O Retorno Do Fantasma Vigilante
8 Eu Nunca Deixarei De Te Amar
Notas iniciais
P.O.V Mônica Sousa
Sexta-feira, último dia de aula na semana. Admito estar cansada, algo nessa semana me fez realmente ficar exausta. Termino de amarrar meu tênis preto e olho minha roupa, algo simples, mas confortável, uma calça jeans clara e uma camisa preta básica.
Pego minha mochila, meu celular e minhas chaves me dirigindo para fora de casa, já havia tomado um breve café da manhã, então não estava com fome. Começo a trilhar meu caminho habitual em direção a escola.
— Mônica! – Chama-me uma voz um pouco distante de mim, quando me viro vejo Cebola ofegante correndo em minha direção.
Provavelmente que por nossas casas serem uma do lado da outra, ele havia me visto ao longe e resolvido correr até me alcançar. Logo Cebola para em minha frente tentando recuperar o fôlego.
— Bom dia, Cê. – Digo com um sorriso olhando para a careta que ele estava fazendo por ter corrido.
— Quando vi você saindo, tive que correr para colocar a roupa, comer algo e ir te encontrar. Se fosse só correr até você, estaria tranquilo, mas tive que me virar nos trinta. – Sua risada tão familiar surge de entre seus lábios macios.
— Por que fez tudo isso? – Pergunto em um sussurro deixando meus olhos pararem em seus lábios.
Alguma espécie de encanto me fazia sempre desejar ser beijada novamente por ele, era como se todo meu corpo necessitasse daqueles beijos de tirar o fôlego e de acelerar o coração. Chacoalho minha cabeça para voltar a focar nos seus olhos.
— Eu queria te fazer uma pergunta. – Diz ele, e em seguida, voltamos a andar em direção a escola.
— Qual? – Pergunto me concentrando para não pisar em falso, eu sentia que algo a mais tinha nisso.
— Quer ir ao cinema comigo hoje à noite? – Propõe Cebola me fazendo parar e o encarar. – Como um encontro?
— Eu... – Começo, mas acabo ficando sem palavras ao olhar aquele brilho familiar naqueles olhos chocolate, Cê estava perceptivelmente ansioso pela minha resposta. – Tudo bem, aceito.
— Mesmo? – Insiste querendo a confirmação o que me faz rir.
— Mesmo. – Concordo com a cabeça junto de um sorriso no rosto.
— Isso! – Comemora ele que rapidamente me “assusta” ao me pegar em um abraço me tirando do chão e girando.
— Seu louco! – Exclamo rindo e enlaçando meus braços em seu pescoço.
— Obrigado... – Sussurra Cê me colocando lentamente no chão.
— De nada... – Gaguejo um pouco com a intensidade que ele me olha, mas logo me recomponho. – Agora vamos para a escola, não quero me atrasar.
— Você quem manda, chefe. – Brinca ele me fazendo revirar os olhos com um sorrisinho.
— Bobo.
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— O que eu visto? – Me pergunto olhando para meu guarda-roupa.
Como é um encontro, acho melhor uma roupa de sair, mas não quero exagerar também. Assim que termino de refletir meu diálogo interno, acabo optando por um vestido vermelho básico, mas que me lembra da infância, coloco uma sapatilha preta e passo um batom vermelho junto de um delineado gatinho e rímel.
— Filha, deve ser o Cebolinha. – Diz minha mãe após a campainha tocar.
— Estou indo lá atender. – Grito de volta para minha mãe.
Ela estava viciada em alguma série, assistindo em seu quarto, enquanto isso meu pai estava em uma viajem de negócios e só voltaria na próxima semana. Pego minha bolsa tiracolo preta onde coloco meu celular e minha carteira. Desço as escadas e abro a porta.
— Oi, Cê. – O cumprimento.
— Olá, Mô. – Diz ele me estendendo um buquê de peônias brancas, minhas flores preferidas.
— Não precisava disso. – Digo pegando as flores com um sorriso enorme no rosto.
— Precisava sim. Eu deveria mimar você mais vezes, seu sorriso fica mais maravilhoso ainda. – Sussurra a última parte de um jeito que me arrepia inteira.
— Obrigada... – Nervosa, agradeço a ele e antes de colocar as flores em um vaso com água, as cheiro sentindo aquele perfume incrível que só as peônias possuem.
— Vamos? – Pergunta Cê me estendendo sua mão.
Esse único gesto me fez pensar em como o Fantasma Vigilante tem essa mania de me oferecer seu braço ou sua mão para segurar. Tiro esse pensamento da minha mente focando no Cebola, ele usava uma calça preta, uma camisa polo verde escura e um tênis marrom.
— Voltamos a infância. – Brinco rindo ao perceber como estávamos vestidos.
— O que? – Pergunta ele confuso, mas rapidamente percebe o que eu estava dizendo ao olhar para si e para mim. – Nem foden...
— Olha a boca! – O repreendo impedindo-o de completar sua frase.
— Desculpa, Mô. – Diz envergonhado coçando sua nuca. – Só me sinto bobo de não ter percebido isso antes. Aliás, você está deslumbrante como sempre.
— Obrigada. – Agradeço corada e seguro a mão dele finalmente. – É melhor irmos, não vamos querer perder o filme.
— Tem razão.
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Assim que chegamos ao Shopping nos dirigimos até o cinema, havíamos conversado o caminho todo sobre os momentos que passamos na infância, algo nostálgico para um encontro, mas também foi gostoso de se lembrar.
— Minha vez de pagar. – Digo a ele assim que estamos perto de sermos os próximos a pegar o ingresso.
— Não vai não. Eu a convidei. – Cebola me olha profundamente e decidido.
— Você pagou meu café da manhã aquele dia, só vou retribuir. – Afirmo, mas ele ainda não parece convencido.
— Não, Mô. O que eu fiz foi porque me preocupo com você e se formos para ir a encontros, eu quero pagar e comprar tudo o que você quiser. Comecei um trabalho de meio expediente apenas para poder levar você para vários lugares, então por favor, só aceita. – Diz ele segurando minhas duas mãos o tempo todo.
— Cê... – Não sabia o que falar. Ele realmente arranjou um emprego só para sairmos juntos?
— Sim, eu arranjei um emprego por sua causa. Para poder te levar onde quiser, para que possamos fazer tudo o que sentirmos vontade, comprarmos o que quisermos. – Explica ele me encarando profundamente.
— Como sabia que essa seria minha pergunta? – Pergunto confusa, afinal, nunca tinha dito nada em voz alta.
— Eu te conheço bem e estava estampado no seu rosto. – Ele toca a ponta do meu nariz com seu indicador.
— Bobo...
— Próximo! – Diz a atendente interrompendo nosso momento.
Logo Cebola compra nossos ingressos para o filme do começo da noite. Ainda tínhamos um tempinho antes de começar, então decidimos ir pegar a pipoca para não precisarmos sair no meio do filme.
— Uma grande salgada e uma média doce. – Pede o Cebola que me deixa confusa.
— Viemos com a Magali? – Brinco, e ele ri.
— Não, mas o filme é longo.
— Está bem. – Dou de ombros olhando pelo balcão que haviam vários doces e chocolates.
— Quer beber o que?
— Não sei. O que você tomar está bom para mim. – Respondo com um sorriso no rosto.
— Beleza. Duas cocas de baunilha. – Pede, e eu o encaro confusa.
— E isso existe? – Pergunto, e ele ri.
— Sim. É importada, mas é muito boa, você vai gostar. – Cebola dá uma piscada para mim.
— Está bem.
Depois de pegarmos todo o nosso pedido, e de eu ter “vencido” para pagar pelo menos as pipocas e os refrigerantes, nos dirigimos até a sala do cinema que seria a do filme que assistiríamos. Entregamos nosso ingresso e vamos até a última linha de poltronas. Por incrível que pareça, haviam poucas pessoas na mesma sala e apenas nós havíamos optado pela última fileira.
— Que filme é mesmo? – Pergunto a ele por estranhar o “vazio” na sala.
— Um de comédia romântica. – Cebola dá de ombros, ele claramente não lembrava o nome.
— Acho que a maioria está em outra sala. – Admito rindo.
— Provavelmente. – O garoto de cabelos espetados sorri. – Prefiro assim, prefiro ficar sozinho com você. – Sussurra perto do meu ouvido me fazendo arrepiar.
— Pipoca? – Pergunto colocando o pote de pipoca doce entre nós.
— Claro. – Cê ri e pega um punhado para comer.
Não demora muito e o filme começa. Na metade dele já havíamos acabado com nosso “pedido”, e para constar, a coca de baunilha é o melhor refrigerante que já provei, é como tomar “vaca preta” (coca com sorvete), mas sem sorvete, é um gosto muito bom mesmo.
Uma cena romântica começa, e eu acabo ficando corada, discretamente olho para Cebola que parecia estar nervoso, receoso. Com o canto dos olhos vejo ele se virar para mim então volto a olhar para frente, para o filme.
— Mô? – Me chama ele com a voz bem baixa só para eu escutar.
— Que foi, Cê? – Pergunto com o tom baixo também.
— Eu... – O meu melhor amigo de infância parecia dividido entre falar ou não.
— Pode me dizer. – Insisto, e ele fecha os olhos dando um longo suspiro.
— Não quero falar. – Ele abre os olhos rapidamente, mas antes que eu pudesse perguntar o que era, o mesmo me beija.
Por um momento fico parada e em choque com o beijo repentino, mas logo começo a retribuir. Ele me beija como se precisasse daquilo para viver, é um beijo intenso e cheio de amor, suas mãos seguram meu rosto ao mesmo tempo que me acariciam, acabo por puxar seu colarinho para tentar intensificar mais o beijo.
— Uau... – Sussurra ele quando nos separamos. – Parece que só melhora a cada beijo. – Confessa com admiração.
— É... – Sussurro, mas não estava focando nas palavras.
Esse beijo... Preciso de mais.
Rapidamente mudo de lugar sentando no colo dele o surpreendendo, entretanto, ele não diz nada. Pego-o pelo colarinho e o beijo novamente com muito mais desejo e paixão que antes. Cebola segura minha cintura me apertando mais contra ele, nossas línguas parecem entrar em uma disputa de “poder” e nossos corações batem em sintonia.
— Cê... – Sussurro entre um gemido abafado pelo jeito que ele me segura, com força e segurança, em um modo protetor.
— Nunca havíamos nos beijado assim antes... – Confessa me olhando de um jeito que me incendeia.
— Sim... – Concordo olhando para ele, ofegante, eu queria mais, mas não era o local e nem o momento.
Deslizo para fora do colo dele voltando para minha poltrona onde passo o resto do filme. Trocamos alguns olhares, mas nenhum tentou tocar o outro novamente ou falar sobre o que havia acontecido. Quando o filme acaba, optamos por ir para casa, pois já estava ficando tarde.
— Obrigada pelo cinema. – Agradeço ao Cê assim que chegamos à porta de onde moro.
— Eu que agradeço por ter aceitado. – Ele dá um sorriso contente.
— Até amanhã. – Retribuo o sorriso.
O garoto de cabelos espetados me dá um beijo na testa e vai em direção a sua casa, ao lado da minha. Entro e vou correndo para meu quarto apenas parando para dar um breve “oi” a minha mãe. Me deito na cama e fecho os olhos relembrando tudo, todos os momentos do encontro no cinema.
Não sei quanto tempo fico com um sorriso no rosto lembrando do encontro, mas em algum momento, começo a escutar barulhos na minha janela. Quando me levanto e vou até ela, percebo que eram pedrinhas sendo jogadas. Abro a janela e olho para baixo.
— Posso subir? – Pergunta Cebola que estava parado no meu jardim.
— Por que? – Confusa, respondo sua pergunta com outra.
— Porque eu percebi que não quero encerrar o encontro ainda... – Ele olha para baixo corado, e eu acabo sorrindo por seu jeito envergonhado. – Se quiser posso ir embora.
— Não, pode subir. – Digo e sem esperar mais, Cebola escala as vinhas do meu quarto e pula pela janela pousando no chão.
— Não sei mais como agir com você, tudo o que sinto é vontade de estar ao seu lado. Mônica, o que você está fazendo comigo? – Sussurra ele acariciando minha bochecha, meu coração acelera.
— Você quem tentou me afastar... – Deixo minha tristeza transparecer o que traz uma reação diferente nele, o garoto que eu tanto quis odiar na infância me abraça com força me apertando contra seu peito, algo reconfortante, seguro, quase desesperado.
— Me desculpa... – Sua voz sai descompassada, e quando eu me afasto um pouco para ver seus olhos, percebo dor neles.
Não era só eu que estava sofrendo com isso, ele pode ter feito a escolha errada ao termos terminado por conta daquele “código de honra”, mas Cebola se sentia tão destruído quanto eu por nos afastarmos, por não estarmos juntos.
— Vem. – Ele me leva até minha cama onde nos deitamos abraçados olhando para o teto do meu quarto.
Aquele desejo todo que estávamos no cinema havia dado espaço para o carinho e ternura. Era como se estar envolta aos braços dele, eu estivesse em casa, em um lugar seguro e confortável.
— Eu nunca vou deixar de te amar, Mônica. Nunca... – Ele sussurra me apertando mais contra ele, conseguia ouvir seu coração acelerado.
— Cê... – Sussurro o nome dele.
— Não precisa dizer nada. – Sinto os dedos dele acariciarem meus cabelos em um cafune e assim permaneço, quieta, apenas aceitando as caricias simples e amorosas dele.
Depois de algum tempo calados, começamos a conversar, relembrando momentos da nossa infância, nossos e também com nossos amigos. Ficamos desse jeito até adormecermos nos braços um do outro.
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Na manhã seguinte, eu acordo sozinha na minha cama. Havia dormido tão bem que poderia correr uma maratona e ainda ter energia para fazer um passeio de bicicleta. Uma carta em meu criado-mudo me chama a atenção e quando a pego, percebo ser do Cebola.
“Agradeço por ter me deixado passar a noite com você e também pelo encontro. Gostaria de ter acordado junto a ti, mas não queria que sua mãe me encontrasse na cama da filha dela. Prezo pela minha vida. Então acabei indo antes de todos acordarem. Só tenho a te confessar que nunca dormi tão bem antes como dormi com você em meus braços, espero que possamos repetir isso algum dia. Ass.: Cebola.”
— Cê... – Dou um sorriso ao imaginar ele escrevendo essa carta enquanto durmo.
Será que ele saiu direto ou ficou me observando? Eu não sei, mas esse tempo com ele, do encontro até dormirmos juntos, foi tudo maravilhoso.
Talvez ainda haja esperanças para nós...
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