O Sabor Da Insanidade

1 O Que Restou Da Vida.


Até quando este inferno vai durar? Já se passaram três meses desde que esta merda começou. Pessoas morrem e logo voltam como seres horríveis e desprezíveis, com a aparência de um humano putrefato, o comportamento de um animal feroz que não pensa em nada mais do que se alimentar, e sem sequer o menor resquício de inteligência, sentimentos ou o menor sinal possível de humanidade.

A morte... a morte que no passado fora um tabu, algo que todos temiam e se espantavam profundamente ao se depararem, hoje nada mais é do que o cotidiano. Esse passado, que na realidade foi apenas há alguns meses atrás, hoje parece distante, uma eternidade, quase outra vida, outro mundo. No mundo onde vivo agora, matar é viver, ver pessoas morrerem já não me significa quase nada, é como pra mim fora ouvir o som irritante e rotineiro do trânsito de uma avenida movimentada, nada além de uma irritação momentânea.

Sinto que não são apenas os mortos que perdem sua humanidade, mas todos nós. Nesse tempo, tive que, por circunstâncias de momento, matar duas pessoas. Vi pessoas em perigo e não me importei em tentar ajudar, vi pessoas à beira da morte e simplesmente as abandonei. Estamos todos, de uma forma ou de outra, nos tornando monstros.

Ainda assim, há algo que não me deixa desistir e ceder a esta desgraça, algo que quero proteger e que dá sentido a minha vida. Minha filha Sarah, minha linda e adorada menina, a única pessoa que ainda vejo que, talvez pela inocência de seus oito anos, ou pela pureza de sua alma, ainda mantém vivo o amor e a compaixão do ser humano, que ainda não se intoxicou pela mácula e pela podridão que este mundo nos impregna.

No momento, somos só nós dois. Até a semana passada estávamos junto de um grupo, contudo, pouco a pouco, as coisas foram complicando e as pessoas foram morrendo, até que sobraram somente duas mulheres e um homem além de nós. Ainda pretendíamos continuar unidos, mas o cara, um louco filho da puta chamado Gordon, surtou e decidiu matar todo mundo. Ele pegou um machado e decepou uma das mulheres, depois atacou a outra, uma jovem chamada Alice, nessa hora eu consegui impedi-lo, desarmei-o e o matei, porém ela já estava gravemente ferida e decidi, com total reprovação de Sarah, abandoná-la e fugir.

Faz dois dias que estamos nos abrigando numa pequena casa abandonada no alto de um morro. É evidente que não é um lugar totalmente seguro, mas no momento é o melhor que temos. Há um pequeno cercado em volta dela e um lago não muito distante. Sarah ainda está puta comigo, mas a fome já a faz esquecer meus pecados e implorar por comida.

–Filha, não tem mais jeito, vou ter de procurar algo para comermos. Vou ver primeiro se consigo caçar, caso contrário,desço até aquela estalagem na beira da estrada, tento passar despercebido pelas aberrações dali e procuro comida, deve ter alguma coisa lá.

–Posso ir junto?

–Não, você fica, lembra o que aconteceu da última vez? Não posso cuidar de você ao mesmo tempo que faço coisas perigosas.

–Mas... -ela olhou para minha cara de reprovação e logo aceitou- tudo bem. Mas por favor, se você for lá e tiver alguém, não roube ou arrume confusão de novo, chega disso pai, chega!

Aquilo me fez lembrar porque ela é tão especial, alguém que no meio de um inferno ainda mantém seus valores. Por isso e por muitas coisas é que não posso medir esforços para mantê-la a salvo. Nesse momento, olhei bem para ela, sua roupa suja e parcialmente rasgada contrastava com seu belo rosto, de pele clara, cabelos de um ruivo cobreado, e brilhantes e bonitos olhos verdes, dos quais ao mesmo tempo em que irradiavam esperança e coragem, escondiam uma tristeza e insegurança que poucos além de mim conseguiam notar. Não consigo ser duro e realista quando a vejo, simplesmente desviei meu olhar e disse:

–Desculpe Sarah. –como posso fazê-la entender que as vezes medidas drásticas são necessárias? Quero preservar sua infantil inocência, mas a dura realidade é que este mundo não combina com sentimentalismo, se queremos sobreviver, temos que nos adaptar. Não sei mais o que é o certo ou errado a se fazer. Voltei a encará-la nos olhos- Pelo amor de Deus, não saia daqui e nem faça barulho. Vou te deixar com a arma, você sabe como usar, você treinou bastante, se alguma desgraça aparecer, não hesite. –respirei fundo- Te amo Sarah.

Lágrimas deixaram seus olhos marejados, ela sabe que este será mais um dia insano onde a morte nos ronda de perto, mesmo assim ela, como sempre, buscou forças sabe-se lá de onde, engoliu o choro e me abraçou com força.

–Te amo pai.