Piloto

Cidade de Morihira, ano de 2003.

— Feche os olhos! — Digo para a minha linda esposa grávida, tapando os seus olhos com minhas mãos.

Quero mostrar para ela o quarto do nosso bebê, quarto que eu reformei por mim mesmo. Ele é todo azul claro, mas tem o teto branco com uma pequena luminária no formato de um aviãozinho amarelo com listras verdes. Na parede de frente para a porta de entrada fica o berço, branco e azul para combinar com o quarto. Ao lado do berço tem uma poltrona branca para ela amamentá-lo ou para o balançarmos até ele dormir quando acordar a noite, a cortina à direita esconde uma janela e a cômoda à esquerda tem alguns bichinhos de pelúcia.

A guio até o quarto devagar, mantendo sempre minhas mãos sobre seu rosto para impedi-la de ver a surpresa que tenho preparada. Posso sentir suas bochechas se contraírem num sorriso, o perfume do shampoo que ela aplica dia sim e dia não nos cabelos negros, cumpridos e lisos, sua pele clara e macia em meus dedos ásperos, marcados com os calos das lutas em que me envolvo para proteger não só o país, mas o planeta inteiro.

Assim que chegamos ao quarto, digo para ela deixar fechados seus lindos olhinhos puxados de japonesa. Após girar a maçaneta e abrir a porta branca de madeira, pego em sua mão e a conduzo com cuidado lá para dentro. Ainda a proíbo de olhar. Ela sorri, tenta esconder a ansiedade, tem a impaciência de um ocidental.

Paro bem na frente dela para ver sua expressão e faço suspense.

— Ai, fala logo o que é! — Ela reclama. — Sabe que não gosto de surpresas!

— Eu sei. —Digo, e dou um beijo em sua testa. — E é por isso que eu gosto de te surpreender!

Sinto suas mãos acariciarem meu rosto e meus cabelos ruivos cacheados.

— Azin Akasora, eu te amo. — Toda vez que ela começa uma frase falando meu nome completo e me dizendo que me ama é porque tá começando a se irritar, vem vindo uma ameaça aí: — Mas se você não me deixar abrir os olhos agora, eu vou arrancar suas úvulas com a mão!

Eu me afasto assustado. Se nosso menino herdar o gênio dela, ele vai se envolver em brigas na escola todo santo dia.

— Tá legal, tá legal, pode abrir. — Permito. Não sei o que são úvulas, mas não quero perder as minhas.

Um sorriso angelical ilumina sua face. Yume é do tipo que não consegue esconder os sentimentos, você consegue saber se ela gostou ou não de alguma coisa só olhando nos olhos dela. Dessa vez eu caprichei, então posso dizer com certeza que ela amou. E se seu olhar não é o bastante, o abraço que me dá já sana qualquer dúvida.

Conto em detalhes como fiz tudo enquanto ela estava na casa da mãe, do trabalho que tive, das vezes em que pensei em desistir e chamar um profissional. Me sento na poltrona, ela senta no meu colo e juntos admiramos o lugar onde nosso primeiro filho dormirá.

— Já sei que nome vou dar pra ele! — Me diz, de repente. Se isso fosse um desenho animado, uma lâmpada apareceria sobre sua cabeça.

— Já? — Estranho essa descoberta repentina, pego sua mão, beijo e pergunto: — Qual vai ser?

Ela olha para o nada como se vislumbrasse o futuro, dá um sorriso travesso sem mostrar os dentes e responde:

— Ele vai se chamar Haru.

Eu fico completamente confuso. Discutimos por meses sobre se devíamos dar o nome do meu pai ou o do dela e ela vem com esse, assim, do nada.

— Achei que escolheríamos o nome de um parente, de um amigo ou algo assim. — Me manifesto.

— Eu também achei, mas hoje de manhã tive uma epifania. — Ela retruca, fica de pé, me encara e, pensativa, continua: — Nosso filho vai ser diferente de tudo o que conhecemos até hoje, vai deixar sua marca no mundo. Por isso, nada melhor do que um nome que nenhum conhecido nosso tem!

Apesar de ainda ter algumas objeções, concordo que o nome e a premissa eram legais. "Haru Akasora", pronuncio na minha cabeça. Nada mau.

— Tudo bem, é você quem manda. — Cedo.

Me estico e ponho a orelha no seu ventre, quero sentir meu menino chutar. Quando consigo, rio como um garoto depois de ganhar um carrinho de presente. Ela faz carinho em meus cabelos enquanto aprecio os chutes do meu futuro Taekwondista. Acho que estou no paraíso, minha única reclamação é que esse momento não durará para sempre. Não pode existir nada melhor.

O telefone lá da sala toca.

— Azin. — Ela me cutuca. Eu, de olhos fechados e sorriso no rosto, finjo que não aconteceu nada. — Azin, o telefone tá tocando.

— Deixa tocar! — Falo, a abraço com mais força e estendo o sorriso.

— Pode ser o Kaira. — Ela replica, preocupada.

Respiro fundo. Digo "Tá", tiro a bunda da cadeira, peço a ela para me esperar ali e vou. Desço as escadas, ando até a sala, pego o telefone da mesinha de madeira e o atendo. Yume tinha razão, é Kaira, o líder da equipe de protetores da Terra, o Retalhador de Peixes. Eu, como o Retalhador de Áries, terei de comparecer na reunião que ele convocou.

Confirmo minha presença, bato o telefone e subo. Reparo que estou de camiseta sem mangas, calças esportivas e pés descalços. Perfeito para sair. Não mandei eles me chamarem de repente, no meu "dia de folga". Vou para o quarto que divido com minha mulher, ela me segue, eu me dirijo para o guarda-roupas, escancaro as portas, puxo a caixinha quadrada, a destapo e retiro a pulseira de lá.

Não preciso dizer o que estou indo fazer, ela sabe perfeitamente. É a pessoa mais compreensiva do mundo inteiro.

— Não, eu não vou nem de tênis. — Digo, já esperando que ela fosse me repreender pelo meu modo desleixado de me vestir. — Me tiraram do meu conforto, dos braços da minha esposa perfeita num dia em que o planeta está seguro, ainda têm sorte de eu ir.

— É a primeira vez que diz que sou perfeita. O que tá rolando? — Ela me questiona, com razão. Me levanto, beijo sua boca e vejo lágrimas escorrerem de seus olhos. — Tô com um mau pressentimento.

— Ô minha querida, são só seus hormônios. — Tento acalmá-la.

Pela primeira vez, ela não sorri e nem entra na brincadeira, mas me avisa:

— Toma cuidado.

Percebo que ela está falando sério e assinto com a cabeça. Desço as escadas, saio pela porta, entro em meu carro preto e o dirijo com pressa para o endereço que Kaira me deu, chego rapidamente a autoestrada. Sem engarrafamentos, ótimo. Só preciso tomar a frente do carro verde a minha direita para não perder mais tempo que o necessário aqui.

De onde estou já posso ver a Ponte Edoku, sem nenhum carro a minha frente me sinto à vontade para pisar no acelerador. Tateio o banco ao meu lado em busca do meu celular e pego no jornal que tinha esquecido ali, o teria deixado de lado mas uma notícia em particular me chama a atenção. "Menina de dois anos vence um campeonato de xadrez", dizia a manchete. "Karen Josiah Maximus, de dois anos, se sagra vencedora do campeonato nacional de xadrez" Parei de ler na metade, já me senti humilhado o suficiente.

Curiosos, meus olhos perdem a estrada de foco e passeiam pelo jornal até que esbarram numa chamada pouco menos intrigante que a primeira: "Anthony Lincoln Braga e sua empresa MutaGenic Inc. estão a todo vapor no projeto Neo, que pretende revolucionar a humanidade". Me pergunto onde vai dar isso, mas me distraio quando ouço uma buzina seguida dos xingamentos do motorista de trás. Acelero, não quero brigar. Se Yume estivesse aqui, esse idiota veria um belo dedo do meio.

Ligo o som e cantarolo a música que está tocando, "Everybody Hurts", The corrs. Meu carro, de repente, é atingido por uma estranha rajada de energia que o faz capotar para a esquerda, girar e cair dentro do rio, eu teria ido pro fundo do mar com ele se, durante a queda, não tivesse encaixado a pulseira em meu braço direito, me transformado no Retalhador de Áries e escapado pela janela. Após me transformar, agarro o muro da ponte, escalo e procuro por quem fez isso comigo. Quase choro a perda do meu carro. Nem terminei de pagar.

Contemplo o céu azul e avisto um objeto esquisito voando em minha direção, os ventos sacodem meu longo roupão branco e meu capuz. Descubro que não é um objeto, que é alguém. Esse alguém me ataca, eu salto para a direita me esquivando e ergo a guarda. O sujeito que destruiu meu carro aterrissa a quinze metros de distância de mim, desativa a mochila a jato que o permitia voar, a retira das costas e me encara.

— Me disseram para me certificar de que o carro com aquela placa iria parar no fundo do rio, mas não me falaram que o tal carro era do Retalhador de Áries. — Ele fala, ajeitando na cabeça o capacete de moto preto que usava como máscara mas que dali em diante servirá como proteção. Arruma as luvas pretas, a jaqueta, ajusta a guarda e, num irritante tom sarcástico, diz: — Isso acabou de ficar mais divertido.

Corremos um na direção do outro, eu tento socar a cara dele e ele, a minha, mas contenho o seu punho com facilidade e o acerto no queixo, lançando-o contra o chão. Ele se reergue, vem para cima de mim, desfere um direto de esquerda e um de direita, eu me esquivo dos dois, o agarro pela nuca e dou uma joelhada em seu estômago. Deixo-o se recompor, desvio dois cruzados seus com as mãos, tiro meu rosto da frente do seu gancho, giro e o chuto com tanta força na cabeça que ele atravessa o muro do outro lado da ponte e cai no rio.

Penso em gritar para ele dar um alô pro meu carro, mas tenho a sensação de que algo terrível está acontecendo naquela reunião por culpa da minha ausência e vejo que não posso perder tempo ali, tento pensar em um meio de chegar lá o mais rápido possível. Me desespero. Sem meu carro, não vejo como. Noto a mochila a jato do desgraçado que destruiu meu carro, ponho ela nas costas e vou voando.

Graças a aquela coisa, chego lá em dois minutos; um prédio branco com muitas janelas e seis andares. O último está em chamas, eu o invado pela janela sem me preocupar com o fogo. Olho em volta. Mina, Saito, Kazui, Choru, Asa, Keita e os outros cinco retalhadores estão espalhados pelo piso preto feito sacos de lixo. Eu me agacho e checo o pulso de um por um. Todos mortos. Ando até a porta a procura do Kaira, tenho a esperança de que talvez ele tenha sobrevivido a sabe-se lá o que houve ali. O encontro caído no corredor de frente para a sala da qual acabei de sair, sentado de costas para a parede azul escura com as pernas esticadas.

— Ei! — Digo, para acordá-lo. Sua boca está sangrando, seu rosto está tão arrebentado que eu só o reconheci por causa dos cabelos. Não o toco para não machucá-lo mais, só me debruço ao seu lado e pergunto: — O que aconteceu? Quem fez isso?

— Azin... é você...? — Me indaga ao me ouvir, desnorteado. Acha forças para mexer o braço, põe a mão no meu capuz e me aconselha: — Tome muito cuidado... ele quer...

Uma voz repugnante o interrompe:

— Kaira, por favor, não chateie o único sobrevivente com os delírios de um homem desfigurado de tanto apanhar.

Olho para o lado e encaro o dono dela. Santsuki. Aparentemente um sujeito normal. Branco, quase dois metros de altura, cabelos negros espetados, sempre de terno, gravata, camisa e calça social. A mão de Kaira solta meu capuz e cai, ele ainda me olha, quer me dizer algo que eu ignoro, o deixo de lado para enfrentar aquele facínora.

Parto para cima dele sem aviso prévio, o ataco com os socos mais rápidos que já desferi contra alguém. Ele se esquiva de todos com certa dificuldade e tenta golpear minha cabeça com um chute, eu me esquivo com um passo para trás e tento dar nele o mesmo chute que ele tentou dar em mim, mas também falho, tive a perna segurada. Salto e, para obrigá-lo a me largar, ameaço chutá-lo com a perna livre, meu plano dá certo e eu recuo.

— Como você fez isso? — Pergunto.

— A energia das pulseiras... — Kaira responde. — Ele... Deu um jeito de absorver... Eu não sei como, mas... Está no corpo dele...

— Isso mesmo, Kaira. — O desgraçado confirma. — Como você sabe, Azin, eu as criei. Tecnologia alienígena, cortesia dos nossos vizinhos Cokuanos. Mas eu não fiquei satisfeito, não queria depender delas para ser poderoso, então, usando a mesma tecnologia, implementei todas no meu corpo. — Ele estendeu as mãos e andou dois passos em minha direção. — E agora, para ficar completo, eu só preciso dessa que você tem aí. Pode passá-la para mim, por favor? Sua esposa e seu filhinho, que ainda nem nasceu, agradeceriam.

Merda. Eu devia ter ficado em casa. Em meio aos protestos do Kaira eu retiro a pulseira e volto ao normal, sinto abandonar o meu corpo toda a força e energia que o circulavam há alguns instantes. Caminho apreensivo até Santsuki, ele me estende a mão, eu quebro a pulseira em dois pedaços diante de seus olhos e o encaro sorridente.

Kaira não entende muita coisa. Santsuki fita as minhas mãos em estado de choque, pois acaba de descobrir que eu sabia que destruir a pulseira inviabilizaria todas as outras, que isso faria dele um simples ser humano, mesmo depois de ter o poder delas em seu corpo. Sem dizer mais nada eu derrubo a porta da sala com um pisão, enfrento as chamas novamente, visto a mochila, a ativo e voo prédio a fora.

A missão, desta vez, é salvar a minha família.