O Ritual da Sétima Lua
10 Capítulo 9 - Cucurpita
Notas iniciais

16/08/2005
O ambiente que me encontro agora é a coisa mais confortável cujo ponho meus pés depois de tantos dias em que sobrevivi por minha vida.
Ao adentar a porta antiga e grossa de madeira marrom da cabana, me encontro em uma aconchegante e pequena sala de estar com móveis antigos. Dois sofás e uma lareira pequena em uma das paredes, ao extremo direito do pequeno espaço encontra-se uma modesta cozinha muito antiga também, com apenas as coisas necessárias e antiquadas. Em cima da pitoresca cozinha, há o que imagino ser o quarto de Ravena, guiado por uma escada torta de madeira. O lugar também não é muito organizado, com livros e papés atirados por todo canto, além de amuletos semelhantes aos do quintal pendurados por todos os lugares, mas mesmo em minha primeira impressão, estes não me causaram pavor nenhum diferente dos artefatos e símbolos das outras bruxas.
Apesar de ainda desconfiando, é a primeira vez que sinto algo cujo havia esquecido a sensação. Segurança.
— Senta já aí e me conta o que está acontecendo. — ela me ordena, empurrando-me até o sofá menor roxo desgastado
— Eu... Eu... Aquelas bruxas, elas... — de repente fico sem palavras e fôlego, minha garganta está extremamente seca e minha garganta arranhando. A mulher de cabelos grisalhos parece perceber e me consegue um copo de água da cozinha rapidamente, me olhando atenta enquanto tomo em grandes goles esperando minhas respostas, não deve confiar nem um pouco em mim ainda.
— Vim até a Casa Psiquiátrica São Marcos procurar minha esposa pois perdi o contato com o local e com ela, então adentrei o lugar e estava vazio, mas com... — receio ao contas sobre as criaturas inacreditáveis que Martha e eu encontramos — ...Criaturas não humanas, espíritos, não sei, além das bruxas que começaram a me perseguir também, como viu...
Ela me observa com os olhos acinzentados e as sobrancelhas juntas analisando cada palavra e expressão que faço. Seus braços finos se cruzam em seu peito ainda me observando.
— O que elas queriam com você? — pergunta por fim.
— Eu não sei, eles estavam falando sobre um ritual com Marias, acho que minha esposa fosse uma delas e... — mas antes que termine meu relato, seus olhos se arregalam e seu queixo cai um pouco.
— Como assim um ritual com Marias? Mais de uma? — ela pergunta intrigada como se matar apenas uma fosse aceitável.
— Sim, acredito que queiram ressuscitar essa entidade. — e engulo em seco antes de terminar. — Ele falou comigo.
— Quem? — ela pergunta com os olhos esbugalhados aproximando-se de mim, mas algo em mim diz que ela já sabe a resposta.
— Cucurpita. — sussurro.
Sua feição permanece a mesma, mas não profere nenhuma palavra, então sou eu quem quebra o silêncio.
— O que está havendo aqui? E porque a bruxa que me perseguia lhe chamou de irmã? — confronto-a, largando o copo vazio na mesinha de centro feita de madeira desgastada. — Eu mereço saber.
Ela me analisa por mais alguns momentos, mas então decide ir caminhando até a cozinha.
— Você deve estar faminto. — diz ela, pegando algo dentro de sua geladeira rangendo. Queijo e manteiga para comer com pão. Um verdadeiro banque para mim, minha boca se enche d’água.
— Sim, muito obrigado. — não pressiono-a mais por enquanto, mas não preciso, pois enquanto me prepara a torrada, Ravena começa a falar.
— Muitos anos atrás, pouco depois da colonização, muitas de nós nos escondemos. Nosso pai, que também era um grande bruxo morreu pela caça às bruxas, desde então, vivemos oprimidos pelos humanos e seus medos, mas com o tempo as coisas foram ficando suportáveis. — ela conta sem olhar para mim enquanto faz suas tarefas rápida e habilidosas pela cozinha, preparando um chá gelado com algumas ervas que pega em um vidro no armário. — Bom, eu só queria sossego, mas Tituta... Ah, ela sempre quis mais, não aceitava a vida vivendo “debaixo dos pés deles”, como diz, então seguimos lados diferentes quando ela decidiu tornar-se imortal e vingar nosso pai, mas isso teve um preço muito alto.
— Qual preço? — pergunto relutante com um arrepio percorrendo meus braços.
— Toda magia tem um preço e para o que ela queria, ele era muito alto. — ela entrega para mim o sanduíche no prato e um copo de chá, tento comer devagar mas não consigo, devido minha fome. — Para ganhar uma vida eterna, ela deveria conseguir o coração da pessoa que mais ama e usá-lo em um ritual satânico. Então ela arrancou o coração de nossa mãe para permanecer jovem para sempre.
Paro no meio de uma mordida pois a ideia me causa náusea, não posso imaginar como uma pessoa possa ir tão longe por conta de poder.
— Eu sinto muito. — sem saber o que dizer, é o que acabo falando.
— Tudo bem, já faz muitos anos, mas desde então, não atrapalho suas práticas horrendas de magia negra e fico em paz nesse terreno. — sua explicação é calma e fria e quando o silêncio paira novamente, ela resolve continuar, — Mas o Cucurpita é algo que não posso aceitar assim.
— O que é ele? — pergunto uma das questões que mais tem estado em minha mente.
Ravena hesita antes de responder, como se fosse perigoso e a própria criatura pudesse aparecer a qualquer momento.
— Ele era apenas uma criança com deficiência que morava nesses arredores séculos atrás, sua cabeça era deformada e gigante. Um dia Maria, uma garota que ele gostava, zombou dele e tocou pedras nele, uma acertou sua cabeça, o que o fez se desequilibrar e cair em um riacho. As crianças apenas riram enquanto ele se afogava. — ela conta em um tom muito soberbo. — Mas sua fúria e suas orações convocaram espíritos mais antigos ainda que viviam na terra desde o começo dos tempos ouviram suas preces e que ele voltaria a vida caso sacrificasse sete Marias na sétima lua minguante do ano, na mesma em que morreu.
Minha cabeça fica zonza enquanto tento processar todas as informações. Cucurpita era apenas um garoto? Isso tudo está cada vez ficando mais estranho e assustador.
— E o que podemos fazer agora para parar isso? — questiono, aflito.
— Eu não sei bem, tenho que procurar em grimórios. — responde, mas não parece muito confiante. — Não sei se tenho tudo que for necessário ou mesmo a força para realizar algo assim.
— O que vão fazer com minha esposa? — pergunto enquanto a sigo pela casa enquanto ela revira pilhas de livros de capa dura e empoeirados.
— Queimá-la viva presa em uma estaca. — responde indiferente, sem tirar atenção de sua tarefa.
Queimada em uma estaca, assim como meu sonho. Preciso parar isso de alguma maneira.
Ravena revira páginas e mais páginas pesadas, algumas escritas à mão, mas aparentemente não acha nada que possa nos ajudar a derrotar Cucurpita ou parar seu ritual e salvar minha esposa, apesar de dar-lhe todos os detalhes que sei.
— Há mais uma coisa que você deve saber. — ela começa do mesmo jeito relutante de antes, desviando olhar e a voz rouca. — Amanhã é o dia do Ritual.
Com mais essa pressão em cima de meus ombros, tento ajudar Ravena nem que seja na organização e ela me ensina algumas receitas medicinais naturais que podem ajudar minha perna a não doer. Conto à ela sobre Martha com a voz embargada, sobre o quanto me ajudou e me manteve filho dentro daquele inferno, até que começo a praticamente dormir de pé.
Ravena insiste que eu descanse em usa cama enquanto ela continua em sua busca, dizendo ter achado algo que pode servir como um círculo de bloqueio me volta de onde querem fazer, pelo menos isso os atrasaria,
Por mais relutante e passando que não conseguiria de maneira alguma, tamanha minha preocupação com Maria e todo esse ritual em si, mas o cansaço me vence e logo estou tendo pesadelos.
Novamente há um círculo pegando fogo com várias mulheres e identifico minha noiva novamente, mas desta vez não há grades, e vou até ela de passos lentos, percebo que em minha mão que tenho uma tocha. Sinto minha mulher gritar de dor enquanto queimo sua barrica fazendo sua pele derreter.
Acordo desperto e suando com tal imagem que não sai de minha cabeça. O dia já está claro e não sei por quantas horas dormi, então desço as escadas ao encontro de Ravena.
— Bom dia, garoto. — ela encontra-se na cozinha e sinto cheiro de café e biscoitos sendo assados. Ainda estou faminto e agradeço por tudo. — Tenho boas notícias.
— Encontrou algo que pode nos ajudar a acabar com esse ritual? — pergunto entre goles de cafés e mordidas generosas nos biscoitos maravilhosos.
— Termine seu café primeiro. — diz ela sentando-se na pequena mesa de madeira junto comigo, uma grande xícara de café em suas mãos. Parece cansada. — Cucurpita viveu na mesma época que eu, Fred. Ele era meu filho.
A informação faz todo meu organismo parar e simplesmente deixo cair biscoito em minha mão e encaro-a boquiaberto.
— Sim, fui eu que tive o filho deformado que foi apedrejado em 1785. — ela continua a contar encarando-me nos olhos firmemente. — Ele tinha magia em seu sangue e por causa da maldade acabou criando essa maldição, meu pobre Gabriel, ele era apenas um menino inocente...
Ela parece realmente triste ao fim do relato e não sei muito bem o que dizer novamente.
— Mas você é uma bruxa de magia branca, sabe que esse ritual e tudo envolvido nele é pura crueldade. — rebato, com receio do rumo que as coisas podem tomar. — Sinto muito por seu filho, mas não é certo trazer algo de volta com tamanha maldade.
Ela me analisa muito atenciosamente, como se quisesse ler algo em mim e enfim abre um meio sorriso de dentes amarelos
— Eu gosto de você, Frederico. — diz ela tomando mais um gole de seu café. — Você tem filhos?
A pergunta me pega de surpresa, Maria e eu desejamos sim ter filhos, mas nosso casamento nem foi consumado ainda. Provavelmente todas as Marias devem ser virgens de acordo com mais informações que Ravena me deu, mas já havia montado essa teoria depois de ler algumas das cartas.
— Não. — respondo seco, pois ela já sabia da resposta.
— Se tivesse entenderia que você faria tudo para vê-los de volta. É sua resposta, mas possui também um olhar triste no rosto e então meu coração começa a disparar. — Eu vi a marca em seu braço Fred, você não é apenas um fugitivo.
Então lembro da cicatriz causada pelas garras da bruxa que agora é apenas dois riscos rosados em minha pele, mas até agora não entendia direito o que significava, o por que de dizerem que fui escolhido sendo que precisavam das Marias para o ritual, mas agora as peças do quebra-cabeça começam a se encaixar em minha mente e suor escorre do meu corpo conforme vou entendo o que está prestes a acontecer.
— Ravena, você não pode. Você é uma bruxa boa. —tento argumentar enquanto levanto da mesa e me afasto dela, que começa a vir em minha direção.
— Desculpe, Fred, como eu disse, gosto de você. —são suas palavras antes de investir até mim mais rápido que qualquer pessoa de sua idade conseguiria, corro para a saída da casa já que não é muito lugar para correr na pequena moradia e ao abrir a porta percebo que esse era o plano o tempo todo.
Tituba e quem imagino serem outras bruxas, além de outras criaturas sobrenaturais como os experimentos do laboratório esperam para mim logo na borda mágica que me protege.
O desespero toma conta completamente de mim porque simplesmente não tenho nenhuma saída. Ravena está com um cajado de madeira e bate no chão, fazendo ele tremer e eu perder o equilíbrio.
— Por favor, por favor, Ravena, nós podemos achar algum jeito. Por favor. — suplico jogado aos seus pés enquanto Tituta gargalha chamando meu nome, para que me uma à eles.
Com um suspiro alto e um último olhar nos meus olhos, Ravena diz suas últimas palavras para mim.
— Eu sinto muito. Mas seremos uma família. — com um sorriso bondoso e doentio ela estende sua mão e um vendaval me puxa para trás e mesmo tentando me agarrar veemente aos amuletos espalhados pelo jardim e a grama, em segundos sinto os braços brancos e gelados de Tituta envolta de mim.
— Vamos lá, lindo. — suas palavras são sussurradas em meu ouvido como um sibilo de cobra. — Temos muito trabalho à fazer.
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