O Resgate do Oráculo

2 Minha Mãe me Conta a Verdade


Notas iniciais
Oi, gente! Fiquei muito feliz ao ver que todas vocês estão gostando da estória! :) É super importante para mim que vocês comentem e digam o que estão achando! E, por favor, sinceridade, hein? Um beijo especial para a LuhGrace, minha companheira de fics e amiga há muito tempo! Só tenho de lhe agradecer por estar acompanhando

O calor do dia me deixou irracionalmente melhor após o incidente com o professor de geometria na escola.

Depois de sair da escola, caminhei até minha casa, que não ficava muito longe dali. O sol que batia no asfalto estava radiante, e eu amo quando os dias estão assim. Me sinto renovada sempre que sua luz me envolve em um prazer quente, e não sei como, mas ele faz questão de me acompanhar seja onde for.

Minha residência estava como sempre esteve quando voltava das aulas: os sinos dos ventos ressoavam na brisa matinal, a cadeira de vime na pequena sacada diante da porta de entrada estava vazia, de frente para a rua; as cortinas estavam abertas nas janelas do térreo, e imediatamente soube que minha mãe não estava em casa. Tudo estava quieto demais.

Subi as escadas, que rangeram conforme meus passos. Ao chegar em frente à porta, abaixei-me para erguer o tapete e apalpei o chão, procurando a chave reserva que minha mãe sempre deixa ali quando ela sai.

Mas, como aquele era o meu dia de azar, não a encontrei.

Me ajoelhei e espiei por baixo do tapete, praguejando de indignação ao ver que não tinha nada ali embaixo. Depois de todas as coisas que minha mãe já fez para tornar minha rotina pior do que já é, essa foi a gota d’água.

Me joguei bruscamente na cadeira de vime, sentindo a raiva queimar dentro do peito, mas eu sabia que de nada adiantava explodir, não importando o quanto desejasse fazer isso. Se um raio me atingisse e me matasse naquele momento, eu até que ficaria feliz.

Fiquei satisfeita com o silêncio apesar de saber, por experiência própria, que seria muito mais difícil ter que aturar suas desculpas quando chegar. Fui a adulta da família desde que tinha cerca de cinco anos e agora chegava a hora de tomar as rédeas de minha vida. Eu não podia mais viver assim. Com uma mãe que não me dá atenção, carinho, que vive em clubes bebendo à noite para tirar o estresse, diz ela, e que de dia não sai do trabalho...

Eu nunca conheci meu pai. Minha mãe nunca me falou sobre ele, nem ao menos o nome. Ela só havia me dito que ele nos abandonou assim que nasci, e que é por isso que ela não consegue mais ficar sem o álcool. A bebida a faz se sentir melhor, o que acho uma total babaquice.

Aposto que se eu tivesse meu pai comigo, as coisas iriam se equilibrar e eu poderia ter uma vida menos insana. Se não fosse por ele, minha mãe talvez não seria essa mulher detestável que se tornou. Ela não é a figura materna que todo mundo gostaria de ter... E por que meu pai nos deixou, sabendo que ela iria acabar com minha vida? Ou acabou ficando desse jeito por causa de sua perda? Ele nunca nos amou. Ele nunca se importou comigo, ou até mesmo com ela. E isso me faz odiá-lo, seja lá quem ele for.

E sabe o que é o pior disso tudo? Eu sentia como se estivesse contra o mundo, e ele contra mim. Eu estava sozinha. Não havia um motivo para continuar seguindo em frente. Não tenho amigos porque sou considerada a estranha da cidade, não tenho um pai e minha mãe mal sabe cuidar de si mesma, o restante de minha família mora no Canadá e não conheço ninguém por parte de pai, e posso até ter uma casa, comida e tudo que é necessário para ter uma boa vida. Menos o que mais importa: alguém que esteja ao meu lado. Eu não tinha ninguém.

Esse pensamento fez com que algumas lágrimas transbordassem de meus olhos. Odiava ser fraca a ponto de chorar. Odiava ser a coitadinha disso tudo. Odiava não conseguir superar minhas dificuldades de cabeça erguida. Odiava ficar parada, pensando o quanto odiava isso tudo.

Me recuperei de todos esses maus pensamentos e pressenti que minha mãe só chegaria em casa no fim da tarde, então decidi ir para um de meus lugares favoritos de Nova York: o píer do Skaneateles Lake.

Esse era um dos lugares mais tranquilos da vila onde moro. Normalmente, quando é feriado ou férias na maioria dos outros países e cidades próximas, o lugar fica mais cheio de turistas, visitantes e etcetera. Mas era meio de semana, e a cidade estava mais calma do que nunca. Um ótimo ambiente para pensar e relaxar todos os estresses desse dia.

Chegando lá, fui até o fim da passarela e sentei-me na beirada do píer. Balançava meus pés sobre a água, sorrindo com a sensação gostosa que o lago me proporcionava. O sol, as pequenas cristas brancas surgindo na superfície da água, o contato da madeira em minha pele, o vento quente em minha volta...

Acho que essas eram as únicas coisas pelas quais realmente valiam a pena viver.

Fiquei alguns minutos desfrutando da natureza, minha única amiga em momentos difíceis como aquele, até que ouço alguém me chamar:

– Sadie!

Quando olhei para trás, pude ver Dave com uma expressão preocupada, parado ao lado de minha mãe, que parecia mais perturbada ainda.

Como ele a encontrou e como ele sabia que ela é minha mãe, eu não sabia. Só sabia que ela se aproximou lentamente, fazendo com que o barulho de seu salto agulha soasse pelo ambiente.

Ela provavelmente deveria estar trabalhando, soube isso pelas suas roupas: um blazer acinzentado, e uma saia da mesma cor que batia em seus joelhos. Minha mãe era linda, e aquelas vestes a tornavam ainda mais deslumbrante. Seus cabelos ruivos e encaracolados, da mesma cor que os meus, desciam pelos seus ombros. Sua boca fora enfeitada com um batom vermelho chamativo, e seus olhos estavam pintados de azul, deixando suas pupilas castanhas em destaque.

Minha família sempre dizia que eu me parecia com minha mãe, mas eu não via semelhança alguma. Só o que tínhamos em comum era a cor do cabelo e o tipo físico: ambas éramos ruivas, magras e com os quadris largos. Eu sabia que não era linda como minha mãe. Para ser bonita, era preciso ser alta e esguia. Quando se era baixinha como eu, com pouco mais de um metro e meio, a pessoa era no máximo bonitinha. Não bonita e linda, apenas bonitinha. Acrescente um rosto cheio de sardas e cabelos lisos, e eu não passava de uma boneca de pano em comparação à Barbie que era minha mãe.

Ainda em silêncio, ela se sentou ao meu lado sem olhar para mim. Tomei coragem e logo perguntei:

– Você ficou sabendo?

Ela balançou a cabeça positivamente.

– Mãe... me desculpa. E-eu não sei como explicar isso, você vai pensar que sou louca, vai me internar, e talvez eu seja... Talvez só esteja vendo coisas.

– O que aconteceu? – ela continuava séria, olhando para o horizonte, os cabelos ruivos esvoaçando com o vento.

– Promete que não vai me achar louca?

Pela primeira vez ela me fitou.

– Já vi loucura o bastante durante minha vida toda, filha.

Fiz uma pausa, tentando assimilar a resposta com a pergunta que fiz. Eu não tinha certeza se isso queria dizer que ela iria me achar louca, sem dúvidas, ou se ela iria achar isso normal por conta de tantas maluquices pelas quais ela passou. Por fim, disparei:

– Meu professor de geometria se transformou em um gigante de um olho só.

Ela ainda me olhava com a mesma expressão. Não demonstrou surpresa ou preocupação. Pensei que ela se levantaria e me deixaria ali sozinha por estar inventando coisas absurdas. Mas ela simplesmente disse:

– Um ciclope...

– O quê? – franzi as sobrancelhas.

– Oh, meu Deus, eu sabia que este dia iria chegar...

– Mãe, do que você está falando?

– Ainda não estou preparada...

– Mãe!

Isso finalmente chamou sua atenção. Ela fixou seu olhar no meu e por um momento, pude notar certo desespero presente em suas orbes escuras.

Ela respirou fundo e prosseguiu:

– Sabe, Sadie... Acho que é melhor lhe contar a verdade sobre seu pai.

Senti meus ombros fraquejarem e pensei que ela estava enlouquecendo. Minha mãe, como já mencionei antes, nunca falou de meu pai para mim. E sabe o quanto isso é importante? Eu finalmente iria ter a resposta para minhas perguntas.

– O que isso tem a ver? – indaguei, tentando controlar minha agitação.

– Tem a ver que... – ela suspirou densamente – Sadie, você não é uma garota normal, minha filha.

– Eu acho que não preciso de mais alguém para esclarecer o óbvio, mãe...

– Não! Não é isso... Você tem o sangue diferente das outras crianças de sua idade.

Olhei para minhas próprias mãos, me perguntando o que percorria pela minhas veias naquele exato momento. Será que eu era uma espécie rara de alienígena? Bem, só sei que estava me sentindo feito uma verdadeira aberração.

– O que quer dizer com isso?

Minha mãe demorou alguns minutos para se virar em minha direção e disparar:

– Sadie, você é uma semideusa.

Meu mundo começou a girar.

Eu já estava confusa... E, naquele momento, eu fiquei totalmente confusa. Do que minha mãe estava falando?

– Mãe, por acaso você está sóbria ou isso é mais uma daquelas suas brincadeiras de mau gosto?

– Não, filha! Estou falando a verdade. Você é uma semideusa.

– Faria mais sentido se eu ao menos soubesse o que é um semi-sei-lá-o-quê.

– Semideuses ou meio-sangues são os filhos de deuses com mortais. É isso que você é, Sadie. O fruto de um envolvimento entre eu e um deus grego.

Pisquei, completamente perplexa;

Como isso tudo era possível? Eu mal acreditava nessas coisas. Pra mim, esse papo de deuses do Olimpo era tudo uma baboseira. E agora minha mãe está insinuando que eu sou filha de um deus? Isso soa até engraçado se for reparar no fato de que um ser divino teve uma filha patética e insignificante feito eu.

– Mas... isso não existe.

– É o que todos pensam. Isso porque são mortais, e não conseguem ver o que você vê. Isso se chama névoa. É uma força sobrenatural que destorce a visão de seres humanos normais ao verem monstros, deuses, e qualquer outra coisa relacionada à mitologia. E você consegue ver através dessa névoa, já que é uma semideusa.

Como se aquele papo todo já não estivesse estranho o bastante, ela retomou:

– Você precisa ir para um acampamento com Dave. Lá você estará segura.

– Segura do quê?

– De monstros, oras! – exclamou ela – Já se esqueceu o caso com o ciclope há algumas horas atrás? Semideuses atraem monstros e ameaças piores. Aquele acampamento te poupará de perigos.

Eu estremeci.

– Então quer dizer... que todas as coisas que me fizeram ser expulsa das escolas em que me matriculei não foram culpa minha? – minha mãe balançou a cabeça negativamente – Foram culpa de monstros?

– Ou dos poderes fora de controle que você herdou de seu pai.

– E era por isso que você não ficava nem um pouco brava quando a diretora te chamava para falar sobre as expulsões.

Pensei esse tempo todo que você não se importasse comigo., eu queria dizer. Mas fiquei quieta.

Minha mãe olhou para o lago, fazendo um desenho com os dedos na madeira do chão.

– Você está em perigo no mundo dos mortais, Sadie. Quanto antes você partir, melhor.

Eu queria fazer zilhões de perguntas sobre esse tal acampamento que Dave me levaria e sobre os deuses. O que haveria lá? O que eu faria lá? O que Dave tem a ver com isso? Como isso tudo pode ser real?

– Por que não me contou isso tudo? – perguntei enfim, fitando-a seriamente de um modo reprovador.

Ela inspirou uma grande quantidade de ar para seus pulmões, que deveriam estar muito comprimidos naquele momento.

– Às vezes saber demais só piora as coisas – ela respondeu – Eu queria te proteger, Sadie. Queria ser uma boa mãe, – uma lágrima escorreu pelo seu olho – mas às vezes isso é complicado quando se tem um passado obscuro e doloroso feito o meu.

Fiz uma pausa.

– E eu posso saber sobre esse passado ou estarei sabendo demais?

Minha mãe sorriu e fez algo que há muito tempo ela não fazia: ela me abraçou.

Eu permaneci imóvel, perplexa demais para retribuir o afeto. E logo em seguida, ela disse:

– Você saberá sobre tudo em breve.

Antes que eu pudesse protestar pedindo que me contasse sobre tudo, Dave subiu as escadas do píer e me lançou um olhar piedoso.

– A gente precisa ir, Sadie. – disse ele enquanto batia seus pés de uma maneira muito estranha no chão.

Voltei meu olhar a minha mãe, que agora chorava de verdade.

– Você está bem? – perguntei.

Ela fungou algumas vezes, e após se recuperar, respondeu:

– Sim, filha. Eu já sabia que esse momento iria chegar. Só não estava preparada.

– Quando vamos nos ver de novo?

Minha mãe acariciou meu cabelo e beijou minha testa.

– Seria muito bom se pudéssemos ter essa sorte, minha querida.

Apesar de tudo que ela me fez passar, eu iria sentir sua falta. E eu não gostei nem um pouco de como ela respondeu minha ultima pergunta. Tinha um mau pressentimento sobre isso tudo. Não sei como, mas tinha. Eu não queria deixá-la, mesmo tendo uma vida horrível ao seu lado. Afinal, ela é minha mãe.

Mas quer saber? Minha vida agora poderá mudar para melhor., eu pensava.

Nunca estive tão enganada em toda minha vida.

Depois de me despedir, andei até o fim do píer, e perguntei a Dave:

– Onde é esse tal acampamento?

– Long Island – respondeu Dave – Há quatro horas e cinquenta minutos daqui.

– Como vamos chegar até lá antes de escurecer?

Ele sorriu de um jeito misterioso, e deveras assustador.

– Já andou de pégaso antes?

Comprimi meus lábios.

– O quê?

Dave colocou os dedos na boca e assobiou alto suficiente para seu chamado ecoar pela rua toda. Cheguei a cogitar que ele estava ficando louco de pedra, mas ouvi um barulho... Pareciam cascos de cavalos, mas não os via em lugar algum.

Subitamente, dois cavalos alados surgiram do céu, pousando diante de mim e Dave como um passe de mágica. Dei um tropeção para trás, caindo de costas no asfalto e provavelmente com a boca aberta em um perfeito “O”. Os dois eram animais magníficos, um com pelo lustroso cor de caramelo, e outro tão preto, que chegava a ser quase roxo. As asas eram tão gigantescas, que suas envergaduras deviam medir pelo menos três metros de uma ponta a outra.

Meu amigo estendeu-me a mão e me ajudou a levantar.

– Lhe apresento Jeremy e Laia.

Meus dedos tremeram involuntariamente ao passar minha mão de leve sobre suas crinas. E os dois relincharam amigavelmente.

– O-oi, Jeremy e Laia – voltei-me a ele – Como isso é possível?

– Ah, você ainda vai se perguntar isso muitas vezes! – ele subiu no Jeremy, que era o cavalo preto, e me ajudou a subir na Laia – Se segure firme, isso pode ser um pouco perigoso.

– O que pode ser um pouco peri...?

Antes que eu pudesse terminar a frase, nós dois subimos em disparada em direção ao céu.

Notas finais
PRÓXIMO CAPÍTULO... "Dave, por que não mostra o campus para Sadie? Depois precisamos conversar sobre aqueles assuntos." "Sim, senhor. Vem, Sadie! Você vai adorar aqui!"
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.