O Resgate do Mousse
20 Capítulo 20 - Final
As mulheres das redondezas começaram a dar altas gargalhadas. Oras, quem imaginaria que o maldito pato era o desejado Bai Lang? Eram diferentes demais. Talvez a própria Shampoo duvidasse disso, se não o conhecesse tão bem.
– Essa é a melhor que escutei! – uma delas disse, engasgando de tanto rir.
– Isso não é uma piada – Shampoo falou, encarando o olhar indiferente do amazona – Fala alguma coisa!
Mousse manteve a postura inalterada e ignorou completamente a presença da chinesa petulante, como se fosse mera paisagem. Ninguém o faria tolo duas vezes, ninguém lhe pisaria de novo!
Nesse instante, um tumulto se fez na sua volta. Mulheres desprezando, zombando, acusando a infeliz de calúnias. Assistia satisfeito o espetáculo. Aquilo certamente era um colírio aos seus olhos.
Com muita dificuldade, Shampoo soltou-se delas e pegou o motivo do escândalo pela gola, ficando cara a cara.
– Vamos seu covarde! – ela insistiu, perseguindo o olhar evasivo.
Mousse livrou-se dos braços teimosos, ajeitou as mangas e confessou em alto e bom som: — Eu sou o Mu-Tsu sim, e daí? – notando o efeito que causara sua revelação nos ouvidos alheios, continuou – elas que começaram a me chamar de Bai Lang.
– Isso não pode ser verdade – uma das admiradoras comentou, desconfiada – O Mu-Tsu que conheço é aquele pato cego, idiota...
– Mas podem existir dois homens com mesmo nome – a outra disse – tem tantos nomes iguais por aí.
– Por Tenma! Elas não podem achar que você é outro homem – Shampoo afrontou mais uma vez a sombra impetuosa – Faz alguma coisa!
– E por que faria se tudo é verdade? – Aquelas foram as últimas palavras do lobo solitário, antes de sumir nos bambus.
– Mu-Tsu! – a amazona correu atrás do amigo de infância, gritando seu nome com uma voz de raiva misturada com melancolia, que morreu na garganta.
Tremia a rejeição nas mãos, mordia o orgulho ferido no lábio inferior e doía o arrependimento na pele. Por que raios aceitara viajar? Teria se poupado da humilhação alheia, da vergonha e do constrangimento. Seria muito melhor estar na companhia da clientela chata, egoísta e exigente.
Entrou correndo dentro de casa, batendo a porta nas suas costas. Largou as malas, caindo de bruços na cama, esquecendo de tudo e de todos. Mal conseguia levantar o rosto quando alguém apareceu acariciando seus cabelos.
– O que houve? – Cologne indagou – Isso tudo é saudade?
– Xian-Pu devia... devia ficar no Japão e não... viajar... – Shampoo respondeu, entre soluços e lágrimas, abafados pelo travesseiro.
Soltou um longo suspiro e disse: — Você já encontrou com Mu-Tsu.
– Eu não quero ficar mais nessa vila... – saiu do colchão amassado, e borrando a maquiagem no braço, completou num tom nervoso – Xian-Pu vai embora daqui!
– Você está cansada – aproximou-se da neta e continuou – descanse por hoje e amanhã voltamos a falar sobre esse assunto.
– Eu não tenho nada pra falar daquele, daquele – completou, abaixando a voz – pato maldito...
– Por que não assume o que sente por ele? – antes que sua neta pudesse responder, concluiu – quem sabe isso não possa aliviar o seu fardo.
– Xian-Pu não sente nada por aquele... ingrato... – confessou em pensamento – “bendita hora que fui perceber... mas agora já é tarde demais!” e mentiu nos lábios rubros – Xian-Pu ama Ranma...
– Bom – afirmou, percebendo a teimosia – segundo os nossos mandamentos, tanto faz você ficar com Ranma ou Mu-Tsu – esclareceu – no caso do Ranma, por derrotar você e o Mu-Tsu, por vencer Ranma.
– Aquilo, aquilo foi uma coincidência infeliz! – exclamou, afastando os flashbacks que vinham nítidas na mente.
– Nada que eu falar vai adiantar pelo visto... – disse – de qualquer modo, fique aqui hoje e amanhã se quiser pode ir embora.
– Você vem comigo obaachan? – indagou, receosa.
– Não – respondeu sem cerimônia – eu quero aproveitar esses dias de descanso – deixou um pequeno embrulho em uma mesinha e disse – aqui está a chave do Cat Café e as coisas que vai precisar...
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E não tão distante dali, Mousse fazia suas malas às escondidas da mãe. Viajaria no próximo amanhecer, num lugar que nada iria atrapalhar suas ambições, seus planos e seus objetivos. Nada! Muito menos aquela mulher!
Queria ser o melhor, o mais forte e o insubstituível.
Sabia que no mundo afora existiam lutadores à sua altura, independente do sexo. Viajaria outros continentes além da Ásia. Aprenderia outros idiomas na raça, trabalharia dia e noite, faria o possível e o impossível. Testaria os limites físicos e psíquicos. Seria uma jornada difícil, mas no final tinha a plena certeza que todo o esforço valeria a pena.
Mal podia pregar as pálpebras durante sua última madrugada em companhia materna. Estava ansioso demais. Novos desafios, novas aventuras. Deixou aflorar a imaginação, mergulhando no êxtase do desconhecido. A noite parecia uma eternidade.
Despertou antes do sol raiar no vasto horizonte, pegando os poucos pertences separados num canto. Passeou o olhar nostálgico naquele aposento que passara seus melhores e piores momentos da vida.
Em passos lentos, parou em frente a um quarto fechado, como se quisesse fazer uma despedida silenciosa da sua única família, companheira e amiga sincera que poderia contar sempre.
– Zaijian* – murmurou, cheio de nostalgia.
Levou um susto ao ver a genitora na entrada, segurando algo. Suspirou fundo, preparando psicologicamente para receber sermões e broncas. Suas expectativas foram todas descartadas, vendo um sorriso brando brotar nos lábios.
A dona de casa entregou o pequeno pacote, dando um longo e demorado abraço. Tanto a mãe quanto o filho permaneceram calados, sentindo o calor aquecer suas almas naquela manhã tão gelada.
Os dois afastaram-se depois de algum tempo e trocaram um breve diálogo antes do Mousse desaparecer na imensidão verde.
Após algumas horas de caminhada íngreme, largou a mala numa região familiar, onde começara seus treinamentos. Fechou as pálpebras e as lembranças afloraram soltas. A passagem na Antiga China. Sua estadia na Cidade Proibida. Os treinos do Liang Hu. As batalhas com o temido Lei Li...
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– Onde eu estou? – Shampoo indagou receosa, parecendo um certo colega que vivia perdido nos lugares.
Sabia que regressar no Japão sozinha não era uma missão fácil. Sem companhia. Sem apoio moral. Sem ânimo. Seus pés seguiam pesados e cansados. Suas costas pareciam mais pesadas que chumbo. Lágrimas contidas finalmente começaram a escorrer dos olhos. Atirou a mala pro lado, sentando na raiz de uma árvore gigantesca e levemente inclinada.
Pegou o embrulho da avó, desfazendo impaciente o nó que prendia todos os objetos. Viu algumas chaves, um pouco de dinheiro e fotografia antiga. Tremeu a foto nos dedos, vendo o passado fixado nas cores vivas. Uma menina esnobe, um garoto de óculos garrafados e a Cologne.
Cogitou rasgar e deixar o vento levar embora. Sacudiu a cabeça e abaixou o rosto, deixando o choro atingir as entranhas. Logo caiu em pranto convulsivo, aliviando todas as dores suportadas desde a partida do Mousse. Ah, se soubesse que aquela viagem traria tantas desavenças e consequências funestas!
– Xian-Pu não... – falou baixinho, debruçando nas raízes – Xian-Pu não consegue esquecer Mu-Tsu...
De repente, uma monstruosa sombra cresceu diante dos seus olhinhos marejados. Tudo foi rápido demais. Num segundo, já estava sendo levada nos braços firmes pra bem longe daquela zona de perigo. O tronco velho havia despencado sobre as outras árvores, causando efeito dominó.
Shampoo recobriu a consciência, ficando embasbacada com a visão do amazona crescer nos olhos e a respiração ofegante entrar em seus ouvidos. Afastou-se rapidamente dele, dando as costas.
Com o costumeiro tom agudo, indagou: — O que faz aqui Mu-Tsu?
– Não vê que despencou tudo? – disse, olhando pros lados – Você estava morta e enterrada se eu não tivesse por perto...
– Xian-Pu não pediu pra salvar! – retrucou, agindo contra os sentimentos. Sua vontade era se atirar naqueles braços fortes, beijar sua boca, fazer loucuras que faria toda mulher apaixonada.
A resposta veio em forma do silêncio. Mousse virou-se no sentido oposto, fazendo menção em partir e deixá-la falar sozinha.
Tomada por um impulso, Shampoo colocou à frente dele e indagou, ofegante: – Por que me salvou Mu-Tsu?
– Eu faria isso com qualquer um – falou, seco – mesmo sendo uma mulher insuportável como você.
– E por essa “mulher insuportável” que um certo pato idiota e ingênuo ficou louco! – revidou, erguendo o timbre.
– Antes um idiota e ingênuo que uma “mulher fácil” que se esfrega no primeiro homem mais forte que ela! – Todos os desaforos, as humilhações, perturbações acumuladas na alma por longos anos explodiram na boca do amazona.
– O que você falou agora? – perguntou, tremendo a ira nos punhos fechados.
Ignorou a pergunta e continuou fuzilando, descontrolado: – Como eu fui me apaixonar por um lixo feito você? Aliás não, lixo é melhor que depois de jogar fora não enche mais o saco de ninguém!
– Cala essa boca! – a mão aberta bofeteou o rosto maior – Quem é você pra falar assim de mim? – desferiu outra bofetada – Eu tenho sentimentos também entendeu? – continuou, dando mais um tabefe – Por isso que Xian-Pu amou só dois homens na vida! – finalizou, demonstrando fraqueza no tapa, assim como a voz chorosa – mas nenhum deles ama Xian-Pu...
– Hei... – ele interrompeu a fala ao sentir um soco violento atingir sua face.
– Aiya, olha o que você está me fazendo falar! – disse, violentamente corada.
Uma risada alta e espontânea ecoou nas proximidades, espantando qualquer clima tenso, pesado e explosivo que existia ali.
– Eu acho que acordei – disse, sorrindo – Toa chie Xian-Pu.
Ficaram um olhando pro outro, buscando uma resposta que não viria por meio de diálogos.
Pouco tempo depois, ambos sumiram misteriosamente. Ninguém soube o paradeiro deles. Qual fora o destino dos dois? Existe um provérbio que diz:
“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
FIM
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