O Sacrifício da Sétima Lua
6 Sexto Capítulo: O Som da Chuva Sobre Nós
Notas iniciais
“O rouxinol não faz nada além de cantar para o nosso deleite. Não destrói jardins, não faz ninho nos milharais, ele só canta. Por isso é um pecado matar um rouxinol.”
— Harper Lee, O Sol é Para Todos.
***
A casa de Brianna sempre trazia lembranças nostálgicas a Julieta, principalmente o quarto dela. As duas com seis anos brincando de boneca naquele quarto enorme, e na época todo rosa e cheio de desenhos que elas faziam espalhados pela parede. Julieta desenhava pôneis, sereias e cachorros. Brianna desenha vestidos desde que aprendeu a rabiscar.
— Está me dizendo que rolou um clima entre vocês? — Brianna perguntou enquanto terminava de fechar sua bota.
Julieta estava contando sobre sua entrevista, mas especificamente sobre seu chefe.
— Não. — ela foi sucinta enquanto colocava uma jaqueta por cima da blusa rendada que usava. — Ele foi muito gentil. Até elogiou os seus brincos.
Brianna soltou uma risada enquanto se admirava no espelho.
— Eu deixo você usá-los na segunda-feira. — ela disse retocando o rímel.
Julieta não respondeu, apenas ficou arrumando sua bolsa em silêncio. Um silêncio que durou quase dois minutos. Desde que havia começado a se arrumar para a festa, Logan não saía da mente da mais nova jornalista do La Nación.
— Estou pronta. Vamos? — Brianna rompeu a quietude.
— Vamos. — Julieta assentiu e ligou para um táxi.
A possibilidade de serem descobertas pela abuela já nem passava mais pela cabeça de nenhuma das duas.
***
Antes de entrar na casa de Logan, Morgana olhou-se em seu espelho de bolsa e constatou que estava estonteante como sempre. Ajeitou o vestido vermelho e passou a mão pelos longos fios de cabelo que iam até o meio de suas costas, e então atravessou o portão que estava aberto. O longo jardim da casa Hausen estava florido naquele inverno seco típico do México. As árvores iluminadas com piscas-piscas coloridos e as mesas de bebida já estavam reviradas. Era cedo da noite e a casa estava começando a encher, mas ainda era possível distinguir uma pessoa de outra. Quando Morgana pisou na entrada da casa e olhou através da porta, o primeiro rosto que viu era o que queria passar a noite inteira sem ter que pôr os olhos.
— Genevieve. — Morgana disse com amargura.
A irmã de Logan não a olhou imediatamente, mas quando o fez soltou um sorriso sincero, aproximando-se da soleira da porta, a única coisa que as impedia de estar no mesmo cômodo.
— Boa noite, Morgana. — Genevieve a cumprimentou com doçura, ajeitando sua saia jeans com delicadeza.
Morgana a observou e depois olhou para o interior da casa.
— Onde está a sua namorada? — ela disse com aspereza.
Genevieve segurou uma risada e deu um passo a frente.
— Está procurando por Clarisse? — a loura perguntou se fazendo de desentendida. — Achei que só viesse aqui atrás do meu irmão.
Morgana cerrou os punhos e teve vontade de esmurrar as paredes.
— Não. Só quero saber por que você está aqui sendo irritante e insolente quando poderia estar com ela. — completou com desprezo.
Graciosamente, como tudo o que fazia, Genevieve riu.
— Clarisse está no banho. — ela disse. — Você tem razão, é melhor eu ir procurá-la.
Genevieve virou as costas e deu alguns passos em direção ao interior da casa, mas parou no meio antes que sumisse dentre os cômodos e olhou para trás. Morgana estava parada na soleira da porta, com os braços cruzados. Genevieve se reaproximou e disse olhando-a nos olhos.
— Seja bem vinda, Morgana. — e depois sumiu pela casa.
Brianna e Julieta desceram do táxi em frente à casa dos Hausen por volta das onze horas da noite. O tumulto da festa já poderia ser notado e ambas as irmãs estavam preenchidas de um sentimento diferente. Brianna estava animada, Julieta quase arrependida. Mas, com poucas palavras, as duas entraram na tal proibida casa.
O jardim estava cheio de pessoas, umas bebendo, outras dançando, algumas se beijando e outras deitadas na grama, olhando para o céu.
— Vou beber algo! — Brianna apressou-se em dizer e logo sumiu pela multidão.
Julieta mal teve tempo de balançar a cabeça e dizer “ok”. A jornalista andou pelo jardim e entrou na casa, o ambiente interior estava semelhante ao exterior. Muitas pessoas, muita bebida e uma música alta. Julieta andou pela casa, procurando um lugar mais quieto e uma jarra de água, estava morta de sede. Quando achou uma mesa com nachos, queijo e suco de morango, a garota aproveitou sem pensar duas vezes.
— Faz mais de seis horas que eu não como nada. — Julieta sussurrou para si mesma.
Enquanto enchia seu copo verde com suco rosa sentiu uma presença ao seu lado.
— Oi! — Genevieve a cumprimentou com seu tom animado e simpático.
Julieta sorriu tomando um gole do seu suco.
— Oi, sou a Julieta. — ela estirou a mão.
A anfitriã da festa a apertou.
— Sou a Genevieve. Meu irmão me disse que te convidaria. — ela comentou enquanto mergulhava um nacho no queijo.
Julieta inicialmente apenas assentiu.
— Ah, então é a irmã do Logan. — ela reafirmou. — Estão gostando de Mérida?
Genevieve engoliu o nacho e limpou a boca discretamente.
— Demais! — a garota loura afirmou. — Amamos o clima, a cultura e as pessoas são tão amigáveis.
Julieta sorriu por que simplesmente era impossível não sorrir com Genevieve.
— Você não vai acreditar em quem eu acabei de ver!
Brianna surgiu repentinamente ao lado de Julieta com uma garrafa de cerveja na mão.
— Espero que não seja abuela. — Julieta disse como se não se importasse e deu um gole na cerveja de sua irmã.
Brianna negou e antes de terminar de contar sua história viu Genevieve.
— Oi! — e calorosamente a garçonete fashionista deu dois beijos na bochecha da anfitriã da festa. — Estava louca para conhecer você. Genevieve, certo?
— Sim, eu mesma!
Julieta reparou que ambas possuíam o mesmo espírito energético, assisti-las conversar era como ver um filme dinâmico, daqueles que você assiste oitocentas vezes e nunca se cansa.
— Amei essa sua saia! E com esse top, então? — Brianna comentou analisando a roupa de Genevieve que caiu na gargalhada.
— Escolha da minha namorada, com certeza eu estaria perdida sem ela. — Genevieve admitiu.
— Duas pessoas com bom gosto por aqui, então. — Brianna piscou.
Julieta as assistia conversar até que desviou o olhar para a multidão e viu um rosto familiar.
— Brianna, aquela é a mulher que vimos no La Nación hoje? — Julieta atrapalhou a conversa das novas amigas no momento em que começavam a falar de joias.
Brianna estalou os dedos como se lembrasse de algo.
— Era isso que eu ia comentar. — ela disse tomando o último gole da sua cerveja. — Eu a vi rodando o jardim feito uma tonta.
Genevieve riu balançando a cabeça em desaprovação.
— Ela está procurando por Logan. — disse a irmã do rapaz e ao ouvir o nome do novo vizinho, Julieta esforçou-se para não esboçar nenhuma reação. — Mal sabe ela que ele sequer desceu ainda.
Brianna olhou Genevieve com malícia.
— Uh, que coisa, não? — Brianna riu.
— Hoje ela parecia bastante brava. — Julieta comentou.
Genevieve revirou os olhos.
— Morgana está sempre bastante brava. — ela disse tentando não respirar fundo com exasperação.
Um silêncio discreto pairou entre as três, como estivera calada quase a conversa inteira, Julieta apenas esgueirou-se e saiu andando entre as pessoas. A música alta agora tocava um hit brasileiro e as pessoas dançavam ainda mais animadas. Como poderiam conhecer tantas pessoas em tão pouco tempo na cidade?, Julieta pensou enquanto esbarrava nas pessoas pelo caminho, ao chegar ao lado de fora respirou o ar quente mexicano que tanto apreciava. Pegou uma garrafa de cerveja e sentou-se na grama. Relaxou. Fazia tanto tempo que simplesmente não bebia uma boa cerveja gelada e sentia-se em paz.
Sua paz acabou no sexto gole de cerveja. Julieta levantou-se, decidida a achar Brianna e suas novas amigas e chamá-las para dançar. Quando entrou na casa dos Hausen, ela o viu. Logan estava mais afastado da multidão, mais ao interior da casa e estava conversando com alguém. Julieta observou com afinco e viu Morgana. Ela está procurando por Logan, a voz de Genevieve foi relembrada na cabeça de Julieta que simplesmente deu alguns passos pra trás, decidida a achar sua irmã, mas não virou o rosto rápido o suficiente. Logan beijou Morgana.
Julieta, por reflexo, deu as costas e ficou parada no meio da sala, debaixo das luzes da festa. Apertou a garrafa de cerveja com os dedos e bebeu mais um gole. Não sabia o que estava sentindo. Nada se passava em sua mente naquele instante infame que seria guardado em sua memória. Respirou fundo e virou as costas de novo, os dois já não se beijavam mais e Logan a olhou no fundo dos olhos, arqueando as sobrancelhas sutilmente como quem se assusta, mas estava longe demais para dizer qualquer coisa. Então, ele apenas a olhou por segundos significativos enquanto Morgana estalava os dedos em seu rosto, tentando chamar sua atenção. Julieta deu um sorriso de lábios singelo e acenou como se o cumprimentasse, mas Logan apenas conseguiu balançar a cabeça em negação. Sem entender nada de si e nada da situação, Julieta seguiu procurando por sua irmã.
Andando novamente pela multidão, Julieta terminou sua garrafa de cerveja e no meio do caminho pegou outra, enquanto a abria viu um casal cumprimentando várias pessoas e tomando drinks coloridos. Devem ser os pais de Logan e Genevieve, pensou Julieta, eles são tão jovens. A jornalista achou sua irmã e Genevieve no mesmo lugar de antes, agora sentadas numa bancada do mesmo cômodo, com mais bebidas espalhadas e uma terceira garota numa calça vinho.
— Jules, você voltou! — Brianna gritou quando a viu.
Julieta ergueu sua garrafa em cumprimento.
— Voltei. — bebeu mais um gole.
— Essa é Clarisse, minha namorada. — Genevieve apresentou a terceira garota.
Clarisse sorriu e ajeitou seu cabelo cacheado.
— Julieta, certo? — ela perguntou.
— Eu mesma. — Julieta sorriu.
Elas ficaram imersas em um assunto aleatório atrás do outro, era como se fossem amigas desde o jardim de infância. Com tantas risadas, confissões e histórias embaraçosas, uma conexão que apenas a alma feminina em seu ápice consegue desenvolver, Julieta quase se esqueceu do momento desagradável que viveu minutos atrás.
— Hermanito! — Genevieve gritou quando Logan se aproximou.
Julieta bebeu um gole de sua cerveja e não tirou os olhos das meninas com quem falava.
— Olá, meninas. — ele disse com apreensão.
— Oi, vizinho gostoso demais pro meu paladar. — Brianna soltou sem inibição nenhuma.
Julieta não conseguiu segurar a risada.
— Olá, Brianna. Você está linda. — podia-se sentir a cortesia nas palavras de Logan.
Genevieve riu terminando sua garrafa e depois beijando a mão de Clarisse.
— Morgana achou você? — Genevieve perguntou com displicência.
Logan passou a mão pela barba e fechou o rosto.
— Sim. — foi sucinto e em seguida tocou no ombro de Julieta. — Posso falar com você?
Julieta terminou sua garrafa e a pôs na bancada.
— Claro. — ela disse com simplicidade e notou que já estava bêbada.
Logan, discretamente, a pegou pela mão fazendo-a tremer os dedos por um instante, era um toque gelado. Eles se afastaram da multidão, indo juntos até a cozinha da casa que estava vazia. Quando chegaram ao cômodo vazio, Logan fechou a porta e Julieta encostou-se na bancada, sentindo-se tonta, porém, tentando o máximo que podia manter seus olhos focados.
— Você está bêbada? — foi a primeira coisa que Logan disse a Julieta quando a olhou.
A garota revirou os olhos.
— Era isso que você queria me perguntar? — perguntou mal humorada.
Logan riu.
— Do que você está rindo? — Julieta irritou-se.
Ele parou e aproximou-se.
— Você é engraçada. — Logan encostou-se na bancada ao lado de Julieta.
Seus braços roçaram devagar.
— O que você quer? — Julieta perguntou com mansidão, sem virar-se para olhá-lo nos olhos.
Logan olhou para o chão.
— Não sei. — admitiu. — Para ser sincero queria um momento perto de você. Você me viu num momento bem, ah, como posso definir...
Julieta o interrompeu com uma risada debochada.
— Ótimo? — ela parou de rir. — Você estava beijando uma mulher bonita, não se faça de idiota, Logan.
Julieta não foi áspera sequer grosseira. Logan percebeu que seu nome em sua voz o fazia se sentir diferente.
— Você tem razão. — ele disse após um suspiro curto. — Ótimo.
Ambos começaram ouvir a tempestade cair do lado de fora.
— O que há de errado com essa cidade?! — Julieta irritou-se e foi até a janela. — Está chovendo neste mês mais do que se chove num ano inteiro!
Logan sorriu e cruzou os braços.
— São sinais cosmológicos. — ele disse enquanto Julieta afastava-se da janela. — Os eventos naturais estão tentando dizer alguma coisa, talvez.
Julieta negou voltando a aproximar-se.
— É só chuva. — ela disse e fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo e ouviu o som da chuva.
— Se bem que eu gosto do...
Abriu os olhos. Logan estava mais perto, mas não o suficiente. Ele tocou seu rosto com a mão direita e olhou-a com atenção.
— Morgana e eu nos conhecemos há tanto tempo. — Logan falou tão baixo que mal tinha certeza que ela pôde ouvi-lo. — É quase um costume...
— Beijá-la? — Julieta sussurrou.
Logan assentiu desviando o olhar.
— Não sei o que estou dizendo. — ele disse voltando a olhá-la nos olhos e afastou sua mão de seu rosto.
Julieta puxou o ar devagar e sentiu seu coração parar de bater. Logan aproximou-se mais conseguindo encostar as pontas de seus narizes. Julieta sentiu um impulso para se aproximar mais um milímetro de Logan, deixando seus lábios perto o suficiente para que não tocá-los fosse uma tortura infernal. E foi.
— Não me beije, Logan. — Julieta disse como se fosse uma súplica que nem mesmo ela sabia de onde tinha vindo.
Não queria aceitar que era medo. Logan a soltou e Julieta saiu da cozinha sem olhar para trás.
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