O Salvador

1 Capítulo 1 - O Novo Símbolo


Nunca achei que me veria nesta posição, nunca achei que voaria tão alto, nunca achei que meu nome ecoaria por todos os cantos do mundo, sempre quis ser herói, sempre me inspirei no lendário e saudoso All Might, ele era um símbolo da paz.

Quando tinha quatro anos fui atacado por um vilão, hoje em dia consigo entender que ele se alimentava da força vital de jovens com muita energia acumulada, era o ZeroLifer, ele obtinha força e longevidade roubando os anos de vida que uma criança teria pela frente, claro que na época eu apenas achei que fosse um monstro que, literalmente, comia criancinhas. Foi tudo muito rápido, fui salvo por um herói já consagrado que estava caçando ZeroLifer a um tempo, muitos eram contra seus métodos violentos, chegando até mesmo a matar alguns vilões, mas naquele dia o Ingenium II me salvou, ele matou ZeroLifer quando ele já havia até mesmo me mordido e arrancado um de meus braços. Eu estava ali jogado no chão, tendo uma hemorragia e sentindo a vida me escapar, Ingenium II corria o mais rápido que podia, suas pernas faziam barulho de motor, ele estava me levando ao hospital, apesar de já ter meus trinta e dois anos, nunca esqueci o que ocorreu naquele dia.

Em uma rua estreita eu já não podia mais aguentar, estava ficando pálido, via minha mão restante cada vez mais branca e então tudo mudou... Uma luz azul clara explodiu entre mim e meu salvador, fui atirado com força contra uma parede, Ingenium II foi jogado longe, mas a pancada de minhas costas não me causou dor alguma, logo notei que a luz e a explosão vinham de mim mesmo e tal foi minha surpresa ao estar de joelhos no chão, me apoiando nas duas mãos. Sim, meu braço estava de volta, brilhando em um azul intenso por alguns segundos e logo voltando ao normal, eu estava totalmente curado, me sentia forte novamente, mais forte que qualquer criança de quatro anos havia se sentido em toda sua vida. Naquele dia eu havia despertado a minha peculiaridade, a minha manipulação da matéria e da energia era algo raríssimo, até mesmo entre os mais famosos e poderosos heróis. Eu poderia ser quem sempre sonhei, poderia seguir o símbolo da paz.

Com o passar dos anos e a morte trafica em campo de batalho de All Might, as coisas mudaram no mundo, os vilões sentiram-se capazes de dar um passo a mais e uma sociedade inteira de vilões conseguiu domínio mundial através de corporações, e os heróis passaram a ser independentes, sem terem como dedicarem-se somente aos atos heroicos o número de pessoas lutando contra o caos diminuiu consideravelmente. Mesmo assim eu entrei na Yuuei, digo que até mesmo o fiz com certa facilidade, fui o campeão do torneio daquele ano, tínhamos professores muito bons, mas nada que pudesse ser comparado ao All Might, com o tempo fiquei entediado e fui desenvolvendo meus poderes sozinho, conforme o mundo mudava a minha volta e pouco a pouco ia se tornando melhor com a ascenção de um novo símbolo da paz, Deku.

Toda a sindicalização do crime caiu por terra, uma a uma as instituições criminosas foram caindo e sendo esmagadas com os Smashs daquele herói, até que o mundo voltou a ser o que era na minha infância, heróis profissionais voltaram e aquele caos parecia ter sido apagado das mentes das pessoas, mas não da minha, eu não poderia deixar que o caos retornasse, se Deku não fosse suficiente, eu teria que ser.

Me graduei na Yuuei com honras, mas não quis aceitar os empregos promissores que me passavam, renunciei ao meu uniforme de herói, o manto azul que haviam feito para o herói “Mr. Blue Energy” e fui viver sozinho em uma montanha, desenvolvendo ao máximo que podia as minhas habilidades. Com o passar do tempo fui acompanhando o desenvolvimento de uma sociedade que antes era utópica, uma sociedade sem medo, uma sociedade FRACA. Anos se passaram, poucos anos, poucos mesmo e o auge havia sido atingido, não haviam mais guerras, não haviam mais roubos, não haviam sequer vilões, o mundo havia se tornado o que sempre sonhou, havia se tornado realmente pacífico, ao mesmo tempo que eu evoluía sozinho meus poderes em um canto isolado dele. Eu conseguia criar explosões nucleares na palma de minha mão, conseguia criar montanhas maiores que prédios gigantescos em alguns minutos, conseguia manipular até mesmo a constituição de seres vivos, eu já havia passado a muito tempo do nível humano, talvez pudesse até mesmo criar vida, mas não queria esse tipo de complicação. Resolvi então voltar a sociedade, aos lindos prédios brancos que via ao longe, ao sistema que funcionava perfeitamente, voltei com as minhas vestes de eremita, minhas calças simples, camiseta preta usada no meu treinamento e a barba crescida e desgrenhada.

Cheguei no meio daquela sociedade perfeita e fui recebido com estranheza, aqueles seres fracos e sem conhecer o que era o medo a anos ficaram me encarando com olhares inquisidores, eu caminhava pacificamente entre eles, mas não me encaixava nos padrões que eles estavam acostumados e alguns minutos depois comecei a ouvir coisas do tipo “volte pra onde veio, aberração”, “alguém tira esse mendigo daqui”, “onde estão os heróis para limpar as nossas ruas?”, eu estava perplexo ao ver uma sociedade tão evoluída tratar assim um ser humano como eles, talvez a ausência de medo fizesse com que tudo fosse mais simples.

Uma pedra, apenas uma pedra bastou, algum dos jovens mais eufóricos atirou uma pedra na minha testa, o sangue verteu e entrou no meu olho, um silêncio foi feito e logo em seguida risadas e gritos foram ouvidos, mais pedras vieram, os micro-fascismos individuais afloraram na massa de pessoas gentis umas com as outras, eu gritei para pararem. Elas riram mais, disseram que logo um herói viria para dar cabo de mim, mesmo sem que eu tenha feito nada. Realmente, lhes faltava o medo.

Com um movimento de mão eu excluí a existência de dez deles, sua carne se desfez no ar, viraram poeira. O silêncio pairou por um tempo, talvez não acreditassem, mas eu instaurei novamente uma coisa natural ao ser humano, eles estavam com medo, seus gritos eram mais altos que os gritos de alegria, tropeçavam uns nos outros, crianças foram pisoteadas, uns jogavam os outros em minha direção, eles estavam se fortalecendo diante de mim. Mais um movimento e vinte deixaram de existir. Sinto uma queimação no meu estômago, olho e noto que foi feito um buraco nele, um herói chegou, foi mais rápido do que eu imaginei.

– Quem é você!? – Ele pergunta com uma fúria tremenda.

– Eu já fui conhecido por “Mr. Blue Energy” nos meus tempos de escola, mas acho que hoje me cai melhor o nome de “The Nature”, eu afloro a natureza humana, a natureza deixa a todos mais fortes, somente quem se adapta a ela pode prevalecer. Eu afloro o instinto humano, eu afloro o medo.

– Você vai cair, vilão! Eu, o Barão das Explosões vou te derrubar.

Não pude deixar de achar graça, eu conhecia aquele homem, ele era considerado o herói número quatro do mundo, amigo pessoal do número um Deku, do número dois Shouto e do número três Tsukuyomi, era um homem forte, sem dúvidas, mas o nível que me encontro é incomparável. Com um simples gesto faço seus dois braços sumirem, virarem poeira, ele grita em agonia, os cidadãos gritam mais que ele, chego perto e o olho com curiosidade.

– Eu não sou um vilão, quero apenas que as pessoas fiquem fortes.

Antes que ele possa responder eu o desintegro. Ouço choro a minha volta, ouço gritos de desespero e gritos de raiva, muitas pessoas jogam coisas em mim, pessoas comum, não as mato, eu quero que sejam fortes, elas tem minha admiração. Eu sorrio pra elas, elas fogem de medo. Logo sinto frio, muito frio e não consigo ver nada na minha frente. Percebo que estou sendo congelado e que estou em uma bolha de sombras, facilmente me liberto e quando consigo ver novamente já noto que uma infinidade de rochas flutuam sobre mim, a heroína Ugravity lança seu ataque de meteoros, se quer me esquivo, eles não podem me tocar, apenas desintegro cada meteoro que toca em mim e puxo para perto a heroína que flutua no alto, ela encosta em mim e começo a flutuar, mas logo me adapto aos seus poderes e a faço sumir do mundo também.

Finalmente atinjo o meu objetivo, após matar a esposa no herói número um ele se mostra, está fora de si, seus amigos tentam conte-lo, não os mato, apenas os tele transporto para outra realidade até que tudo acabe, Deku está na minha frente, ele grita sobre a morte de um Kachan e sobre sua esposa, está fora de si e me ataca. As pessoas a volta festejam sua chegada, mas choram pela sua perda. Os seus golpes são incrivelmente fortes e rápidos, até mesmo eu senti uma dor incrível a cada soco que tomava, não tive escolha, precisei remover suas pernas.

O silêncio fez-se ensurdecedor, o símbolo da paz estava aos meus pés, gritando desesperado, tentando me alcançar e então chegamos ao início de meu relato. Por todo o mundo meu nome foi pronunciado, não como eu queria quando era criança, mas ecoando mesmo assim. Deku tenta se levantar, parece não ter notado a falta de suas pernas, então eu dou novas a ele, que sem perder tempo dispara em minha direção, dessa vez eu resolvo parar seus golpes, a dor não é algo que seja prazeroso a mim. Com um único soco de energia eu o deixo caído e vou até o topo do prédio mais alto da cidade carregando seu corpo desmaiado, sob os holofotes de vários helicópteros da imprensa eu dou o meu recado.

– O mundo hoje conheceu o medo, nenhum de seus heróis foi capaz de sequer me ferir, mantenham o medo nas suas mentes, um dia eu voltarei para lembra-los, é bom que estejam preparados.

Trago de volta a realidade Shouto e Tsukuyomi, eles me olham com horror e esboçam uma reação de luta, eu apenas digo serenamente:

– Cuidem dele, ele precisará de vocês.

Derrubo o herói número um na frente de seus amigos e volto para casa caminhando. Estampo as capas de todos os jornais e revistas, muitas fotos amadoras tiradas com celulares, todas as capas me chamam de “The Order, o vilão dos vilões”. Não entendo, eu sou o salvador deste mundo, um dia vão me agradecer por eliminar suas fraquezas. Eu sou mais que o meu ídolo sequer sonhou, não sou um símbolo da paz, sou um símbolo do medo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.