– Ele foi para a China de alguns anos atrás, essa é a única certeza que eu tenho – Lien disse.

– Como sabe? – Cologne indagou.

– O armário leva para o primeiro lugar onde que passar na mente da pessoa – Lien explicou – portanto, acredito que ele tenha ido para recuperar as lembranças.

– Mas para onde? – Ranma bufou, revoltado – Esse país é enorme!

– Espera – Shampoo arriscou um palpite – eu acredito que ele esteja na China Antiga...

– Por que você acha isso? – Cologne perguntou, curiosa.

– Uma vez quando eu sai com Mousse – a amazona continuou – aquele pato inútil me levou para um lugar horroroso que só tinha antiguidades...

– Na época da última dinastia chinesa, talvez – Cologne disse, sorvendo os primeiros goles do chá – mas mesmo assim ainda é muito arriscado entrarmos no armário sem ter certeza absoluta.

– Oras, daqui a pouco ele deve estar de volta... – Ranma bocejou, sentando-se no chão revestido de tatami.

– Aí que está o problema – Lien disse – não tem como ele voltar – pelo menos não dessa forma...

– O que? – todos indagaram em uníssono.

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Os dias passaram rápidos na Cidade Proibida e Mousse aprendera diversas técnicas com seu mestre, tornara um general temido e respeitado e ganhara um pouco de respeito da sua assistente Yu apesar dela e o amazona continuassem a trocar farpas.

O amazona masterizara golpes novos, adquirira equilíbrio mental e definitivamente largara suas ferramentas de combate. Desaparecera qualquer resquício que lembrava o antigo Mousse. Também pudera, ele não queria lembrar de nada que pudesse atrapalhar os rumos que estava tomando a sua nova vida.

Mousse também repaginara seu visual e trocara sua indumentária branca por um azul escuro estampado de dragões como uma forma de demonstrar admiração pelo professor. Além da roupa, seus cabelos negros passaram a ficar presos num rabo de cavalo o tempo todo, combinando perfeitamente com sua franja bagunçada que antes eram alinhadas e usava uma bandana na testa. Havia feito um juramento para si em ser eternamente um fiel seguidor de Liang Hu.

Aquela manhã parecia como qualquer outro, um dia de treinamento árduo aguardava os aprendizes do mestre. No entanto, Liang havia demorado para aparecer no jardim, o que de fato era estranho, afinal de contas sempre era o primeiro a chegar.

Os aprendizes começaram a ficar preocupados quando Hu surgiu na frente deles, acompanhado de alguns soldados:

– Eu precisarei me ausentar por alguns dias – Liang notou a feição surpresa dos dois e disse calmamente – mas não se preocupem que logo estarei de volta – acrescentou – eu apenas peço que não briguem durante a minha viagem.

O tempo correu depressa e ele não retornara como prometera para os dois. Yu começara a ficar aflita e inquieta. “Aconteceu alguma coisa com ele só pode ser.” Pensava ela, sentindo um aperto no coração. Liang viajara outras vezes, porém sempre voltava antes da data prevista. Mousse tentou acalmá-la, mas tomada pelo desespero, ao invés de agradecer, ela retribuiu com acusações sem fundamento.

– Tudo isso é culpa sua – Yu disse em alto e bom som – depois que você apareceu aqui ele tem viajado com mais frequência e sem dizer o porquê para onde!

– Hei, hei espera aí – Mousse indagou, irritado – o que eu tenho a ver com o sumiço dele?

– Você me falou que veio de outra época, lembra? – bufou – Eu sempre desconfiei que você fosse um espião enviado de fora – acrescentou, colocando a mão na testa – ai como fui burra de não ter falado isso para ele...

De repente, uma arma foi apontada à distância em direção a Yu. A cena a seguir foi rápida, tensa e forte. Num ato impulsivo, Mousse, que notara a presença de um estrangeiro mais rápido que a jovem, atirou-se em frente a ela, levando o tiro no braço em seu lugar.

O atirador que já estava gravemente ferido perdeu as forças e caiu no chão, sendo cercado pelos soldados do palácio. Yu amparou o amazona que desfaleceu nos seus braços, tamanha era a dor provocada pelo tiro.

– Mu-Tsu acorda – Yu repetiu várias vezes a mesma frase até perder a voz – por favor...

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Um mês passara desde a chegada da Shampoo e companhia no atual Pequim. Lien se esforçara o máximo para encontrar algum objeto que servisse de resgate do Mousse. Vasos, miçangas, medalhas de metal, estátuas em formato de animais, ela revistara todas as bugigangas, infelizmente não encontrara nada de útil.

Shampoo ficava a cada dia mais impaciente por falta de novidades e pistas sobre o paradeiro do seu amigo de infância embora essa tentasse a qualquer custo disfarçar a aflição. Ela não queria decepcionar sua bisavó, uma vez que jurara na infância em seguir fielmente as leis do clã Amazonas.

Todavia naquele dia, a amazona sentia ainda mais inquieta em relação aos dias antecedentes, como se um mal pressentimento conturbasse sua mente. Com passos inquietos, ela andou para cá e para lá do lado de fora do restaurante enquanto esperava a comida chegar, na espera de uma resposta que não viria.

Akane percebeu a inquietação anormal da sua colega e comentou para Cologne sentado ao seu lado, sorvendo chá de manteiga*:

– Coitada, ela deve estar tão preocupada que nem consegue ficar parada... – a karateca disse.

– Shampoo está assim porque se sente culpada pelo o que aconteceu com Mousse – Cologne comentou.

– Será que é só isso mesmo? – Akane indagou mais para si do que para os outros.

– Eu também acho que não – a anciã disse, sorrindo de canto – ao menos esse sumiço dele serviu para abrir a mente da minha neta.

Nesse instante, o garçom interrompeu a conversa das duas, trazendo pratos quentes numa bandeja enorme. Akane agradeceu assentindo positivamente com a cabeça e chamou a amazona para se juntar a eles na mesa.

Ranma não parava de repetir o prato, devorando tudo o que traziam de comida como refogados de legumes temperados à base de óleo de gergelim com macarrão e arroz, pastéis vegetarianos, sopa de milho e entre outras igualias chinesas. A face da karateca ardeu de vergonha pela gula exagerada do seu namorado e cutucou-o discretamente:

– Com que dinheiro você pensa que vai pagar toda essa comida? – Akane indagou baixinho.

– Ah quanto a isso não se preocupe – Ranma respondeu de boca cheia – Kuno-senpai me deu o suficiente e mais um pouco para arcar com as despesas da viagem.

– E eu posso saber como você conseguiu fazer isso? – Akane deduziu a resposta e disse, irritada – Você não vai me dizer que insinuou para ele em forma de mulher e... – a karateca confirmou suas suspeitas ao vê-lo engasgar a comida – Ranma!

– Eu não esperava que você fosse jogar tão baixo assim... – Ryoga acrescentou, se servindo do macarrão ensopado.

– Então pára de comer que nem um “porco” – Saotome disse, causando frisson na barriga do seu colega de bandana – aliás Akane, eu ainda não te contei o segredo do nosso amigui... – antes que ele pudesse terminar o raciocínio, Ryoga impediu, pegando-o pela gola da blusa.

– Você nem pense em fazer isso que eu acabo com a tua raça, entendeu? – Ryoga ameaçou, num tom de voz estridente.

– Hei hei, chega de bagunçar – Cologne interferiu na discussão acalorentada dos rapazes – não se esqueçam que estamos num lugar público.

– Ela tem toda razão – Akane fuzilou-os com seu olhar e continuou – vocês dois já para os seus lugares!

Após a bronca da karateca, um silêncio tornou a reinar naquela atmosfera. Akane percebeu que o prato da amazona estava intacta. Shampoo não tinha vontade alguma de comer e esforçava-se para beber o síngelo copo de chá.

– Você não vai comer nada? – a karateca indagou, preocupada.

– Eu estou sem fome, obrigada – Shampoo respondeu, séria.

– Não fica assim – Ranma disse, tentando aliviar os pensamentos tumultuados da amazona – logo logo ele vai voltar.

– O que me preocupa não é o Mousse em si, mas é o que ele pode estar aprontando – Cologne disse, intrigada – provavelmente a ficha dele ainda não caiu...

– Como assim? – Shampoo indagou, interessada.

– O meu maior medo é o Mousse mudar o curso da história da China Antiga – Cologne respondeu, causando gargalhadas do Ranma.

– Imagina velha – Saotome sorriu debochado – o Mousse não ia conseguir fazer uma coisa dessas.

– O máximo que ele pode fazer é virar piada se transformando num pato na frente do povo – Ryoga disse, rindo alto.

– Isso eu tenho que concordar com o Ranma – Shampoo murmurou, olhando para o além – a essa hora aquele baka deve estar vagando perdido em algum lugar – respirou fundo – por isso mesmo eu preciso trazer ele de volta antes que o idiota faça uma besteira...

Uma voz familiar tratou de interromper a conversa deles. Lien estava parado na entrada do restaurante, ofegando por ar.

– Eu encontrei uma solução para salvar o amigo de vocês! – Lien disse, animando a todos sentados na mesa.

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Uma insuportável dor atormentava os sentidos do amazona. Mousse estava balançando desesperadamente o corpo para os lados, suando ofegante, amassando o lençol marcado de sangue, segurando firmemente a mão da Yu. O médico não conseguia anestesiá-lo com agulhas, devido agitação do paciente. Então, ele chamou reforços para imobilizar Mousse de uma forma que o paralisasse por completo.

Com um pouco de demora, o homem finalmente conseguiu aplicar as primeiras agulhas em alguns pontos para aliviar as dores do seu paciente. Em seguida, o médico deu início ao procedimento para retirar a bala do Mousse. Sabia que um passo errado poderia comprometer os movimentos do braço. Exigia silêncio e concentração total. Certamente era uma enorme responsabilidade operar o aprendiz de Liang Hu.

O clima tenso e cheio de expectativas se perpetuou por quase o dia todo, o cirurgião conseguira arrancar o projétil ensanguentado da pele rasgada de Mousse. Seu trabalho fora bastante minucioso, até mesmo para um médico tão experiente igual a ele, afinal naquela época a tecnologia ainda não existia e os procedimentos dependiam unicamente das mãos dos profissionais.

Yu relaxou os ombros e respirou aliviada assim como o imperador que fizera questão de participar do sofrimento do amazona. Lágrimas de felicidade escorriam da Yu abraçada ao poderoso rei daquele império. Aquela foi a última cena antes do Mousse descansar seus olhos e cair num sono pesado e merecido.

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Um lugar escuro e vazia crescia nos olhos de Mousse. Uma alma sequer existia naquela imensidão negra e infinita. Reconheceu sua roupagem antiga. Usava óculos garrafais e sua indumentária branca com mangas largas e compridas.

A caminhada foi se transformando numa corrida desenfreada e ele começou a gritar em busca de uma alma viva. Subitamente uma dor tremenda torturou sua cabeça, fazendo o amazona abaixar-se e clamar socorro.

– Alguém me ajuda... – Mousse disse, olhando o chão negro.

Constatou a presença de alguém extremamente familiar surgir na sua frente e ele olhou para cima, avistando uma figura feminina de cabelos longos e roxos. Com certa dificuldade, conseguiu se levantar e encarou mais de perto a misteriosa jovem.

– Quem é você? – Mousse indagou, massageando a têmpora.

– Eu quero deixar uma coisa bem clara: eu não te amo Mousse – a garota disse com convicção – Eu amo o Ranma e quero você longe de mim, longe de nós.

– Minha cabeça está latejando... – Mousse pediu – sai daqui... vai embora...

– Eu amo o Ranma! – ela insistiu.

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– Pare! – Mousse sentou-se na cama, arfando por ar.

– Calma sou eu! – Yu disse, sacudindo-o insistentemente para despertá-lo a realidade.

– Aquilo era um sonho... – comentou, limpando o suor que escorria da testa com a mão.

– Um pesadelo você quer dizer – falou, sentando-se ao lado dele e tocando o braço enfaixado.

– Eu já estou bem – Mousse estranhou a presença feminina no seu quarto e indagou – mas o que você está fazendo aqui a essa hora da noite?

Notas finais
* Na China, eles tem hábito de beber chá de manteiga, será que isso é bom? E no próximo teremos um capítulo meio "senver gonha" rs