Ranma saiu em disparada e tentou fazer um ataque surpresa para Yu, no entanto, o que se seguiu foi um golpe rápido e violento na face do Saotome vindo do amazona. Cologne estava certa. Mousse ficara mais forte e veloz que antes.

– Não toque na minha mulher! – Mousse disse num tom de voz ameaçador, emocionando a Yu.

– Veja só... – Ranma impulsionou seu corpo para trás e aterrissando no solo, disse – enquanto a gente se matava para te achar, você ficou aí numa boa com uma mulher...

– Eu sei me defender sozinha – Yu tomou a frente e piscou para o amazona – eu sou aprendiz do Liang Hu antes de você esqueceu?

– “Agora eu entendi porque senti um ki forte daquela mulher...” – Cologne pensou, preocupada.

– Eu serei a sua adversária! – Shampoo surgiu diante da jovem chinesa, sorrindo cinicamente – eu acabarei com você e levar aquele pato de volta para a casa!

Com movimentos rápidos e predatórios, a amazona avançou para cima da Yu, essa desviou facilmente e da sequência de golpes e aproveitou o descuido para desarmar ela, arremessando o par de martelos num canto longe dali.

Yu saltou a uma altura um pouco acima da cabeça de Shampoo e desferiu uma sucessão de ataques invisíveis aos olhos da adversária, atingindo as regiões vitais da inimiga como aprendera com seu mestre.

O corpo da amazona foi arremessado violentamente para trás, sendo amparada pela karateca. Shampoo mal conseguia ficar de pé, tamanha dor que sentia em seu corpo.

– Aquela mulher é um monstro... – Shampoo murmurou, apoiando-se na Akane – cuidado com ela...

– Eu vou tentar – Akane aproximou-se da Yu e intimidou a lutar – agora é a minha vez!

Akane desferiu uma série de socos e chutes e a lutadora de kung-fu sorria maldosamente, desviando de todas elas como se aquilo fosse uma brincadeira de criança. Bastou um único murro para derrubar a sua segunda desafiadora.

Enquanto isso, o amazona observava de relance a Yu vencer tranquilamente as duas invasoras ao mesmo tempo que desviava dos embates de Saotome. Ele recuou alguns passos apenas para recuperar o fôlego.

– Pelo visto a Yu já terminou – Mousse comentou.

– Merda – Ranma disse, ofegante – parece uma gazela correndo para lá e para cá – pensou, preocupado – “Mas que velocidade é essa? Isso é desumano demais...”

– Mas já cansou? – Mousse falou, desapontado – Eu imaginei que fosse um pouco mais forte, mas pelo visto enganei...

– O que você disse agora? – Ranma rangeu os dentes em irritação.

Uma áurea azul começou a emanar do corpo de Saotome, alcançando a visão do amazona, contudo ele parecia não surpreender tanto com o espetáculo. Mousse apenas fechou suas pálpebras e entrou em estado meditativo.

– “Eu aposto que ele ficou com tanto medo que nem consegue me encarar” – Ranma encorajou a si próprio antes de disparar em direção ao amazona – a vitória é minha!

A cena seguinte foi rápida, intensa e forte. Mousse abriu rapidamente seus olhos no exato instante que ficou frente a frente com Ranma e golpeou os pontos vitais dos seus braços e pernas numa fração de segundos.

Ranma sentiu o corpo pesar e perder os movimentos acompanhado de uma dor intensa, quase mortal e não demorou para desfalecer no chão, perdendo a consciência. De repente, Ryoga chamou a atenção do amazona e disse:

– Eu vou acabar com você – Hibiki concentrou a depressão nas mãos e gritou – Shishi Hokodan*!

Mousse correu com uma velocidade da luz e atingiu a região embaixo da orelha do Ryoga, o fazendo desfalecer no mesmo instante.

Yu assistia orgulhosa as vitórias sucessivas do seu amado e ganhando mais ânimo, ameaçou dar um fim as duas perdedoras amarradas numa corda quando escutou uma voz masculina familiar:

– Não tem necessidade de matar elas – Mousse disse.

– Essas impostoras podem ter sequestrado o nosso mestre! – Yu sugeriu – A melhor coisa é cortar o mal pela raiz antes que seja tarde...

– Justamente por isso eu não quero precipitar – Mousse comentou – porque se o mestre estivesse aqui agora teria dado chance para eles assim como deu para mim – acrescentou, fitando atentamente o céu estrelado – ele acolheu um estrangeiro como eu sem nem saber se eu era inimigo ou não...

– Mas... – antes que Yu pudesse continuar, o amazona a interrompeu.

– E ainda não temos certeza que eles sejam realmente os responsáveis pelo sequestro do mestre... – o amazona disse.

– Como diz aquela frase: “filho de peixe, peixinho é”... – Yu respirou fundo e indagou – nesse caso o que você pretende fazer com seus amigos estrangeiros?

O coração da Shampoo bateu forte ao ouvir aquelas palavras carinhosas do seu amigo de infância trocadas com a sua amante. Ele perdera a memória, mas não a personalidade generosa. Infelizmente suas predições estavam erradas.

– Prendam eles e enfiem todos numa cela até a segunda ordem do imperador – Mousse disse, friamente.

– Sim senhor, “general” – Yu pensou aliviada antes de buscar os soldados – “ao menos essa gente vai ficar longe dele...”

– Espera um pouco – Shampoo esbravejou – Quem você pensa que eu sou Mousse? Eu sou sua amiga de infância! Eu sou a Shampoo seu pato estúpido!

– Você é só uma mulherzinha arrogante que se continuar a gritar assim comigo vai parar na solitária e ver o sol nascer quadrado para sempre – Mousse ameaçou, cheio de autoridade.

Yu retornou apressadamente trazendo alguns soldados e ordenou prender e levar os invasores ao subsolo, onde ficavam os cárceres. Ali estavam metidos espiões estrangeiros vindos de várias países e todos aqueles que trairam a confiança do imperador.

A cela estava bem higienizada e tinha espaço suficiente para caber cinco pessoas. As grades eram vermelhas, cor típica usada em qualquer época da China. Liberta das amarras que prendiam as mãos, Akane tentava sair daquele cubículo, balançando violentamente a entrave de aço.

Ranma foi o último a recobrir a consciência. Levantou-se num pulo e passeou seu olhar curioso pelos arredores. Havia tão somente os colegas calados e desanimados. Uma incontrolável fúria tomou conta do Saotome.

– O que isso significa? – Ranma perdeu a cabeça e começou a balançar as grades – O que fiz de errado para ficar preso aqui? Me respondam seus desgraçados!

– Fazer escândalo não vai resolver nada seu imbecil! – Ryoga bufou, cruzando os braços e encostando a cabeça na parede – Esses seus “pitis” só vai piorar a nossa situação, se é que pode piorar mais...

– E vocês vão ficar aqui parados até apodrecer? – Saotome indagou.

– Nós já fizemos enquanto você dormia... – Akane respondeu, irritada – e vê se fala mais baixo.

– Quer dizer então que agora a culpa é minha? – Ranma disse – E eu não estava “dormindo”!

– É verdade – Ryoga falou cheio de ironia – você não estava “dormindo”, mas estava “desmaiado” porque perdeu do Mousse...

– Eu não perdi! – Ranma sentou-se próximo a grade e murmurou – eu só descuidei um pouco e ele aproveitou isso e... – Cologne intercedeu antes que ele terminasse a fala.

– Derrota é derrota – a anciã falou – eu alertei que Mousse tinha ficado mais forte, mas você não me escutou mukodono...

– Ah entendi, entendi! – Ranma reclamou – a culpa é sempre toda minha!

– Chega! – Shampoo interferiu na discussão e confessou baixinho com sofreguidão – a culpada sou eu...

– Isso é verdade – a karateca concordou – a culpa realmente é toda sua.

– Hei hei, pega mais leve com ela – Ranma disse.

Akane ignorou o último comentário do seu namorado e continuou: — Talvez se você fosse um pouco mais sincera e não tratasse ele com tanta frieza, nada disso teria acontecido – desabafou – sabe, eu também já fui muito teimosa, mas chega uma hora que a ficha cai e você precisa aceitar os fatos, deixar os sentimentos falarem mais alto.

– Minha neta tem todo o meu apoio – Cologne sorriu – ainda mais agora que Mousse derrotou seu mukodono...

– E quem disse que eu estou interessada naquele fracassado? – Shampoo indagou, com rosto rubro de vergonha.

– E quem disse que eu fui derrotado por aquele pato? – Uma súbita idéia passou pela mente do Ranma – Isso, pato!

– O que tem o pato? – Akane questionou, curiosa.

– Mas é claro... – Saotome disse, animado – basta jogar água nele e transformar no pato – completou – então, saímos desse lugar...

– O único problema agora é como sair daqui... – Ryoga comentou, pensativo.

Todas as atenções voltaram para Shampoo, que indagou: — Eu?

– Apesar de ter uma outra pessoa aqui que podia ser mas... – Ranma esboçou um sorriso maldoso para seu colega de bandana.

– Como assim? – Akane franziu a testa – Ryoga-kun não conseguiria passar pelas grades.

– Akane-san, esquece o que esse idiota está dizendo – Ryoga fuzilou-o com olhar e desviou o rumo da conversa – agora só falta conseguirmos um pouco de água fria...

– Ah mas isso é a coisa mais simples do mundo – Akane disse.

A karateca fingiu passar mal e começou a rolar no chão, gritando de desespero. Os homens fardados correram para a cela. Akane gritava insistentemente por água e comovidos com a condição da jovem, os soldados cederam a ela uma garrafa cheia. Essa bebeu alguns goles e agradeceu graciosamente pela gentileza dos cavalheiros.

Todos aguardaram ansiosos a chegada do alvorecer. A primeira parte do plano era simples. Roubar a chave dos vigias e abrir a cela através da Shampoo na forma de gato. E feito isto, entrariam na parte mais complicada da operação. Transformar Mousse em pato e escapar daquele enorme palácio.

– Vai lá que você é a nossa única esperança... – a karateca soltou a gatinha rosa para fora da cela.

Shampoo correu discretamente até parar em frente aos guardas adormecidos e pulou num deles, vasculhando o bolso da calça. Com certa dificuldade, ela retirou item por item sem derrubar no chão até encontrar um molho de chaves. Encaixou o objeto gigantesco nos seus dentinhos, arrastando para dentro da cadeia.

Akane acariciou a gatinha cansada e tomou as chaves agrupadas. Após algum tempo testando as chaves, finalmente a karateca conseguiu destrancar a cela. Cologne usou sua bengala para silenciar um dos vigias, alcançando o grupo na escadaria.

– Agora é só tacar essa água no Mousse e levar ele daqui – Ranma disse baixinho, enquanto silenciava os combatentes de farda.

– Será que vai ser tão fácil assim? – Ryoga indagou, dando uma cotovelada num soldado.

– Vamos sair logo daqui – Cologne comentou, saindo em frente aos outros – provavelmente ele esteja no seu aposento ou no jardim imperial.

– Mas esse lugar é enorme velha – Saotome concentrou sua força nos braços e desferiu um golpe numa tropa inteira – Kachu Tenshin Amaguriken**!

– Diz a lenda que tem 9.999 aposentos*** aqui – Cologne disse, andando calmamente.

– Nove mil novecentos e noventa e nove? – todos ficaram surpresos.

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O amazona meditava na companhia da Yu dentro do jardim, buscando por uma resposta que não viria. Aquilo tornara uma rotina matinal desde sua vinda na Cidade Proibida. No entanto, sua comparsa não conseguia concentrar-se no meio daquele sossego todo.

– Eu aposto que você está pensando naqueles seus amigos estrangeiros... – Yu comentou de olhos fechados.

– Concentração Yu, lembre-se das palavras do mestre – Mousse advertiu – nos piores momentos que mais precisamos ficar tranquilos.

– Como eu posso ficar calma se aquela impostora diz ser sua amiga de infância? – fez uma rajada de perguntas, deixando escorrer as primeiras lágrimas – Olha, para quem veio de fora é muito fácil falar assim, mas e eu? E se você recuperar sua memória por causa deles e me largar aqui? Como eu fico nessa história toda?

– Sabe – ele aproximou-se da jovem chinesa e a enlaçou pela cintura, apoiando seu queixo nos ombros menores – eu fiquei pensando sobre isso a noite toda – confessou – talvez não era para eu estar aqui mesmo, eu sou de outra época e... – antes de terminar sua frase, Yu o calou com um beijo intenso, o obrigando engolar seu choro salgado.

Yu voltou a respirar e disse: — Eu não quero perder você para aquela estrangeira... – mordeu o lábio inferior, encostou sua cabeça no peitoral do amazona e continuou – logo agora que eu encontrei o homem da minha vida...

– Eu – Mousse acariciou os cabelos da jovem e sorriu – eu prometo que mesmo recuperando minha memória algum dia, nunca vou te trair com mais ninguém...

– Nem com aquela de cabelos roxos? – comentou, soluçando – Ontem eu percebi que ela sente algo muito forte por você...

– Como tem tanta certeza se nem a conhece direito? – indagou, beijando a testa da amada.

– Coisas de mulher – ela tocou a tez áspera do seu homem, deslizando seus dedos para a boca e por fim, beijando-o cheio de ardor.

Beijaram-se por um tempo, um daqueles beijos repletos de intensidade, miseravelmente no ato que Mousse iria arriscar uma carícia mais ousada, um soldado quebrou o clima de paixão entre eles.

– Desculpe-me interromper, mas os impostores fugiram da cela! – o olhar de Mousse mudou drasticamente.

Notas finais
* Um golpe onde Ryoga acumula sua energia depressiva e dispara contra o inimigo ** Uma sequência de socos que Ranma usa com bastante frequência na série (mais no mangá, acho) *** Essas informações foram retiradas deste site (dá para ver as imagens para terem idéia também): http://brodeschi.wordpress.com/2009/11/20/beijing-a-cidade-proibida/