Notas iniciais
Oi oi oi, este é o prólogo da minha primeira fanfic original! Se você está lendo eu fico imensamente grata! Boa leitura!

Não sou nova, sou mais velha que as estrelas que vocês veem todos os dias no céu, mais velha que todos os de vocês juntos, e um dia chegarei para cada ser vivo. Alguns me encaram como renascimento, me encaram como uma nova chance de reescrever sua história, e em meu abraço sorriem, outros, por outro lado me veem como uma escuridão e em seu final me perguntam “Por que?” e seus queridos choram, e eles choram vestidos em negro. Ironicamente nunca gostei da cor, não tenho forma, não uso enormes mantos, tampouco uma foice, não gosto de foices, feias são, pouco ameaçadoras, se fosse ameaçar alguém de fato não o faria com uma foice, afinal de onde tiraram que eu, Morte, usaria uma foice? Sou deveras simples, não sou dramática, dispenso os dramatismos humanos, mas os admiro.
Suspirei com meus pensamentos. Vi o caixão do homem velho entrar, vários dos seus subordinados olhavam com lágrimas nos olhos, um velório lindo, se me permitem dizer. O Caixão era grande, ele era um coronel robusto e alto, sua esposa na cadeira de rodas chorava, os homens que seguravam o caixão vinham com os rostos duros como mármore, um deles não sorria por ter uma moral que lhe pesava todos os dias, mas estava feliz, de certo estava. Isso é algo que admiro nos humanos, sua falsidade, ora como são falsos, como são! Se enganam todos os dias com mantos de moral e ética, eu sinceramente teria esboçado um sorriso enquanto carregava o caixão, afinal, o velho está em um lugar bem melhor que o dele.
Lugares, suspirei, como me irritam os lugares! Esta é a pergunta que mais me fazem “Para onde vou?” “Fui bom?” “Irei para o céu? Onde está meu deus?”
Não faço a mínima ideia de quais são as resposta para estas perguntas, meus pequeninos. Nunca vi a face de Deus, de nenhum deles. Teu julgamento? Ora, tu te julgarás segundo tua crença! Se crês em Osíris ele te pesará na balança, se crês no Jesus cristão, ele te separará em joio ou trigo. Mas tenha em mente, que tudo que estava escrito será feito, e não poderás chorar ou ranger teus dentes após julgado.
Suspirei novamente, várias pessoas rodeavam a esposa, muitos deles eram “como irmãos” para o Coronel, e mais uma vez admirei a falsidade humana, mas admirei mais ainda a senhora na cadeira de rodas, tratava todos como iguais, mesmo sabendo que eles a repudiavam em secreto e falavam seu marido pelas costas.
Ao contrário do sentimento de ódio e medo que têm por mim, eu amo a todos os humanos, amo suas almas, eternas para alguns, finitas para outros.
O Padre iniciou os preparativos para o enterro, posicionado em frente a uma lápide fez uma reza. Fiz o símbolo da cruz como fazem os católicos com suas mãos, não pertenço a uma religião ou cultura, pertenço a todas, e a todas respeito e sigo.
Após alguns minutos de lágrimas, rezas, água benta e flores, o caixão foi fechado. A mulher na cadeira de rodas chorava mais ainda, desejava a mim.
Há hora para cada um de vocês, pequeninos, mas não me entendam mal, se me chamarem estarei lá, esperando, mesmo que não seja sua hora, quando me chamares estarei lá, como uma mãe.
E desejando a mim, desejei poder mostrar-me a ela e dizer que não era sua hora. Poucos podem me ver, realmente poucos, talvez dois ou três no mundo, mas se forem três, dois ainda não nasceram. Se chama Jessica, a única que pode me ver, a única que pode me ouvir e juram que sofre de esquizofrenia, não os culpo, talvez ver a face da morte quando ninguém mais vê a tenha deixado do jeito que é, mas dentre todos vocês, meus pequeninos, ela é a que mais amo, delicada e sonhadora, tocava piano, compunha músicas, antes de um glaucoma lhe tomar a visão alguns dias depois de nos conhecermos.

Depois de fechado o caixão fora selado pelos homens que antes o carregavam, o padre mais uma vez rezou, mas dessa vez não houve nenhuma repetição, todos rogavam pela alma do homem. Sua esposa tossia muito, e quando abaixaram o caixão e fecharam seu túmulo, desfez-se em lágrimas, e me desejou mais do que nunca, desejou meu abraço, e deu seu último soluço de tristeza, eu não podia deixá-la chorar, não podia deixá-la sofrer, não era a hora, mas se assim ela desejava, assim eu faria. Os olhos se fecharam lentamente selando o cadáver, morta em um velório, gostaria eu de rir. Ela me viu, estava de pé, não ficava assim há anos.
– Se estou ali, — ela sorriu, olhando para seu cadáver na cadeira de rodas — só pode significar uma coisa. Tu és morte?
– Eu mesma. — sorri de volta.
– Bom, então acredito que agora verei meu esposo!
– Se é assim que acredita... — foram minhas únicas palavras.

A abracei, não posso descrever com detalhes o que aconteceu, estragaria a surpresa para vocês que me conhecem apenas de contos, e eu não gostaria de tirar toda magia de nosso encontro.
Sempre que seus entes queridos morrem os ouço dizer “Ele está em um lugar melhor”. Não digam isto a qualquer um, crianças, não digam, esta é apenas mais uma falácia que vocês, seres finitos, contam uns para os outros.
Retornei para o quarto de Jessica, estava sentada na cama, morava em um hospital de reabilitação, lhe traziam todos os dias nesse mesmo horário seus remédios. Sentei-me ao seu lado na cama. Vi a porta abrir, era a enfermeira.
– Já está na hora? Você veio me ver, então eles vão trazer os remédios, vão me dopar de novo, por que é sempre assim?
– Você tem de tomar os remédios, meu amor, — disse a enfermeira, achava que a moça na cama falava com ela. — assim pode melhorar e ir para casa.


Rimos as duas, a menina tocando levemente meu ombro, para ter certeza se estava ali.
– A vida é injusta, diferente de mim, minha pequena. — disse eu.
– Você já me falou isso, tantas vezes, tantas vezes — ela repetiu “tantas vezes” até que as palavras perderam o sentido.
– E eu sei o que você me diz a seguir, minha amiga “Só quero que acabe com meu sofrimento.” Oh, minha pequena, mesmo que tu queiras tanto o fim de teu sofrimento, não o posso fazer, és minha única amiga, quantos milênios esperaria eu para outra aparecer? O que faria eu em teu réquiem, se não chorar? Chorar como teus entes queridos. Não tenho estes luxos, não tenho os luxos dos humanos, espere teu dia, e então te levarei.

Notas finais
Muito obrigada por ler, um review com sua opinião é super bem-vindo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.