O Sacerdote Impetuoso: Protegendo os Inocentes
6 Sobrevivendo ao primeiro dia

“Será que a Velhota desconfiou de alguma coisa?” – se perguntou Hae-il, enquanto fazia compras na farmácia. – “Acho que não. Aquela mentira foi bastante convincente. Me perdoe, por isso, Senhor, mas foi por uma causa maior.”
Ele comprou rapidamente tudo o que precisava na farmácia e voltou correndo para a casa paroquial. Ele estava preocupado com o bem-estar da menina, mas também temia que, a qualquer minuto, realmente pudesse perder, para sempre, alguma de suas já escassas camisetas, depois de ela ser transformada em fralda pela Irmã Kim. Ele sabia, que se fosse preciso, ela cumpriria a ameaça sem pensar duas vezes.
- Irmã Kim! – berrou o padre, ofegante, enquanto largava os chinelos na entrada e irrompia quase escorregando, apenas de meias, pela casa paroquial. – Eu cheguei! Não pega as minhas camisetas, eu trouxe as fraldas! – continuou gritando e correndo pelo lugar, carregando as sacolas, até finalmente encontrar a freira. Ela estava em seu quarto, ensinado o desajeitado Padre Han a segurar a menina.
- Com cuidado, Padre Han. Isso, coloca a mão atrás da cabecinha dela. Tem que apoiar. Ela parece ser bem espertinha, mas ainda é novinha, deve ter uns seis meses, e a coluna dela ainda está em formação.
Ele seguia, ainda meio receoso, as instruções à risca, enquanto a menina o observava com seus olhos escuros, grandes e brilhantes. Parecia que ela finalmente daria um descanso ao Padre Kim, pois já estava se dando bem com os demais. Pelo menos não estava mais chorando.
- Achei vocês! Pronto, irmã, acho que eu comprei tudo o que precisávamos. Só não comprei nenhuma muda de roupa, porque não vendia na loja de conveniências. Vamos ter que procurar em outro lugar.
- Eu acho que deve ter alguma coisa lá no orfanato.– observou o Padre Han, enquanto sorria, com seu jeito meigo, para a menina, que agarrava seu dedo indicador com força. – Não temos bebês por lá no momento, mas sempre chegam doações de roupas. Alguma deve servir na Maria.
- Tem razão, Padre Han, eu não tinha pensado nisso! Vou lá dar uma olhada. – animou-se a freira.
- Espera aí, irmã. – pediu Hae-il, abrindo os braços e impedindo a freira de passar pela porta. – Primeiro, troca a fralda dela, por favor. – suplicou com as mãos postas e um olhar pidão, que a freira não teve como recusar. Como Hae-il havia suposto, parecia mesmo que trocar uma fralda era como andar de bicicleta, porque a freira, apesar de não ter demonstrado inicialmente confiança de que seria capaz de fazer, concluiu a tarefa rapidamente e sem maiores dificuldades.
- Pronto. – disse ela, após atender ao pedido do padre. – Agora vocês cuidem do resto. A pobrezinha deve estar morrendo de fome, então façam a mamadeira dela.
- Mas a única coisa que eu sei fazer direito é lámen. – disse Han Seong-gyu, preocupado. – Não sei fazer mamadeira.
- O senhor sabe ler, não sabe, Padre Han? – perguntou a freira, já perdendo a paciência com aqueles dois marmanjos, que mais pareciam duas crianças. O Padre Han assentiu timidamente com a cabeça. – Então é só ler o que está escrito na embalagem do leite e seguir as instruções. Acho que se vocês dois juntarem os seus cérebros de minhoca, conseguem fazer uma mamadeira decente. Com licença.
Os dois padres se entreolharam sem muita confiança de que conseguiriam cumprir a missão que havia lhes sido designada, o que deixou a freira ainda mais indignada. Ela respirou fundo e saiu ainda incrédula. “Não é possível que aqueles dois não sejam capazes de seguir as instruções do rótulo. É só ferver a água e misturar o leite, não tem como errar! Ou será que tem?”
Com essas dúvidas na cabeça a freira quase deu meia volta, preocupada com a segurança da pobre garotinha, que não tinha culpa de estar aos cuidados de dois tapados, mas ela resolveu dar um voto de confiança a eles, e seguiu o caminho todo até o orfanato rezando pela menina.
*****
- Será que ela está bem mesmo? – perguntou a mulher, assustada e com lágrimas nos olhos. Ela não teve opção a não ser se esconder em um galpão sujo e escuro, e chorava pela preocupação com a filha e também pela dor de um ferimento em sua perna, causado por um estilhaço de vidro.
- Não se preocupe. Ela está aos cuidados da pessoa mais capaz que eu já conheci. Mesmo sem saber o que está acontecendo, eu tenho certeza de que ele vai fazer de tudo para protegê-la. – disse o homem, também com um ferimento, um pouco mais sério em seu abdômen, causado por uma bala.
- Mas ele é aquele padre que apareceu na televisão um tempo atrás, não é? Aquele que matou as crianças?
- Sim. Mas aquilo foi há muito tempo e não foi culpa dele. Eu também estava lá e fui testemunha de seu desespero quando tudo aconteceu. Ele só foi o homem azarado a receber a ordem. Se não fosse ele, teria sido qualquer outro agente, inclusive eu. Se com a sua própria vida ele pudesse ter impedido a explosão daquela granada, eu tenho certeza de que ele teria feito isso sem hesitar.
- Se você confia tanto assim nele, eu também confiarei. – disse a mulher, tentando se acalmar. – Infelizmente, agora, minha filha está mais segura longe de mim. Enquanto a verdade não vier à tona e “eles” não forem desmascarados, nós duas corremos perigo.
- Sim. Se antes nós já suspeitávamos de que aquilo poderia não ter sido um mero acidente, agora eu tenho quase certeza. – disse o homem, enquanto exibia uma careta de dor ao se sentar, com dificuldade, sobre uma pequena pilha de pedaços de madeira que começavam a apodrecer devido ao tempo abandonados ali. – Só não temos como provar se o seu sogro está envolvido nisso.
- Foram tantas ameaças, mas eu não acreditei que ele fosse capaz de fazer alguma coisa de verdade. Pensei que ele deixaria a justiça resolver, mas parece que eu me enganei. Ele cansou de esperar e mandou alguém para se livrar de mim de uma vez por todas.
- Sabemos que algo ilegal está acontecendo na empresa, mas o envolvimento do seu sogro ainda é apenas uma suposição. Mas você tem razão em considerar ele um homem perigoso. Deveríamos ter levado as ameaças dele mais a sério. Isso pode ter a ver com a menina, mas eles também podem ter descoberto que você os estava espionando. É mais seguro continuarmos escondidos de todos, inclusive da Agência. Nesse momento, Kim Hae-il é a nossa melhor opção. Queria ter podido explicar melhor as coisas para ele, mas tenho certeza de que ele não vai simplesmente tomar conta da menina. Se eu o conheço bem, a essa hora ele já deve ter mil teorias na cabeça sobre o que está acontecendo. Vamos esperar a poeira baixar por alguns dias e assim que for um pouco mais seguro, eu darei um jeito de entrar em contato com ele. Eu sei que ficar longe da sua filha não é fácil, mas peço para que você tenha só um pouco de paciência.
Realmente, entregar sua filha de apenas poucos meses de vida a um completo desconhecido, era algo quase impossível de suportar, mas aquela era sua única opção. Ela buscava a verdade e agora estava envolvida em algo perigoso e por isso, confiaria nas palavras do agente que tinha acabado de arriscar a própria vida para salvar a dela e a de sua bebê. Apesar do sofrimento, ela faria o que ele estava pedindo e se manteria longe. A partir daquele momento, ela deixaria sua querida filha aos cuidados do padre.
Por ora, eles deveriam permanecer onde estavam e tratar de seus ferimentos. Aquele não era o melhor esconderijo, nem o mais seguro, mas foi o que eles conseguiram encontrar durante àquela fuga apressada durante a madrugada.
*****
Graças a ideia do Padre Han, a Irmã Kim tinha conseguido encontrar no orfanato algumas roupinhas que serviram em Maria e agora a menina já estava de banho tomado, de fralda trocada e com a barriguinha cheia. A primeira mamadeira preparada pela dupla de padres havia ficado meio rala, mas Maria sorveu todo o líquido com vontade. Estava mesmo com fome. A segunda tentativa já chegou mais perto da consistência ideal.
Aquele dia chegava ao fim e eles não tinham tido nenhuma notícia dos pais da pequena Maria e continuavam sem fazer ideia de quem ela era ou do porquê tinha sido deixada com eles.
A pequena, agora sentada no colo de Hae-il, observava aquelas pessoas que conversavam ao seu redor com um olhar curioso, sem fazer ideia de que elas estavam decidindo o seu futuro. Aquela profusão de vozes, depois de algum tempo, acabou fazendo com que ela adormecesse outra vez, abraçada ao seu único brinquedo, o ursinho de pelúcia que havia sido deixado junto dela dentro da caixa de papelão.
- Acho melhor levar ela para a cama. – disse Hae-il.
- A coitadinha deve estar cansada. – observou a irmã Kim In-gyeong.
- Cansada de quê? Só comeu, bebeu e brincou o dia todo. – desdenhou Hae-il.
- Não fale assim, Pad…
A fala da freira foi interrompida por batidas na porta, que deixaram todos apreensivos e em silêncio. Ninguém se moveu, quase nem respiravam, só se entreolhavam com olhos arregalados. Novamente batidas, mas dessa vez acompanhadas por uma inconfundível voz feminina.
- Padre Kim, sou eu, Park Gyeong-seon. Abre a porta, eu trouxe algumas coisas pro bebê!
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