O Retalhador de Áries
3 2# — Quando me tornei o Retalhador de Áries.
2# — Quando me tornei o Retalhador de Áries.
É segunda-feira, são dez horas da noite. Kyoko e eu saímos às seis para pegar um cineminha e, na volta, paramos numa sorveteria próxima. Foi nosso primeiro encontro e não teria acontecido sem uma ajudinha financeira do Hizashi, ele ficou tão feliz por eu ter vencido o campeonato e levado o título para a academia que bancou tudo. Eu nem precisei contar pra minha namorada patricinha que sou um duro! Alguns heróis não vestem capa.
Agora a estou acompanhando até em casa, nós descemos do ônibus no ponto e estamos esperando os carros pararem de ir e vir para atravessar a rua. Sinto sua mão pegar na minha, seus dedos se entrelaçarem nos meus. A olho surpreso enquanto aguardamos e desvio o olhar quando ela me encara de volta. Atravessamos a rua e paramos num enorme calçadão, na frente de uma farmácia. Prosseguimos a caminhada.
Percebo que não conversamos o suficiente já que nem precisávamos, escolhemos um ótimo filme para ver e os sorvetes derreteram enquanto nos pegávamos. Ela olha para baixo, acho que pensou a mesma coisa que eu. Vejo um sorriso em seu rosto e me certifico de que, mesmo com a fama de campeão que tenho agora, em lugar nenhum vou encontrar garota mais bonita do que ela.
Aquele vestido preto rodado de alcinhas, aqueles saltos combinando, os brincos discretos dourados, os lindos cabelos soltos que pouco passavam dos ombros e os olhos... cara, que olhos. Ela não precisa de maquiagem para presentear nossos olhos, aquela beleza é só dela, veio do berço.
Já eu? Eu fiz o meu melhor. Sora me emprestou a jaqueta de couro mais legal que ele achou no armário, ela era preta, tinha uns botões prateados e um bolso do lado esquerdo. Coloquei uma camisa cinza e quadriculada por baixo, calças jeans e tênis, passei meia hora na frente do espelho penteando os cabelos e usei perfume. Tinha tanto tempo que eu não usava perfume.
— E então, Haru... — Ela quebrou o silêncio, que não chegava a ser constrangedor, mas precisava ser quebrado: a casa dela fica a três quarteirões de onde estamos. — Quando você começou a lutar? E por quê?
— Comecei com uns... nove anos. — Respondo. Um filme passa na minha cabeça. — Meu pai me matriculou na academia do Hizashi depois de eu levar uma surra feia de uns garotos da minha escola. Nessa época eu já não abaixava a cabeça pra ninguém, ele sabia que eu não fugia de uma briga e então decidiu que eu precisava aprender a me defender.
— E não é que meu irmão e meu pai estão certos quando dizem que uma surra pode construir um campeão? — Disse-me. Eu ri, concordei completamente com o que ela disse. — Isso é o que você quer fazer? Vai se profissionalizar?
— Ainda não sei. — Respondi, pus a mão livre no bolso da calça e olhei para cima. — Gosto de ser amador, eu tenho a liberdade de largar tudo a hora que eu quiser, não ganhar pelo que faço me dá certeza de que eu faço porque amo.
— E daí? Muita gente é feliz trabalhando com aquilo que considerava só um hobby.
— É, mas eu sou um cara meio do contra. Tenho medo de perder a vontade de treinar depois de comercializar o meu talento... é mais psicológico mesmo. — Digo. — Mas e você? O que vai fazer depois de terminar o ensino médio?
— Pedagogia. — Me responde, apenas.
— Jura? — Pergunto, tentando esconder a surpresa.
— É. — Ela confirma. — Por que o espanto?
— P-por nada, eu jurava que você ia tentar moda, ou algo do tipo. — Retruco e coço a cabeça envergonhado.
Ela me acalma quando diz:
— Não precisa se envergonhar, todo mundo presume isso de mim, olha como eu sou estilosa! Eu encaro esse prejulgamento como um elogio.
— Foi mal, eu não queria te prejulgar. — Tento limpar minha barra.
Ela me olha atentamente por todos os vinte metros seguintes. Eu, sem saber pra onde olhar, fito o chão, a esquina, as estrelas. Tá uma linda noite. Kyoko continua com seus lindos olhos verdes em mim.
— Que foi? — Decido perguntar.
— Você esfrega a cabeça quando alguma coisa te deixa tímido. — Sua resposta me surpreende de novo. — Eu tinha notado isso lá na escola, só não tinha certeza até agora.
— Sério? — Pergunto, ela balança a cabeça confirmando o que disse. — Eu nem tinha me dado conta. O que você faz quando alguma coisa te deixa tímida?
— Nada me deixa tímida. — Ela responde, apenas. — Mas você fica bonitinho quando tá tímido, não deveria esconder isso.
— Uhum, eu só fico bonito quando tô tímido, no resto do tempo eu sou feio. — Distorço propositalmente o que ela falou, quero ver se é verdade que nada a deixa tímida.
— Não é isso, você fica bonitinho de um jeito... diferente. — Ela se sai dessa com a mesma confiança com a qual entrou, tenho a prova de que nada realmente a intimida. — E eu não saio com gente feia, você dizer isso é até ofensivo pra mim, de castigo vai ficar sem beijo de despedida.
— Não tá mais aqui quem falou. — Retiro o que disse na hora, mesmo sabendo que foi brincadeira. Não tem nem uma hora desde que nos beijamos pela última vez e já sinto falta da boca dela.
Mais alguns minutos andando e finalmente chegamos. A casa é muito mais simples do que eu imaginava, é amarela, com telhas que parecem compradas e postas hoje. A garagem fica à esquerda e mais perto da rua do que a porta de entrada, na calçada à direita tem um pequeno gramado com uma só árvore solitária no meio. Duas janelas, cada uma de um lado da porta, dão aos residentes uma ampla visão da rua.
Paramos na porta, ela sobe o degrau e me alcança em estatura. Sinto os seus braços sobre meus ombros e suas mãos se encontrarem na minha nuca, levo as minhas a sua cintura e a puxo pra mais perto. Ela afasta o rosto um centímetro, eu avanço, ela afasta de novo. Um sorriso se forma em seus lábios, eu os encaro com sede.
— Eu disse que você tá de castigo, lembra? — Me diz, entre os beijos que deixa em meu rosto. Quer me torturar.
— Eu pedi desculpas. — Replico. Ela afasta a gola da minha jaqueta e deixa mais um chupão em meu pescoço.
O pai dela abre a porta, eu, no susto, a afasto rápido. O cara é grande, muito mais do que eu me lembrava. É negro, forte, tem cabelos crespos levemente grisalhos, olhos verdes e usa camisa polo. Ele com certeza já está com raiva de mim por ter derrotado o seu filho e ainda me surpreende pegando a filha dele. É, acho que nessa eu entrei mal.
Me preparo para ser xingado e penso nas respostas até ele me estender a mão e sorrir amigavelmente.
— Você deve ser Haru Akasora, o novo campeão mundial de artes marciais mescladas. — Me cumprimenta.
— É um prazer conhecê-lo, senhor Naruki. — Digo, e aperto sua mão. — E me desculpe por qualquer coisa que tenha visto aqui. Como o Hiroki está? — Finjo que me importo.
— Treinando sem descansar desde que perdeu pra você. Ele vai querer revanche. Já sabe se participará do torneio do ano que vem? — Respondeu-me.
— Eu ainda não sei, senhor. Tenho que conversar com meu treinador, mas podemos lutar de novo quando ele quiser. — Tento ser o mais gentil possível na resposta. Meu relógio digital de pulso apita e eu olho pra ele. — Bom, já tá na minha hora de ir, foi um prazer conhecer o senhor. Te vejo na escola amanhã, Kyoko.
— Me manda mensagem quando chegar! — Ouço-a dizer, enquanto me afasto.
Tudo corria bem no meu caminho de volta ao ponto de ônibus até eu passar na frente de um beco escuro e ter a clara impressão de ter ouvido alguém chamar o meu nome. Paro ali mesmo e procuro quem fez isso, como não havia ninguém ao redor eu presumo que foi algum engraçadinho escondido nas sombras. Novamente me vem aquela sensação de estar sendo observado, eu ergo a guarda.
Com o decorrer dos segundos, desencano daquilo e respiro fundo em busca de calma. Concluo que é só coisa da minha cabeça, que tive um dia agitado e estou com sono, então continuo andando. Cem metros a frente, sinto que alguém me segue. Olho imediatamente para trás e me vejo completamente sozinho. Acelero os passos, levo poucos minutos para chegar ao ponto do meu ônibus, sento-me lá e pouco depois já posso ver ao longe minha condução chegar.
Logo estou entrando na minha rua e correndo até minha casa.
— Chegou cedo. — Diz Yue, parada na calçada da porta dela.
— Cedo? — Olho a hora. — Quase perdi o ônibus.
— Pensei que você ia dormir por lá. — Ela me responde, eu subo os degraus até minha porta e ponho a chave na maçaneta. — Como foi?
Eu abro a porta e, em resposta, a convido:
— Entra aí.
Vou direto para a sala, forro o braço direito do meu sofá vermelho com a jaqueta do Sora e me sento, cruzando as pernas sobre a mesinha de madeira que fica no centro da minha sala. Pego o controle remoto, aponto para a TV que fica sobre a estante, a dois metros de distância da mesa, e a ligo.
Yue se senta ao meu lado com meu gato nos braços. Checo o celular e mando uma mensagem para Kyoko avisando que cheguei, ela visualiza rapidamente e, um minuto depois, envia uma foto sua deitada na cama em resposta. Lindo pijaminha cor de rosa florido e rostinho sonolento.
— Fala como foi. — A tampinha me pede, em meio ao ronronar do Hércules.
— Ela é uma garota muito divertida, foi incrível. Exceto pela última parte. — Respondo, zapeando de canal atrás de um bom filme para assistir até pegar no sono.
— O que rolou? — Ela pergunta, se ajeita no sofá e deixa o Hércules ir.
— O pai dela viu a gente se beijando, foi constrangedor. — Largo o controle.
— Só se beijando, é? — Me esqueci da marca dos chupões no meu pescoço quando tirei a jaqueta, mas Yue não deixou passar despercebido e não perderia a chance de me zoar. — Olha só isso. Sua garota é selvagem.
— É, ela é. — Digo, sorridente. Meu celular vibra, é Kyoko mandando uma mensagem para dizer que está sem sono. Eu minto dizendo que também não estou com sono, ela retruca falando que queria estar comigo agora.
— Acho melhor eu ir embora, três é demais. — Yue percebe que está sobrando.
— Você já vai? Que bom, assim eu não preciso te expulsar. — Agradeço.
Ela joga um travesseiro na minha cara e sai. Deito no sofá, estico os pés, troco mais umas dez mensagens com Kyoko e desmaio ali mesmo.
...
Todo cansaço que meu corpo acumulou no final de semana foi embora nesta última noite de sono, porque acordei faltando dez minutos para o portão da escola fechar e os atrasados ficarem de fora. Tomo um banho rápido, visto uma camiseta preta, as calças jeans, os tênis, jogo a mochila nas costas e me mando.
Minha pressa é tanta que acabo pegando o ônibus errado, felizmente meu ponto não fica tão longe de onde o motorista me deixou.
Tudo corria bem no meu caminho de volta até eu passar na frente de um beco de uma via deserta, ser agarrado pela jaqueta e atirado contra a parede por um cara esquisito que usava um longo roupão preto. Eu o chutei e soquei com toda a força mas, além de machucar meus punhos, ele não sentiu nada. O cara parece ser feito de aço.
Sou suspenso pela garganta e prensado com mais força contra a parede, o brilho da lâmina que ele retirou da bainha faz meus olhos arderem e me inspira um terror que eu nunca experimentei antes. Me pergunto se é ali que eu morro, num beco sujo, feio e frio, sem nem saber por quê ou quem me tirou a vida. Agarro seu pulso com força e tento me livrar de seu domínio.
Seus dedos pressionam minha garganta, querem esmagá-la e não teriam a menor dificuldade nisso. O oxigênio começa a faltar. Não consigo gritar, já não tenho nem forças para me mexer. Quando estou prestes a desmaiar, uma espada perpassa a cabeça de meu agressor, que cai imediatamente. Ao invés de sangrar, ele entra em curto circuito.
Eu me afasto, em pânico. Não vou muito longe, minha garganta está extremamente dolorida, jogo as costas na parede para massageá-la e me ponho a tossir. Eu não sei o que era aquela coisa, tudo que eu sei é que ela era forte demais para ser humana. Me pergunto o que puseram nos nossos sorvetes, se o pai da Kyoko havia feito algo quando nos falamos.
Ouço chamarem meu nome. Quase tenho um ataque cardíaco. Chamam de novo. A voz não me é estranha. Alguém emerge das sombras, alguém que veste roupas semelhantes às do androide que caiu diante dos meus olhos, só diferindo na cor e na máscara, que tinha aberturas para os olhos e o nariz.
— Quem é você?! — Pergunto, apavorado. — E como sabe meu nome!?
Ele remove a espada do crânio do robô e se aproxima dois passos, eu me afasto quatro. Estamos à luz do dia, sem sombras. Sua máscara não tinha só a abertura pro nariz e os olhos, tinha, também, um símbolo esquisito. Seu roupão é azul claro e tão cumprido que nem dá para ver seus pés. Trêmulo, tento correr, mas estou paralisado de medo. Fico no meio da rua e ele na beira da calçada, me encarando sem dizer nada.
Vejo-o embainhar a espada.
— Sou o Retalhador de Peixes. Você tem se sentido observado nos últimos dias, não tem?
Paro para pensar no que ele disse.
— Era você? — O indago, um pouco mais calmo.
— Só algumas vezes. Eu não estava no ginásio onde aconteceu seu campeonato. — Ouço-o responder e continuo achando sua voz familiar.
— Que palhaçada é essa de Retalhador de Peixes?! O que você quer comigo!? — Digo, fingindo que estou com raiva para esconder o medo.
— Não precisa ter medo de mim, eu te salvei. — Ele argumenta. — Nós, os retalhadores, somos os doze protetores da Terra. Seu pai, Azin Akasora, era um de nós até ser morto.
— Meu pai morreu numa briga de bar, os assassinos dele já foram presos! — Exclamo.
— Você acredita mesmo nisso? — Ele me questionou, me fazendo parar por um segundo e refletir. — Eu sei que não. Seu pai ocupava um cargo que queremos que seja seu, vamos te dar a chance de vingar a morte dele.
Mesmo receoso, começo a me interessar.
— Quem o matou? Foi um desses robôs? — Inquiri-o.
— Isso aqui? Não, essas coisas são fracas demais. — Ele desdenha de um ser que dominou fácil o campeão mundial de artes marciais mistas, retira um anel do bolso e o joga pra mim, que pego no ar. — Se puser isso no dedo, você vai concordar comigo.
— O que isso faz? — Examino o objeto.
— Vai te transformar no Retalhador de Áries. Não conte pra ninguém o que acabou de acontecer aqui. Se for usá-lo, faça num local onde não possam te ver. Não faça nenhuma bobagem! Eu estou de olho em você, cuide muito bem disso! — Disse-me, em seguida deu-me as costas pronto para ir embora.
— Espera! — Gritei, ele me olhou por cima dos ombros. — Como eu entro em contato com vocês?
— Vai saber quando o puser no dedo anelar. — Respondeu e, sem titubear, foi embora, mas tão rápido que fiquei tonto só de tentar seguir seus movimentos com os olhos.
Fico parado no meio da rua olhando o estranho objeto, quero usá-lo mas não sei o que vai acontecer, não sei nem se posso confiar naquele cara. O enfio no bolso direito da minha calça. Procuro pelo robô destruído mas não o encontro nem no lugar onde caiu e nem em parte alguma, deduzo que o tal Retalhador de Peixes o levou. Meu relógio apita e saber a hora me faz entrar em desespero, eu corro apressado na direção do ponto de ônibus mais próximo.
...
Chego no portão da escola quinze minutos após ele fechar. Me irrito, ponho minhas costas no muro branco do colégio e cruzo os braços. Não dou a mínima para perder as aulas, o problema é que passarei a tarde todinha sem nada para fazer, só de pensar já fico entediado. Apoio minha cabeça na parede e tento pensar em algo.
As palavras do esquisitão mascarado ecoam na minha cabeça. "Nós, os retalhadores, somos os doze protetores da Terra. Seu pai era um de nós até ser morto." Se é que posso confiar nele, eu tinha razão esse tempo todo. Meu pai não morreu numa briga de bar, ele era bom demais para terminar desse jeito. Se esse é o caso, quem foi preso no lugar do verdadeiro assassino? Quem é o verdadeiro assassino?
"Seu pai ocupava um cargo que queremos que seja seu, vamos te dar a chance de vingar a morte dele." Tá aí uma coisa que eu sempre quis: vingar a morte do meu pai. Até isso me foi tirado. Isso também ronda a morte da minha mãe de mistérios. Será que a versão oficial é verdadeira? Preciso me distrair, pensar em outra coisa. Mas como vou fazer isso? Kyoko e Yue estão na aula, Hizashi nos deixou dois dias sem treino. Será que o Sora está ocupado agora?
Pego meu celular e envio uma mensagem pra ele, que não demora para responder. Também está entediado. Digo a ele para vir na porta da minha escola, ele responde que estará aqui em quinze minutos. As palavras do retalhador voltam a me perturbar, eu meto a mão no bolso, pego o anel e fico brincando com ele. Meu pescoço ainda dói, eu o esfrego e sinto as marcas dos dedos do robô que tentou me matar.
Chega uma mensagem da Kyoko, ela me pergunta onde estou. Avisto o Sora antes de poder responder, guardo o celular e o anel no bolso de trás da calça e corro até lá para cumprimentá-lo. Sua camisa, branca, de mangas cumpridas e com dois botões abaixo da gola, está manchada de sangue, mas seu rosto está intacto.
— De quem é isso aí? — Pergunto.
Ele se olha como se não soubesse que tinha sangue em suas roupas e responde:
— Porradaria em grupo. Te explico no caminho, vem comigo.
Ainda que com medo de acabar na cadeia, eu o sigo, ele começa a correr e eu tento acompanhar, precisando de um tempo para alcançá-lo. Após dez minutos de corrida nós chegamos num enorme terreno baldio, no meio do qual há o que parece ser uma casa. Nós corremos até lá, escalamos o muro, pulamos dentro e nos deparamos com duas garotas caindo na porrada. A mais bonita tá apanhando feio e logo, logo vai deixar de ser a mais bonita.
A que está em vantagem esquiva de dois socos, bloqueia um chute, recua e leva um direto no nariz. A que está perdendo gira, dá um chute na barriga da outra, desvia de um cruzado e aplica um gancho no queixo da outra, que não cai, continua lutando. Eu chego mais perto do Sora porque tenho algumas perguntas.
— Sabe que você nunca mais pisa no ginásio se o Hizashi ficar sabendo disso aqui, né? — O informo.
— Ele nunca ficará sabendo. — Ele me diz, em resposta.
— Quem é essa gente toda? — Olho a minha volta. O número de garotos e garotas é igual.
— Um pessoal que conheci no centro socioeducativo. — Diz-me. Que ele já esteve preso por coisa de um mês eu sabia, eu só não sabia que ele tinha cultivado as amizades que fez nesse tempo.
— Não sei porque eu tô surpreso. — Afirmo.
A luta entre as duas termina com uma virada inacreditável: a que estava perdendo nocauteia a adversária com um poderoso cruzado de direita. Sora corre, ergue sua mão e a declara vencedora. Depois disso, a maioria me nota e comenta sobre mim entre si. Sora percebe isso, envolve meu ombro com seu braço, me leva até o meio da arena e me transforma no centro das atenções.
Eu, sem graça, espero para ver o que ele tem em mente.
— Senhoras e senhores! Hoje, nos lisonjeando com sua presença, temos o campeão mundial de MMA, meu melhor amigo: Haru Akasora! Palmas para ele! — Ninguém aplaude. — Qual é?
— Aposto que ele é um otário, olha só essa cara! — O mais forte dali, um cara alto, sarado, branco, sem camisa, de cabeça raspada e tatuagens me desafia, os três que estão ao lado dele riem da provocação.
Eu resolvo entrar na brincadeira.
— Por que vocês quatro não vem aqui e eu mostro quem é o otário? Podem vir os quatro. — Os desafio, eles vêm pra cima mas são detidos por Sora.
— É tentador, eu ia adorar ver isso, mas temos que respeitar as regras. — Argumenta o asiático. — Hoje é o dia das garotas!
As meninas gostaram do que ouviram.
— Regras? Desde quando você liga para regras? — Diz o cara que me provocou.
— Não ligo pra regras, só gosto de ver garotas brigando. — Sora retruca.
O grandalhão o empurra, me ataca com socos, eu me esquivo dos dois primeiros, saio da frente do terceiro e contra-ataco chutando ele na cabeça. Isso o irrita mais. Desvio dois diretos com as mãos, tiro o rosto da frente de três cruzados, saio da reta de um chute e dou um soco no meio da cara dele, que recua seis passos. Todos comemoram minha óbvia superioridade com urros e aplausos.
Ele vem pra cima de novo, eu o afasto com um pisão, pulo e soco seu rosto, levando-o a nocaute. Sora o olha como se dissesse "eu tentei avisar" e levanta a minha mão, declarando-me vencedor de uma luta não anunciada. Ouvimos sirenes. Todos, com medo de que seja a polícia, correm desesperados e pulam o muro para fugir, meu celular cai do meu bolso, eu o pego e ponho a mão para ver se o anel ainda está lá. Não está.
— Porra! Porra! — Me agacho e engatinho para procurá-lo. — Merda! Mas que porra!
— Haru! Vem logo, anda! — Sora volta para me buscar.
— Deixei cair uma coisa, tenho que achá-la! — Replico.
— Perdeu! Esquece! — Ele grita. — Se não dermos o fora daqui agora, nós vamos em cana!
— Então eu vou em cana! Não posso perder aquilo! — Exclamo, fazendo-o ver o quanto o que eu perdi era importante.
Ele fica dividido entre me ajudar e fugir, mas se sente culpado por ter sido quem me levou lá e fica para me ajudar. Eu encontro o que procurava, aviso a ele, nós escalamos o muro mas, logo que descemos, damos de cara com duas viaturas da polícia e quatro policiais encostados nelas.
...
Sora e eu fomos acusados de vandalismo, de invasão domiciliar, de formação de quadrilha e algemados a uma cadeira enquanto aguardamos a chegada do responsável para o qual ligamos. Escolhemos Arashi, o professor de geografia — ele me deu o número dele na primeira detenção que peguei e eu o anotei no celular, imaginando que esse dia chegaria.
Eu poderia ter ligado para a Yue e pedido ajuda a mãe dela, mas não queria levar problemas para uma moça viúva que trabalha doze horas por dia para manter a casa e sustentar sua filha.
Me animo quando o vejo chegar. Estamos sentados em frente ao balcão da delegacia, então podemos ouvir a conversa toda. Como a única evidência que tinham contra mim eram meus punhos machucados e teoricamente seria meu primeiro delito, me libertar não é muito difícil.
Sora é que é o problema. Ele foi preso antes por cometer crimes dos quais estamos sendo acusados agora, portanto o professor precisou morrer numa graninha para livrá-lo de passar uns bons anos na cadeia.
Após soltos, vamos de dentro da delegacia até a rua sem ouvir uma lição de moral ou uma bronca, mas nos assustamos e esperamos tudo o que normalmente ouviríamos quando ele se vira para nós e gesticula como se fosse dizer algo.
Mas ele não diz nada, só fica nos olhando, então Sora agradece:
— Obrigado por pagar a minha fiança, professor.
— Em que escola você estuda? — Ele pergunta ao Sora.
— Em nenhuma. — O Sora responde. — Parei de ir quando cheguei no primeiro ano.
— Quer me compensar? Se matricula no colégio onde eu leciono. O Haru também é de lá. Vá amanhã. E quanto a você. — Ele me olha. — Acho bom ter uma boa desculpa pra tudo isso ou vai ficar até as sete na escola copiando do quadro. Vamos indo, eu levo vocês pra casa.
Ambos entramos no carro branco dele, eu aproveito o caminho para explicar tudo e assim me safar do castigo. Sora assume toda a culpa pelo ocorrido, promete não me meter mais em problemas e se afastar daquele grupo se Arashi concordar em não falar nada pro Hizashi. Tudo acaba dando certo mas alguma coisa ali chama a minha atenção, algo que eu não sei dizer o que é mas com certeza é relacionado ao professor.
Sora é o primeiro a ser levado até em casa, com a saída dele eu mudo para o banco da frente mas o resto do caminho é percorrido em silêncio. Pego meu celular e acendo a tela. Deve estar cheio de mensagens da Kyoko e da Yue. Pergunto ao professor se ele contou para mais alguém que fui preso, ele garante que não.
Respondo ao terceiro e último "cadê você?" da minha namorada dizendo que saí com o Sora, ela me diz que seu pai me viu dentro de uma viatura. Fudeu. O que eu digo? O que eu digo? Falo que tudo não passou de um mal entendido já resolvido, ela diz acreditar em mim e pergunta se vou precisar de um advogado, porque o pai dela é um e está disposto a me defender sem cobrar nada.
Juro que está tudo resolvido e, em resposta, ela envia um emoji de coração azul seguido de uma foto sua sorrindo com os cabelos presos. Peço permissão para usar a foto como papel de parede e ela responde "à vontade".
Entoco o celular no bolso e aproveito da vista. Logo avisto a esquina da minha rua, peço para ser deixado por ali mesmo mas ele insiste em me levar até a porta da minha casa. Eu aceito. Quando chegamos eu me despeço, me desculpo pela milésima vez, agradeço pela milionésima, saio e entro correndo dentro de casa.
Percorro ansioso o corredor da minha porta até a sala de estar, chega de emoções fortes por hoje, só quero sentar no meu sofá e jogar meu Play Station 4 em paz, até me dar sono. Assim que ponho meu primeiro pé na sala sou rendido por um cara armado que põe o cano do revólver na minha testa. Ergo minhas mãos e me afasto a medida que ele se aproxima, o reconheço como o tatuado cheio de marra que humilhei hoje cedo.
— Tá legal. Calma aí, amigão... — Tento acalmá-lo.
— Cala a boca! — Ele grita. — Achou que ia me humilhar daquele jeito na frente dos meus amigos e que ia ficar por isso mesmo?
— É, pra falar a verdade eu achei, sim. — Planejo irritá-lo para que ele não raciocine direito, levo uma coronhada na cabeça e vou ao chão, mas consigo me manter consciente.
— Engraçadinho você, hein? — Ele engatilha a arma. No minuto em que ia atirar, Yue, que vinha por trás, deu uma paulada em sua cabeça, pondo-o de joelhos.
Eu o chutei e gritei para Yue:
— Corre!
Ela fugiu para a rua e eu subi as escadas correndo. Ele, sabendo que ia preso de um jeito ou de outro, veio atrás de mim para terminar o serviço. Me escondo no banheiro. Nervoso, tento pensar num meio de sair dessa. Lembro do anel e das palavras do lutador mascarado. "O que isso faz?", recordo-me de perguntar. "Vai te transformar no Retalhador de Áries", sua resposta me leva a crer que é minha última chance de sobreviver.
Ponho o artefato no dedo anelar, como ele me disse para fazer, e não só as minhas mãos como o meu corpo inteiro emana um brilho branco. Depois, sou cercado de panos que saem de dentro da joia e se fixam em meu corpo, formando um longo roupão, um capuz que cobre minha cabeça e uma máscara como a do sujeito que me salvou, só que com símbolo diferente e branca como a neve.
Me sinto invencível, blindado, com a energia de quem virou cem garrafas de energético. Giro a maçaneta, abro a porta e saio, vejo o cara que me caçava no final do corredor, na porta do meu quarto. Vou pra cima dele a uma velocidade que eu nem sabia que conseguia me mover e dou com sua cabeça na parede, o ponho para dormir.
Olho para minhas mãos, ou melhor, para as luvas brancas que as cobriam. Não me reconheço, sei que toda aquela força não saiu de mim mas não me importo com isso, me apaixonei por essa sensação, fiquei incontornavelmente viciado. Ouço o grito da Yue, sou forçado a retirar o anel e escondê-lo conforme o som de seus pés contra as escadas vão se fortalecendo.
Ela e meu vizinho da casa à esquerda apareceram no último degrau. Ele com uma espingarda na mão, ela com um taco de baseball metálico: os dois com o queixo no chão se perguntando como eu consegui derrubar um homem armado sem que um tiro fosse disparado.
A polícia chega e leva o bandido, que está vivo, mas irá precisar de cuidados médicos urgentes para sobreviver. Minhas mãos estão tremendo, o anel em meu bolso não para de brilhar, parece até que está me chamando. Lembro que a essa hora da noite tem muitos criminosos, ladrões e assaltantes andando pela rua e me vejo ansioso para que eles saiam.
Não contenho o sorriso após acompanhar o último deles até a porta e fechá-la.
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