O Ritual

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Espero que gostem.

Era fim de tarde e mais uma missão acabava. O clima mudava lentamente enquanto o sol começava a se por. Todos estavam exaustos. Apesar da “praticidade” das armas, correr de um lado a outro, proteger, atacar, formular estratégias, mudar estratégias antigas e desenvolver um plano de emergência era mais que exaustivo.

Yoru, além disso, estava ansioso embarcar no avião para poder repetir seu ritual. Guardava sua sheriff no coldre e limpava a spectre com muito cuidado pra não perder o chaveiro que ganhara de presente há um tempo. Tirou um pente do bolso e passou pelos cabelos, mantendo o topete em dia, mesmo sabendo que, ao chegar na agência, estaria completamente desalinhado. Olhou mais uma vez para o pingente antes de escondê-lo. A corujinha era uma preciosidade, visto que foi dado pela primeira amizade que fizera na agência. Talvez fosse a única pessoa além de Sage que a tivesse. Sentia-se orgulhoso por isso.

Pensamentos à parte, olhara os outros que também se preparavam para embarcar. Killjoy e Sage estavam na frente conversando. As duas estavam com expressões cabisbaixas carregando as armas, kit médico e maquininhas, elas escolhiam os “melhores” lugares, os que davam diretamente para uma janela grande. Depois entraram Reyna e Sova carregando mais armas e munições. As snipers eram cuidadosamente guardadas em um compartimento especial para não descalibrarem as miras fixas. Por fim, o japonês com suas armas, sentando-se no lugar que “sobrou”.

O avião não tinha exatamente bancos confortáveis. Eram duas bases, uma em cada lado, um espaço imenso no meio e o fundo cheio de caixas e cases com o armamento e fragmentos das spikes, cada um se sentava onde dava e prendiam os cintos.

Yoru se sentou ao lado de Sova, como sempre, era parte do ritual. Observou os agentes conversando, como se tivessem muita intimidade, infelizmente não havia muito tempo que se juntara ao protocolo, então, não era íntimo de quase ninguém. Das pessoas que mais falava, ali, só estava o russo e ainda assim ele parecia entretido com o assunto das outras agentes.

Olhou para a janela como pôde. Assim que o avião decolou, conseguia ver os tons avermelhados do céu se tornarem escuros e sabia que a partir dali o frio ficaria mais intenso. O ambiente estaria bem propício para relaxar. Alternava a visão discretamente para o loiro ao seu lado e apreciava a vista. Mesmo cansado, Sova tinha um ar sereno, com os cabelos longos bagunçados e uns leves arranhões no rosto, próximas à cicatriz.

Quieto, o som tedioso da conversa parecia um padrão em sua mente então, os poucos, o sono vinha. Era claro... a segunda parte de seu ritual estava por chegar. Os bocejos nada discretos começavam e os bufares de agonia também. Resmungava para si mesmo. Tentava escapar do próprio sono, mas acabava cedendo e se ajeitando no banco, primeiro, apoiando a cabeça na parede do avião fechando os olhos. Não conseguia se sentir confortável, por mais cansado que estivesse... então vinha a parte principal do ritual, quando escorregava o corpo lentamente e ia apoiando o ombro ao do loiro ao seu lado. Por fim, vinha a terceira parte que consistia em deitar a cabeça no ombro ao lado e, ainda acordado, tentar prestar atenção no assunto... Em vão. Aquilo nunca foi interessante. Seu objetivo era outro.

E logo a quarta parte, nem sempre necessária acontecia. Escorregava mais ainda o corpo pelo banco, deitando no espaço restante e apoiando a cabeça no colo de Sova. Aquele era um travesseiro firme, alto e que conseguia fazer com que o sono mais forte viesse e acabasse apagando por grande parte do percurso... mas, vez em sempre sentindo um afago nos cabelos, fazendo com que abrisse os olhos. Aquilo, para Yoru, era uma das melhores recompensas depois de cada missão.

Naquele dia em específico, estava exausto a ponto de realmente acabar apagado com menos de dez minutos de voo, mas quando se deitou, percebeu o olhar de Sage, que apenas dera um sorriso tímido. Antes que pudesse falar alguma coisa atravessada, sentiu os dedos em seus cabelos e uma massagem relaxante começara.

— Kuso! ... — resmungou, sentindo o corpo amolecer.

O assunto continuava entre os demais, para o japonês eram apenas sons indistinguíveis e assim foi até não conseguir mais manter os olhos abertos.

...

Era quase meia noite quando Yoru sentiu um toque frio próximo à orelha. Encolheu-se, então abriu os olhos. As agentes estavam de pé recolhendo suas coisas e o som alto do avião havia parado. Chegaram na agência. Aquele era um martírio.

— Hora de acordar. — a voz de Sova era baixa e meio rouca, fazendo com que olhasse pra cima, resmungando, para então tirar o cinto e se levantar.

— Acho que dormi demais... Desculpa, Sova. — comentou, mas não se sentia culpado. Era a melhor parte de toda a missão e agora havia terminado.

— Tudo bem. Eu estranharia se você não dormisse. — o russo tinha um sorriso mínimo e foi pegar sua sniper. Havia o pingente de fragmento dimensional ali em sua arma principal.

— Acho que já é uma tradição. — comentou por fim, dando uma risada sem jeito. Viu a aproximação de Sage e não queria ter que conversar agora, mas não teria jeito de escapar, a não ser que se forçasse a romper a fenda dimensional.

— Vocês foram muito bem rapazes... Formam uma bela dupla e um... bom...

— Obrigado, Sage. — o russo agradeceu cortando a frase da agente antes que soltasse alguma coisa que não era de fato verdade. Não por falta de vontade de uma das partes.

Com o intuito de ignorar assunto desnecessário, fora pegar as armas e aproveitou também para pegar o arco do russo. Via a forma a qual falava com a amiga e respirou fundo. Queria, pelo menos ter mais alguns minutos perto dele.

Sage não era boba, nem distraída e sabia o que estava fazendo. Conversava aleatoriedades de relatórios de combate com Sova para ganhar tempo. Essa era a hora em que os outros agentes iam para seus dormitórios e, enrolando mais um pouco, não teria mais ninguém nos corredores. Quando achou que já poderia encerrar o assunto, sorriu, abraçou o russo e foi em direção ao japonês para pegar seu kit médico.

Deu um abraço no moreno.

— Seja direto ou nunca vai conseguir o que quer. — sussurrou em japonês no ouvido dele e o soltou rápido. — Boa noite, rapazes.

— Boa noite. — responderam em uníssono.

Yoru sabia que Sage era chinesa, sabia que ela sabia a língua japonesa por ter sido ela quem o bordou em relação ao protocolo, mas não sabia de seu intento de juntar os dois. Viu o loiro pegar a sniper e o acompanhou até o pátio.

— Deixa que eu levo pra você, já carregou isso dois dias seguidos. — comentava da arma pesada.

— Estou acostumado. Não se preocupe. — colocou nas costas como uma mochila. Aquela operator era pesada, mas parecia um pedaço de papel com a facilidade a qual a manuseava.

Caminharam por cerca de dois minutos até chegarem à base. Não teriam um percurso muito longo até os dormitórios e a fala de Sage estava bem fresca na mente do japonês. Antes que pudessem subir as escadas, ainda no corredor da recepção, segurou o punho do outro apenas para chamar sua atenção.

Sova virou calmo e observou a expressão do mais novo. Parecia pronto para perguntar alguma coisa, mas escolhia as palavras. Sorriu mínimo ao ver o leve rubor tomar aquele rosto sempre confiante. Era um dos raros momentos em que o via titubear diante de algo desafiador e admitia a si mesmo que estava rendido. Teria paciência.

Yoru tentava formular em sua mente algo que não soasse explícito demais e nem muito maquiado enquanto olhava para o russo. Perdeu-se brevemente no olho castanho, mas era acordado pelo brilho azulado do outro. Sorriu ao perceber que estava calado há um tempo.

— Acho que você já sabe que faço de propósito, não é? — comentou calmo. Ainda não havia soltado o braço dele.

— Sempre soube. — afirmou. Flagrara um dia em que o moreno travara uma briga com Phoenix para se sentar ao seu lado após a missão. Como o britânico não entendia, não cedeu espaço então, foram se estranhando até parte do caminho, quando trocou de lugar e foi para o banco ao lado do japonês para que ele deitasse e dormisse. Naquele dia em específico sentiu que realmente poderia haver algo ali. — Acho que você também sabe que eu gosto que o faça.

— Não sabia. — sorriu, escorregando a mão até a dele. — Sabe que, por mim, teria missão todo dia, não é? Só pra gente voltar junto. — sentiu os dedos fora da luva bem frios, mas os enlaçou, aproximando-se mais. — Quero dizer... Sova...

Sem que o outro pudesse terminar, Sova segurou o queixo dele com a mão livre e o beijou. Primeiro encostou os lábios em um selinho, mas depois, sendo aceito, iniciaram um beijo mais intenso. Juntaram os corpos e desvencilharam as mãos, levando para as laterais do corpo um do outro.

Yoru sentia o coração acelerado e a respiração ofegante pela ansiedade e pela sensação de ser complementado. Era como se estivesse realizando um sonho. Desejava naquele instante não segurar uma arma na outra mão para sentir mais do outro. Sentiu o afago nos cabelos, mas logo os dedos iam para sua nuca, fazendo um arrepio intenso subir da virilha à ponta da orelha, como um pequeno tremular.

O sentimento passara de euforia à um desejo intenso, onde os mamilos se tornavam rijos sob as roupas e o roçar dos corpos fazia aumentar o estímulo interno para uma ereção. Sabiam disso, continuaram os beijos, agora que chegavam a emitir sons.

O japonês guiou a mão até os cabelos loiros, emaranhando-os entre os dedos e mantendo o russo mais próximo que conseguia, levando uma coxa entre suas pernas. Deslizou a espectre que o mantinha ainda em um resquício de sanidade, deixando a arma despencar ao chão, empurrando suavemente o outro contra a parede, mantendo-o cativo a seu contato.

Mantiveram o ritmo dos beijos por um tempo, até Sova impor um ainda mais demorado, puxando-o para si, de forma que o espaço entre eles fosse nulo e conseguissem sentir os volumes de ereções que há um tempo se formaram e eram incômodas. O russo queria mais. Movia lentamente o quadril contra o dele, ouvindo um gemido baixo, enquanto as respirações se tornavam profundas.

Deslizara a mão da nuca do moreno, indo pelas costas até chegar na região das nádegas, onde apertou com vontade, realizando um desejo que tinha há muito tempo. Apesar de discreto, admitia mirar algumas vezes a mira da operator bem na retaguarda avantajada do duelista.

Yoru cessara o beijo, emitindo um arfar prazeroso, sentindo o toque em seu corpo. Era uma sensação nova, mas muito agradável. Levara os lábios ao pescoço alvo, deixando uma trilha de pequenas marcas enquanto sentia o baixo ventre formiga. Houve o aumento das fricções ali. Emitiu um murmúrio, prendendo-se mais contra o corpo do russo, apoiando a cabeça em seu ombro.

Sentia a temperatura aumentar a ponto do suor começar em sua testa. Estava entregue à sensação de prazer e em sua mente inebriada com o cheiro de Sova o levava para pensar no quanto queria estar no ápice daquilo tudo. Murmurou alguns palavrões em japonês, ouvindo algumas palavras em russo em resposta. Chamava baixo o nome do outro, até que...

O som do tilintar de uma moeda, fizera com que o instinto do caçador se aguçasse e as carícias parassem de imediato. O brilho azulado do olho biônico se tornou intenso e praguejou. Alguém estava por perto. Afastou minimamente o moreno e o encarou, vendo-o frustrado.

— Kuso! Por que os deuses me abandonam agora? — Yoru resmungou, levando as mãos aos cabelos bagunçados e vendo seu estado. Estava excitado em níveis que não conseguiria mensurar. — Sova, eu vou matar alguém. — viu o outro rir baixo e respirar fundo, ajeitando as roupas.

— Parece que serei cúmplice. — procurava discretamente a direção de onde vinha o som, mas não conseguia dizer exatamente de onde. — Melhor subirmos... Amanhã conversamos.

— Amanhã? — o japonês estava incrédulo. — Você não divide o quarto...

— Nem pretendo. — havia um sorriso mínimo no rosto do russo que sabia muito bem o que fazia. Aproximou-se brevemente do outro e deu um selinho, desarmado toda a expressão desacreditada e seguiu pelas escadas. — Boa noite, Yoru. — falou por fim.

O moreno se sentou em dois degraus da escada na esperança de que conseguisse acalmar seu próprio corpo que o traía em alguns aspectos. Ouviu sons vindos do outro lado, de um outro corredor que dava para a cozinha. Imaginar que alguém soubesse do que acabara de acontecer era um leve problema.

Problema a pessoa vai ter quando eu colocar minhas mãos nela... — pensou sentia suas energias começarem a acabar. Imaginava o que faria quando acordasse e visse o russo, a verdade é que ainda não entendera exatamente o que aconteceu e se era mesmo real.

— Amanhã é um outro dia, Yoru... — murmurou para si mesmo em uma tentativa de apaziguar sua mente acelerada... Ou um novo gatilho de desespero.

Amanhã seria um novo dia.

Notas finais
Esse shipp, particularmente, foi um desafio que me fizeram, mas acabei curtindo bastante. Espero que tenham gostado.

História também postada no wat... vocês sabem, aquele site lá.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!