O Sacrifício
2 Parte II
Notas iniciais
O Sacrifício
Por SBFernanda
Parte II
A noite tinha sido passada em claro, dormir era uma regalia que Hinata não se sentia disposta a dar. Sua mente vagava por cada técnica que aprendera desde que era uma criança, por cada evolução que fazia dentro da Ordem e era observada pelos conselheiros. Mas o que mais lhe deixava sem paz era a alegria de seu pai em saber que dali a duas semanas ela iria morrer, provavelmente pelas mãos dele.
Sua mãe havia lhe visitado antes de ir deitar e as duas choraram abraçadas. Por mais que fizesse parte da Ordem e acreditasse nas coisas que cultuavam, Hikari não aceitava perder sua menina para o deus do fogo.
Hinata pensava nos amigos também enquanto encarava o teto do quarto. Naquele ano eles planejavam uma viagem em grupo para comemorar a formatura. Eles iriam, ela não. Ao pensar nisso seus pensamentos finalmente escaparam de seu controle e seguiram para Naruto. Um aperto se fez presente em seu peito.
Naruto era aquele que mais doeria em deixar para trás, logo após sua família. Ele sempre tinha sido o seu melhor amigo. Cresceram juntos e ela lhe ensinara muitas coisas sobre a magia e sobre o controle. Ela tinha ajudado Naruto a não perder o controle de sua sanidade e resposta a isso, ele se tornara o seu melhor amigo. Ela nem mesmo se lembrava quando começou a amá-lo e ser amada. Sempre foram um do outro. E agora não sabia como contaria a ele que seria esposa de outro. Seria a eterna esposa do deus do fogo.
Ela não poderia contar. Sentando-se na cama e secando as lágrimas rapidamente, decidiu. Ela não contaria a ninguém sobre o seu destino, mas também não seria a mesma Hinata. Ela tinha apenas duas semanas para ser quem quisesse, fazer as coisas que sempre quis fazer. Ela iria se despedir de seus amigos se divertindo com eles. Ela iria se despedir de Naruto transformando os últimos dias dos dois, nos melhores dias, para que quando ele se lembrasse dela um sorriso pudesse aparecer em seus lábios.
Levantou-se da cama, caminhando até o banheiro que tinha no quarto. A primeira mudança seria naquele mesmo instante. Uma coisa que seu pai sempre a impedira de fazer era cortar o cabelo. Segundo ele, aquele corte longo lhe dava uma aparência mais “pura” e não de alguém “comum”, que seguia a moda mundana.
Abriu a gaveta do armário do banheiro e de lá tirou a tesoura que sua mãe usava para aparar as pontas de seu cabelo. Forrou uma toalha na pia e penteou as longas madeixas, dividindo-as no meio. Deu uma última encarada em seu reflexo no espelho. Estava com o rosto inchado por conta do choro, mas tinha um olhar decidido. Ela não se arrependeria.
Mediu cuidadosamente o tamanho e então começou a cortar mecha por mecha do cabelo, que caía pouco a pouco sobre a toalha estendida. A parte da frente estava maior que a de trás, mas o cabelo inteiro apenas escondia seu pescoço. Um corte moderno. Um corte que se apaixonou assim que viu e desejou fazer. E após muitas medições, cuidado e penteadas, ela finalmente estava usando o cabelo do jeito que desejava.
O segundo passo seria sua roupa. Seu pai sempre lhe obrigara a usar roupas longas. Por mais que gostasse de algumas, sempre teve vontade de ter algo como suas amigas. Assim, partiu para o quarto novamente, abrindo o armário de roupas. Dali tirou uma saia. A tesoura ainda estava em sua mão. Não demorou para que vestisse a peça, marcasse a altura da coxa e a retirasse novamente. Assim que a peça estava fora do corpo, a cortou.
Aquela era a sua primeira saia acima do joelho. Por mais que quisesse mais roupas naquele estilo, era o que podia fazer para o dia seguinte que se aproximava. Assim, pegou uma blusa preta de manga curta que tinha no armário e jogou por cima da saia e voltou ao banheiro para tomar banho.
Por mais radical que Hinata quisesse ser, não conseguiria ser uma pessoa completamente diferente. Ela só queria matar seus desejos. Por isso, após o banho, ao fazer sua maquiagem apenas passou de diferente um batom dado por Ino, sua amiga, e guardado há muito tempo. Toda a maquiagem foi feita como sempre, de forma discreta e natural, mas sua boca estava em um vermelho sedutor, combinando com seu novo corte de cabelo.
Vestiu-se com cuidado, prestando atenção em como se sentiria com as pernas de fora. Uma sensação de liberdade a tomou quando se encarou com aquela saia solta e de pano leve. Suas pernas estavam à mostra e ela não queria mudar aquilo, por isso pegou um sapato de salto que usara poucas vezes. Se estava mesmo prestes a morrer, não havia motivos para evitar um sapato que gostara tanto.
No espelho, via uma nova Hinata. Ela estaria ali nas próximas semanas, apenas para se despedir, mas estava feliz de finalmente aparecer. Finalizando com o seu perfume habitual, checou a hora. Era cedo para o café e por isso mesmo era o horário perfeito para sair. Não queria uma discussão pela manhã. Era o primeiro de seus últimos dias.
Mandou uma mensagem para Naruto, pedindo que ele a encontrasse na lanchonete que Sakura trabalhava e saiu, levando consigo sua mochila da escola. Por onde passava os olhares a acompanhavam. Ela estava completamente diferente e gostou disso. De alguma forma, se libertar lhe deu uma nova confiança.
Quando Naruto entrou na lanchonete, apressado por ter se arrumado e saído de casa mais cedo do que estava habituado, não encontrou Hinata após passar o olhar pelo local. Tinha certeza que ela já teria chegado, por isso, ainda na porta, passou o olhar mais uma vez. Seus olhos foram na direção de Sakura, a quem pediria ajuda para encontrar a namorada, mas se assustou com o que viu.
Sakura ria abertamente, ainda de pé na frente de uma moça com cabelos escuros quase azulados, como os de Hinata. A moça usava uma saia curta e uma blusa que tinha certeza já ter visto Hinata usando. Era sexy, não podia negar, mas desviou o olhar antes que pensasse mais alguma coisa além daquilo. Qual foi sua surpresa quando viu seu rosto.
Sakura apontou para a porta e junto com o seu gesto a cabeça da mulher se voltou a sua direção. Quando os olhos do loiro encontraram os dela, ele resfolegou. Aquela era Hinata!
Completamente confuso, Naruto caminhou em direção a mesa, vendo Sakura rir de sua cara e se afastar a cada passo que ele dava para mais perto. Ao chegar, simplesmente se jogou na cadeira de frente para Hinata e ficou a observando.
— Tão ruim assim? — ela perguntou, a voz baixa e sem graça. A mesma Hinata de sempre.
— Ruim? — Naruto deu uma risada nervosa. — Por todos os deuses, Hinata, você está muito sexy! Não sei como isso seria ruim a não ser para o meu autocontrole.
Ela abaixou os olhos, mas o sorriso em seu rosto mostrou que gostou do que ele dissera. Naruto não entendia o que tinha acontecido. O que mudara na noite anterior? Seria essa mais uma reação ao halo da lua?
— Mas me conte o motivo dessa mudança. — Ele pegou um cookie do prato da namorada.
— Digamos que eu cansei de não ser quem eu quero. Refleti bastante ontem e decidi que a partir de agora eu vou ser assim e se alguém não gostar é porque gosta apenas de uma parte de mim.
— Uau! — Naruto soltou e então riu. — Eu achei isso demais! Imagino até onde isso não vai... Roupas, cabelo. O seu cabelo está lindo, eu esqueci de dizer.
— Você gostou? Eu sempre quis fazer esse corte. Bem, não sempre, mas desde que o vi...
— Você está linda. Linda e sexy. E eu sou quero lhe beijar.
— Por que não o faz?
A fala de Hinata o pegou de surpresa mais uma vez. Eles não se beijavam em público. Às vezes até mesmo evitavam andar abraçados na rua. Mas se ela queria aquela mudança ele não negaria. Levantando-se, Naruto se sentou ao lado dela, que lhe virou o rosto em sua direção. Colou os lábios nos dela com carinho e, imediatamente, a moça entreabriu os próprios para ele. Um beijo que davam apenas quando estavam sozinhos e já há muito se segurando.
A mudança em Hinata surpreendeu cada um dos amigos quando ela apareceu na escola. Fez Ino gritar de euforia e Sakura gargalhar a cada careta dos meninos. Elas fizeram compras. Poucas roupas, apenas o suficiente para Hinata usar naqueles poucos dias pela frente.
A surpresa maior era em Naruto, que agora recebia beijos constantes, sentia-a sentada em seu colo quando todos estavam por perto e recebia constantes carinhos sem medo de serem vistos. Andavam na rua abraçados e não apenas de mãos dadas. Eram mudanças simples, mas que mostravam a ele o que sempre pensara: ela tinha se contido por conta dos pais.
As mudanças trouxeram uma desconfiança ao Namikaze, mas ele esperou. Não a colocaria contra a parede até que ela se sentisse a vontade com seu novo “eu”, pois sabia que aquela era a real Hinata. E ele viu que conseguia amá-la ainda mais daquela forma. Tudo porque se sentia mais livre para mostrar-lhe melhor os seus sentimentos.
Apenas no final do dia, quando não havia outra saída a não ser voltar para casa, que Hinata pediu que Naruto não a acompanhasse. Ela explicou que seria a primeira vez que seus pais a veriam daquela forma e queria evitar que em um momento de raiva acabassem descontando nele. Mas a verdade é que ela não queria que ele ouvisse algo que lhe escondia.
Quando cruzou a porta de entrada, seu pai apareceu. Os braços estavam cruzados e sua expressão era uma mistura de decepção e raiva.
— O que pensa que está fazendo se vestindo assim? Agindo assim? Acha mesmo que fará o deus do fogo desistir de você? Nem mesmo em duas semanas pode mudar algo que já foi decidido.
— Estou pouco ligando para este deus. — Foi sincera enquanto passava por seu pai. Ela caminhou para as escadas, pronta para ir para o quarto com suas compras.
— Hinata! O que pensa que está fazendo? Em poucos dias ele será o seu esposo!
— Meu namorado é Naruto Namikaze. Eu o amo desde que sou uma menina e não será a decisão de um deus que irá mudar isso.
— Isso tudo é por causa daquele garoto? Ele é uma vergonha para seu falecido pai. Não tem controle nenhum sobre si e seus poderes.
— Naruto tem crescido mais do que qualquer outro dentro da Ordem. Duvida disso, papai? Pergunte aos conselheiros. Ele será um grande homem. — Por fim ela suspirou. — E eu espero que algum dia ele encontre uma grande mulher para estar ao lado dele no que o destino o reserva. Meu destino está selado e eu o aceitei, mas não irei morrer sem fazer as coisas que sempre quis.
— Se vestir como uma mundana?
— Eu sou uma mundana, papai. O senhor também é. O senhor sempre será, mas em breve eu não. Então irei aproveitar meus últimos dias de mundana. Caso o senhor tenha algo contra, creio que o deus do fogo não ficará feliz se sua esposa sumir antes do sacrifício.
— Está me ameaçando?
— Avisando. Tenha uma boa noite. — Dizendo aquilo a moça virou-se e continuou a subir as escadas.
Tinha certeza que seu pai não fazia aquilo por mal. Ele era apenas um homem que acreditava fielmente no Sacrifício e na Ordem. Até pouco tempo ela desejava ser assim. Não mais. Agora tudo o que queria era tomar um banho e dormir, pois no dia seguinte ela iria se divertir.
Todos os dias que se seguiram, Hinata se divertiu. Ela avisava quando não ia almoçar em casa — o que começou a ser frequente — e quando chegaria atrasada para o jantar. Seu pai não mais a pressionou, sabendo que ela estava apenas aproveitando, a seu próprio modo, os seus últimos dias com os amigos.
Diversas vezes algum membro da família Hyuuga ia até ele para dizer onde vira Hinata e o que a vira fazendo. Beijos com o namorado, abraços no meio da rua, risadas altas com os amigos no parque. Tudo o que ela se privava em fazer até dias antes, pois sabia que não era aprovado pelos membros da família e da Ordem. Esse era também um dos motivos de Naruto não ser bem visto. Ele falava alto naturalmente. Era desastrado e escandaloso. Por mais que tentasse se conter, a personalidade reclusa não combinava com ele.
Em um dia, Hinata se permitiu visitar, depois de muitos meses, a casa de Kushina. Tinha ido lá apenas algumas vezes antes de seu pai descobrir e lhe proibir. Segundo ele, Kushina era uma má influência para o treinamento de Naruto e seria para ela. Sem contar ao namorado o que seu pai dissera, ela começou a negar, até o loiro finalmente entender e não mais a chamar.
Com a mudança de Hinata, ele tentou o convite e este foi aceito de imediato. Era um fim de semana, o penúltimo antes de seu sacrifício. Ela já havia realizado alguns dos seus mais secretos desejos, coisas que eram comuns para muitas pessoas e pra ela tiveram um sabor incrível. Visitar a mãe de Naruto era mais um deles.
Ao chegar à casa do loiro, Hinata era mais uma vez a menina extremamente tímida, uma timidez que conseguira deixar de lado pouco a pouco com ele naqueles dias. Estava nervosa e com medo de Kushina ter pensado mal dela durante aquele tempo. Porém, não podia estar mais errada.
Ao ver a entrando na cozinha junto com seu filho, a ruiva soltou a colher da panela que mexia e caminhou apressada até ela.
— Hinata, minha querida! Como você está? Nossa, como está diferente e linda! — dizia enquanto a abraçava.
— É muito bom revê-la, Kushina. — Esperava que ainda pudesse chamar a mulher apenas pelo nome, como esta pedira uma vez. — Também está linda, como sempre.
— É gentileza sua. Estou é cada vez mais velha. Esse meu filho só sabe me deixar preocupada — ela falou, dando uma cotovelada em Naruto, que riu.
— Que mentira! Chego em casa assim que deixo a Hinata na dela.
— Sim, mas fica falando sobre aquela Ordem que eu não entendo nada e não gosto. — Parecendo perceber o que tinha dito, Kushina virou-se preocupada para Hinata: — Digo... Me desculpe, querida. Sei que sua família e você são todos de lá e devem compreender e gostar. Sou uma mulher comum que não sabe de nada.
— Imagine. A senhora sabe mais do que todos nós. — As palavras de Hinata eram sinceras. Ela segurou as mãos da mulher e apertou. Por sorte Naruto estaria seguro, ou assim imaginava.
Porém, o loiro observava aquilo com curiosidade. Hinata sempre fora muito “devota” à Ordem e aos costumes. O último ela havia negligenciado, dizendo querer ser mais como ela mesma, mas o que a fizera concordar com sua mãe? O que a moça sabia que ele não? A curiosidade pulsou dentro de Naruto e ele sabia, de alguma forma, que ela não lhe contaria.
— Naruto! — chamou a mãe — Vai arrumando a mesa enquanto termino a comida. Vai almoçar conosco, não é, Hinata?
— Se não for incomodo...
— Imagina!
Kushina voltou a cozinhar enquanto tagarelava sobre a casa, sobre ela e, principalmente, sobre Naruto. Hinata fazia comentários uma vez ou outra, mas ria a todo instante das histórias da mais velha sobre o filho e o falecido marido. Kushina ainda sentia falta dele, isso era claro em seu olhar, mas as lembranças boas haviam tomado a frente da dor. Esperava que Naruto se lembrasse dela assim.
O loiro, por outro lado, gritava como uma criança birrenta sempre que uma história sobre si era contada, ou ao menos quando era incrivelmente embaraçosa. Aquilo fazia Hinata rir ainda mais e Kushina a acompanhava, tampando a boca do filho para continuar a falar.
Foi uma das tardes mais divertidas de Hinata. O clima leve fez com que ela se sentisse parte dali. Por mais distante que Naruto tivesse ficado em alguns momentos do dia, ela estava ao seu lado e daquela mulher forte e maravilhosa que era Kushina. Se algum dia fosse mãe, esperava ser uma mistura da sua e da ruiva.
No final da tarde ela pediu licença para ir cuidar de seu jardim e os dois jovens ficaram sozinhos dentro da casa. No mesmo instante Hinata o beijou, de forma carinhosa e tímida, mas que fez com que Naruto reagisse imediatamente.
Segurando-lhe na nuca, ele aprofundou o beijo e sabia que ela não fugiria. Nos últimos dias Hinata nunca fugia e eles só paravam quando necessitavam de ar. Naquele momento não estava sendo diferente, até que ele a sentiu em seu colo.
No mesmo instante Naruto abriu os olhos, ainda sem parar de beijá-la e viu que Hinata estava completamente entregue ao beijo. Seus braços estavam ao redor do rapaz, o corpo junto ao dele e a expressão tão serena como se tivesse se reencontrado. Por mais que algo dentro de si dissesse que deveria parar naquele instante, não conseguiu.
As mãos de Naruto seguiram para a cintura de Hinata, apertando-a ali e fazendo com que colasse ainda mais o corpo ao seu. Sem dúvidas ela o sentia agora embaixo de si e parecia não se importar com isso. Impulsionado por esse pensamento ele arriscou colocar a mão sobre a blusa dela, ainda em sua cintura e no mesmo instante sentiu a Hyuuga estremecer, mas não se afastar.
Subiu lentamente a mão esquerda até abaixo dos seios dela, ainda na lateral de seu corpo e Hinata gemeu baixinho contra seus lábios. A pele dela estava quente. Hinata estava quente, inclusive com sua língua passando pela dele de forma sedutora. Mas quando ela rebolou em cima dele, sentindo perfeitamente o que estava fazendo, os dois se afastaram ao mesmo tempo.
Hinata só conseguia pensar se realmente queria aquilo. Ela não queria ser a esposa do deus do fogo sem nunca ter sido a mulher de Naruto, isso era algo que pensara desde o primeiro momento que soube daquilo. Mas ela realmente estava pronta ou era apenas desespero? Precisaria pensar.
Naruto, por outro lado, por mais que quisesse só conseguia pensar se era certo. Hinata era uma moça de família. Ele também nunca havia estado com ninguém, já que os dois namoravam desde a adolescência. Era mesmo certo?
Como um fantasma, o pensamento de que algo estava errado com Hinata e que ela estava escondendo algo voltou. Algo a impulsionava a aquilo e ele tinha de descobrir antes de fazer algo que ela poderia vir a se arrepender.
Hinata saiu do colo de Naruto e os dois se desculparam ao mesmo tempo, rindo logo em seguida. Ela avisou que precisava ir e foi se despedir de Kushina. Naruto a levou em casa, conversando com ela naturalmente, ainda que seus pensamentos seguissem com indagações.
Após vários minutos em frente à casa Hyuuga, finalmente Naruto a deixou entrar e seguiu seu caminho. Mas em vez de voltar para casa como sempre, ele seguiu na direção de uma casa que há muito não visitava.
Seu treinamento com a Ordem era espaçado agora, pois seu padrinho alegara que durante a preparação para o sacrifício não poderia ajudá-lo. Mesmo assim, quando apareceu na porta deste, os guardas que ali tinham o cumprimentaram e permitiram sua entrada sem contestar.
A casa do ancião não era grande como da grande maioria dos conselheiros. Jiraya gostava da simplicidade de sua casa. Apesar disso, era um local extremamente arrumado e sério. Quem o visse imaginaria que o homem era assim também, mas a verdade é que ele era o maior influenciador na personalidade forte e jovial de Naruto.
Como sempre, Jiraya estava em seu escritório. Um lugar com grandes prateleiras de livros e uma escrivaninha que continha o que o homem mais gostava: suas pesquisas pessoais. Após duas batidas na porta, Naruto entrou sem esperar uma resposta.
— Onde foi parar a educação que sei que Kushina lhe deu, moleque? — esbravejou o homem, fechando o notebook que usava.
— O que tenho para falar com você é muito urgente. — Ao olhar para Naruto, Jiraya soube que desta vez ele não exagerava.
— O que aconteceu?
— Eu pergunto isso. Na última reunião para o sacrifício... O que a família Hyuuga precisa fazer?
Naruto percebeu que fez a pergunta certa quando Jiraya desviou os olhos dos seus, mostrando-se muito desconfortável.
— Não tenho permissão para falar sobre isso.
— Você não tinha permissão para me dizer nem metade do que sei e isso não o impediu. — Com um suspiro, Naruto se sentou na cadeira de frente para o padrinho. — Hinata estava como sempre foi até aquele dia. Não estou reclamando da mudança, porque ela finalmente está sendo ela mesma, como sempre quis. Mas Jiraya, preciso saber por que ela resolveu ser assim agora, de uma hora para a outra. Sei que tem a ver com a função de sua família no sacrifício. Ela... — Naruto suspirou mais uma vez, passando a mão pelo cabelo de uma forma frustrada. — Ela concordou com a minha mãe que a Ordem não presta. Tem alguma coisa aí!
— Naruto, entenda, se descobrirem que eu lhe disse algo, as coisas ficarão feias para nós dois. Com deus ou sem deus — Jiraya começou. Ele, assim como Naruto, acreditava que o deus existia, mas dificilmente se meteria na vida das pessoas sem que elas quisessem. —, nós devemos respeitar a Ordem.
— Então não me conte tudo. Me conte o mais simples. O que vai acontecer neste sacrifício? Me dê alguns livros. Finja que eu peguei sem que soubesse. Mas me ajude!
Por alguns segundos o ancião ficou olhando para o afilhado. Ele não concordava com o que aconteceria e sabia, assim como soubera que Minato ficaria com Kushina mesmo ela sendo sua sentença de morte, que Naruto nunca seria o mesmo sem Hinata.
— Eu já deveria ter lhe contato o que se trata o sacrifício. Mas antes... — Ele se interrompeu e caminhou até uma das prateleiras, pegando de lá um velho livro de capa escura e desbotada. Ao voltar à mesa, entregou ao loiro. — Todas as dúvidas que tiver após essa conversa, poderá encontrar aí. Não me pergunte nada, não poderei falar nada.
“Você sabe que o sacrifício é feito ao deus do fogo como uma forma de agradecimento e de pagamento pelos nossos poderes, que foram ganhados por nossos antepassados na fundação da vila. Lhe expliquei isso há muitos anos. Porém, até que fosse maior de idade perante a Ordem, eu não tinha autorização para lhe dizer do que se tratava o sacrifício.”
O velho trocou de posição na cadeira, mostrando-se extremamente desconfortável. A cada vez que via essas reações do padrinho, Naruto tinha mais certeza que não gostaria do que ouviria.
— Todo o ano, segundo o Conselheiro da Orden Han’ei, o deus do fogo escolhe uma nova esposa para garantir a fidelidade do nosso povo. Ela irá zelar durante todo o ano pelas pessoas de sua vila, garantindo que o deus não se esqueça de sua promessa. Segundo eles, ela será nossa salvação até o próximo ano. O sacrifício de todos os anos é essa esposa. Ela deve ser uma jovem de nossa vila, de 17 anos e criada dentro dos costumes, de modo a ser a esposa perfeita ao deus. Escolhida por ele, esta moça será entregue a ele.
Naruto estava horrorizado. Por mais que as palavras amenizassem o que de fato aconteceria, ele tinha completa certeza que eles, todos os anos, matavam jovens das famílias da Ordem. Meninas inocentes, criadas como perfeitas obras primas e orgulho da seita apenas para depois serem mortas a um deus que ninguém via.
Ele demorou algum tempo até juntar as peças. Os Hyuuga estavam responsáveis pela organização do sacrifício; Hinata mudara muito desde a noite da reunião com os pais; eles precisavam de uma jovem que fora criada para ser perfeita a um deus e tivesse 17 anos...
— NÃO! — Naruto berrou, ficando de pé tão rápido que fez a cadeira cair. — NÃO PODEM MATÁ-LA. JIRAYA!
— Cale a boca, Naruto! — O ancião ficou nervoso. — Se alguém lhe ouve, as coisas se complicarão para todos.
— Eu não posso permitir! Por favor, Jiraya, me ajude!
— Leia a droga do livro, moleque. Neste momento estou de mãos atadas. Nem mesmo de minha casa posso sair. Se descobrirem que você veio aqui...
— Eles sabem que eu faria algo — murmurou, soltando um suspiro. — Obrigado, Jiraya. Eu vou salvá-la. Fique tranquilo, ninguém vai saber que me ajudou.
— Os guardas lhe viram...
— Por isso mesmo. Me desculpe... — ele sussurrou antes de bater a pesada luminária de Jiraya na cabeça dele e sair correndo da casa, atraindo o olhar confuso dos guardas. Se tudo desse certo, ele seria o único acusado de traição ao deus, mas pouco se importava. Ele descobriria uma forma de salvar Hinata.
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