O Sangue do Olimpo
6 Piper
Notas iniciais
– Estão tentando nos separar. – Repetiu Annabeth. – Somos os sete meio-sangues da profecia, e juntos somos fortes. Caso formos enfrentados separadamente... Podemos resistir por um bom tempo, mas, um a um, vamos cair.
– Isso não é nada animador – Jason resmungou.
– Esperem. – Leo levantou as mãos. – O que ele quis dizer com “sua hora vai chegar”? E por que ele me chamou de “Fogo”?
– Inimigos nos chamam pelo que somos. Às vezes pelos nossos sobrenomes, Valdez – Percy deu de ombros com o exemplo.
– Exato. Fogo é o que você é... – Annabeth disse. – E sua hora vai chegar. Talvez ele tenha querido dizer que você terá uma experiência semelhante à de Hazel.
Leo engoliu em seco. As coisas estavam ficando ruins...
Reparei que Frank estava paralisado.
– Frank? – Chamei.
Ele não respondeu.
Estalei os dedos na frente de seu rosto.
– Frank? – Tornei a chamar gentilmente.
Ele pareceu se recuperar do choque.
– Ah... Oi? – Ele passou a mão pelo cabelo curto, suspirando. – Desculpe.
– Não se preocupe. – Falei.
– Hazel é boa. Ela vai sobreviver. – Jason disse com um sorriso.
– Eu sei – Frank parecia mais tranquilo. – É que... Isso tudo é um pouquinho demais.
Leo bufou e bateu no ombro de Frank.
– Cara, você consegue se transformar em um dragão e isso é um pouquinho demais?
– É diferente – Frank retrucou. – Você pode incendiar tudo. E acredito que possa não estar com muita coragem.
– É... – Leo pareceu ponderar – Pode ser.
– Acho melhor a gente ir dormir. – Falei. – Precisamos estar descansados o máximo que pudermos.
– Você está certa. – Jason falou. – Percy, Annabeth, acho melhor vocês virem também. Festus nos acorda se precisarmos, certo? – Ele se dirigiu a Leo.
Leo foi até a figura de proa e deu uma batidinha em seu dorso. A cabeça de dragão cuspiu fogo. Sorri, lembrando o modo com que ele me ajudou com Quione.
– Vamos, tripulantes – Leo foi descendo a escada.
Cada um foi para a sua cabine. Jason parou em frente a minha, segurou meus pulsos e me beijou.
– Até amanhã. – E ele saiu andando.
– Até... – Murmurei.
*
Esperei por sonhos conturbados, mas o que recebi foi uma noite de sono pesado e tranquilo. Dormi como não dormia há dias, feito uma pedra. Por isso, acordei um pouquinho cedo, quando os primeiros raios de Sol invadiam as janelas e me forçavam a abrir as pálpebras.
Levantei-me, um pouco surpresa e um pouco grata. Coloquei minha roupa de camuflagem e a cota de malha, pendurei a alça de Katoptris no ombro e abri a porta da cabine. Graças aos deuses, nada me pulou no pescoço. Grata por isso também, andei pelo corredor, silenciosamente. As outras portas estavam fechadas, e de algumas ecoavam roncos.
O convés estava limpo. Nada de monstros, nenhuma carcaça. Festus estava adormecido – temporariamente. Acho que se tivesse havido monstros, ele provavelmente os teria queimado. Ou soado o alarme.
Debrucei-me na amurada e observei a água. Era cristalina o suficiente para que eu conseguisse enxergar algumas manchas bem ao longe, mas densa o suficiente para que eu não conseguisse saber o que era.
Suspirei e me virei. Fiquei paralisada no lugar.
Atrás do navio, uma ilha se estendia.
Era um morro grande. Árvores cobriam toda a vista, e a praia era de areia branca. Dava para ver o seu fim, mas mesmo assim era assustadora.
Voltei a olhar pela amurada. De repente, percebi que as ondinhas provocavam uma ilusão de ótica: nós não estávamos nos movendo.
O Argo II estava com a âncora baixada.
Virei-me para a ilha de novo. Nada tinha mudado. Nem um sinal de movimento.
O mais impressionante eram as cores, o contraste. O gigantismo por si só já era demais, mas o mar era azul turquesa, a praia era completamente branca, e as árvores... Eram verdes. Quer dizer, suas copas eram verdes, as folhas pareciam...
Um estalido me fez dar um pulo e agarrar minha faca. Mas era só Frank subindo as escadas.
– Deuses... – Coloquei a mão no peito.
Ele pareceu um pouco envergonhado.
– Desculpe.
– Não tem problema. – Falei. – Mas isso atrás de nós é um problema. E dos grandes.
Ele franziu as sobrancelhas e se virou.
– Uau.
– Ahã. – Engoli em seco.
– Acho melhor acordar os outros. – Frank me olhou. – Acho melhor você ir, e eu fico de vigia, para o caso de... Hã...
– Entendi. Já volto.
Desci as escadas correndo.
A primeira porta era a de Jason.
Com o máximo de silêncio possível, entrei e me deparei com ele dormindo profundamente, estatelado no chão.
Reprimi uma risada nervosa, me ajoelhei ao seu lado e beijei seus lábios.
– Jason, acorde. – Chamei. Ele não reagiu. Beijei-o novamente, e ele ainda permanecia dormindo. Tentei uma última vez, e ele subitamente segurou minha cintura e me jogou no chão, com força. Abriu os olhos e me viu.
– Ah, Piper...
– Quantos inimigos te atacam com um beijo na boca? – Perguntei, esfregando as costas.
– Nenhum. – Ele pareceu preocupado – Te machuquei?
– Não. – Respondi. – Só temos alguns impasses.
– Impasses? – Ele passou a mão nas costelas, com uma careta. Deveria ser por causa de dormir no chão.
– Suba. Vou acordar os outros.
Saí da cabine dele um pouco desapontada, mas logo fiquei preocupada novamente. Abri a porta de Leo de supetão. Ele estava abraçado com um travesseiro e roncava.
– Leo – Chamei. – Acorda.
Ele abriu um olho.
– Rainha da Beleza?
Tive que sorrir.
– Em beleza e osso. Agora vamos, temos problemas.
Ele se espreguiçou de uma maneira muito... fofa. Ele tinha aquela cara sapeca, que me lembrava um bebê.
– É o navio?
– Não. Quer dizer, também. Estamos ancorados.
– Ancorados? – Ele fez uma cara preocupada e logo se levantou. Estava de pijama do Homem de Ferro, com o cinto de ferramentas na cintura. – A essa hora?
– Hum... É melhor você ir. E se trocar primeiro. – Indiquei o pijama.
Continuei pelo corredor. Agora só faltavam mais dois. A cabine do treinador Hedge estava vazia, desde quando ele fora com Reyna e Nico.
Annabeth era a próxima. Ela estava rolando na cama, inquieta, soltando murmuradas lamúrias. Seu cabelo estava empapado, e o lençol se colava em seu corpo suado.
– Annabeth – Chamei. Ela continuou a se remexer, dessa vez com mais força. – Annabeth. – Tornei a chamar, mas ela não parava. Sentei na cama, prendi seus pulsos com força. – Annabeth. Acorda. – Usei todo meu charme.
Ela se sentou rapidamente, arfando.
– O... O que foi?
– Problemas.
Ela respirou profundamente três vezes.
– Alguém morreu? – Ela perguntou, entrando no modo filha de Atena habitual. – Se feriu? Foi raptado?
– Não, não... Mas precisamos ir. Agora.
Ela assentiu. Depois, arregalou os olhos e parou o que estava fazendo – o que era colocar a bota.
– Onde está Percy?
– Provavelmente em sua cabine. Estava indo acordá-lo agora, mas acho que você faz isso melhor do que eu. – Falei.
– Aham – Ela pareceu mais aliviada. – Ele...
– Baba. – Percy completou. Ele apareceu na porta, com os cabelos emaranhados, mas estava completamente vestido. Sua expressão revelava que não tivera uma noite melhor do que a de Annabeth.
– Eu sei. – Ele disse e sorriu. – Bom dia, Piper.
– Bom dia. – Sorri de volta.
– Ei. – Annabeth protestou. Ela se inclinou e deu um beijo na bochecha de Percy.
– Hum... Por que estamos ancorados? – Percy perguntou para mim.
– Eu iria te fazer a mesma pergunta – justifiquei. – Mas estamos na costa de uma ilha.
– Ilha? – Ele perguntou.
Annabeth parou o que estava fazendo, de novo.
– Mas estamos no mar Jônico. – Ela colocou a mão na cintura. – Existem dezenas de ilhas espalhadas pelo litoral da Grécia e dessa parte da Eurásia.
– Eu sei... Mas acho que essa não é normal. Quer dizer, nada é normal, mas acho que não estaríamos ancorados na costa dela há sabe-se lá quanto tempo.
– Ok. – Annabeth assentiu. – Vamos.
No convés, Leo, Jason e Frank observavam a ilha.
– Mas o que é isso...? – Leo parecia embasbacado.
Olhei a ilha também, e arquejei.
– Deuses!
– O que foi? – Jason perguntou.
Apontei.
– Estava diferente.
– Diferente como? – Leo indagou.
– As folhas estavam verdes. – Frank falou, estremecendo. – Agora estão marrons. O mar ao redor era azul claro, agora está quase preto... E a areia. Agora é lama.
– A ilha está morrendo – Annabeth disse.
Fitamos a imensidão da ilha por mais alguns minutos. De repente, as folhas voltaram a ficar verdes, a areia branca e o mar claro.
– Santo Hefesto! – Leo exclamou, dando um passo para trás. – Essa coisa tá viva!
– Vamos averiguar? – Percy perguntou.
Annabeth franziu as sobrancelhas.
– Vamos observar. Se a ilha voltar a ficar morta... Eu tenho uma teoria.
Ficamos mais um tempo em silêncio. A ilha escureceu de novo.
– Certo. – Eu disse. – Qual é a teoria?
– Vamos calcular o tempo que ela leva. Quanto tempo ela permanece viva, até que morra de novo. Não tenho certeza, mas não podemos arriscar estar no meio dela quando estiver morta.
– Porque podemos... – Frank encolheu os ombros.
– É, podemos. – Completei.
– Mas, esperem... – Leo levantou as mãos. – Por que iremos para a ilha?
– Porque provavelmente temos que fazer alguma coisa lá. – Annabeth respondeu. – Agora vamos calcular...
– Temos um tempo até iniciar a contagem. – Percy disse. – Agora, por que ela tem esse formato estranho?
– Parece um... – Jason estreitou os olhos.
– Ah, nem vem. – Frank parecia derrotado. – Eu não vou pra lá.
– Não precisa. Fique de guarda. – Tranquilizei-o.
– Deixe-me adivinhar – Leo falou com ironia. – Vamos ter que subir até o topo daquilo?
– Provavelmente.
– Ah. – Ele sorriu. – O que um exercício físico da manhã melhor do que a escalada de um vulcão?
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