O Ritual da Sétima Lua
2 Capítulo 1 - Adprehendimus
Notas iniciais

09/08/2005
As coisas não estavam desordenadas assim desde a última vez que visitei o lugar, o que faz apenas algumas semanas, mas já noto vidros quebrados das janelas gradeadas do local. Um cadeado condecora a porta de frente, que permanece intacta. Ao observar o lugar por seus vidros não vejo nada fora do normal além da ausência de algum ser vivo, não há nenhum aviso sobre o funcionamento do lugar ou seus pacientes, parece que todos sumiram, então que ouço um barulho, como de uma TV mal sintonizada ligando-se. Poderá de haver pessoas ainda aqui nesse lugar? Minha noiva ou pelo menos alguém que possa me dar-me alguma luz nessa escuridão que enfrento.
Tento reunir as coisas em minha cabeça e colocar algum sentindo em tudo. Talvez o lugar até mesmo tenha sido assaltado e os pacientes foram deixados para trás — tento afastar esses pensamentos—, não sei se isso faz muito sentido, mas estou um pouco apavorado agora, porque acho que sei como entrar nesse maldito lugar.
Em nosso segundo encontro no São Marcos, Maria me contou onde ficava o sótão, com uma janela para a rua e uma lata grande de lixo embaixo, outros canos e vigas que poderiam facilitar a escalação para que eu pudesse esquivar-me pelas florestas que cercam o lugar e nos vermos secretamente.
“Você está louca mulher?” Lembro de ter dito, porque realmente era estranha uma atitude assim vindo dela, geralmente sempre queria fazer o correto e eu não sabia a sensação que isso podia causar a um homem que deseja uma mulher por tanto tempo. Ela pediu para que eu viesse logo, mas tudo complicou-se então e perdi o contato do lugar. Mas sabia o que fazer quando chegasse lá? Achar Maria e sairmos felizes para sempre? Minha última pista é o barulho de uma televisão mal sintonizada que não achei por vidro algum e pode ter sido muito bem minha imaginação fazendo-me crer em qualquer fio de esperança. Bom, sou historiador e não trouxe uma câmera e bloco de anotação para decoração, está na hora de serem usados.
A escalada até o sótão não é das mais difíceis, trata-se de um que fica pelo lado esquerdo do prédio cinza de três andares e telhados muito antigos sujos e enferrujados, assim como sua pintura desbotada e os canos vacilantemente prendida à parede escalei até esgueirar-me por uma pequena abertura de madeiras quebradas no andar mais alto do edifício.
O lugar está coberto de escuridão, então ligo minha câmera com visão noturna e é ela que me guia pelo aposento, que encontra-se como um sótão deve parecer, muitas prateleiras espalhadas com muitas caixas e outras coisas e um... palhaço? Levei um susto até perceber que não se trata de um brinquedo muito antigo e sujo do tamanho de uma criança de 5 anos sentado em uma prateleira. Sua cara não parece mais nada amigável depois de ter alguns dos dentes de algodão arrancados e rasgos na testa que tornam sua expressão assustadora demais devido ao lugar, então volto à minha missão inicial, que é encontrar a saída do lugar. E que tarefa difícil, cada minuto naquele lugar com as paredes inclinadas parecendo que queriam me esmagar e o maldito palhaço, não havia nenhuma porta e já estava pensando em voltar quando pisei em algo oco.
Uma portinhola, claro.
Felizmente estava destrancada pois meu coração estava prestes à explodir, tamanho era minha agonia daquele lugar, simplesmente que algo estava errado ali.
Desço pela escada e o corredor que me encontro está tão escuro quanto, o terceiro andar. Com poucas e fracas lâmpadas iluminando o lugar, que não está sob orden alguma, muito pelo contrário, parece haver caos por toda parte e onde ando. Parece que estou em uma ala de pacientes, onde minha esposa pode estar.
— Maria! — grito em plenos pulmões, apesar de não ter muita esperança depois de ver que algo extraordinário aconteceu nesse lugar, não recebo nenhuma resposta.
Começo a explorar relutante os quartos cujas portas estão abertas e quebradas. Todas parecem manter um padrão, todos estavam bagunçados, seja por lençóis jogados no chão ou escrivaninhas com gavetas abertas, vasculho mas não há nada de real importância, alguns quartos com rabiscos nas paredes dão a impressão que o lugar parecia mais uma prisão do que um hospital para saúde mental.
Continuo entrando nos quartos, com receio principalmente dos com porta aberta, sou cético, mas não há como não sentir medo em um manicômio destruído à noite, mas estes revelam-se tão desinteressantes quanto todos os outros.
“Adprehendimus”
Ouço como um sopro de voz vindo de perto, quase que do meu lado. Viro a cabeça com a câmera ligada, mas não vejo nem ouço mais nada, mas tenho certeza do que ouvi, e lembro desta ser uma das palavras que ela falava repetidamente às vezes, entre outras coisas. O pavor toma conta de mim e deixo minha exploração pelo terceiro andar pois e vou em direção às escadas, que vejo ao fim do longo corredor.
Marrons, empoeiradas e com tapetes desarrumados, contrastam com a cor amarela pálida e envelhecida do restante do prédio, na maior parte com um tom acinzentado, pergunto-me quantos anos esse prédio não ganha uma bela reforma.
Encontro mais corredores, não apenas um, mas várias intersecções e não sei para onde ir até que ouço novamente o barulho chiado da TV se ligando e sigo o som, passando por uma cadeira de rodas e um sofá atirados no chão até chegar ao corredor onde o som parece vir. Ele me guia até o que parece ser uma sala de recreação, com portas duplas abertas e muitas estantes de livros, cadeiras e mesas, todos jogados para todos os cantos, com exceção de um sofá com uma televisão muito antiga de 14 polegadas sintonizada em canal algum, mas como pode estar ligada?
“Circulus”
Ouço com clareza agora uma das palavras que minha esposa também sussurrava, não é um sussurro, é como um grito raivoso e deixo a câmera cair por um instante, as luzes e TV se apagam ao mesmo tempo e entro em pânico, minha única fonte de luz é a câmera e apalpo o chão como se meu coração fosse sair da boca, nunca fiquei tão assustado na minha vida. Que diabos está acontecendo nesse lugar? A verdade é que preciso sair daqui, quero correr e é o que faço assim que acho a câmera, as portas azuis que antes estavam abertas encontram-se fechadas desta vez e começo a dar chutes para que ela abra, mas nada parece causar efeito.
“Mortis”
Agora ouço a voz como uma serpente dentro de minha cabeça e consigo arrombar a porta no momento em que achei que fosse morrer, por mais pavoroso que pareça, minha melhor alternativa é correr de volta até o terceiro andar e porta que me leva ao assustador porão, que parece conter a única saída do lugar, que é todo gradeado e com saídas desconhecidas além da porta da frente, que sei que está fechada com um cadeado pelo lado de fora. Não sei o que significam ao certo, são palavras soltas sobre alguma frase. Um círculo e morte pelas minhas conclusões, não sei o que significa a outra palavra, aprisionado talvez, com certeza nada bom.
Sinto a sensação de ter algo me perseguindo enquanto corro, viro a câmera com a luz noturna para ver se capturo algo e uma silhueta preta aparece assustadoramente inclinada alguns metros de mim, como um piscar de olhos ela some e na corrida tropeço e quase caio, não acredito no que está acontecendo na frente dos meus olhos, subo vacilante mas rápido a escada e puxo a alavanca que derruba a porta e a escada, não resisto em olhar para trás, mas não há nada misterioso me seguindo desta vez e subo como louco a escada de emergência, adentrando novamente a escuridão do porão.
Tento refazer meus passos até o buraco, mas encontro-o sólido, como se nunca nenhuma madeira tivesse sido quebrada ali, dou chutes no local, mas nada acontece, jogo coisas e nada. Resta só o palhaço e eu no cômodo nada acolhedor, mas confesso que estou desgastado e permito-me alguns minutos de descanso conferindo as coisas que gravei.
Está tudo ali, até mesmo as vozes que ouvi, apesar de serem ruídos quase indistintos, mas o principal, a sombra que apareceu parada atrás de mim enquanto eu corria, dou uma pausa na cena e observo, uma grande e corcunda silhueta preta que só agora consigo ver — mesmo que borrados, devido à rapidez da aparição do ser — os olhos da criatura, brancos à luz fraca e captura da câmera.
Agora somos só eu e o palhaço esquisito que agora parece me encarar, mas acredito que o melhor plano seja esperar o dia amanhecer e talvez eu tenha alguma proteção contra qualquer coisa que possa estar me perseguindo e com sorte, noto do lado de onde estou sentado, um papel azul, que com a falta de cor do ambiente, destaca-se, sem ter o que fazer além de explorar esse lugar vou começar por esse belo papel azul no meio desse horror todo. É uma espécie de anotação, como um diário.
“Cada vez entendo menos as coisas que acontecem em minha volta, tenho a impressão de que sou tratada diferente das outras pessoas nesse lugar, não apenas por ser mulher, mas há costumes tão estranhos que nenhum dos outros pacientes com quem seja mentalmente instável conversar tenham relatado receber.
Ontem tomei banho em um banheiro nunca visto antes, duas freiras me guiaram até lá, pensei estar encrencada mas nada responderam e ao chegar o lugar estava cheio de velas, incensos grossos queimando como tochas no lugar e uma banheira no centro de tudo isso, tentei não aceitar a proposta, mas fui praticamente obrigada a entrar na banheira, cuja água quase queimava a pele, gritei que estava quente demais, mas pouco se importaram, ficaram me olhando como robôs enquanto enfrentava a agonia de estar sendo escalpada.
“O que eu fiz? Me perdoem! Me deixem sair, por favor!” gritei pois isso só podia ser castigo por algum ato proibido que fiz, talvez arrumar um cigarro e fumar escondida.
“É só um banho, logo vai acabar” Irmã Marcela disse friamente.
Continuei na banheira como ordenado, mesmo que todas as partes de meu corpo ardessem e a água nunca parecer esfriar, até que senti algo como um vácuo puxando minha cabeça para dentro d’água, tentei livrar-me de tal pressão que mantém meu corpo afundada, debatendo-me desesperada e só vi os mesmos rostos sem expressões de Irmã Marcela e Roberta, alheias ao que acontece comigo, os olhos queimando com a temperatura da água e quando pensei estar prestes à morrer asfixiada, a força deixa de empurrar-me para dentro e ei um grande salto, tossindo e buscando grandes lufadas de ar e quando dei por conta, a água estava vermelha, como se estivesse coberta de sangue. Gritei e saí em auxílio das freiras, mas elas diziam que estava tudo acabado e que não tinham visto nenhum afogamento nem água vermelha e quando olhei para trás e meu corpo, ele também encontrava-se sem cor, mas sei o que passei e vi e também sei que estou nesse lugar, mas não sou nenhuma louca da cabeça, só quero que isso fique como registo da minha sanidade mental e do que juro ter presenciado.
Maria E. Tavares”
A primeira coisa que faço é ler o nome da autora e me desanimo por completo, pois tinha esperanças de ser de minha esposa, mas apenas tem o primeiro nome dela, recolho a nota em um dos bolsos de minha jaqueta que contém algumas barras de cereal e pilhas para minha câmera. Talvez se sobreviver essa noite e sair daqui vivo, posso escrever um livro.
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