O Sacrifício Doloroso
7 Tentativas (parte 2)
Notas iniciais
Saori e Shiryu concentraram suas energias e rumaram para o mundo dos sonhos, a intuição da deusa apontava a direção que deveriam seguir. O cavaleiro de dragão utilizava uma versão de sua armadura e as feridas que poderiam ser algum empecilho se tivesse uma batalha acordado não estavam ali. A deusa e o cavaleiro avistaram uma porta diferente naquele labirinto e decidiram abrir.
— Olha só quem veio visitar o meu doce recanto! Athena e suponho que seu cavaleiro de bronze – disse o deus sentado na poltrona – Entrem, por favor, acomodem-se. É tão raro receber visitas.
— Agradecemos a sua hospitalidade Morfeu. Tenho um assunto a tratar.
— Sou todo ouvidos – aquele excesso de cortesia deixava Shiryu desconfiado.
— Eu preciso que ajude-me a contatar minha irmã Koré.
— E por que eu ajudar-te-ia? Eu sei que meu pai e meu tio estão mortos por sua causa e de seus cavaleiros – foi categórico – Agora Koré é Perséfone e está com problemas para manter o submundo que vós ruíram.
— Eu sei que teu argumento é forte Morfeu, a guerra santa só ocorreu no submundo para não prejudicar ainda mais o planeta Terra, o Grande Eclipse que meu tio Hades planejava destruiria toda a forma de vida terrestre e o que tu como deus dos sonhos farias?
— Tiraria férias. Por mais que fosse aliado de Hades nada fiz para prejudicar seus cavaleiros no mundo dos sonhos. Os planos dele iriam além daquilo que foi-lhe dito.
— Então veja, por favor, se Perséfone gostaria de falar comigo, pois eu tenho uma boa proposta a ela caso esclareça as minhas dúvidas e me ajude.
— Muito bem, isso eu posso verificar. Se for de a vontade da imperatriz encontrar-te eu o farei. Acredito que vieste apenas falar comigo, pois ela adormece às 3:00 da madrugada do fuso-horário grego.
— Estaria enfraquecida ao ponto de dormir no horário que as energias das trevas são mais fortes? Então a situação está mais séria do que pensei.
— Talvez ela te ouviria por esse motivo, já que cuidar do submundo deixado por seu marido é a única motivação que tens no momento – levantou-se indo em direção de suas linhas do sono – Algo mais que queira perguntar? – Shiryu trocou olhares com a deusa pedindo permissão para perguntar e lhe foi concedido.
— Acredito que como deus dos sonhos saiba bem como funcionam os pesadelos e como eles afetam os humanos.
— Por certo meu jovem – o deus ficou interessado no assunto – Pois vejam só essas linhas. São pessoas que estão a dormir no momento e cada cor representa o tipo e intensidade do sonho. As de tons mais claros são os sonhos mais tranquilos, tem as dos sonhos eróticos como essa que tem um tom vibrante e os pesadelos que possuem os tons mais escuros.
— Como os sonhos são criados? O senhor tem poder de interferir neles?
— Há a explicação humana sobre os sonhos e eles não estão completamente errados, o cérebro de vocês mortais muitas vezes utilizam o mundo dos sonhos para processar informações recebidas durante o dia. A mesma linha de sono pode mudar de cor em uma única noite – apontou para a linha do sonho erótico que se tornara escura – Esse homem, por exemplo, estava em um sonho sujo e agora está tendo um pesadelo constrangedor. Tenho sim poder para interferir, não costumo fazê-lo, às vezes quando estou entediado faço – pegou outro fio e o abriu – Essa mulher pode ter uma parada cardíaca por causa da intensidade de seu sonho – mexeu os dedos para manipular o sonho que tomou um tom mais claro – Agora ela vê os gatinhos que havia avistado mais cedo enquanto andava pela rua.
— Dá para saber o que uma pessoa sonhou? – perguntou a deusa.
— É possível. Há um registro enorme de sonhos. As linhas são como fichas das criaturas vivas. De quem procuras saber os sonhos? – inquiriu em curiosidade.
— Um cavaleiro meu.
— Por acaso desconfias de conspiração? Traição? -perguntou o deus animado.
— Não. Eu procuro respeitar a privacidade de meus cavaleiros, mas, acho que algo de grave pode estar acontecendo e ele não quer contar-me.
— Muito bem – bateu palmas apagando as linhas em suas mãos – Farei mais por minha curiosidade, já que dificilmente acontece algo interessante, digam-me o nome que eu procurarei a linha.
— Shun Amamiya, cavaleiro de Andrômeda – respondeu Shiryu.
— O receptáculo do senhor dos mortos ainda está vivo?! – exclamou surpreso – Não vejo essa linha desde antes da guerra santa.
— Então o senhor já sabia?
— Por certo, fui incumbido de vigiar, não em interferir nos seus sonhos – explicou-se – Meus serviços foram dispensados no dia em que ele foi ao submundo, a alma do senhor Hades viria a eclodir e a do garoto sucumbiria – procurou a linha que estava transparente – O jovem está acordado – puxou para abrir a linha – Isso é mal.
— O quê? – perguntaram os dois juntos.
— Há alguns pequenos buracos entre um sonho e outro, isso significa que ele não está a dormir como a necessidade humana, essas privações de sono prejudicarão sua mente e organismo.
— Sabia que aquele teimoso não havia dormido.
— Noite passada dormiu por pouco tempo e a linha estava preta, como das últimas vezes que dormira. Eu não consigo ver o conteúdo, não entendo... – fechou a linha – De qualquer forma entendo que o garoto possui motivos para temer dormir. Uma pessoa comum pode morrer quando a linha adquire essa cor. Um grau muito alto de sentimentos negativos e sombrios, junto com agitação e pânico costumam formar essa cor de linha.
— Então ele está sob alto grau de estresse e sofrimento – Athena constatou.
— Certamente – foi em direção a porta – O tempo de vocês acabou. Alguém está a tentar acordá-los. Quando dormires novamente darei a resposta de Perséfone.
— Agradeço-te por receber-nos bem apesar de tudo e por dar meu recado.
...
A noite chegou e o mal-entendido com Tatsumi estava tentando ser resolvido. O mordomo tentava acordar Saori e Shiryu pela falta de compostura do cavaleiro estar ali dormindo ao lado de sua preciosa menina quando deveria estar a protegendo. O escândalo do mordomo atraiu as atenções de Hyoga e Seiya que estavam por perto.
— Eu pensava que o Shiryu fosse afim da Shunrei, errei feio – Seiya conseguiu deixar a situação pior do que estava.
— Com certeza há uma resposta lógica para o que aconteceu aqui – disse o russo – Deixem com que eles expliquem.
— Fomos encontrar com o deus Morfeu no mundo dos sonhos – respondeu Saori.
— Achei que seria mais útil irmos juntos do que esperar do lado de fora do sonho, afinal nós matamos o pai e o tio de Morfeu nos Elísios.
— Deu certo o que pretendiam fazer?
— Em parte Hyoga, ainda estou aguardando uma resposta que Morfeu prometeu trazer a mim — levantou-se da cama que estava sentada – Ademais tivemos um esclarecimento nada agradável.
— Nossa preocupação com Shun desde o hospital não foi à toa – disse o moreno – Morfeu mostrou a linha dele dos sonhos, acordado em demasia ele prejudica a própria saúde, mas, seus sonhos são um perigo para si mesmo.
— Shun é um teimoso de marca maior – Hyoga apertava seu punho tentando conter a raiva – Por que ele não se abre conosco? Carregar um fardo tão pesado para si...
— Ele está pesquisando por conta própria pelo o que eu percebi. Não sei o que passa pela mente dele desde que voltamos...
— Talvez eu entenda – respondeu a deusa – Quero deixar tudo limpo para vocês, afinal são dignos de minha confiança.
— Então nos diga Saori – disse Pégaso aflito.
— No escritório de meu avô após o jantar.
— Devemos chamar o Ikki? – perguntou Hyoga.
— Melhor não, acredito que quanto menos detalhes ele souber no momento será melhor para não ficar alarmado e colocar o que pensei a perder, deixe-o cuidar do irmão e sejam discretos para que ele não perceba o que vamos fazer.
— Certo – disseram os cavaleiros em tom baixo.
...
No outro quarto Shun sobressaltou-se com os gritos de Tatsumi do outro lado do corredor. Ele se levantava aos poucos, primeiro sentou-se na cama para não se sentir zonzo. Ikki estava recostado na cabeceira da cama ao lado de olhos fechados os manteve.
— Fique aí.
— E se precisarem de nós?
— Eles mandariam algum sinal, aquele Tatsumi consegue ser bem escandaloso quando se trata de brigar com algum de nós.
— Nisso está certo – levantou-se devagar e foi em direção a janela – Essa brisa noturna é boa – fechou suas pálpebras para sentir melhor a sensação, já estava mais calmo, por mais que ainda sonolento – Acho que está na hora do jantar.
— Para quem mal tocou no almoço me alegra saber que está com fome.
— Não deveria ter passado a tarde inteira aqui. Eu não queria te dar esse trabalho – estava chateado consigo mesmo por estar sendo um “peso morto” na vida de seu irmão e companheiros.
— Sempre que estivemos juntos cuidamos um do outro e dessa vez não seria diferente – alongou-se ao sair da cama, ficara naquela posição desconfortável por horas, mas, não se incomodava com isso – Vamos jantar.
...
O jantar havia sido posto e todos estavam reunidos a mesa. Tatsumi percebeu que não aguentaria manter-se em normalidade após a cena constrangedora que aconteceu no andar de cima e ainda não sabia como olhar para o “pirralho” mais novo sabendo aquele pouco de informação que Shiryu deixou escapar em sua presença. Ele nunca teve sentimentos por aqueles garotos, mas, ao ver o menino visivelmente debilitado e cansado sua “pedra” que chama de coração sentiu um incomodo, uma pitada de compaixão talvez. Então logo retirou-se marcando o tempo no relógio de pulso para que retornasse para recolher a mesa junto as empregadas.
— Eu soube que que você passou mal hoje antes do almoço Shun, se sente melhor agora? – Saori puxou assim.
— Estou melhor sim – deu um sorriso – A ferida em minha mão que não está cicatrizando direito, mas, foi controlado – estendeu a mão enfaixada – Vou ficar novo em folha.
— Está precisando descansar de verdade para ficar novo em folha – disse o sagitariano – Porque se continuar assim vai continuar parecendo um cosplay de múmia zumbi – imitou os movimentos de zumbi com os braços, tirando o riso até do virginiano que deveria sentir-se ofendido- Nem me olhe assim Ikki, ele tá rindo também – apontou para o amigo enquanto enchia a boca de lámen.
— Seiya é mesmo incorrigível – disse o libriano – Mas, por mais engraçada que foi a comparação há verdade em suas palavras.
— Sua consulta é amanhã, não é mesmo?
— Amanhã à tarde senhorita.
— E a gente só na semana que vem – falou Seiya com a boca cheia.
— Tenha mais modos a mesa pangaré – ralhou Hyoga – Vai com Ikki?
— Mais é claro que sim pato! – respondeu Fênix pelo irmão – Quero ter uma conversa com o médico, esse sangramento que ele teve mais cedo não é comum – ele queria poder compartilhar sobre o que havia presenciado e o aquariano sentiu isso, mas, o leonino não queria perdurar o clima constrangedor sobre seu irmão mais novo.
— Com certeza terá uma explicação e tudo será resolvido logo – o menino de cabelos verdes queria tirar urgentemente o foco de si, sua timidez fazia com que aquele excesso de holofotes sobre si o sufocasse – Podemos ter um treino leve amanhã ou uma meditação em grupo, o que acham?
— É uma boa ideia – concordou o cavaleiro de dragão – Precisamos voltar a nossa forma física para a reconstrução do Santuário.
— Eu também topo!
— Então acho que vamos todos, não é Ikki? – falou Hyoga e Fênix anuiu – Amanhã pela manhã então, já que o senhor “sono zero” terá consulta à tarde – não deixou de alfinetar.
— Combinado então – o mais novo bocejou – Com licença.
— Você mal tocou na comida, volta aqui!
— Foi o suficiente meu irmão – curvou-se em agradecimento a anfitriã – Farei o que tanto desejam, não quero parecer um “cosplay de múmia zumbi” – falou em tom brincalhão para Seiya – Boa noite!
— Boa noite Shun – disseram em uníssono.
“Finalmente esse teimoso vai dormir” – pensou o Cisne – “Mas, o que Shiryu contou só me deixa mais preocupado”.
...
Com o jantar encerrado, Ikki foi para o quarto conferir se seu irmão estava realmente dormindo ou não. Ele viu o irmão deitado abraçando os pés e parecia em sono profundo, a respiração estava tão controlada que até parecia que o mais novo meditava, deu um suspiro aliviado e foi trocar de roupa para dormir também. Mal o cavaleiro de fênix sabia que o irmão estava mesmo a meditar, pelo menos tentava, era uma forma de lidar com os últimos acontecimentos. Se o seu corpo descansasse ele não aparentaria estar tão cansado, seus ferimentos se recuperariam mais rápido e de quebra estaria livre das mãos de Hades foi o que Shun raciocinara antes de tentar o caminho da meditação.
Saori e os outros cavaleiros se reuniram no escritório. O mordomo não acompanhou a reunião a pedido de sua menina deusa. O clima mais descontraído do jantar se perdeu para a seriedade do assunto de que tratariam naquele momento. Saori sentou-se na poltrona e pediu para que os outros se sentassem.
— Bom, eu serei breve no assunto que temos a tratar, não podemos levantar suspeitas e eu espero que possam controlar bem as suas reações diante disso – a deusa falava em tom calmo com um toque de apreensão – Espero contar que hajam com normalidade quando estiverem principalmente com o Shun – olhou para Seiya.
— Tá entendi que essa última foi pra mim. Eu vou tentar.
— Ótimo. Assim podemos iniciar o assunto – respirou fundo – Vocês notaram que desde que acordou o Shun anda diferente do habitual.
— Sim. Nós pensamos que foi a guerra santa que o afetou – respondeu o sagitariano.
— Só que vocês não o viram quando ele acordou do coma pela primeira vez. Quando eu o vi ele estava no quarto de Seiya, ele havia visto o fragmento da espada de Hades e o removeu, algo que eu não consegui fazer mesmo sendo uma deusa — procurava se lembrar dos detalhes daquele dia – Ele estava desesperado com a cena que vira, mas, em poucos momentos ele já sabia exatamente o que tinha que fazer. Shun me perguntou se eu havia ouvido uma voz e que o que essa voz disse não era algo agradável. Mesmo não ouvindo eu senti algo vindo dele.
— Isso você não havia nos contado – disse Hyoga tentando controlar o sentimento de ansiedade – O que houve depois?
— Vocês ainda estão se recuperando, aquele dia foi difícil de processar os acontecimentos e eu ainda estava unindo as peças – respondeu – Eu sei que depois de remover e destruir o fragmento, eu senti o cosmo de Shun se alterar e ele caiu em coma novamente e falava coisas estranhas enquanto estava assim. Eu tentei chegar a sua mente para auxiliar sua recuperação, mas, não consegui ter acesso.
— E isso a levou a levantar suspeitas, não é?
— Está certo Shiryu. Eu tinha minhas suspeitas e com o tempo, um pouco de pesquisa confirmei a minha intuição – apertava suas mãos sobre a mesa – A existência de Hades não sumiu, algum resquício dele está nesse momento dentro de Shun. Foi dessa forma que ele conseguiu remover o fragmento da espada e certamente está sendo atormentado por meu tio enquanto dorme – Seiya iria soltar um berro, mas, foi contido por Shiryu que estava sentado ao seu lado.
— Isso é muito grave. Como podemos detê-lo dessa vez?
— Nós não podemos Hyoga – disse a deusa com pesar – Shun seria morto no processo e nós não queremos isso.
— E também seria arriscado deixar Hades livre para fazer o que quiser. Qual é o grau de influência que ele tem sobre o nosso amigo? – perguntou o cavaleiro de dragão.
— Isso eu não saberia lhe responder com exatidão. A parte que restou de Hades dentro de Shun é pequena, isso eu posso afirmar porque eu estava lá quando vi o espírito dele saindo do corpo dele, acredito que não seja forte o suficiente para tomar o controle total dele novamente.
— E então o que faremos?
— Apenas respeitem o tempo dele Hyoga. Shun não quer se abrir sobre isso porque sente medo e quer tentar resolver o problema sozinho, provavelmente teme a forma que o trataríamos, como um estranho ou um traidor – cruzou seus braços contra o peito – Se sentirem que ele fugiu completamente do controle da situação, que não é mais ele agindo ali o detenham – disse com pesar – Estou esperando a resposta de Perséfone, minha irmã e esposa de Hades. Eu vou negociar com ela para que ele seja convencido a deixar o nosso amigo em paz.
— Por isso fomos ver Morfeu hoje.
— Ele me dará a resposta de Perséfone essa noite. Estamos em uma corrida contra o tempo.
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