O Resgate do Mousse
14 Capítulo 14
Notas iniciais
A canção dos pássaros tratou de despertar Mousse. Ele levantou-se com certa dificuldade e começou a passear seu olhar curioso pelos arredores daquela floresta desconhecida. Logo, sentiu a presença de alguém e escondeu-se atrás de uma frondosa árvore. Seus olhos ficaram surpresos ao constatar que estava se vendo do outro lado treinar arduamente, descontando toda a fúria nos punhos.
– “Mas como isso é possível?” – Mousse se questionou, assustado.
O “outro Mousse” não notou sua presença e continuou a treinar sem parar. Ele parecia desesperado e de uma certa forma atormentado também. As únicas palavras que segregavam na sua boca era um nome estranho aos seus ouvidos.
– Eu acabarei com você Saotome Ranma! – Ele gritou, socando a árvore com raiva.
– “Com esse treino de amador jamais conseguirá sair do lugar...” – Mousse indagou, respirando fundo em reprovação – “será que eu era tão idiota assim?”
O treinamento se estendeu até ele escutar uma voz feminina chamar seu nome. Ao averiguar a senhora de idade bastante avançada, Mousse sentiu novamente aquela forte enxaqueca atormentar sua mente. Quanto mais o som dos passos daquela anciã cresciam nos seus ouvidos, sua dor de cabeça agravava a ponto de sentir vertigem.
Um dia o amazona sabia que lembraria de tudo. “Então qual era a razão de estender a tortura por mais tempo?” Pensava ele.
– “Eu tenho que resistir... eu vou resistir a essa dor!”
Além da enxaqueca, agora Mousse também sentia fortes dores no peito como se fossem agulhadas. Ele pressionou a mão contra a região peitoral, ofegando por ar. Aguentaria todos os obstáculos da sua consciência covarde custasse o que custasse.
A tontura agravou cada vez mais e bagunçou sua vista na cena onde o “outro” Mousse corria para socorrer a idosa. Finamente conseguiu ver nitidamente o rosto da sua genitora, embora as aguilhadas incomodassem sua mente.
As lembranças começaram a florescer aos poucos na sua mente atormentada desde sua ida para a China até o verdadeiro motivo que ficara soterrado debaixo das árvores. Eram tantas as recordações que deixara Mousse em estado convulsivo.
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– Mu-Tsu, acorda Mu-Tsu! – uma voz estridente despertou o amazona do transe.
Mousse sentou na cama, suado e ofegante. Ele passeou os olhos perdidos por todos os cantos daquele estranho aposento. Estava cercado por todos os seus colegas, além da Shampoo e das duas anciãs.
– Onde eu... – Mousse disse, entre pausas – onde eu estou?
– Estamos na China atual – Cologne respondeu.
– Por Tenma-sama*... – Shampoo comentou baixinho, aliviada – eu pensei que você nunca mais fosse acordar...
– “Que sensação estranha” – o amazona falou em pensamentos – “eu recuperei a minha memória, mas sinto que alguma coisa mudou dentro de mim...”
– Agora que todo mundo está sã e salvo, só falta Mousse se lembrar de tudo e vai estar tudo resolvido – Ranma espreguiçou os braços.
– Mas eu vou dizer uma coisa... – Ryoga comentou – eu sinto falta daqueles enormes óculos garrafais que você usava.
– Nem me fale – Ranma disse, rindo – ele escorregando que nem idiota e agarrando qualquer um era hilário!
– Hei, hei parem vocês dois – a karateca interrompeu a conversa entre seu namorado e Ryoga – coitado do Mousse, assim ele não vai querer mesmo lembrar de nada...
– Shampoo concorda com Akane... – Shampoo disse.
– “É melhor não falar nada mesmo...” – o amazona pensou, cruzando os braços – “talvez eu conversasse só com a Yu. E falando nela, cadê?” – uma idéia monstruosa passou pela sua cabeça e saindo da cama, indagou aflito – Onde está a Yu? O que vocês fizeram com ela?
– Eu... – Shampoo respondeu, irritada – eu tranquei ela no sóton...
Com um olhar enciumado, Shampoo acompanhou o Mousse desaparecer nas escadas que dava acesso ao terceiro andar. Yu impedira o resgate do amazona a todo custo e fora silenciada por eles e trazida para a China atual.
– Ah não – Ranma reclamou – depois de tudo o que a gente fez, o idiota vai lá para soltar ela...
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Ao chegar no sóton, Mousse começou a caminhar em passos lentos naquela escuridão empoeirada, emitindo um som típico de madeira velha. Quando sua visão ficou acostumada, encontrou Yu desfalecida e acorrentada do pescoço para baixo.
O amazona imediatamente a libertou das amarras e sacudindo os ombros menores, reativou seus sentidos. Aos poucos Yu recobriu sua consciência, mas ainda estava atordoada devido efeito do sonífero que injetara nela antes do regresso ao século vinte e um**.
– Eu... – Yu massageou as têmporas e continuou como se estivesse falando sozinha – eu tentei impedir de levarem você e... – o amazona não permitiu que ela terminasse sua fala.
– Provavelmente cedaram você – Mousse comentou, espantando o pó.
– Que tipo de erva é essa? – falou, surpresa – Eu não conheço nenhuma tão poderosa como essa que me deram...
– Não são ervas, são “remédios” – explicou – as ervas continuam sendo utilizadas, mas nessa época elas são misturadas com substâncias químicas.
– Eu realmente estou no seu mundo pelo visto – acrescentou – que por sinal parece bem mais avançada do que a minha.
– Yu, eu queria... – ela interrompeu o raciocínio do Mousse.
– Você quer saber se realmente sou ou não traidora do Imperador, acertei? – Yu falou, como se adivinhasse os pensamentos do Mousse – Vamos para um lugar melhor...
O amazona desceu a escada junto com a Yu e pediu licença ao grupo para esvaziar o quarto por alguns instantes. Assim que Mousse encostou a porta, seus colegas curiosos colaram os ouvidos próximos a fechadura.
– Pronto – ele disse, sentando-se na cama – pode começar...
– Você se lembra quando falei sobre o meu passado? – indagou, fitando a janela.
– Sim é claro. Você estava ótima naquele teatrinho – acrescentou, cheio de ironia – se sairia uma boa atriz.
– Por favor, me escute... – explicou, encarando o olhar magoado do seu amado – eu não menti quando falei sobre o meu passado para você, só omiti algumas coisas...
– Sou todo ouvidos – disse – continue...
– Eu lembro que falei sobre a proteção do imperador em troca de noites de prazeres e o nojo que sentia por aquele homem – falou.
– Sim, me lembro... – respondeu.
– Então, eu comecei a pensar em fugir daquela prisão, queria deixar tudo para trás e recomeçar uma nova vida bem longe – explicou – foi quando sem querer escutei uma conversa entre um soldado e o Lei Li sobre o plano de destruir o imperador e transformar aquele inferno num ponto turístico. Flagrei os dois e pedi que me tirassem dali em troca de confidenciar tudo o que se passava na Cidade Proibida.
– Qual é a sua relação com Lei Li? – indagou.
– Lei Li era um dos generais, assim como foi nosso o mestre – continuou – o problema que Lei Li jamais aceitou o fato dele não ter sido o escolhido para ser o “braço direito” do imperador.
– E por isso que Lei Li veio atrás do mestre... – falou, tirando as palavras da boca da Yu.
– Aquele acordo de paz que o mestre conseguiu durante sua viagem fui eu quem tinha sugerido ao Lei Li para não prejudicar o nosso mestre – respirou fundo – mas quando aquele soldado estrangeiro invadiu o jardim de surpresa imaginei que o Lei Li tivesse me traído e matado o mestre, por isso fiquei desesperada...
– E o bobo da história fui eu em salvar a pistoleira... – desabafou, jogando a franja para trás.
– Não diga isso... – deixou as lágrimas escorrerem, mordendo o lábio inferior – eu abri mão de tudo porque me apaixonei por você.
– Se me amasse de verdade teria contado toda a verdade antes... – ficou de pé e deu as costas a ela.
– Julgar os outros é fácil não? – Yu fitou novamente a paisagem pela janela e murmurou, lacrimejando – eu só queria liberdade como as mulheres desse mundo parecem ser...
Yu não deixou que o amazona tocasse seus ombros, e afastando os dedos atrevidos com a sua palma da mão, disparou rumo a saída daquele estabelecimento. Mousse tentou alcançar ela, no entanto, foi barrado pela Cologne antes mesmo de ganhar o térreo.
– Deixe ela sozinha agora – a anciã alertou – a situação só vai piorar você indo atrás.
– Vê se me erra sua velha ingrata! – Mousse gritou, descendo rapidamente as escadas.
Cologne percebeu um brilho familiar no olhar do seu empregado e pensou, desconfiada: — “Aquele jeito em falar comigo... será que...” – a voz desesperada da karateca interrompeu seu raciocínio.
– Obaachan, obaachan! – Akane disse, ofegando por ar – vem logo que a Shampoo está estranha!
– Aconteceu alguma coisa? – Cologne indagou, surpresa.
– Ela – a karateca retomou o fôlego e concluiu – ela está desaparecendo!
– O que? – Cologne arregalou seus olhinhos assustados.
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Com passos apertados, Mousse corria desenfreadamente a procura de sua amada mesmo sem saber seu paradeiro. Ele parava as pessoas nas ruas em busca de pistas, infelizmente ninguém havia visto alguém semelhante a Yu.
Após correr muito, o amazona finalmente se entregou ao cansaço e sentou num dos assentos públicos de um parque perto da loja, entrando em estado meditativo. Nesse instante, um casal de turistas surgiu diante do Mousse.
– O que acha de irmos a Cidade Proibida amanhã? – a mulher indagou, com uma voz suave e doce.
– Isso! – Mousse exclamou alto, chamando a atenção do casal.
Mousse sequer deu importância a reação dos pombinhos e rumou em direção a Cidade Proibida. Demorou cerca de trinta minutos e já se encontrava em frente a um dos pontos turísticos mais famosos da atual China. Ali estava Yu, admirada com a quantidade de pessoas que transitavam pelo portão central.
– Eu imaginei que você estivesse aqui... – comentou, ofegante.
– Ainda bem – sorriu vitoriosa – ao menos agora eu sei que o meu sacrifício valerá a pena e ficarei livre daquela prisão...
De repente, uma tontura inexplicável atingiu a Yu, ela estava zonza, sentia o corpo todo gelar e o sangue circular menos nas veias. Sua mente lhe traía pouco a pouco, perdendo o controle sobre sua consciência e embaralhando todos os seus pensamentos. Os músculos das suas mãos contraiam, os ossos das pernas pareciam ter sido triturados, tamanha era a dor. Sem resistir ao sofrimento, a jovem desfaleceu no chão.
Mousse apressadamente socorreu a chinesa, porém sua expressão foi de susto para terror quando notou que os ombros menores ficaram transparentes. No momento seguinte, a karateca apareceu arfante diante do casal junto com a Cologne.
– Aqui também já começou! – a anciã comentou, preocupada.
– Como assim? – o amazona indagou, carregando a Yu nos braços.
– Eu também quero saber obaachan... – Akane disse.
– Vamos voltar para a loja – Cologne acrescentou – eu explicarei assim que chegarmos lá.
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