O Santo Graal e a Caverna da Amizade
1 O Notívago
A claridade da lua tudo faz iluminar e a igreja parece banhada pela luz do dia.
Johann Wolfgang von Goethe
Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro.
Friedrich Wilhelm Nietzsche
Baden, Alemanha, 1882.
Aparentemente, incomum e por mais que, à primeira vista, arrastando consigo os incautos, até parecesse não sê-lo em meio daqueles excessos. Onde todos os luxos podiam ser desfrutados a qualquer hora do dia, se bem o quisessem. E de tanta extravagância reunida num mesmo lugar só. Idêntico a um cachorro molhado, largado à própria sorte, às próprias espertezas e aos infortúnios bem no centro de um intenso e frenético vai e vem de um mundaréu, sem fim, de gente com modos, por assaz, garbosos. Do início ao fim do dia, até que se sorvesse a última gota de satisfação. Já caídos de joelhos no chão duro, com enormes dificuldades de se reerguerem, ficarem de pé novamente, por se encontrarem vergados por uma montanha imensa de caviar e rios caudalosos e espumantes de champanhes. Senão exaustos e já quase sem mais forças, também dentre a incessante procura da fonte da eterna juventude. Airosa, sofisticada, terra de prazeres e de incrível abundância. Viver-se-iam cercados por inúmeras mordomias, ver-se-iam muitas maravilhas do mundo postas bem diante dos olhos (vis-à-vis), tudo ao ligeiro alcance das suas finas mãos delgadas e cheias de anéis caros; à larga, sem preocupações maiores na vida deles. Belo palco imaginário dos mais artificiosos jogos de sedução; que bonito, além de também ouvi-los, apaixonados, acenar-lhes com sonoros galanteios, era vê-los floretear com os seus cavalos puro-sangue inglês com precisão diante delas pelas frescas sombras da verdejante Lichtentaler Allee. Pura diversão para os aristocratas, os ricos burgueses e o que igualmente trazia a ruína a tantos e tantos audazes aventureiros, até muito jovens (inclusive grumetes com boas chances de serem bem-sucedidos um dia na armada); apesar de existirem dois caminhos, inteiramente, distintos.
Senão invisível, ao menos, dentro das parcas possibilidades de que se dispunha, dever-se-ia parecer ser qualquer coisa um tanto que desinteressante às vistas alheias (sem sal) — sempre tão curiosos; famintos e inconvenientíssimos como, geralmente, todos eles são. Do modo como sempre haveria de ser; conforme fora, previamente, na ponta do lápis, azul de um lado e vermelho do outro, bem planejado. Quase como se nada estivesse acontecendo na frente deles, de maneira que os transeuntes impacientes (apressados como se a vida fosse curta) somente descobrissem, por ironia, bem aos poucos, em pequenas doses homeopáticas, de que estavam todos eles, simplesmente, envelhecendo; rumo ao Juízo Final, destino inevitável, sem volta, de todas as pobres almas sofredoras e pecadoras deste mundo. E o que também acabou ajudando a marcar, a ferro e a fogo, aquela que se tornou uma longa tarde sem fim; a princípio, extremamente sossegada, um pouco macilenta e até agradável, de primavera, em Baden-Baden (da maneira como diziam as pessoas naquele tempo, bem antes da oficialização, afim de já distingui-la das homônimas; uma na Suíça e outra próxima de Viena).
No fundo, bem lá no fundo, num fundo distante e equidistante da esquerda e da direita, ele gostava muito de ter a sua seleta plateia — e tirava imenso partido dela. Principalmente, de que lhe jogassem enormes buquês, numa profusão de flores, florilégios, aos seus pés: eglantinas brancas e rosadas mescladas em partes iguais com campânulas azuis de hastes bem compridas. Gostava-se antes do azul (azul cerúleo, de tonalidade um pouco mais escura) e de olhar, por cima dos óculos, para o céu ou as nesgas de intenso azul dele; mais do que do rosa e do branco, muito mais.
Para as testemunhas oculares do fato, notável grupo de pessoas, extremamente, distintas, com os seus olhos estando bem abertos e que tiveram o grande privilégio de ver a coisa toda bem debaixo dos seus narizes, daquela extensa e grande variada gama de tipos deles, para todos os gostos, desde os aduncos aos aquilinos, narizes compridos, retorcidos ou achatados, mas sempre volumosos e estando empinados, aquela grandiosa encenação, por demais, grandiloquente e beligerante lhes pareceu também ser, além de caricata (o que constituiu a aparência real da sua verdade), também muito estranha. Quase que de A até Z, raras teriam sido as exceções. Inclusive pecado, e capital.
Ligeira tragédia gótico-romântica, nem tão de alta classe assim, pseudomedieval, íntima e ímpar; frouxamente alumiada, onde aquela trupe com um pequeno número de intérpretes, devidamente caracterizados e saídos faiscantes do acaso, que além de estar dançando com os pés amarrados (ou acorrentados) e os olhos deles estando vendados, aparentemente tipos extravagantes em papéis burlescos, especialmente, o do Diabo, com o claro objetivo de entreter o seu público, parecer-se-ia perdida; tristes noctâmbulos que vagueavam iludidos dentro daquele inusitado espaço vazio, e apertado. Quando a noite escura fala sem nada dizer, ouve sem nada ouvir e vê sem nadica de nada enxergar na sua frente, mas que, inesperadamente, expõe tudo de uma só vez; num único instante, tornou-se capaz de invadir com força as profundezas dos seus corações. Os pensamentos dele durante o dia haveriam de ser uma coisa, durante à noite outra; via-se.
Até o ar, ao redor dele, fétido como o cheiro nauseabundo de um bode, semelhante ao inebriante aroma dos eternos condenados, pesou naquele que, por fim, muito a contragosto, revelou-se ser um fatídico dia para ele. Sobremaneira, marcando-o (outra vez) de forma indelével.
Porém, a peça, acabou por não sofrer cortes da feroz censura da competente autoridade imperial de Berlim e nem tão pouco a da adjunta ducal no grão-ducado de Baden; ou até, o que causa certa estranheza entre nós, ter sido considerada heterodoxa pela Igreja Católica Romana. Com o seu texto sendo às pressas submetido à análise do severo juízo do ordinário local e imediatamente impresso na primeira página do Index Librorum Prohibitorum[1]. Portanto, e isso já uma rotina quase que constante desde os tempos de Gutemberg, declarada inadequada para os bons católicos carolas, por ter sido ajuizada pelos seus árbitros, os doutos anciões com dores nos ossos, sobretudo, como sendo herética, anticlerical e até, de certo modo, assustadoramente, concupiscente — contudo, muitas vezes proporcionando, assim, maior visibilidade; garantindo-se, por vez, o grande sucesso de público; sempre foi assim, mais se mexe, mais a coisa fede, visto as pessoas (inclusive as católicas) serem mesmo bem curiosas.
Fechou-se com chave de ouro, avant-garde[2].
Por sorte, inesperadamente, tornou-se outro grande sucesso de público, a mais nova referência do teatro do absurdo naqueles dias; costumeiramente, impregnados de muita doçura, de tão doce romantismo, típico fin-de-siècle[3] europeu. Figurando depressa entre as maiores bilheterias de todos os tempos. Contudo, antes obra geniosa de um demônio ardiloso em sua forma humana, o pior deles todos.
Como era exatamente a expressão de Shakespeare (habitual estribilho) na sua cabeça: “O Inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.” Ele pensou na frase enquanto brandia a sua espada afiada, à medida em que tentava, custe o que custasse, abrir o bucho de outro dos seus numerosos inimigos. Anjo rebelde e dono de uma rara beleza estonteante; que havia caído do céu juntamente com os exércitos de Lúcifer. Cultivando mais a imaginação do que o discernimento dele. E ele viu mesmo, com os seus olhos azuis, que a terra haveria de comer um dia, Satanás cair como um raio flamejante do céu bem na frente dele. Na também sangrenta batalha psicológica entre as hostes celestiais do Senhor. Para quem fosse um estudioso da psique humana era um prato cheio (e como era).
Entretanto, os críticos especializados no assunto levaram a coisa a sério, aproveitaram-se e publicaram somente coisas lisonjeiras nos jornais europeus. Como essas:
Se arde, é pimenta; certamente, que até merece uma segunda temporada entre nós.
Quanto vale o seu tempo? Digo eu, que cada minuto vale a pena hoje em dia. Nem perca ele, ainda por cima, gastando a sola do seu sapato de couro, deveras caro, procurando outras por aí.
Obtém o êxito total; cria asas, atinge as alturas e, rapidamente, atravessa as nossas fronteiras.
Irracional, demoníaca e grotesca.
Enfeitá-los-iam com aspectos poéticos e floreios mil por vários dias consecutivos ainda, ora em notas lacônicas, ora em longas ponderações. Todos eles estando embasbacados e inteiramente de comum acordo em vários quesitos; inclusive nos tópicos técnicos de última geração, sobretudo, naqueles destinados aos estudantes universitários da tradicional Sorbonne, antigo palco de debates acalorados entre jesuítas e jansenistas em Paris.
Estampou como manchete, ainda muitos meses depois do ocorrido, em letras garrafais na sua primeira página, o Anzeigenblatt für die Großherzogliche Stadt Baden[4]:
Perfeito, senão mais do que perfeito.
Diriam esses críticos nos seus alfarrábios um tanto torpes ou entorpecidos, de que era mesmo algo que estava em constante metamorfose; metamorfose cambaleante inclusive. Contudo, apenas aqueles que tinham por hábito fazer as suas anotações particulares antes nos grandes e pesados compêndios empoeirados. Para depois, por puro prazer e deleite pessoal, abusando-se de uma incomensurável quantidade de metáforas repletas de palavras pornográficas de baixo calão, resumir o escarcéu todo nos seus queridos diários; que ficavam trancados na gaveta da cabeceira da cama à sete chaves juntamente com as iluminuras eróticas, os lubrificantes aromáticos de sabores exóticos (que, costumeiramente, enchiam-lhes as bocas de saliva) e os seus brinquedinhos sadomasoquistas de cortiça portuguesa, do Quercus suber, preferidos. Enfim, somente um pouquinho mais excitante do que o Kamasutra ou as outras formas, também deveras interessantes, independentemente do fenótipo sexual, de se passar o tempo entre quatro paredes; bem pouco, muito pouco, quase nada mesmo.
E que, de fato, não pretendia mesmo apresentar indivíduos normais no palco da vida, muito menos grandes heróis, mas aqueles que, sobretudo, eram verdadeiramente humanos, também cometiam erros e grandes falhas (verdadeiros canalhas) — expor-lhes as vísceras quentes ainda que os ditos-cujos ficassem chocados com tamanha brutalidade explícita na sua frente; com tanta soberba nudez. Embora os dramaturgos soubessem de que faz parte (até intrínseca) da natureza humana desejar que os heróis deles, sejam sempre belos e perfeitos. No entanto, nada realista. Nem um pouco. Notabilizando-se, porém, antes pela veneração constante da expressividade travestida de arte.
As atuações contundentes, do protagonista e dos seus também talentosos antagonistas, inclusive chegaram a colher efusivos aplausos da assistência; todos de pé, juntos aos berros, em bando barregando ensandecidos ovações eloquentes que ecoaram em intensas ondas sonoras pelo ar. Vagas grandes e revoltas, foram de fato mesmo marouços estonteantes, quase tsunamis, intensos maremotos azuis onde a espuma branca voou bem alto e que sacudiram com exagerada violência as paredes, as colunas e os incontáveis bem desenhados balaústres também de mármore de Carrara, com fundo branco e veios azul-cinza, do seu entorno. E não só comprometendo as mais frouxas construções, aquelas que haviam sido feitas às pressas pelos construtores. Além das grossas paredes externas do imponente teatro ainda as mais luxuosas edificações neoclássicas de homens muito importantes e poderosos próximas do epicentro e que também se encontravam profundamente encravadas no solo; bem postas no meio do caminho delas. Balançar-se-iam todas, sem distinção. O vigor, como algo nunca antes visto por alguém, no meio artístico, conquanto que fosse ele até espontâneo, seria qualquer coisa exorbitante e, de todo, fora do comum.
Embora existissem, é verdade, também outros pontos de vista, até bem menos distorcidos e sombrios no salão. Certamente, que desconfortável; situação, talvez, até perigosa, já que ele brincava sem medo com o fogo em intensas labaredas. Quando nem sempre o que a plateia via era exatamente a verdade; sem perceber, suscetível às situações malignas que a rodeava, era presa fácil do ilusionismo nas suas mãos; mesmo sem piscar, no abracadabra, quando justamente o entorpecido coelho branco, com os olhos vermelhos dele também arregalados, saía da cartola mágica bem na frente daqueles olhares incrédulos. Por sorte a dele, distraía-se facilmente.
Na verdade, seria até algo um tanto que prosaico. Com certeza que sim, mas não no sentido de não ter quase nada, muito pouco a nos dizer ou ainda entreter. Antes sim, qualquer coisa a nível da alma, talhada sob medida, fácil e desprendida; muito até, por demais além da conta.
Decerto que (de todo) fora da normalidade.
Entretanto, por ora, caro leitor, não se assuste, a despeito da palidez mórbida de suas faces, que há tempos não se tingiam mais de cor-de-rosa, não tenha medo algum dele e fique bem tranquilo. Pelo menos, até onde se soube e como disseram mesmo as doces criancinhas de olhinhos azuis, cabelinhos dourados e cacheados acompanhadas por seus pais nos corredores laterais durante a saída, apesar de ter sido realmente uma coisa bem espantosa, também não foi nenhuma representação manifesta do mundo sobrenatural, uma terrível assombração. Parente aos fantasmas da ópera, espertos e frajolas, mas nem tão camaradas assim e que assombravam o maquinista-chefe e os outros funcionários (desde os do vestuário até os da portaria, as bailarinas do corpo de baile, as suas mães e as lanterninhas) nas dependências da Ópera Nacional de Paris com grande acuidade naqueles tempos de tão intensa doce degeneração da Belle Époque[5]. Onde fervilhavam as fantasias embaladas pelas histórias fantásticas dos marinheiros estropiados que voltavam, com imensas saudades, depois de muito tempo ausentes, da Indochina e de outras terras para lá de distantes e exóticas.
Quando na dança macabra deles, cheia de grandes talentos, persuasivos e cheios de requinte espalhavam tortuosas sombras por todas as paredes. E ainda murmuravam palavras inomináveis; certamente, que invocadas das entranhas do inferno e ateadas pelo próprio Belzebu em pessoa; querendo se fazerem ouvir, alto e bom tom, durante os ensaios gerais e pedirem para que as cantoras líricas e as mais belas bailarinas do corpo de baile levassem rosas e acendessem velas, também vermelhas, diariamente, na Cruz das Almas.
Ou pior ainda, como num outro terrível pesadelo noturno, e sem fim, cingido por inúmeras criaturas malignas, qualquer distinta e absurda entidade advinda com muito mais fome das sombras obscuras do submundo. De quando em quando mancando com dificuldades, quebrando barreiras, superando desafios, querendo assombrá-los com a sua presença espectral e tão medonha; em certas ocasiões se vestindo de esqueleto, outras delas se cobrindo de panos, preferencialmente, brancos, imaculadamente cândidos e engomados com amido afim de se parecer, na maior elegância, bem menos assustadora para eles por não ter mais os caninos, muito menos nenhum dos outros dentes na boca, nem os sedosos longos fios de cabelo de negro nanquim para, com pompa, ornar-lhe o outrora tão pesado cabeção; caldeirão fervente que já fora cheio de vida no passado. Dando significados, os mais variados deles, aos ruídos da noite; como costumam fazer, sem cerimônia alguma, adentro da mais completa escuridão, pontualmente, depois da meia-noite, após ter se dado corda e das tristes doze badaladas, cheias de melodia, do antigo carrilhão alemão de pedestal, aqueles fantasmas, seres comuns da vida após a morte e tão aflitos que vagueiam pela noite morta, sem conseguir dormir, com os seus gritos e lamentos do mesmo modo intensos e sempre, tão, chorosos; espontâneos como são os berreiros — mas eles não se divertem muito, em geral, não; nem um pouco.
Porém, não foi nada disso, tratava-se de algo mais humano, tinha vida; também haviam sido pessoas tão verdadeiras como todos nós antes de ficarem totalmente limitadas à magia de um passado confinante. Constituídas de carne, ossos e sangue (fator Rh negativo ou positivo) de nossa mesma idêntica compleição. Tentando se recompor, dentro das parcas possibilidades disponíveis, o máximo possível. Reinventando-se, constantemente, a si mesmas e ao velho universo em que viviam, sem nem se saber o porquê das coisas, sem ter a mínima ideia de nada; nem a de que vivemos todos espremidos sobre uma pequena rocha no meio de uma galáxia espiral, dentre milhões ou quem sabe milhões de trilhões delas só no espaço observável pelos telescópios; menos que um grão de areia somente, muito menos do que isso, quase nada, ou pior ainda, nada mesmo — isso sem levarmos em conta a sua maioridade (ou senilidade), quatorze bilhões de velinhas já apagadas. De geração em geração recomeçando novamente; passo a passo. Talvez um castigo, outro deles — por infelicidade grande demais, triste jornada sem retorno.
Somente os trajes delas, estes sim, é que eram distintos dos nossos; estar-se-iam, no dia a dia, vestidas de outra maneira, mais recatada e rebuscada. Cheias de frufru com cheiro de bálsamo de zimbro e eucalipto. Elas com muitas rendas delicadas e babados mil sobrepostos com grandiosa aptidão, sempre com as suas sombrinhas forradas de tafetá, orladas com franjas de seda, revestidas com seda chinesa e intrincadas rendas de bilro. E eles, não menos garbosos do que elas, com bengalas de madeira exótica imitando bambu e castão em ouro relevado com decoração estilo rocaille[6] nas mãos. Refletindo o seu status para quem bem quisesse vê-los. E não usando jeans rasgados, cobertos da cabeça aos pés com acessórios da moda e ostentando etiquetas de marcas comerciais famosas, sobretudo, caríssimas. Parecendo árvores natalinas artificiais enfeitadas com muitas luzinhas pisca-pisca coloridas importadas aos milhares em contêineres todos os dias: Made in China[7].
No fabuloso teatro do absurdo, de todo, envolvido pelas brumas suaves e românticas do passado, encravado no coração pulsante de Baden-Baden, os espectadores, todos estando confortavelmente instalados em suas cadeiras, sem tugir e nem mugir uma só palavra, em qualquer idioma que fosse, ainda incapazes até de assoprarem ou de inventarem, de última hora, qualquer outra mínima espécie de som, concentrados e em total silêncio, tinham todos a leve impressão de se encontrarem por algum tempo, numa ínfima parcela dele, aprisionados dentro de um sonho colorido. Numa noite de gala, a última delas. De todo compenetrados com aquele mundo totalmente extraordinário, outro repleto de violetas nas janelas, outra dimensão cheia de suaves nuances esverdeadas na linha do horizonte, num universo paralelo e amarelo, multiversos multicoloridos, universo em cima de universo, mundos infinitos, onde tudo estava sendo descrito com uma riqueza de detalhes e emoções impressionantes. Através do filtro das potentes lentes dos seus binóculos em bronze, de longo alcance, ornado com delicados detalhes em madrepérola (material idêntico ao do qual eram feitos os leques das madames[8] e das graciosas mademoiselles[9], ornados com caprichosos desenhos de vaporosas paisagens chinesas cheias de pagodes), acreditavam estarem vendo, de todo, convencidos, sentido e contemplado exatamente os mesmos sentimentos e sensações dos quais padeciam, custosamente, no seu dia a dia. Seguramente, aquela imensa dor que todos sentem, aquela que doí lá no fundo e que apertava mais dentro deles também; era estranho, é bem verdade, mas as suas vidas tristes e desprezíveis, de alguma forma (incompreensível), assemelhavam-se muito à da dele.
Quando as tão inconvenientes e deveras molestáveis imprecisões, destruidoras de sonhos, pervertidas, eruditas, pesadas como densos calcários, situavam-se cada vez mais próximas da realidade; aquela área nebulosa e meio cinzenta entre a verdade e a ficção, mas, misteriosamente, ninguém sabe dizer o porquê das coisas serem assim esquisitas, muito conexas entre si. Tornam-se quase reais aqueles eventos, por demais, absurdos ou tolos e que somente são corajosamente pensados de maneira meio leviana, zombeteira, alienada, dentro do campo da ficção. Semelhante qualquer narrativa ou historieta ambígua e grotesca de algum best-seller mais arrojado da nossa atualidade e que inunda as livrarias dos shopping centers com um volume imenso de palavras impúrberes. Seria verdade ou mentira, sonho ou alucinação? Todos sempre haveriam de ter as suas dúvidas, até o final do espetáculo — bem, qualquer coisa é melhor do que nada; decerto, que muito mais.
Onde os tons bastante vivazes de lima e de quinacridone-magenta, dando-lhe várias tonalidades que bizarras ou berrantes, dentro do espectro do carmim e do ruivo, deveras chamativas, seriam elas cheias de personalidade, coloriam a essência daquele homem por assaz submisso. Cores chocantes que tinha sempre ao alcance das mãos dele, raros óleos de linhaça graxos e untuosos, tinta de boa qualidade, não secada ao sol, adequadamente diluída e dentro da proporção exata dos antigos receituários da academia italiana: em terebintina e médium siccatif venetian[10] produzido com mastique de Chios e alvaiade de chumbo.
[1] Índice dos Livros Proibidos. Traduzido do latim.
[2] De vanguarda. Traduzido do francês.
[3] Fim de século. Traduzido do francês.
[4] Boletim da cidade Grão-ducal de Baden. Traduzido do alemão.
[5] Bela Época. Traduzido do francês.
[6] Rococó. Traduzido do francês.
[7] Fabricado na China. Traduzido do inglês.
[8] Senhoras. Traduzido do francês.
[9] Senhoritas. Traduzido do francês.
[10] Meio secativo veneziano. Traduzido do francês.
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