Notas iniciais
Trilha instrumental (não é songfic) para quem quiser entrar no clima desse capítulo: http://www.youtube.com/watch?v=GC-vX6Medgs

A canção dos pássaros tratou de despertar Mousse. Ele levantou-se com certa dificuldade e começou a passear seu olhar curioso pelos arredores daquela floresta desconhecida. Logo, sentiu a presença de alguém e escondeu-se atrás de uma frondosa árvore. Seus olhos ficaram surpresos ao constatar que estava se vendo do outro lado treinar arduamente, descontando toda a fúria nos punhos.

– “Mas como isso é possível?” – Mousse se questionou, assustado.

O “outro Mousse” não notou sua presença e continuou a treinar sem parar. Ele parecia desesperado e de uma certa forma atormentado também. As únicas palavras que segregavam na sua boca era um nome estranho aos seus ouvidos.

– Eu acabarei com você Saotome Ranma! – Ele gritou, socando a árvore com raiva.

– “Com esse treino de amador jamais conseguirá sair do lugar...” – Mousse indagou, respirando fundo em reprovação – “será que eu era tão idiota assim?”

O treinamento se estendeu até ele escutar uma voz feminina chamar seu nome. Ao averiguar a senhora de idade bastante avançada, Mousse sentiu novamente aquela forte enxaqueca atormentar sua mente. Quanto mais o som dos passos daquela anciã cresciam nos seus ouvidos, sua dor de cabeça agravava a ponto de sentir vertigem.

Um dia o amazona sabia que lembraria de tudo. “Então qual era a razão de estender a tortura por mais tempo?” Pensava ele.

– “Eu tenho que resistir... eu vou resistir a essa dor!”

Além da enxaqueca, agora Mousse também sentia fortes dores no peito como se fossem agulhadas. Ele pressionou a mão contra a região peitoral, ofegando por ar. Aguentaria todos os obstáculos da sua consciência covarde custasse o que custasse.

A tontura agravou cada vez mais e bagunçou sua vista na cena onde o “outro” Mousse corria para socorrer a idosa. Finamente conseguiu ver nitidamente o rosto da sua genitora, embora as aguilhadas incomodassem sua mente.

As lembranças começaram a florescer aos poucos na sua mente atormentada desde sua ida para a China até o verdadeiro motivo que ficara soterrado debaixo das árvores. Eram tantas as recordações que deixara Mousse em estado convulsivo.

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– Mu-Tsu, acorda Mu-Tsu! – uma voz estridente despertou o amazona do transe.

Mousse sentou na cama, suado e ofegante. Ele passeou os olhos perdidos por todos os cantos daquele estranho aposento. Estava cercado por todos os seus colegas, além da Shampoo e das duas anciãs.

– Onde eu... – Mousse disse, entre pausas – onde eu estou?

– Estamos na China atual – Cologne respondeu.

– Por Tenma-sama*... – Shampoo comentou baixinho, aliviada – eu pensei que você nunca mais fosse acordar...

– “Que sensação estranha” – o amazona falou em pensamentos – “eu recuperei a minha memória, mas sinto que alguma coisa mudou dentro de mim...”

– Agora que todo mundo está sã e salvo, só falta Mousse se lembrar de tudo e vai estar tudo resolvido – Ranma espreguiçou os braços.

– Mas eu vou dizer uma coisa... – Ryoga comentou – eu sinto falta daqueles enormes óculos garrafais que você usava.

– Nem me fale – Ranma disse, rindo – ele escorregando que nem idiota e agarrando qualquer um era hilário!

– Hei, hei parem vocês dois – a karateca interrompeu a conversa entre seu namorado e Ryoga – coitado do Mousse, assim ele não vai querer mesmo lembrar de nada...

– Shampoo concorda com Akane... – Shampoo disse.

– “É melhor não falar nada mesmo...” – o amazona pensou, cruzando os braços – “talvez eu conversasse só com a Yu. E falando nela, cadê?” – uma idéia monstruosa passou pela sua cabeça e saindo da cama, indagou aflito – Onde está a Yu? O que vocês fizeram com ela?

– Eu... – Shampoo respondeu, irritada – eu tranquei ela no sóton...

Com um olhar enciumado, Shampoo acompanhou o Mousse desaparecer nas escadas que dava acesso ao terceiro andar. Yu impedira o resgate do amazona a todo custo e fora silenciada por eles e trazida para a China atual.

– Ah não – Ranma reclamou – depois de tudo o que a gente fez, o idiota vai lá para soltar ela...

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Ao chegar no sóton, Mousse começou a caminhar em passos lentos naquela escuridão empoeirada, emitindo um som típico de madeira velha. Quando sua visão ficou acostumada, encontrou Yu desfalecida e acorrentada do pescoço para baixo.

O amazona imediatamente a libertou das amarras e sacudindo os ombros menores, reativou seus sentidos. Aos poucos Yu recobriu sua consciência, mas ainda estava atordoada devido efeito do sonífero que injetara nela antes do regresso ao século vinte e um**.

– Eu... – Yu massageou as têmporas e continuou como se estivesse falando sozinha – eu tentei impedir de levarem você e... – o amazona não permitiu que ela terminasse sua fala.

– Provavelmente cedaram você – Mousse comentou, espantando o pó.

– Que tipo de erva é essa? – falou, surpresa – Eu não conheço nenhuma tão poderosa como essa que me deram...

– Não são ervas, são “remédios” – explicou – as ervas continuam sendo utilizadas, mas nessa época elas são misturadas com substâncias químicas.

– Eu realmente estou no seu mundo pelo visto – acrescentou – que por sinal parece bem mais avançada do que a minha.

– Yu, eu queria... – ela interrompeu o raciocínio do Mousse.

– Você quer saber se realmente sou ou não traidora do Imperador, acertei? – Yu falou, como se adivinhasse os pensamentos do Mousse – Vamos para um lugar melhor...

O amazona desceu a escada junto com a Yu e pediu licença ao grupo para esvaziar o quarto por alguns instantes. Assim que Mousse encostou a porta, seus colegas curiosos colaram os ouvidos próximos a fechadura.

– Pronto – ele disse, sentando-se na cama – pode começar...

– Você se lembra quando falei sobre o meu passado? – indagou, fitando a janela.

– Sim é claro. Você estava ótima naquele teatrinho – acrescentou, cheio de ironia – se sairia uma boa atriz.

– Por favor, me escute... – explicou, encarando o olhar magoado do seu amado – eu não menti quando falei sobre o meu passado para você, só omiti algumas coisas...

– Sou todo ouvidos – disse – continue...

– Eu lembro que falei sobre a proteção do imperador em troca de noites de prazeres e o nojo que sentia por aquele homem – falou.

– Sim, me lembro... – respondeu.

– Então, eu comecei a pensar em fugir daquela prisão, queria deixar tudo para trás e recomeçar uma nova vida bem longe – explicou – foi quando sem querer escutei uma conversa entre um soldado e o Lei Li sobre o plano de destruir o imperador e transformar aquele inferno num ponto turístico. Flagrei os dois e pedi que me tirassem dali em troca de confidenciar tudo o que se passava na Cidade Proibida.

– Qual é a sua relação com Lei Li? – indagou.

– Lei Li era um dos generais, assim como foi nosso o mestre – continuou – o problema que Lei Li jamais aceitou o fato dele não ter sido o escolhido para ser o “braço direito” do imperador.

– E por isso que Lei Li veio atrás do mestre... – falou, tirando as palavras da boca da Yu.

– Aquele acordo de paz que o mestre conseguiu durante sua viagem fui eu quem tinha sugerido ao Lei Li para não prejudicar o nosso mestre – respirou fundo – mas quando aquele soldado estrangeiro invadiu o jardim de surpresa imaginei que o Lei Li tivesse me traído e matado o mestre, por isso fiquei desesperada...

– E o bobo da história fui eu em salvar a pistoleira... – desabafou, jogando a franja para trás.

– Não diga isso... – deixou as lágrimas escorrerem, mordendo o lábio inferior – eu abri mão de tudo porque me apaixonei por você.

– Se me amasse de verdade teria contado toda a verdade antes... – ficou de pé e deu as costas a ela.

– Julgar os outros é fácil não? – Yu fitou novamente a paisagem pela janela e murmurou, lacrimejando – eu só queria liberdade como as mulheres desse mundo parecem ser...

Yu não deixou que o amazona tocasse seus ombros, e afastando os dedos atrevidos com a sua palma da mão, disparou rumo a saída daquele estabelecimento. Mousse tentou alcançar ela, no entanto, foi barrado pela Cologne antes mesmo de ganhar o térreo.

– Deixe ela sozinha agora – a anciã alertou – a situação só vai piorar você indo atrás.

– Vê se me erra sua velha ingrata! – Mousse gritou, descendo rapidamente as escadas.

Cologne percebeu um brilho familiar no olhar do seu empregado e pensou, desconfiada: — “Aquele jeito em falar comigo... será que...” – a voz desesperada da karateca interrompeu seu raciocínio.

– Obaachan, obaachan! – Akane disse, ofegando por ar – vem logo que a Shampoo está estranha!

– Aconteceu alguma coisa? – Cologne indagou, surpresa.

– Ela – a karateca retomou o fôlego e concluiu – ela está desaparecendo!

– O que? – Cologne arregalou seus olhinhos assustados.

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Com passos apertados, Mousse corria desenfreadamente a procura de sua amada mesmo sem saber seu paradeiro. Ele parava as pessoas nas ruas em busca de pistas, infelizmente ninguém havia visto alguém semelhante a Yu.

Após correr muito, o amazona finalmente se entregou ao cansaço e sentou num dos assentos públicos de um parque perto da loja, entrando em estado meditativo. Nesse instante, um casal de turistas surgiu diante do Mousse.

– O que acha de irmos a Cidade Proibida amanhã? – a mulher indagou, com uma voz suave e doce.

– Isso! – Mousse exclamou alto, chamando a atenção do casal.

Mousse sequer deu importância a reação dos pombinhos e rumou em direção a Cidade Proibida. Demorou cerca de trinta minutos e já se encontrava em frente a um dos pontos turísticos mais famosos da atual China. Ali estava Yu, admirada com a quantidade de pessoas que transitavam pelo portão central.

– Eu imaginei que você estivesse aqui... – comentou, ofegante.

– Ainda bem – sorriu vitoriosa – ao menos agora eu sei que o meu sacrifício valerá a pena e ficarei livre daquela prisão...

De repente, uma tontura inexplicável atingiu a Yu, ela estava zonza, sentia o corpo todo gelar e o sangue circular menos nas veias. Sua mente lhe traía pouco a pouco, perdendo o controle sobre sua consciência e embaralhando todos os seus pensamentos. Os músculos das suas mãos contraiam, os ossos das pernas pareciam ter sido triturados, tamanha era a dor. Sem resistir ao sofrimento, a jovem desfaleceu no chão.

Mousse apressadamente socorreu a chinesa, porém sua expressão foi de susto para terror quando notou que os ombros menores ficaram transparentes. No momento seguinte, a karateca apareceu arfante diante do casal junto com a Cologne.

– Aqui também já começou! – a anciã comentou, preocupada.

– Como assim? – o amazona indagou, carregando a Yu nos braços.

– Eu também quero saber obaachan... – Akane disse.

– Vamos voltar para a loja – Cologne acrescentou – eu explicarei assim que chegarmos lá.

Notas finais
* No episódio 14 da 5ª temporada, se não me engano a Shampoo comenta sobre o Deus Tenma (como no Japão eles acreditam em mil deuses), segundo a lenda esse Deus cortava a lingua de quem pecava. ** O ano que eles estão é 2008, baseado no ano que o último OVA foi lançado. Perguntinha: Quem adivinhar o que as duas (Shampoo e Yu) tem ganha uma balinha de gengibre rs