O Retorno: The User
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Boa leitura :)
PS: O Josh nasceu em 2011, um ano depois do Sam voltar da Grade. A historia se passa em 2026.
Cápitulo 1
Do you ever feel like breaking down?
Do you ever feel out of place?
Like somehow you just don't belong
And no one understands you
Do you ever want to run away?
Do you lock yourself in your room?
With the radio on turned up so loud
That no one hears you screaming
No you don't know what it's like
When nothing feels alright
You don't know what it's like
To be like me...
To be hurt, to feel lost
To be left out in the dark
To be kicked when you're down
To feel like you've been pushed around
To be on the edge of breaking down
And no one is there to save you
No you don't know what it's like
Welcome to my life
(Welcome To My Life, Simple Plan)
Dias atuais...
Eu odeio ir a escola. E não é apenas pelos motivos convencionais, como acordar cedo e matérias e professores chatos.
Sinceramente, eu acho que a definição de escola devia ser modificada de “Local de Aprendizado” para “Local de Tortura e Humilhação”.
Mas não vou ficar aqui me corrompendo em autopiedade. Eu só acho que toda a lenga-lenga que eu escuto todos os dias da boca dos meus professores eu poderia muito bem aprender no meu quarto, sozinho. Apenas meu computador e eu. A união do homem e da máquina em busca de conhecimento através do aplicativo divino chamado Internet.
Mas o mundo não é justo e a realidade é decepcionante. Isso é terrível, mas fazer o que.
Abri o meu armário sem animação nenhuma naquela manhã de segunda. O corredor estava cheio de vozes animadas e barulho. Controlei a sensação de pânico crescente. Eu tenho claustrofobia, por isso odeio locais fechados e atulhados de pessoas. Acredite, eu tinha que me controlar para não surtar toda vez em que éramos obrigados a ouvir algum comunicado ou assistir algum jogo no ginásio da escola. Todos os alunos da escola reunidos em um único local rindo, gritando e conversando ao mesmo tempo. Tudo bem que o ginásio era bastante grande, mas mesmo assim.
–Cuidado ai, Flynn! – disse Thomas Flesher, derrubando os livros que eu já tinha pegado e se afastando rindo com seus comparsas sem cérebro que só tinham neurônios suficientes para saber a hora que deviam rir ou não.
Cerrei os dentes e me agachei para o pegar os livros, xingando Flesher de todos os nomes possíveis internamente.
–Você é o Josh, certo? – perguntou uma voz feminina.
Me levantei e fique momentaneamente mudo pela surpresa. Uma garota. Uma líder de torcida. Falando comigo. Olhei para trás, pensando que provavelmente ela estava falando com outra pessoa e isso pareceu a divertir.
–É você mesmo. Você é Josh Flynn, certo?
–Hum... sou – ela era linda. Me perguntei o porquê dela estar falando com um perdedor como eu quando podia estar com os jogadores de futebol.
–Sou Emma – ela sorriu. – Eu queria me desculpar pelo Flesher, ele é meio idiota às vezes.
–Às vezes? – falei baixinho e ela riu.
–Ok, a grande parte das vezes. Me desculpe mesmo assim.
–Tudo bem, estou acostumado. – dei de ombros. Ela mordeu o lábio inferior.
–Bem, a gente se vê Josh – ela sorriu e se afastou.
–A gente se vê... – falei, olhando a ir. Balancei a cabeça, pensando que o mundo havia enlouquecido e me encaminhei para a sala de aula. Matemática. Maravilhoso.
Logo que o Professor Symons começou com o “blá blá blá” habitual, deixei minha mente vagar, o que não era difícil já que eu tenho déficit de atenção.
Na escola existe uma hierarquia rígida, seguida com vigor: Populares humilham impopulares e impopulares humilham perdedores totais, como eu.
Você deve estar pensando que eu estou exagerando. Pode acreditar, não estou.
Não sou o mais inteligente, o mais bonito ou o mais falante. Meu desempenho com esportes é deplorável. Com garotas é o mesmo. Eu nunca sei o que falar, e quando digo geralmente é a coisa errada. E eu gaguejo também. No final sou imediatamente taxado com retardado e estranho. Meus gostos para música e livros são variados então não me encaixo em nenhum grupo especifico como os góticos, os roqueiros e os rappers. Já falei do meu déficit de atenção? Sei desenhar razoavelmente bem. Minha timidez chega a níveis quase extremos. Sou uma espécie de “pau para toda obra” sem me destacar ou ser diferente em nenhuma categoria.
Ah, claro, eu já ia me esquecendo do fator principal. Eu não sou nenhum gênio da informática. Eu, Joshua Kevin Flynn, filho de Sam Flynn, considerado o Bill Gates da atualidade, sei só suficiente de computador para me virar sem problemas. Isso geralmente decepciona as pessoas. Pra falar a verdade, decepciona a mim mesmo. Claro que eu tento mudar essa situação, mas eu não tenho aquele dom nato, que parece nascer com a pessoa (como com o meu avô e meu pai).
A manhã pareceu passar depressa e agradeci ao meu déficit por isso. Sai da escola, imediatamente jogando o capuz sobre a cabeça, cobrindo grande parte do meu rosto. Observei a garota que havia falado mais cedo comigo, Emma, se despedir das amigas. Assim que ela percebeu que eu a observava, acenou sorrindo. Lentamente, acenei de volta.
Teorias começaram a surgir em minha cabeça. Primeiro pensei que talvez ela quisesse se aproximar de mim porque queria algo do meu pai, não seria a primeira vez. E em seguida, se estava ficando paranoico.
Flesher e sua turma saíram, dando socos de brincadeira uns nos outros. Peguei minha bike e me afastei logo dali antes que alguém tivesse a “brilhante” ideia de brincar de “Espanque o Flynn”. Eu já havia visto Flesher fazendo isso com outros garotos e eu sempre me sentia mal por não fazer nada. Mas entrar na briga não ajudaria em nada. Eu só tomaria uma surra junto com o outro garoto.
Tomei a direção oposta a de casa. Meu pai só chegaria depois das sete.
O sol já se punha quando cheguei ao meu local favorito: o terraço. O terraço ficava em um velho prédio, que hoje servia como um casa de repouso. Os habitantes do bairro já me conheciam e acenaram calorosamente quando passei. Prendi a bicicleta no local de sempre e pulei o muro baixo.
–Portões não tem significado algum para você, certo? – perguntou o velho Sr. Herbert que estava na varanda.
–Boa tarde, Sr. Herbert. – respondi apenas e ele sorriu.
–Boa tarde, Josh.
–Vou ficar lá em cima, ok?
–Ok. Tome cuidado para Milliet não o pegar. O turno de hoje é o dela.
–Ela nunca me pegou, porque pegaria agora? – sorri.
Ele riu.
–Todo cuidado é pouco, filho.
Logo ouvimos uma voz irritada vindo de dentro da casa.
–Sr. Herbert, quantas vezes vou ter que dizer para não sumir do quarto sem me avisar!
–Vá – o Sr. Herbert fez um acenou para que eu fosse e eu rapidamente subi a escada de incêndio.
Uma das coisas que eu tinha certeza: jamais veria um por do sol tão bonito quanto o do terraço. Me sentei no muro, com uma das pernas pendendo para fora no prédio, e o admirei em silêncio por uns segundos. Então revirei minha mochila e peguei um bolinho amassado. Retirei a embalagem e alisei, colocando-a como uma toalha a minha frente. Em seguida coloquei uma vela no bolinho e o pus sobre a toalha improvisada. Acendi a vela com um isqueiro.
Suspirei ao olhar meu patético bolo de aniversário.
–Feliz aniversário para mim. – falei em voz alta. Em seguida me senti tão patético quando o meu bolo.
Fechei os olhos e me imaginei em um local completamente diferente. Me imaginei em uma casa completamente diferente da minha, diante de uma mesa com um bolo feito pela minha própria mãe. Meu pai estava lá claro. Ele parecia mais jovem, mais feliz e menos preocupado. E minha mãe, a mãe que eu imaginava já que eu era jovem demais quando ela foi embora e nunca tinha visto uma foto dela, sorria radiante. Eu a imaginava parecida comigo, já que a única coisa que eu herdara do meu pai eram os olhos castanho-esverdeados. Cabelos castanhos na altura no ombro, olhos azuis, sorriso bonito e simples que parecia iluminar o mundo. Meus avós paternos, que eu só tinha visto fotos, também estavam lá. E havia outras crianças, parecidas comigo, correndo pela casa. Meus irmãos.
Eu juro que quase podia ouvir a voz da minha mãe imaginária, o riso do meu pai e dos meus irmãos no vento que uivava no terraço.
Afastei a imagem com medo de pirar. Ou talvez eu já tivesse pirado. Eu não sabia.
A vela se apagou com o vento, eu a tirei e comi o bolinho. Joguei a mochila nos ombros e sai correndo dali, me sentindo exposto demais, como se tivesse sido pego fazendo algo errado.
Logo que cheguei em casa, corri para dentro, querendo me esconder de tudo e de todos. Sharon, nossa governanta, se aproximou correndo quando me viu subindo as escadas.
–Josh, está tudo bem? – ela perguntou preocupada.
–Está. – falei sentindo algo entalado na minha garganta. – Eu só quero ficar sozinho.
Como se eu não ficasse sozinho sempre, pensei sombriamente. Antes que ela pudesse dizer algo, subi o restante dos degraus. Parei no corredor, pela primeira vez não desejando ir para o meu quarto. A alternativa veio rapidamente: o escritório do meu pai. Fui até lá, jogando a mochila em um canto qualquer, e me enfiei embaixo da escrivaninha. A escrivaninha era inteiramente fechada na frente e atrás havia um espaço para o ocupante por as pernas, entre duas colunas de gavetas. Era sempre lá que eu me escondia quando era pequeno e meu pai e eu brincávamos de esconde-esconde.
Me encolhido e fiquei em silêncio. Ouvi os passos de Sharon pela casa, me procurando. Eu a ignorei quando chamou meu nome. Não sei quanto tempo fiquei lá. Talvez eu tenha adormecido.
A lua já aparecia na janela do escritório quando finalmente sai de lá. Meu corpo inteiro doía por ficar tanto tempo na mesma posição. Me sentei na cadeira da escrivaninha e tentando afastar o mal-estar que eu sentia, imaginei como seria ser meu pai. Imaginei a responsabilidade de liderar uma empresa tão grande como a ENCOM e cuidar de um filho problemático e possivelmente psicótico ao mesmo tempo. Imaginei eu mesmo liderando a ENCOM.
–Vai ser um desastre e tanto. – falei, rindo pela primeira vez naquele dia.
Parei de rir e resolvi pensar positivamente. Minha vida não era um lixo total. E eu não estava completamente sozinho, eu tinha meu pai e Sharon. Prometi a mim mesmo que pediria desculpas a ela por ter a deixado preocupada.
Abri e fechei algumas gavetas da escrivaninha, sem procurar exatamente algo. Mas quando tentei abrir a penúltima, ela estava trancada.
–Ora, ora, o que temos aqui? – murmurei baixinho, forçando novamente a gaveta. Fui até meu quarto rapidamente, pegando um canivete e a arrombei. A gaveta estava vazia. Erguendo uma sobrancelha para as loucuras do meu pai comecei a fecha-la novamente quando o barulho de algo se deslocando me chamou atenção. Parei e sacudi a gaveta. O som se repetiu novamente. Tirei a gaveta e a analisei, procurando uma possível explicação. A mais provável foi a de um fundo falso. Com o canivete, tentei puxar uma das bordas do fundo. Quando este saiu, sorri triunfante.
Por debaixo do fundo falso, não havia nada além de um colar simples com um drive de memória como pingente. Me perguntei por que meu pai esconderia um drive qualquer em uma gaveta trancada. Talvez tivesse informações confidenciais sobre a ENCOM. Descartei a ideia na hora. Meu pai não seria estúpido de colocar essas informações assim, em uma gaveta onde alguém facilmente poderia arrombar, como eu.
Mas e se fosse... algo sobre a minha mãe?
Antes que eu pudesse me recuperar totalmente ouvi as portas do andar debaixo de abrindo.
–Bem-vindo, Sr. Flynn. – ouvi Sharon dizer.
–Obrigado, Sharon. – meu pai respondeu. – Josh chegou?
–Sim, senhor e...eu estou preocupada com ele, senhor. Ele parecia transtornado quando chegou e se escondeu em algum lugar. Eu não consigo encontra-lo.
Ouvi meu pai suspirar.
–Tudo bem, vou procura-lo.
Ouvi passos começando a subir a escada e senti o pânico tomar conta de mim quando percebi que ainda estava segurando a gaveta. Tirei o colar da gaveta e na hora que fui por o fundo, meu cérebro desesperado me avisou que meu pai provavelmente notaria que a gaveta teria sido arrombada e que eu havia pegado o colar. Procurei debilmente uma solução. A minha corrente! Ela devia ter o peso e o tamanho parecidos com o colar então praticamente a arranquei do meu pescoço e a joguei de qualquer modo na gaveta, colocando o fundo falso imediatamente. Guardei o canivete no bolso.
Mal eu tinha acabado de por a gaveta, a porta se abriu.
–Hey – falei em um tom falsamente animado.
–Porque estava se escondendo? Você deixou Sharon preocupada. – ele se aproximou.
–Vou pedir desculpas a ela agora – falei rapidamente e comecei a sair.
–Josh. – meu pai disse e eu paralisei.
–Sim? – perguntei baixinho sem me virar.
–Não vai pegar sua mochila?
–Ah, vou, é verdade! – corri e peguei a mochila rapidamente.
Meu pai me olhou desconfiado.
–Está tudo bem?
–Claro! Porque não estaria? – tudo em mim parecia gritar culpa.
–Não sei... – ele me olhou desconfiado por alguns segundos mas logo pareceu relaxar e sorriu. – Não se você já viu o que eu trouxe para você...
–O que você trouxe? – perguntei curioso.
–Vá ver no seu quarto. – ele sorriu e piscou.
Fui imediatamente ao meu quarto e havia um embrulho de tamanho médio. Eu o abri e dentro havia um notebook novinho em folha. Não pude evitar sorrir quando vi a estampa da capa dele.
–Só por favor, não saia tacando ele nas guerras de disco. Ele foi meio carinho. – meu pai disse rindo. Olhei para ele, nem havia percebido que ele estava na porta.
–Claro que foi. – ri ironicamente. Não importa o preço daquele notebook, meu pai teria dinheiro suficiente para comprar dúzias dele. Mordi meu lábio inferior e olhei o notebook novamente. – Obrigado.
Desde que eu me entendo por gente, ele me contava sobre a Grade. Sobre Clu e sobre meu avô. E eu acreditava piamente. Mas quando eu contava para as outras crianças ou adultos, eles riam. Com o tempo, eu mesmo comecei a rir junto. Era apenas uma história.
Mas porque agora aquilo me incomodava? Olhei para o disco na capa e de repente algo me veio a cabeça. O drive pareceu pesar mil quilos no meu bolso. E se...
–Não foi nada.Vou te esperar no jantar. – eu mal ouvi o que ele disse. A possibilidade de tudo o que eu havia ouvido ou uma cópia estar ali, naquele drive...não. Aquilo era loucura. Era apenas uma historia, não era? Apenas uma boa história.
Eu sabia que não conseguiria dormir pensando naquilo.
Notas finais
bjos :*
Fale com o autor