O Sacrifício da Sétima Lua

7 Sétimo Capítulo: A Queda do Véu


Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos!

"Quando eu era criança costumava rezar: "Deus, faça de mim uma bruxa".

— Nicole Kidman

***

Morgana estava do lado de fora da casa encostada no portão enquanto fumava um cigarro. Odiava fumar tanto quanto odiava crianças e filhotinhos de cachorro. Morgana não tinha certeza se seu coração podre e longevo ainda era capaz de bater simbolicamente por algo. Apagou o cigarro e o jogou no chão, proteger o meio-ambiente também nunca foi do agrado de Morgana.

— Não jogue lixo no meu portão. — a voz de Genevieve invadiu os ouvidos de Morgana.

Sem sequer olhar para trás, ela pisou com afinco no cigarro no chão espremendo-o com o seu salto alto elegante. Então, Morgana olhou Genevieve nos olhos, olhos cor de mel que quase tinham voz e com vontade própria poderiam contar centenas de histórias.

— Sai daqui e me deixa em paz. — Morgana foi ríspida e encostou-se novamente no portão.

Genevieve suspirou e aproximou-se.

— Meu irmão não gosta de você, Morgana. — a anfitriã da festa afirmou com pesar na voz. — Você não gosta do meu irmão também. Quando você vai perceber que tudo isso é...

— Uma obsessão que se tornou uma perseguição? — Morgana a interrompeu com as mesmas palavras que sabia que ela diria. — Eu estou cansada desse seu discurso idiota cheio de ressentimento.

Genevieve deu os ombros como se não se importasse e aproximou-se de Morgana em dois passos. Ambas se olharam com expressões totalmente diferentes. Morgana emanava revolta, sem ódio, apenas totalmente contrariada. Genevieve, como sempre, estava serena e segura.

— Viverá mais um século desta maneira? — a loura sussurrou.

Morgana rangeu os dentes.

— Você parou no tempo, Vieve. — ela disse com acidez como se cuspisse um veneno. — Eu não.

Morgana desencostou-se do portão e antes de retornar para a festa, esbarrou propositalmente no corpo de Genevieve que soltou uma risada incrédula e esfregou o couro cabeludo. Quando foi em direção ao portão, alguém o atravessava com a rapidez de um raio.

— Julieta! — Genevieve exclamou quando viu sua vizinha começar a seguir pela rua.

Julieta virou-se e olhou Genevieve, seu rosto estava tenso assim como seu corpo inteiro, como se não pudesse relaxá-lo

— Avise à Brianna que peguei um táxi e a espero em casa. — Julieta pediu com urgência enquanto discava algo no celular.

Genevieve a olhou com desconfiança.

— Está...

— Sim. — Julieta cortou-a enquanto colocava o celular no bolso da calça. — Tudo às mil maravilhas.

Sem mais delongas Genevieve voltou para sua festa que até o momento estava estressante o bastante.

***

O sábado amanheceu morno. Julieta despertou no susto ao ouvir um pássaro se chocar contra a janela. A jornalista dormiu no carpete da sala, usando uma manta fina de cobertor e uma almofada de travesseiro. Sentou-se no chão e esfregou os olhos, as primeiras memórias da noite anterior começavam a aparecer.

Brianna chegou em casa alguns minutos após Julieta. No momento que a garçonete percebeu que sua irmã havia ido embora, não hesitou em fazer o mesmo, mas quando chegou a casa Julieta já dormia no chão. Ou pelo menos fingia. Brianna observou a irmã por alguns segundos adormecida e depois foi ao seu quarto para também dormir e quando Julieta ouviu a porta do segundo andar bater, remexeu-se no chão e sentou-se. Levou mais de três horas para cair no sono.

— Bom dia. — a voz de Brianna descia as escadas.

Era sábado e Brianna se dava o luxo de acordar às oito. Julieta deu um sorriso de lábios, não podendo disfarçar suas feições exaustas. Brianna caminhou amarrando seu roupão verde água fino e sentou-se na poltrona da sala.

— Não precisa contar se não quiser. — ela foi sucinta e Julieta levantou o olhar.

— Contar o que? ­— a jornalista perguntou enquanto se levantava e dobrava a manta.

Brianna revirou os olhos e levantou da poltrona.

— Você foi embora sem dizer nada ontem. — ela começou. — Logo depois de ter saído com o Logan. O que ele fez com você?

Julieta negou e logo se sentou no sofá.

— Nada aconteceu. Foi só um mal estar. — ela se limitou a dizer.

Brianna observou sua irmã e assentiu.

— Vai tomar um banho. — ela disse. — Vou fazer café e procurar as geleias.

E assim Brianna saiu devagar da sala e Julieta seguiu para o banho. Naquela manhã as irmãs tomaram café juntas e conversaram banalidades, ignorando as estranhezas da noite anterior. Após isso, retornaram à casa de Julieta e com mentiras combinadas falaram sobre os bons filmes de terror que assistiram durante a madrugada, abuela ouviu tudo em silêncio e com o olhar cheio de ceticismo, depois saiu da casa sem dizer aonde ia.

Alma passou alguns dias com aquele comportamento estranho como se soubesse que Brianna e Julieta haviam mentido, mas não disse nada. Semanas se passaram após a festa e a rotina nova de Julieta estava quase normal. Acordar cedo, ir trabalhar: agora ela escrevia colunas sobre a história de Mérida. Colunas que se tornaram conhecidas e queridas. Almoçar no Santiago, retornar para mais algumas horas de trabalho, retornar à sua casa para ler e experimentar os novos doces de sua mãe. E nunca, nunca, sequer esbarrar com Logan. Julieta pensava no seu vizinho algumas vezes por dia sem imaginar que ele fazia o mesmo, talvez com mais frequencia, mas ele não era o único.

— Olá, Julieta.

Murillo se aproximou da mesa de Julieta que ficava bem em frente a uma longa janela que naquele dia refletia a forte luz do sol.

— Os violinos não fazem nada além de nos proporcionar sons encantados. Eles não são armas de crime e não são usados para acertar a cabeça de alguém, sequer ­desafinam nos momentos mais cruciais! Por isso é um pecado não apreciá-los com carinho. — Julieta dissertou melodicamente enquanto teclava o último parágrafo de sua coluna em seu computador e depois levantou o olhar até Murillo. — Bom dia, Murillo.

O chefe sorriu e discretamente ajeitou o paletó.

— É sobre a Orquestra Sinfônica? — ele olhou discretamente para a tela do computador.

Julieta assentiu enquanto salvava a coluna.

— É uma releitura de uma das passagens mais lindas de Matar un Ruiseñor. — Murillo observou. — Encantador.

— Eu li na adolescência. — Julieta sorriu. — É o...

— Tem um ótimo gostou então. — Murillo pontuou interrompendo-a. — Vim fazer um convite.

Julieta franziu as sobrancelhas enquanto arrumava sua bolsa.

— Posso saber mais sobre isso? — e ela sorriu.

Talvez sem nem mesmo saber que estava usando de todo seu charme possível, Julieta levantou-se e tirou sua jaqueta, ajeitando-a em sua cadeira.

— Vamos almoçar. — Murillo disse mexendo no nó da gravata. — Juntos.

Julieta soltou uma risada, não como quem debocha, mas como quem se diverte.

— Já esteve na melhor lanchonete da cidade? — ela perguntou.

Murillo sorriu.

— Receio que não.

— Gosta de burritos? Ou de nachos com queijo? — Julieta questionou com um sorriso nos lábios.

— Com certeza sim. — o chefe afirmou.

Julieta assentiu.

— Eu dirijo então. — Julieta disse e foi em direção ao elevador.

Soltando um suspiro discreto, Murillo a seguiu.

***

Mesa cinco, no balcão!

A voz estridente de Raquel soou altamente pela lanchonete enquanto tocava a campainha incômoda. Brianna respirou fundo, pela terceira vez no final daquela manhã e terminou de anotar o pedido da mesa que atendia. Arrancou a folha do pedido e enfiou o bloco de notas e a caneta dentro do bolso do avental, em passos apressados chegou até o balcão e colocou o novo pedido sobre ele, pegou a bandeja da mesa cinco e serviu-a.

O movimento naquela quinta feira estava mais ameno que na quarta anterior e mais ameno que na sexta seguinte estaria. Após servir mesa seis e nove, Brianna tomou um suco de maracujá e sentou-se na cozinha.

O movimento na hora do almoço era quase nulo. As pessoas escolhiam restaurante com grandes refeições para almoçar, então as lanchonetes tinham seu momento de descanso e prejuízo. A única pessoa que frequentemente almoçava no Santiago era Julieta. Assim que terminou seu suco, Brianna ouviu o sino da porta de entrada da lanchonete soar, então se levantou, mas sem andar de imediato. Brianna segurou-se na parede durante alguns segundos e uma forte dor de cabeça a acometeu, mas na mesma velocidade que veio o mal estar se foi.

Brianna respirou fundo e apertou o rabo de cavalo, ignorando o ocorrido. Foi até o salão e o primeiro rosto que viu foi um totalmente desconhecido, logo depois viu as feições bonitas de sua irmã.

— Olá. — a garçonete sorriu enquanto se aproximava.

— Oi, Anna. — Julieta sorriu. — Esse é Murillo, meu chefe e meu amigo. E Murillo, essa é Brianna, minha irmã.

Brianna assentiu para o homem sentado à mesa e sorriu com os lábios.

— Olá, Brianna. — ele sorriu de volta.

— Oi, Murillo. É um prazer. — e apertaram as mãos.

Foi um primeiro segundo esquisito para os dois e o próximo mais ainda: Brianna revirou os olhos e suas pernas tornaram-se borracha, sem consistência alguma. Caiu desacordada.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.