- Detetive Gu, precisamos ir até a casa da Srta. Yoon o mais rápido possível! – quase ordenou Hae-il ao policial, pouco tempo depois da partida da Promotora Park.

- Mas por que assim tão de repente? – indagou Gu Dae-yeong, não tão convencido daquela necessidade, tampouco daquela urgência.

- E você ainda se diz policial? Como, por quê? Temos que investigar a cena do crime, homem!

- Mas que crime? – continuou o detetive, ainda sem conseguir seguir o raciocínio do padre.

- Se o que eu penso está correto e a Srta. Yoon precisou fugir apressada no meio da noite, é porque alguma coisa, ou mais precisamente, alguém, a obrigou a fazer isso. Eu tenho certeza de que, como vocês estão comendo na mão do Sr. Baek, nem se deram ao trabalho de investigar os fatos. Ele disse que a mulher fugiu “raptando” a própria filha e vocês acreditaram em tudo e não mexeram um músculo para ver se a informação era verdadeira, estou certo?

- Bem, isso não é muito da alçada do Departamento de Crimes Violentos, é mais do pessoal da Anti-sequestro ou do de Pessoas Desaparecidas... – disse, querendo se esquivar da responsabilidade.

- Isso já responde a minha pergunta. Vamos lá agora mesmo!

- Mas eu não tenho permissão nem justificativa para ir até lá, Padre Kim. Não tenho um mandado, nem nada.

- Tudo bem, se você não quiser vir comigo, eu vou sozinho. Eu também não tenho permissão e não estou nenhum pouco preocupado com isso. Se por algum acaso eu for pego invadindo a casa, vou dizer que você sabia de tudo e não moveu um dedo pra me impedir... – declarou o Padre, sem sentir nenhum pingo de culpa, já se levantando, decidido a fazer o que estava falando.

- Aí também não né, padre? Tá bom, eu vou junto. – decidiu-se o policial por acompanhá-lo, totalmente a contragosto depois daquela singela ameaça, porque algo lhe dizia que deixá-lo ir sozinho só lhe traria mais problemas.

Os dois seguiram na viatura da polícia, embora pudessem ter ido tranquilamente a pé, já que o lugar ficava bem próximo, a apenas uns quinze minutos de caminhada. Quando finalmente chegaram à casa da Srta. Yoon, viram que realmente não havia nenhum indício de que o lugar estivesse sendo considerado como a cena de um crime. Não havia policiais guardando a residência, nem sequer a boa e velha faixa zebrada da polícia isolando o imóvel. Nada. Era apenas um sobrado, como outro qualquer da rua.

- Tá vendo, detetive? Nada de nada. Esse lugar parece ter recebido a visita da polícia ou a equipe de perícia alguma vez? – perguntou o padre, triunfante, enquanto observavam a casa à distância, de dentro do carro.

- Não sei. A coisa toda aconteceu há vários dias. Eles podem ter vindo e ido embora, ué. Por que eles ficariam acampados aqui? – retrucou Dae-yeong e Hae-il não pode contradizê-lo, porque ele também tinha uma certa razão. Mas mesmo achando que o padre estivesse imaginando coisas, decidiu seguir o plano inicial, antes que ele fizesse alguma loucura sozinho. – Mas como nós vamos entrar? Eu tenho certeza de que o senhor consegue pular esse muro enorme com o pé nas costas, mas eu não conseguiria nem se nascesse de novo no corpo de um ginasta.

- Vamos arrombar o portão. – sugeriu o padre, tranquilamente, como se aquilo não fosse um crime. Ele desceu do carro e Dae-yeong fez o mesmo. Em seguida, olhou ao redor da propriedade em busca de alguma câmera de segurança que pudesse testemunhar seu pequeno ato ilegal, mas parecia que não havia nenhuma, então caminhou em direção ao imóvel, deixando o policial indeciso para trás.

- P-padre Kim! Padre Kim! – tentou gritar Gu Dae-yeong, na esperança de dissuadir Kim Hae-il, mas por causa das pessoas que passavam na rua e o olhavam com desconfiança, disfarçou e só correu atrás do padre, que já estava quase em frente ao portão da casa.

- Pode ficar tranquilo, detetive. Acho que não vai ser preciso arrombar... – declarou o sacerdote, quando o policial finalmente o alcançou.

- E por que, não? – perguntou o detetive, curioso, mas aliviado com a notícia.

- Olha. – disse Hae-il, enquanto empurrava o portão apenas com o dedo indicador, o abrindo sem dificuldade. Ele estava destrancado e também havia sinais de que já tinha sido forçado anteriormente. – Vamos entrar.

Eles entraram com cautela, passaram pelo pequeno jardim e seguiram até a porta principal da casa. Também estava aberta. Não foi preciso ser um perito para imaginar o que havia acontecido ali. Todos os sinais clássicos de invasão estavam presentes. Havia coisas quebradas pelo chão e algumas marcas de sangue no tapete, indicando ter havido alguma espécie de combate corporal. No andar de cima, o quarto principal estava com a cama desfeita, como se alguém tivesse sido acordado abruptamente de seu sono durante a madrugada. Parecia também, que alguém havia passado a noite no sofá, pois havia um travesseiro e cobertores nele. O berço da bebê também indicava que ela estivera dormindo. Absolutamente nada sugeria que aquela tivesse sido uma viagem planejada. Havia uma bolsa aberta sobre a cama, com duas peças de roupas jogadas sem nenhum cuidado dentro dela, indicando que, talvez, a dona da casa tivesse tentado fazer as malas para fugir, mas não teve tempo de continuar e desistiu.

- Padre Kim, corre aqui! – chamou o policial, que estava no térreo, enquanto o padre olhava os quartos no andar de cima.

Hae-il desceu as escadas imediatamente atendendo ao chamado.

- O que foi?

- Olha aqui. Não parece um buraco de bala? Tem mais dois ali.

Hae-il analisou e concordou com a observação do policial e eles começaram a olhar pelo chão, em busca dos projéteis e cápsulas. Encontraram os três projéteis deformados que haviam se chocado contra as paredes, porém encontraram quatro cápsulas.

- Com certeza alguém foi atingido, por isso tem sangue por ali. O quarto projétil deve estar no corpo do ferido. – deduziu o policial.

- Sim, é bem provável. Mas dá uma olhada nessas cápsulas. Elas com certeza não vieram de um revólver 38 da polícia. Eu posso estar enganado, mas me parece que são de uma pistola 9mm. Talvez esse sangue no chão possa nos dar alguma pista da pessoa ferida. Acho que já confirmamos o que queríamos saber. Vamos embora. – sugeriu o padre, satisfeito com a breve investigação.

Enquanto andavam pela rua, em direção à viatura, Hae-il notou a presença de uma câmera de segurança em um mercadinho próximo, um pouco mais a frentre do lugar onde tinham estacionado o carro. Ela não estava apontada na direção da casa, mas ficava na mesma rua. Se Yoon In-a tivesse seguido pelo caminho mais rápido até a Catedral de Gudam, certamente teria passado em frente ao estabelecimento comercial. A probabilidade de a câmera ter captado alguma coisa era bastante grande.

- Vamos pedir pra ver as imagens da câmera daquele mercadinho, ali. – sugeriu ele, animado, apontando para o lugar.

- O senhor sabe que não é só ir chegando e pedindo, né? A gente precisa de um mandado para isso, Padre Kim. – relembrou-o o policial.

- Eu sei, mas não custa nada pedir com educação. Vai que dá certo. – disse o padre com uma piscadela, já correndo para o mercadinho, deixando Dae-yeong para trás novamente. O policial respirou fundo ao ver o religioso se afastando outra vez. Às vezes ele tinha uma vontade enorme de socá-lo, bem no nariz, mas sabia que se tentasse, levaria a pior, então a única coisa que podia fazer era se acalmar e tentar acompanhar a energia caótica do amigo sacerdote.

Ele seguiu lentamente, e quando finalmente entrou na loja, Hae-il já havia usado todo o seu charme e convencido as donas, uma senhorinha de idade e sua neta, a mostrarem as imagens. Ele era realmente uma pessoa bastante persuasiva quando se propunha. Dae-young se juntou a ele e apresentou sua insígnea policial às mulheres.

- O monitor fica aqui nessa salinha, padre. Pode olhar à vontade. – disse a neta da dona, sorridente e bastante solícita.

- Muito obrigado, senhorita. – agradeceu o padre, se curvando em reverência e exibindo também seu melhor sorriso.

- Sabe, padre, o senhor é a segunda pessoa que me pede para ver as imagens daquele dia. – relatou a avó. – Mas eu não deixei ele ver. Ele não foi educado como o senhor. Falei que só mostraria com ordens da polícia.

- Pois fez muito bem. A senhora, por acaso, conseguiria descrever como ele era? – perguntou o policial, já pegando a caneta e o bloquinho de anotações, animado para colher a descrição do suspeito.

- Não é mais fácil vocês olharem as imagens de ontem, de dentro da loja? – sugeriu a mulher, sabiamente.

- Ah… tem razão. É para isso que servem as câmeras... – concordou ele, sem graça, devolvendo a caneta e o bloquinho para o bolso interno da jaqueta.

- Mas primeiro, vamos ver as imagens do dia que a Srta. Yoon desapareceu. – pediu o padre.

- Eu não acho que ela fez o que estão dizendo que ela fez. – comentou a idosa, dando sua opinião sobre o caso. – Ela é uma boa moça. Sempre vinha aqui com a filha. Era muito simples e educada. Apesar de ser nora da Família Baek, ela vivia do trabalho dela, sem luxos. Acho que a família não ajudava ela em nada. Com certeza não gostam dela e agora estão falando que ela sequestrou a própria filha. Bobagem!

- A senhora tinha bastante contato com ela? – perguntou o padre, enquanto o policial se ocupava de verificar as imagens gravadas.

- Não muito, apenas conversávamos um pouco quando ela vinha aqui. Mas eu presenciei daqui, algumas vezes, brigas na porta da casa. Volta e meia aparecia alguém, sempre em carros elegantes, e havia discussão.

- Hum...Interessante…

- Achei, Padre Kim! Olha! – interrompeu-o Dae-yeong, orgulhoso de si mesmo por ter conseguido encontrar o que procuravam.

Assim que começaram a analisar o vídeo, chegaram a conclusão de que Kim Hae-il parecia ter chegado bem perto da verdade com suas deduções.

As imagens da noite do ocorrido mostravam a Srta. Yoon correndo assustada pela rua, carregando a pequena Maria. A mulher estava de pijama e chinelos, comprovando uma fuga não planejada, por volta da 1:30 da madrugada. Logo atrás dela, vinha um homem todo vestido de preto. Usava boné e máscara, por isso não foi possível ver o seu rosto. Carregava uma pistola, mas não parecia apresentar perigo para mãe e filha, muito pelo contrário, parecia estar protegendo-as de mais alguém. Eles continuaram assistindo e não demorou para que os perseguidores também aparecessem nas imagens. Eram três homens e estavam vestidos de maneira semelhante àquele que acompanhava a Srta. Yoon. Eles também carregavam armas e todas elas tinham silenciadores, por isso a ação não tinha sido notada pelos vizinhos.

- Acho que estamos no caminho certo, Detetive Gu. – animou-se o padre. – Agora vamos ver quem foi a pessoa que tentou ver essas imagens antes de nós.

O policial fez a busca da imagem usando a data do dia anterior e o horário aproximado fornecido pela dona do mercadinho. Não foi difícil de encontrar. Hae-il não reconheceu o rapaz elegante na tela, mas Dae-yeong, sim.

- Eu acho que esse aí é o sobrinho do Presidente Baek, o tal do Baek Ji-sung. Aquele que estava na coletiva de imprensa.

- Acho que é ele mesmo. – concordou o padre, tentando puxar pela memória o rosto que havia visto na TV. – E as coisas ficam cada vez mais interessantes…

- Então quer dizer que eles talvez saibam da verdade, mas continuam difamando a Srta. Yoon para colocar o público contra ela? – deduziu o policial, meio levianamente. – Que filhos da...

- É possível, mas como eles não chegaram a ver essas imagens, não podemos tirar conclusões precipitadas. – interrompeu o padre, embora também achasse que houvesse uma grande probabilidade de que o detetive tivesse razão.

- Muito obrigado pela ajuda, senhoras. – agradeceram pela colaboração das mulheres, logo depois de terem sido autorizados por elas a fazer uma cópia das imagens num pen drive. Os dois homens voltaram para a viatura, onde conversaram um pouco.

- Acho que já sabemos qual deve ser o nosso próximo passo, Investigador Gu: ir confrontar aqueles desgraçados.

- Espera um pouco aí, Padre Kim. O senhor está bravo, e com razão, mas não acha que eles vão suspeitar se um padre aparecer do nada lá na empresa deles questionando sobre o caso? Pensa um pouco. Se o senhor fizer isso, vão começar a desconfiar que você tem alguma ligação com a Srta. Yoon e podem descobrir que a Maria está lá na igreja.

- Tem razão... Pela primeira vez, você disse alguma coisa inteligente.

- Como assim? Eu sempre digo coisas inteligentes…

- É melhor eu não fazer nada por enquanto, para não levantar suspeitas, mas você pode fazer. – concluiu Hae-il, deixando Dae-yeong curioso. – Pega esse pen drive e leva imediatamente para a delegacia, porque com isso, agora esse se tornou um caso para a Divisão de Crimes Violentos. Mande uma equipe da perícia para a casa, para analisar as balas e o sangue que encontramos. Não é possível que eles continuem de braços cruzados depois de ver isso. Não temos tempo a perder!

- Sim, senhor! – respondeu instintivamente Gu Dae-young à ordem. Quando se deu conta, já estava levantando o braço, quase prestando continência para o padre. Ele não conseguia entender porque sempre respondia às ordens do sacerdote como se ele fosse o seu oficial superior. Mesmo já tendo deixado para trás sua vida como agente do SNI há muito tempo, Kim Hae-il, ainda tinha um ar de autoridade militar, que exibia mesmo sem querer.