o observam se dão conta que a velocidade e reflexos do rapaz são sobre-humanos.
Aproveitando o impulso da corrida, Ken salta em cima de uma pilha de caixas e logo em seguida diretamente para o segundo andar da casa de madeira através da janela. O jovem sabe que o que busca está exatamente neste cômodo, um quarto simples com uma cama e uma pequena estante à sua esquerda. No local se encontra outro rapaz, de ascendência chinesa, um pouco mais baixo que Ken, com mais ou menos 1,55 metros de altura, magro, cabelos grossos e negros até a altura dos ombros. O rapaz se assusta com a entrada repentina de Ken. O observa de cima para abaixo rapidamente e dá um passo para trás, demonstrando receio. Então fecha seus olhos e sua imagem torna-se turva e desaparece no ar. Ken sorri como uma criança quando é convidada para brincar.
Sem saber o que acontece, o rapaz de aparência oriental, de nome Wo, está em meio a um campo de plantação de milho. Ainda que tentasse andar devagar e agachado para não chamar a atenção de ninguém, as folhas secas dos pés de milho estalavam quando as pisava. Pássaros que estavam alimentando-se voam ao sentir a estranha presença. Outra vez, de repente, Ken reaparece com um semblante infantil, como se estivesse brincado.
- Achei você! – Diz sussurrando com um sorriso em seu rosto.
O garoto cai sentado no chão, se afasta dois metros mais de Ken, novamente fecha seus olhos e desaparece em seguida.
Wo está agora em um celeiro, aturdido e ofegante, com uma expressão de desespero, ainda dominado pelo medo e pela adrenalina. Tenta se acalmar e muitas perguntas vêm à sua cabeça: “Quem são essas pessoas? Porque nos atacam? O que faço agora?”. Quando se dá conta, já não está sozinho e um forte golpe atinge seu estômago, projetando-o por quatro metros, até que se choca com uma parede e sua perna é ferida ao resvalar em uma foice. À sua frente estão dois homens, também revestidos pelo material negro, caminhando em sua direção. Ainda tonto pelo choque do golpe, o garoto tenta novamente desaparecer, mas não consegue devido às fortes dores que sente. Então esboça a intenção de se levantar, mas também não consegue, pois sua perna já não responde em virtude do profundo corte provocado pela foice. Apegado à vontade de viver, rasteja com as forças dos braços em direção à porta.
Quando os inimigos se aproximam e sua morte parece eminente, novamente a figura de Ken aparece. Saltando para o seu lado, o levanta em seus braços rapidamente, pula para uma estrutura de madeira acima, há mais ou menos quatro metros do solo e recolhe a escada que dá acesso a esta plataforma. Os homens de negro procuram então uma forma de subir, conversando em uma língua incompreensível, com vozes muito grossas.
- Não se preocupe, Wo. Vai ficar tudo bem. – Diz o garoto loiro, tentando acalmá-lo.
Ken respira fundo em pé, fecha os olhos com a cabeça levemente levantada e abre os braços na altura da cintura. Um leve brilho azul o envolve, como se formasse uma aura ao seu redor. Ajoelha-se ao lado do rapaz, coloca a mão em cima da ferida, mas sem tocar-lhe e aos poucos o brilho passa a concentrar-se em sua mão direita. Wo sente um forte calor na perna, como se a energia contida na mão do rapaz fosse transmitida para o seu corpo e sua ferida lentamente começa a se fechar. Ken com um semblante pacífico diz ao garoto:
- Espera um pouco. Logo, logo sua perna vai ficar boa. Agora temos que sair daqui. Nunca vi esses caras, mas temos que dar um jeito neles.
Ken coloca a mão na haste de sua espada. Ambas as pedras brilham e os losangos que fixam a espada na bainha se destravam, fazendo um ruído peculiar. Agora seu semblante está mais sério e seus olhos fechados. Puxa a espada da bainha lentamente, sentindo a lâmina deslizar ao sacá-la, levanta-a e coloca-a em frente ao seu rosto. Ao abrir-los, seus olhos miram no oponente mais próximo e salta da plataforma. A lâmina da espada deixa um rastro azul e vermelho e o primeiro oponente é abatido com um corte vertical, da cabeça aos pés. Nenhum sangue é derramado, embora o corte tenha sido profundo.
Rapidamente o outro inimigo reage, desferindo rápidos golpes contra o jovem. Usando a vantagem de seus longos braços, primeiro aplica um soco frontal com a mão direita. Ken desvia para o lado direito.
“São muito rápidos para seu tamanho” – pensa Ken ao observar a forma com que é atacado.
O ataque continua e o adversário gira sobre o próprio calcanhar e ataca com o braço esquerdo com um movimento arqueado. O jovem, aproveitando-se da diferença de estatura se abaixa e evita o ataque. Então uma joelhada quase o acerta se não houvesse pulado para trás, E finalmente um direto de esquerda o atinge fortemente nas costelas direitas, deslocando-o para trás. Ken aguenta firme, com as pernas rígidas e impedindo que fosse projetado para mais longe. Felizmente sua armadura absorveu a maior parte do choque, mas sem ela, suas costelas estariam quebradas.
“Ele aproveita a vantagem do alcance do seu braço e o fato que não posso bloquear seus fortes ataques com a espada. Se lutar com uma distancia superior ao seu alcance, posso definir a luta.” – Pensa o jovem enquanto a dor se ainda se dissipa.
Ciente do potencial do seu inimigo, ele se concentra mais na luta e com a mesma veracidade de antes, os ataques não cessam. Porém, aos poucos, o rapaz se adapta aos golpes e passa a esquivar-se com segurança, demonstrando que já se compreendeu o estilo de combate adversário.
Em seguida, Ken salta para trás, segurando com a mão direita a sua espada com a lâmina voltada para baixo, como se fosse apunhalar algo. Flexiona seus joelhos e gira sua cintura, posicionando a lâmina atrás de seu corpo. Uma aura vermelha e azul pode ser observada levemente em torno de seu corpo e Ken golpeia o ar.
De sua lâmina, um projétil é lançado em direção ao oponente, lembrando um bumerangue que gira rapidamente. Olhando com mais atenção, é possível perceber que o projétil é feito de duas esferas, uma vermelha e outra azul. O bumerangue voa com uma trajetória curvada e atinge o inimigo restante. O choque do golpe é forte, despedaçando parte do corpo atingido e, novamente, nenhum sangue é derramado decorrente do ferimento, embora o adversário esteja inerte no chão. Ken, com um olhar curioso, volta-se para estes estranhos homens indagando-se quem seriam. Levemente fatigado, olha para a plataforma acima e não encontra Wo.
Fora da vila, o jovem Wo está atrás de uma árvore, ofegante devido ao esforço de se transportar novamente. Sua perna está em bom estado, mas sua mente ainda está confusa. Nunca havia visto estas pessoas e tudo aconteceu muito rápido. Ainda sim, seu instinto de sobrevivência fala mais alto, vira-se e caminha, afastando-se do local rapidamente pelas plantações que estão às margens da estrada.
- Achei você de novo! Hahahaha! – diz Ken com um ar infantil, saindo de trás de uma árvore.
- Você de novo? Por que está me perseguindo? – contesta Wo, como se quisesse ser deixado em paz, indagando-se como é possível que este sujeito saiba sempre onde está.
- É muito difícil de alcançar você! Por favor, não use novamente o seu talento! – Diz como se quisesse quebrar a tensão entre os dois.
- Vê se me deixa em paz. Sei que você me ajudou e sou muito grato por isso, mas preciso encontrar outro trabalho agora, não está vendo? – responde Wo apontando para a vila.
Com isto, Wo passa por Ken caminhando quando sente uma mão em seu ombro.
- Por favor, me ouça por um minuto. Tenho algumas coisas para te dizer. – diz Ken, com a voz mais serena.
- Huh? O quê? – Wo vira-se de frente para Ken.
- Meu nome é Ken Whiteheart. Recebi uma missão para te encontrar. Sei que você não tem família e é uma boa pessoa. Não gostaria de vir comigo até o santuário? Lá você terá uma casa, comida e amigos. Tudo será explicado quando chegarmos.
Dizendo estas palavras, Ken entrega uma pequena caixa a Wo. Ao levantar a tampa, vê um relógio de bolso. O relógio é dourado, de formato circular com mais ou menos dez centímetros de diâmetro. Aparenta ser muito antigo, visto que possui manchas escuras devido à oxidação. Ele marca a hora, dia, mês e ano. Wo toma o objeto entre os dedos e imediatamente seus olhos se enchem de lágrimas.
- Este é o relógio do meu falecido pai. Você o conheceu? – Questiona Wo, aturdido pelo inusitado aparecimento do objeto.
- O mestre pediu para que te entregasse ele. Disse que é algo muito importante. Com certeza ele tem respostas para muitas de suas perguntas – Responde Ken com um semblante maroto, de certa forma, exibindo-se por ter um mestre como o seu.
Acho que você me convenceu a ir. – responde Wo, emocionado, porém feliz.
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