O Salgueiro chorão
1 Conto 1
Notas iniciais
> busco ilustradores interessados em participar de projeto, favor entrar em contato.
O salgueiro chorão
Em uma colina havia um salgueiro. Várias pessoas visitavam esse salgueiro, porque sua casca macia possuía incríveis propriedades medicinais. Todas as manhãs, ao raiar do dia, apareciam curandeiros de todos os lugares pedindo um pedacinho da sua casca. E o salgueiro, bom como era, sempre permitia. Ao meio-dia, crianças e outros pequenos animais se juntavam à sombra da grande árvore por conta do calor, e ele balançava seus longos galhos para gerar uma brisa leve e refrescante. Durante o crepúsculo, todos juntavam suas coisas, colocavam as cascas recolhidas nas bolsas, e partiam para casa. E o salgueiro se despedia com um silvar do vento em suas folhas. E ficava ali sozinho.
As noites eram tristes e solitárias para o salgueiro, mas duas coisas sempre o confortavam: saber que seria especial no dia seguinte, e a presença da Lua. Ele então contava histórias para a Lua, anedotas que ouvia os curandeiros falarem entre si, ria ao lembrar das gargalhadas das crianças e se emocionava ao lembrar da despedida. E a Lua ouvia, mas não respondia.
Outro dia se passava, e tudo era igual: os curandeiros vinham ao raiar do dia, pediam um pedacinho de casca, que o salgueiro sempre dava de bom grado, as crianças e os pequenos animais corriam e brincavam na sombra ao meio-dia, todos juntavam as bolsas e finalmente o silvar do vento ao crepúsculo.
E então a noite chegava, o salgueiro começava a narrar seu dia e tudo o que havia aprendido. Mas dessa vez, algo estava diferente. A Lua não era a mesma. Tinha diminuído.
O salgueiro nada entendeu. Fizera algo errado? Falara muito alto? Não. Tudo era o mesmo, nada de novo havia acontecido. E então, resolveu contar sobre como seu dia foi interessante. E a Lua o silêncio mantinha.
Outro dia raiava. Os curandeiros chegavam, pediam um pedacinho de casca, o salgueiro permitia, as crianças e os pequenos animais riam na sombra do meio-dia, todos juntavam as bolsas e então o silvar do vento ao crepúsculo.
Anoitecia, e o salgueiro ansiava por contar todas as novas piadas e contos que havia ouvido, explicar como havia aprendido que o chá da sua casca curava febre, e sentir o brilho cintilante da Lua em suas folhas. Porém, quando olhou para cima, percebeu que a Lua havia diminuído mais um pouco.
“Ora essa” pensou ele “quem ela pensa que é? Isso é muito rude! Será que ela não sabe como eu sou especial?” E encarou a Lua, que o fitava de volta.
“Vou mostrar pra ela. Não vou falar nada também. Assim ela vai aprender a ser mais gentil comigo.” E ficou em silêncio a noite toda. A Lua permaneceu calada.
Mais um dia surgia, e os curandeiros chegavam. Mas quando pediram um pedacinho de casca, perceberam que ela não estava tão macia quanto antes.
“O que aconteceu, nobre salgueiro?” perguntou um deles “Não nos permite que tiremos um pedacinho de casca?”
“Permito!” bradou a árvore, envergonhado “Só preciso de mais água. Amanhã a casca estará mais macia! Podem ter certeza.”
O salgueiro não gostava de mentir. Mas se falasse sobre a Lua, ninguém acreditaria.
Então chegaram as crianças e os pequenos animais. Se abrigaram à sombra do meio-dia, se divertiram como sempre. Mais tarde, todos juntaram suas bolsas e ouviram o doce silvar do vento nas folhas. Desta vez, o salgueiro estava aliviado por estar sozinho. Queria conversar com a Lua. Perguntar o que estava acontecendo.
Chegou a noite e, com ela, veio a chuva. Nuvens negras se juntavam ao céu e escondiam a maioria das estrelas, mas não todas. O salgueiro sentia os pingos gelados por suas folhas, mas estremecia por outro motivo. A Lua havia sumido.
Ele procurava e procurava, e nada via. No lugar usual da Lua havia apenas a escuridão da noite, que tanto lhe trazia solidão.
“Lua, ó Lua, o que lhe fiz?” uivava o salgueiro “Se fui grosseiro, sinto tanto! Diga, o que posso fazer para ter o seu doce brilho novamente entre minhas folhas?!”
Sem resposta. Apenas a chuva que caía.
“Escuta meu pedido! Volta, ó Lua, e lhe darei as mais belas pérolas. Terás servos para cumprir todos os seus caprichos. Dançaremos todas as noites às mais belas melodias, e cristais cairão do céu diante do seu encanto!”
Silêncio.
E o salgueiro chorou pelo restante da noite.
O dia raiava. E com o dia, os curandeiros chegavam.
“Salgueiro!” exclamaram, assustados “O que aconteceu?!”
A casca do salgueiro estava dura como pedra. Suas raízes, antes suaves e orgânicas, agora eram pontiagudas e obtusas.
“Eu não sei!” mentiu o salgueiro “Talvez se os bons cidadãos me trouxessem um pouco de água…”
“Mas ontem a noite choveu tanto!” replicou um dos curandeiros “Não é possível que não tenha bebido o suficiente”
“Mentiroso!” esbravejou outro.
“Egoísta.” mais um.
E foram indo embora, um por um.
“Parem! Voltem!” suplicava o salgueiro “Não é minha culpa.”
E logo se viu sozinho.
Meio dia. As crianças e os animais chegaram.
“Salgueiro?! Onde estão as suas folhas?!” reclamaram.
Na copa do salgueiro, jaziam apenas galhos secos e pontiagudos. No chão, haviam folhas quebradiças e alaranjadas, que se desfaziam ao toque. A sombra, por sua vez, não comportava todas as criaturas.
“Não podemos ficar, salgueiro...” suspirou tristemente a corça “É muito quente aqui, e ao seu redor só tem espinhos…”
“Não se vão!” gemeu o salgueiro “Vai chegar a noite e eu vou ficar sozinho!”
“Devia ter pensado nisso antes de se tornar tão áspero.” replicou o gambá, rispidamente.
E todos foram embora.
E, mais uma vez, o salgueiro se viu sozinho.
E chorou.
E chorou, e chorou, e chorou, até não ter mais o que chorar.
Então, ouviu uma voz.
“Ei, não chore. Você que é o nobre salgueiro que todos falam?”
O salgueiro, sem levantar os olhos, murmurou “Eu era, mas todos foram embora porque eu me tornei bruto demais. E a culpa é toda minha”
“Olhe pra mim”
O salgueiro olhou, e se deparou com uma velha bruxa. A bruxa, assim como o salgueiro, possuía a pele áspera, ossos pontiagudos e um grande nariz, o que deixava sua expressão nada convidativa. E ele ficou confuso.
“Você parece comigo…” suspirou “Infelizmente isso não é uma coisa boa. Sem ofensas.”
A bruxa sorriu um sorriso amarelo. Em seu ombro, carregava uma bolsa e, dessa bolsa tirou um pequeno caldeirão. Com um feitiço, acendeu fogo embaixo do caldeirão, e logo começou a mexer com uma longa colher de pau.
Enquanto mexia, contou anedotas da sua terra, riu e fez o salgueiro rir com piadas, e se emocionou ao lembrar de quando se despediu de lá. Então explicou ao salgueiro tudo o que sua casca podia fazer, e como ajudava no tratamento de febre, dor de cabeça, reumatismo, artrite, artrose, gota, gripes, resfriados e nevralgia — seja lá o que isso quisesse dizer. E então o salgueiro entendeu como era especial. E sua casca ficou um pouco mais macia. Passaram a noite toda assim, e o salgueiro quase esqueceu da Lua.
Quando a manhã chegou, apenas um curandeiro aparecera. A bruxa o cumprimentou, e pediu.
“Oh, bom e nobre salgueiro, dono da casca mais macia, permite que eu retire um pedacinho para este humilde cidadão?”
O salgueiro assentiu. Quando a bruxa tocou seu tronco, sua casca se tornou macia, e ela entregou ao curandeiro, que sorria e agradecia.
Quando chegou ao meio-dia, apenas uma raposa apareceu na colina, arfando por conta do calor. Então, a bruxa disse:
“Oh, grande e belo salgueiro, permita que sua sombra nos livre desse calor!” E assim as folhas do salgueiro cresceram novamente. E a raposa se deitou, enrolada, agradecendo.
Quando a noite caía, a bruxa recolhera seu caldeirão e sua colher, e colocara a bolsa sobre o ombro.
“Já vai embora?” o salgueiro perguntou.
A bruxa sorriu novamente e disse: "algumas coisas são como são, e não há nada que possamos fazer. Mas o que é seu, sempre volta."
A grande árvore assentiu e a bruxa, como aparecera, desapareceu.
"Obrigado." sussurrou ele.
Por fim, o salgueiro, respirou fundo, tomou coragem e olhou para o céu.
A Lua sorria.
Notas finais
Esta história relaciona as fases da lua com as 5 fases do luto. Baseada em sentimentos e situações reais de forma leve e imaginativa.
Obrigadx pela leitura!
Fale com o autor