O Sacrifício da Sétima Lua

1 Prólogo: Lar é Onde o Coração Está


Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos! ♥

“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.”

— Cecília Meirelles.

***

E então eu concluí que estava frio.

Dia dezessete de setembro, Universidade de Cambridge, em Londres. Eu estava parada em frente ao primeiro prédio da faculdade – que a fazia parecer bem menor do que era de verdade – apenas o observando. Afaguei meus braços com força tentando fazer meu corpo esquentar o máximo possível. Deslizei minha mão direita para dentro do bolso do casaco fechado, peguei meu celular e me certifiquei que a temperatura estava quase negativa. Então, fiquei parada em frente ao prédio, com as mãos roçando dentro do bolso do casaco, e os cabelos flutuando um pouco no ar por conta do vento frio.

Eu me sentia feliz por ser o meu último dia na faculdade. Eu estava grata, na verdade. Consegui finalizar meu curso de jornalismo com êxito enfim me sentindo completamente capacitada e tive uma experiência maravilhosa morando fora do meu país natal – o México. Aprendi coisas que eu não poderia ser ensinada em sala de aula, o que significa perder a virgindade com um cara dois anos mais velho; tomar meu primeiro porre que me fez vomitar até o que eu não tinha comido ainda; e quase fazer uma tatuagem, mas isso fica para a próxima. Mas enfim, acima de todas essas descobertas inapropriadas, porém realizadas, eu sentia saudades de casa. A festa de despedida dos formandos foi maravilhosa, me lembro de prometer que mandaria mensagens para alguns colegas e que não os esqueceria, mas provavelmente não ia perder meu tempo com isso. E iria esquecê-los. A última pessoa que eu vi antes de me encontrar totalmente sozinha foi uma menina simpática de cabelos dourados, seu nome se eu não me engano era Lílian Katarina e cursava letras, graduou-se junto comigo.

Mas agora eu estava sozinha e pronta para ir para casa. Despertada dos meus devaneios, quase pulei de susto quando um táxi branco parou bem à minha frente, buzinando um pouco alto. Assenti e puxei minha mala azul escuro que estava ao meu lado, arrastei-a comigo pela calçada, abri a porta traseira do carro e entrei. O motorista virou para mim, com um sorriso gentil.

— Bom dia, senhorita. — ele sorria.

— Olá. — mandei um sorriso pequeno de volta. — Para o Aeroporto Internacional, por favor.

O motorista assentiu e seguimos viagem. Fechei a janela devagar e pus mais um moletom por cima do casaco. Olhei através da janela, o céu estava cada vez mais cinzento, parecia que ia chover.

***

Cheguei ao aeroporto com alguns minutos de atraso, fiz meu check-in às pressas e larguei a minha mala para despache e em passos apressados, caminhei até o portão de embarque. No mesmo instante que cheguei, meu voo foi chamado.

— Voo 10025, com destino a México, Yucatán, cidade de Mérida.

Uma voz robotizada soou por todo o aeroporto. Peguei minha bagagem de mão e segui em fila para entrar no avião. Olhei lá fora – através da grande janela de vidro que nos permitia ver a pista de aterrissagem e decolagem dos aviões – o céu estava cada vez mais nebuloso, carregado e escuro. O céu parecia querer explodir em água, a tempestade que viria dali a algumas horas seria tenebrosa.

Embarquei no avião e encontrei meu assento. Através da minúscula janela ao meu lado, eu ainda observava o céu fechado e agora podia ver flashes prateados nele, raios. Pensei por um instante se o voo seria cancelado, mas não houve mudança alguma, iríamos decolar mesmo com a tempestade que viria. Isso me deu um leve gelo na barriga, minhas mãos suaram um pouco, mas respirei fundo e me concentrei num ponto qualquer do avião.

— Por favor, senhores passageiros afivelem seus cintos de segurança, desliguem os celulares, iremos decolar em instantes.

A voz de uma aeromoça soou e então eu apertei meu cinto com toda a força que eu podia e por mais que eu estive com um pouco de medo daquela situação, eu tive uma boa sensação ao lembrar que estava voltando pra casa. Tive um pressentimento bom, uma calmaria instantânea. Nesse instante, a chuva despencou, e para a minha surpresa era uma chuva fina e com certeza gelada. O avião começou a correr pela pista, pronto para erguer voo. Voltei para casa junto com a água que voltava para terra firme.

***

Após uma viagem aérea de longas horas, eu finalmente aterrissei em Mérida, no meu amado país do México. Mérida é a cidade mais linda que eu já vi, sendo a capital de Yucatán consequentemente possui uma herança muito rica da misteriosa civilização Maia – sendo, sobretudo, uma cidade com fortes vestígios coloniais hispânicos. Conhecida também como la ciudad blanca, por conta da cor branca dos edifícios erguidos pelos espanhóis sobre as ruínas dos templos Maias, ou por causa da sua arquitetura modesta na qual é comum o uso de material esbranquiçado – como a pedra de calcário. No fundo, não se sabe a verdade. Mérida possui museus, galerias de arte, centros culturais, e também há a modernidade com shoppings, cinemas e hotéis. Não sei como fiquei tanto tempo longe de casa.

Felizmente minha volta, acontecendo precisamente no dia catorze de fevereiro – uma quinta feira –, coincide com a primeira apresentação da Orquestra Sinfônica de Yucatán no ano. Esse concerto é definitivamente uma das minhas coisas preferidas sobre a cidade. Mas, ao contrário de minha mãe, eu não tenho a essência cultural que Mérida tanto externa, mamãe sempre diz que sou moderna demais. Acontece que o semblante de cidade pequena nunca combinou muito comigo.

A família García, a da minha mãe, sempre foi muito devota a todas as tradições Maias que são tão expressivas em Mérida. Eu sempre fui mais como meu pai, sendo mais distante de tudo. Sou cética demais para o meu próprio bem. Aliás, toda a ideia de Deus nunca me conquistou muito.

Meus pais se separaram quando eu tinha catorze anos e meu pai, Tomás, contou à minha mãe, Constância, que ele tinha sentimentos por outro homem. Foi uma época terrível, meu pai foi expulso de casa e minha mãe o abominava, eu apenas chorava quase deprimida por que eu não entendia nada direito. Entretanto, com o passar do tempo e com a vinda da minha abuela materna, Alma, minha mãe foi se acalmando e se tornando mais compreensiva, e eu também comecei a entender que mesmo sendo um homem, meu pai poderia amar outro ser do sexo masculino. Em determinado momento, minha mãe pediu perdão ao meu pai pela forma como ela havia o tratado e tudo ficou bem. Meu pai trabalha com uma corretora de imóveis desde que eu me lembro, portanto sempre viajou muito, perdendo minha festa de treze anos e minha formatura do ensino médio. Em uma de suas últimas viagens, ele voltou com um homem chamado Matías Hernández, e agora eles moram juntos. Eu tenho um padrasto e ele é super legal. Minha mãe abriu uma confeitaria em Paseo de Montejo, uma avenida muito famosa em Mérida. Mamãe é uma exímia cozinheira de doces, e ela nunca mais teve ninguém, mas também não se sente sozinha, Alma nunca mais foi embora. Eu moro com minha abuela Alma e minha mãe, na casa onde eu cresci. Visito meu pai toda semana, e às vezes passo o final de semana com ele e Matías. Sou grata por morarmos todos perto.

Quando o desembarque foi autorizado, eu finalmente desci do avião. Agradeci internamente por não termos tido nenhuma turbulência durante a viagem, não quando eu estava acordada, pelo menos. Ainda chovia muito lá fora, o que me era estranho já que chuvas tão fortes não eram comuns na cidade, principalmente naquela época do ano. Peguei minha mala no despache, olhei a hora no meu celular. Faltavam cinco minutos para o meu táxi chegar. Guardei meus óculos de armação cor de vinho para que não se enchessem d’água na chuva e me fizessem mais cega do que se eu estivesse sem eles e então saí com pressa do aeroporto. Fiquei parada na entrada, onde era coberto, mas não escapava das gotas geladas da chuva que eram trazidas pelo vento forte. Não demorou e meu taxi estacionou a poucos metros de mim, do outro lado do estacionamento. Agarrei minha mala e corri até o carro, quando o alcancei, me joguei no banco traseiro, estava totalmente molhada, pois a chuva estava mais forte. Recebi olhares feios do motorista.

— Desculpe, mas eu não posso controlar a chuva ou o quanto ela me molha. — lhe enviei um olhar mais feio ainda.

Ele apenas resmungou e eu lhe dei as informações sobre o caminho da minha casa, e então, seguimos. Minhas madeixas castanhas, na altura dos ombros, estavam molhadas e grudadas no meu rosto gelado. Meu cabelo que usualmente tem uma forma ondulada suave estava totalmente embaraçado.

Passei meus dedos dentre os fios do meu cabelo para deixá-lo minimamente apresentável e olhei pela janela. Aquela sensação estava de volta. A boa sensação de plenitude e de certeza. Peguei um elástico na minha mala e amarrei meu cabelo úmido num rabo de cavalo curto, encostei minha cabeça no banco de couro do táxi e fiquei ouvindo a chuva estalar lá fora. Eu cheguei à minha rua em pouco mais de uma hora. O taxi estacionou em frente à minha casa, só que do outro lado da rua. Olhei minha casa de relance, em sua primeira face, tinham as paredes externas brancas, janelas com molduras de madeira e uma linda porta dupla de vidro. Os fundos não eram muito diferentes, havia a pequena janela da cozinha e uma porta de saída pequena. Através das grandes janelas localizadas uma em cada lado da porta de entrada, eu conseguia ver a luminosidade na sala de estar, com vários vasos decorativos de cores exuberantes. Pisquei e vi cabelos negros passando rapidamente pela imagem que eu mirava na janela, sorri largamente, era Brianna.

Paguei o taxista mal humorado, agarrei minha mala e saltei do carro. Atravessei a rua sem olhar para os lados. Minhas botas curtas com salto baixo fizeram um barulho engraçado quando eu pisei numa poça d’água na calçada da minha casa, andei depressa e subi com rapidez os quatro degraus e eu já estava na minha varanda. Olhei de relance para as três cadeiras de veraneio que havia ali, e ao lado de cada uma tinha um jarro de plantas com samambaias. Dei um sorriso espontâneo e abri a porta dupla de vidro da minha casa.

Minha mãe foi a primeira que eu vi, ela estava com um grande sorriso e seus braços abertos, usando um lindo vestido amarelo rodado com flores coloridas bordadas na saia do vestido. Minha abuela Alma vinha em passos apressados da cozinha, com seu olhar gracioso e sorriso doce. Logo notei a ausência do meu pai e do meu padrasto e antes que eu pudesse questionar ou falar qualquer coisa, algo me atingiu com força. Algo com dois braços e a força de uma mula. Brianna me abraçava de lado, apertando todos os meus ossos.

— Ah, sentimos sua falta! — minha melhor amiga não me soltou até me ouvir gemer. — Eu senti sua falta mais que tudo no mundo!

Eu ri e a abracei de volta tão forte quanto. Em seguida abracei minha mãe com carinho e dei um beijo estalado na bochecha de Alma, depois estiquei meus braços para abraçá-las ao mesmo tempo.

— Eu senti tanta falta de vocês. — falei com a voz abafada. — Eu não imaginei que seria tão doloroso passar tanto tempo sem as mulheres da minha vida. Mas, onde estão meu pai e Matías?

Minha mãe desviou o olhar da mesma forma que minha abuela. Quando eu ia olhar para Brianna ela saiu da sala discretamente e eu a ouvi colocando a mesa.

— Eles não puderam voltar tempo, querida. — mamãe me olhou com tristeza e afagou meu braço gelado.

Uma expressão de interrogação se formou em meu rosto.

— Ambos tiveram que viajar duas semanas atrás, esses negócios loucos, você sabe. — a doce voz de Alma surgiu. — Vá tirar essa roupa molhada querida e desça para jantar. Sua mãe fez seu prato preferido e eu cuidei da sobremesa.

Relaxei meus ombros quando pensei em chilli de carne e tamales com recheio de fruta.

— Não demore pra descer. — mamãe disse enquanto se dirigia para a cozinha com Alma.

Assenti ainda que levemente incomodada com o fato de meu pai e Matías não estarem ali. Nunca imaginei que ser corretor de imóveis os obrigaria a ficar perambulando em vários países diferentes. Mas as desculpas eram sempre – ou quase sempre – as mesmas. “Oh, tem esse prédio em Nova Iorque que vamos negociar com uma grande empresa!”; “Ah, tem essa mansão que vamos vender para um cassino em L.A”. Soltei um suspiro desapontado, mas aceitei. Peguei minha mala e com um aceno chamei Brianna para subirmos juntas até o meu quarto.

Eu tinha sentido muito falta dali. Minha cama de casal localizada no centro do quarto, com minha colcha rosa claro e travesseiros brancos, a cabeceira prateada enferrujada ficava logo ao lado da cama e uma janela comprida na direção lateral da minha cama me permitia ver quase o final da rua inteiro, e estava sempre com a mesma velha cortina rosa. Meu guarda roupa branco ficava no outro canto do quarto, meu tapete azul felpudo estava extremamente macio, e minhas várias luas desenhadas nas paredes azuis permaneciam ali. Quando eu era mais jovem era fascinada em rabiscar luas, meus cadernos do ensino médio são cheios delas.

Olhei para a janela, a chuva diminuiu um pouco. Larguei minha mala no chão e pulei na minha cama. Brianna se jogou na minha poltrona branca que ficava ao lado da janela comprida que tocava o chão, minha amiga estava segurando uma latinha de refrigerante quase vazia.

— Se você derrubar esse refrigerante no meu tapete eu juro que você vai limpar com sua escova de dente. — apontei da lata nas mãos de Brianna para o meu tapete, com um olhar falsamente ameaçador.

Ela revirou os olhos, bebeu a lata inteira num gole e a jogou na lixeira que ficava perto da porta do quarto.

— Você já chega sendo chata. — Brianna reclamou, mas logo deu um sorrisinho. — Aconteceu uma coisa ótima hoje cedo.

Puxei minha mala pra cima da cama, e fiquei de frente para ela, de costas pra Brianna sentada ao lado da janela. Tirei meu casaco grosso e minha regata molhada, os embolei e joguei num canto do quarto, ficando apenas com meu sutiã de rendas levemente úmido, mesmo sabendo que rapidamente sentiria frio. Comecei a tirar as coisas da mala e espalhá-las em cima da cama.

— E o que de tão ótimo aconteceu? — perguntei, ainda de costas, enquanto tirava meus cosméticos da mala.

Brianna deu risinhos e se levantou da poltrona. Deu a volta pelo quarto, sentando-se no outro lado da cama, também de frente para a mala e pra mim.

— Um garoto maravilhoso está morando na última casa da rua. Ele é tão lindo, tão cheiroso, ah. — Brianna suspirou e se deitou na cama dramaticamente, como se desmaiasse. — Estou apaixonada!

Tossi numa risada.

— Ele se mudou hoje e você já deu em cima dele? — segurei a segunda risada. — E já sabe o cheiro dele?

Brianna sorriu de olhos fechados.

— Sim, sim, ah.

Balancei a cabeça negativamente e continuei tirando as roupas da mala.

— Anna, mês passado você me enviou uma mensagem dizendo que dormiu com um cara e que ele era o amor da sua vida. Três meses atrás você saiu com outro cara e disse que ele era o homem que você mais amou no mundo. Cinco meses atrás você beijou um cara na pista de boliche e disse que se casaria com ele. — parei de mexer nas roupas para observar Brianna deitada ao lado da mala. — Quanto tempo esse amor vai durar? Você já sequer beijou esse rapaz?

O sorriso de Brianna sumiu e ela se sentou na cama, agora emburrada e com os cabelos negros desarrumados.

— Na verdade eu dei em cima dele e ele meio que me deu o fora. — ela pendeu a cabeça para o lado, pensativa. — Bom, na verdade mesmo, ele é educado demais pra me rejeitar descaradamente.

Abaixei a cabeça e soltei uma nova risada abafada.

— Ah, que pena. Não é o primeiro gato que te dá um fora. — balancei a cabeça rindo, voltando a mexer na mala. — Na realidade...

Brianna negou e deitou-se novamente. Olhei-a cética.

— Não acredito que foi seu primeiro fora. — cruzei os braços.

— Mais ou menos. — ela disse entre os dentes e deu de ombros. — Eu sou gostosa, meus peitos são grandes, meus lábios são carnudos e eu ainda sou inteligente, não levo foras assim.

— E o seu ego nem é tão grande. — cantarolei e desci os olhos pra mala novamente.

Brianna estalou a língua.

— Você está certa. Tenho vários outros ‘’amores da vida’’ para descobrir. — a minha amiga deu os ombros. — Logan Hausen é quem sai perdendo.

Então esse era o nome do novo vizinho. Brianna umedeceu os lábios e mexeu nos cabelos.

— Oh, claro. — falei baixo.

Ela voltou seu olhar pra mim.

— E você, Julieta? Como foi a faculdade no quesito tudo que envolva ‘’para maiores de dezoito anos’’? — Brianna me olhou maliciosa. — Eu juro que se você disser que só estudou ponho fogo no seu diploma.

Dei um sorrisinho, afastei a mala e me deitei do lado de Brianna, usando meu braço para suspender minha cabeça e comecei a contar detalhes da minha primeira vez com o cara do curso de letras e os meus affairs com os outros meninos da faculdade. E claro, mencionei os porres loucos nas festas do campus e como acordei – meio “alta” – na maca de um tatuador que estava preste a desenhar uma lagarta no meu ombro, dizendo ele, que eu havia chegado lá gritando “AAAAA MINHA LAGARTA VIROU BORBOLETA”, e implorando para que ele desenhasse uma lagarta no ombro direito e uma borboleta no esquerdo. Juro que eu nunca estive tão bêbada.

— Meu Deus! — Brianna jogou a cabeça pra trás numa risada. — Nem parece a Julieta González García que eu conheço!

Gargalhei alto.

— E eu acho que quando eu estava na minha sexta dose de tequila eu beijei uma menina. — olhei pra cima, como se tentasse lembrar. — Ou era um cara que tinha um cabelo muito comprido e lábios com gosto de gloss morango. Ah, não importa, foi bom.

Brianna soltou mais uma risada escandalosa.

— Ai, ai. Uma faculdade corrompeu você como eu tentei durante anos e não consegui, me sinto um fracasso. — Brianna fingiu um choro, mas logo voltou a rir e eu também.

Ouvi minha mãe nos chamar pra jantar. Levantei rápido da cama e entrei no chuveiro quente, tomei um banho rápido, pus um short de tecido leve e uma blusa de moletom, desci com Brianna para a sala de jantar.

— Vamos, Julieta, conta pra gente. Conta tudo! — Alma estava animada.

— Vamos, Jules. — mamãe incentivou, com um sorriso.

Brianna olhou-as com as sobrancelhas arqueadas e depois balançou a cabeça em negação.

— Vocês não vão querer os detalhes. — minha amiga riu em murmúrios, olhando para a sua tigela de chilli.

Eu ri e comecei a contar histórias mais decentes. Como as excursões incríveis, dando ênfase a minha preferida: quando fomos para Rye, uma cidade de interior ficando há cem quilômetros de Londres, onde fica atualmente um museu que fora lar de exímios escritores ingleses – Lamb House. Contei sobre as aulas práticas; sobre as palestras; sobre os professores maravilhosos; os colegas estrangeiros e rico intercâmbio de cultura que tivemos. Falei do momento que eu ensinei a duas alunas brasileiras como se cozinhava tamales! Contei sobre as festas, contei até sobre os porres, mas pulei a parte do tatuador por que nem eu mesma entendia aquela história bizarra.

Remexi na minha tigela de chilli e finalmente comecei a comer.

— Tudo muito legal, mas eu ainda não tenho saco pra fazer faculdade. — Brianna bufou, afastando de si a tigela vazia e agora bebericava o suco de uva.

Eu entendia a decisão de Brianna de não fazer faculdade. Por mais que tenha seus momentos de loucura e prazer, é muito limitador. Estar presa em um dormitório estudando, acordar cedo por causa de aulas, ir dormir tarde por trabalhos, caçar energia no inferno para atividades extras e ainda há as responsabilidades de estar vivendo sozinha muito longe de casa. Estar presa á uma instituição de ensino durante quatro anos inteiros. Brianna era extremamente inteligente, mas nunca se encaixaria num lugar assim por ser demasiadamente livre. Aliás, com a herança rica dos pais, ela não precisava mesmo se preocupar com faculdade. Ela amava desenhar vestidos e roupas lindas, um invejável talento. Além de costurar super bem e fazer a maioria de seus jeans e já ter feito quase todos os meus vestidos.

Alma olhou as horas, soltou uma exclamação e se levantou da mesa com rapidez.

— Vou buscar a sobremesa. — minha abuela deu um sorrisinho e levantou-se.

Mamãe assentiu e seguiu Alma para ajudá-la. Ambas saíram da sala de jantar. Terminei de comer, e comecei a recolher os pratos da mesa e Brianna, os copos. Sorri de canto, nós sempre fazíamos isso, eu estava com saudades daqueles jantares. Mas sempre era melhor quando estávamos completos, faltava Matías e meu pai. Espantei os maus pensamentos e levei a louça suja à cozinha, senti um agradável aroma de tamales doces e voltei com rapidez para a sala de jantar. Minha mãe e Alma retornaram também, uma com uma larga bandeja cheia de sobremesa e a outra com os pequenos pratos.

Comi dois tamales com recheio morango de uma vez e Brianna comeu os com uva. Ao final da noite, todas nós arrumamos a mesa e Alma cuidou da louça. O melhor jantar de boas vindas que eu poderia esperar – ou quase o melhor.

Um novo ciclo iniciou-se com o primeiro sorriso que eu dei quando voltei para casa.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui! ♥