– Espera – Yu indagou – você não está pensando em ficar com esse gato ou está?

– E qual é o problema? – Mousse explicou, acarinhando o rosto da gatinha – de onde eu vim, as pessoas tem animais dentro das casas como se fossem parte da família...

– Mas você está aqui e não lá – Yu disse, contrariada – e aqui pelo menos a maioria dos animais viram nossos alimentos...

– Um ensopado de gato cairia bem... – uma das arrumadeiras comentou, levantando os pêlos rosas da Shampoo em pavor.

– Esse gato ficará sob minha responsabilidade – o amazona disse, decidido – caso ela faça algum escândalo então verei o que fazer – acrescentou – mas fiquem tranquilas, pois hoje mesmo irei falar com o nosso imperador, mas eu tenho a plena certeza que seu coração generoso permitirá a estadia dessa gatinha aqui.

– Fazer o que não é... – Yu aproximou-se da gatinha e comentou cheio de ironia – agradece por ele ser bonzinho ouviu?

– Agora que tudo está resolvido, vocês podem voltar aos seus afazeres – Mousse ordenou, sentando-se na cama.

As empregadas sairam em reverência do quarto e o amazona ficou a sós com sua amada e sua gatinha rosa. Esperou as serviçais desaparecerem para se esticar no colchão. Yu deitou-se ao seu lado e Shampoo também se enroscou nele. Ali começaria uma disputa amorosa entre elas.

– Mas essa bichinha é safada não? – Yu indagou, despertando a ira da Shampoo.

– Pare de esquentar com bobeiras – Mousse disse – é só um gato.

– Se ainda fosse “um gato” e não “uma gata” ficaria mais sossegada – a jovem comentou emburrada, dando as costas para seu amado.

– Espera um pouco – o amazona sentou na cama e indagou, surpreso – você não está com ciúmes, ou está?

Ao virar seu corpo para o lado da chinesa, um pequeno embrulho caiu da indumentária de Mousse. A gatinha foi quem percebeu primeiro e ela desceu da cama, cutucando o pacotinho embrulhado com a pata.

– Ai, o que foi agora? – Yu ficou de pé e tomou o pertence caído no chão, desembrulhando cheio de curiosidade – isso é seu Mousse?

– Ah, segundo a senhora estrangeira é uma “proteção” – o amazona respondeu, levantando-se em seguida.

– Entendi... – a chinesa retirou um pedaço de papel com duas crianças que sorriam e uma senhora atrás deles e indagou – O que é isso?

– Isso se chama “fotografia”, na minha época existe uma máquina para congelar nossas lembranças num papel, empreste-me – Mousse pegou a foto em mãos.

Uma dor assolou sua cabeça ao se reconhecer na foto e justamente ao lado da última mulher dessa face da Terra que queria lembrar: a jovem de cabelos roxos. Derrubou o retrato no chão e pressionou as têmporas.

Shampoo começou a chorar ao ver a fotografia caída no solo. Ficou nostálgica por alguns instantes, viajando num passado que hoje parecia ainda mais distante, recordando os momentos ao lado do amazona. Seus devaneios foram interrompidos pela voz abafada do seu amigo de infância.

– Jogue isso fora... – Mousse disse, com sofreguidão.

Yu assentiu a cabeça em sinal positivo, indo em direção a fotografia, entretanto a gatinha rosa não saia de cima da imagem. A jovem chinesa tentava retirar o papel debaixo das patas firmes a todo custo. Vendo o apego que a gatinha tinha pela foto, Mousse intercedeu no meio delas.

– Deixe ela ficar com essa foto – o amazona falou rouco – logo logo ela enjoa e pára de brincar...

– Quer que eu chame o médico? – Yu amparou seu amado, o ajudando se deitar no colchão.

– Não, obrigado – Mousse pediu – eu só quero que você me deixe sozinho um pouco nesse quarto...

– Imagina se te deixaria aqui nesse estado – a chinesa negou, acariciando o rosto suado do seu amado.

– Por favor... – o amazona insistiu, retribuindo o carinho da Yu com um beijo na mão.

– Tudo bem, vem cá gatinha – Yu saiu de perto do rapaz.

– Deixe ela aqui brincando, não me fará nenhum mal – Mousse disse, ficando de frente para a parede.

Shampoo mostrou a lingua discretamente para a sua rival, amando observá-la sair extremamente irritada do quarto, porém sem conseguir fazer nada.

Um silêncio absoluto tomou conta daquele aposento. Mousse permaneceu calado por um momento, agora fitando sua nova companheira de quarto. Apreciou a gatinha rosa ainda observando a foto, notando certo ar de tristeza nos seus olhinhos. Sem a forte presença da Yu, ele conseguia pensar melhor, colocar as idéias em ordem e refletir sobre os últimos diálogos trocados com a Cologne.

– “Indo contra a maré...” – repetiu trechos da conversa e indagou, estendendo sua mão para a gatinha rosa, que pulou nele sem hesitar – O que você faria no meu lugar gatinha?

– “Eu só queria tanto que tudo voltasse a ser como antes...” – a amazona pensou, entristecida.

De repente, Mousse ergueu a gatinha na altura de seu nariz como se carregasse um bebê frágil e indefeso. Shampoo ficou sem reação e sentiu o coração descompassar. Talvez pelo simples fato de reencontrá-lo mais homem, amadurecido e forte sem ser truculento. Seu rosto corou violentamente quando ele encostou os enormes lábios perto das orelhas.

– Hum... cheirinho de shampoo – o amazona sussurrou com uma voz sensualmente rouca nos ouvidos da pequena.

– “Por Kami pára com isso seu conquistador barato... seu estúpido... seu pato... se não eu...” – Shampoo fechou as pálpebras, tentando manter a sanidade.

– Já sei, você vai se chamar “Shampoo” – sorriu suavemente – o que acha?

– “Não pode ser...” – ficou emocionada e ao mesmo tempo pensativa – “será que isso é só coincidência?”

– Ih, vejo que não gostou muito – disse – então vamos pensar em alguma coisa melhor... – após uma longa pausa, continuou – Que tal, Lianhua?

– “Lianhua... flor de Lótus...” – Shampoo arregalou os olhos acanhados e soltou um miado baixo em aprovação.

– Está decidido – falou, sorrindo – Você vai se chamar “Lianhua” à partir de hoje – ele encostou seu nariz na fucinha da gatinha, a deixando vermelha igual um tomate.

– Eu ainda mato esse baka...” – Shampoo pensou, apoiando-se nele com suas patas dianteiras, ainda rubra.

Duas batidas na porta chamaram a atenção dos dois, a gatinha subiu num dos ombros de Mousse e ele abriu uma fresta da porta, suficiente para ver quem era o estraga-prazeres. Era a Yu ofegando por ar, tamanha era sua pressa.

– O mestre voltou Mousse! – Yu não esperou entrar no quarto e anunciou em voz alta, com sorriso de orelha a orelha.

– Isso é verdade? – Mousse esperou sua amada passar para o lado de dentro e indagou – E como ele está?

– Sã e salvo! – a chinesa pulou nos braços dele, fazendo Shampoo descer do seu amigo de infância, mesmo contrariada.

– Que notícia boa! – o amazona afastou da Yu, encarando-a com felicidade.

– E tem mais, ele conseguiu fazer um acordo para nos deixar em paz – completou – por uns tempos é claro...

– Eu quero vê-lo agora, tem como? – Mousse indagou, colocando a Lianhua no colo.

– O mestre já está a nossa espera no jardim, parece-me que quer falar algo importante a nós dois, vamos? – Yu agarrou o braço do jovem general propositalmente somente para apreciar a reação da gatinha e sugeriu – Eu só acho melhor deixarmos o gato aqui.

– Qual é o problema da Lianhua ir junto? – o amazona disse – É só um gato, não nos prejudicará em nada. Aliás, irei aproveitar essa ocasião e pedir a autorização do nosso mestre para ficar definitivamente com ela.

– Hum... quer dizer então esse é o nome dela agora... – Yu comentou, aborrecida.

– Eu queria batizá-la como “Shampoo”, mas achei que esse nome seria melhor pelo cor dela – Mousse explicou, esboçando um sorriso sereno em seu rosto.

– Eu acho que você está mimando demais essa gatinha... – a chinesa falou, emburrada.

– E eu acho que você está ciumenta demais por causa de uma gatinha... – Mousse retrucou.

– Tudo bem você venceu – Yu cedeu à vontade do amado, para a felicidade da Shampoo, que sorria satisfeita.

Os três cruzaram a porta e passaram pelo espaçoso corredor digno de um palácio luxuoso, indo ao Jardim Imperial onde Liang Hu os aguardava em estado meditativo.

– Quanto tempo mestre... – Mousse ajoelhou-se perante a um dos homens mais respeitados depois do imperador.

Liang saiu da meditação e disse: — Que bom vê-lo vocês dois... quero dizer, vocês três – Hu percebeu na presença de um terceiro visitante encolhido no colo do seu aprendiz.

– Veja Lianhua, ele é o nosso professor – o amazona disse, acarinhando a testa delicada da gatinha.

– Eu vi que vocês se dão muito bem – Hu aproximou-se da pequena, mas quando esse tentou fazer um carinho, levou uma mordida – Opa...

– “Então quer dizer que Mousse está aqui por causa desse velho também...” – Shampoo pensou, intrigada.

– Hei hei, o que essa folgada pensa que está fazendo? – Yu arrancou a gatinha das mãos do amazona e virou-a de ponta-cabeça – se ainda fosse só comigo que sou mulher como você tudo bem, mas desrespeitar assim o nosso mestre eu não permito!

– Devolva ela para o Mousse – Hu ordenou, batendo de leve na cabeça da sua aprendiz.

– Sim, senhor mestre... – a chinesa soltou Lianhua nos braços do amazona.

– Pelo visto essa gatinha só gosta da sua companhia – Liang mudou drasticamente sua expressão e continuou – voltando ao assunto, eu preciso falar algo muito importante para vocês.

– “Nossa... eu nunca senti uma presença tão forte como esse homem” – Shampoo também ficou séria e continuou – “mais poderoso que o Mousse... que essa mulher...” – indagou para si, suando frio – “isso é desumano demais...”

– Bom, a Yu deve ter adiantado o assunto, mas eu consegui um acordo de paz com os opositores da nossa dinastia – ele continuou – porém sob uma condição: resignar a Cidade Proibida.

– Como assim mestre? – Yu indagou, desacreditada.

– Mudar o curso da história... – Mousse murmurou sozinho, pensativo.

– Você sabe de alguma coisa? – a chinesa indagou seu amado, o vendo distante.

– O motivo é simples: eles querem o nosso afastamento para transformar a Cidade Proibida num ponto turístico... – Liang explicou, fitando o horizonte.

– Mas precisamos fazer alguma coisa mestre – Yu disse, revoltada – não podemos esperar as coisas acontecerem de braços cruzados!

– Claro que faremos – Liang direcionou seu olhar para seu aprendiz e falou – antes eu quero conversar a sós com Mousse, você poderia nos dar licença Yu?

– Ah sim eu sou sempre a intrusa mesmo – a chinesa bufou, nervosa.

– Se você prometer que manterá a calma durante a nossa conversa poderá ficar, agora caso contrário, eu prefiro que nos deixe sozinhos – Hu sugestionou, mantendo a serenidade.

– Eu juro que não vou me intrometer e nem me precipitar... – Yu fez a posição de meditação e permaneceu calada.

– Ótimo – Liang voltou a atenção para seu aprendiz e continuou – você tinha me dito no começo que veio de uma outra época e que não pertencia a esse mundo, possivelmente mais avançada que o nosso.

– Eu confirmo mestre – Mousse disse, convicto.

– Você deve imaginar que daqui a alguns dias o império todo entrará em árdua batalha contra os nossos opositores que são a maioria – concluiu – uma guerra onde milhares de vidas serão perdidas para defender o imperador, quem sabe o último da história desse país.

– O que o senhor quer me dizer com tudo isso? – o amazona indagou mesmo sabendo a resposta.

– Eu estou lhe dando a chance de fazer uma escolha – Liang explanou – durante a minha viagem eu estive refletindo bastante sobre sua situação meu jovem e fiquei imaginando como seria se você resgatasse o seu passado e quisesse retornar para sua casa.

– Mas eu... – Hu não deixou que o amazona continuasse o raciocínio.

– Eu confesso que no início realmente queria nomear você como meu sucessor – Liang continuou – mas depois da notícia que recebi do imperador sobre a visita dos seus amigos estrangeiros, certamente você deve estar dividido entre permanecer aqui e lutar conosco e retornar para o seu mundo – indagou – ou estou errado?

– Obrigado pela confiança mestre... – Mousse respondeu – eu pensei bastante sobre esse assunto na noite passada e cheguei a uma conclusão...

As mãos da Yu tremiam de medo, insegurança e desespero. Seus orbes negros ficaram marejados. Sua única vontade era agarrá-lo e implorar que não a abandonasse num momento tão crucial. Infelizmente havia feito a promessa de não interferir nas decisões do amado.

Por outro lado, Shampoo também parecia bastante nervosa e apreensiva. A vida toda ela o desprezara e sabia que não tinha direito algum para interferir na vida de Mousse.

– E qual é a sua escolha? – Liang indagou.

As duas não agüentaram a pressão e encararam juntas o olhar decidido do Mousse, esperando pela resposta que mudaria a vida de uma delas.

– Eu ficarei aqui e lutarei com vocês até a morte – o amazona sorriu determinado – porque essa é a minha família agora.

Yu não se conteve de tanta felicidade e se jogou nos braços do seu amado, o beijando com urgência e ardor para a surpresa do Liang. Ela colocou sua lingua dentro da boca maior, explorando cada canto daquela cavidade. Conhecia bem o gostinho dos lábios de Mousse, contudo sentia um sabor diferente. Beijaram-se por um tempo, ignorando completamente a presença do mestre e da gatinha.

Shampoo não conseguia disfarçar a tristeza e disparou dali. Seu desejo era perder a memória e esquecer a existência do Mousse e recomeçar uma nova vida.

Com um pouco de demora, Hu tossiu com intenção de trazer os pombinhos para a realidade. O casal ficou sem graça.

– Estão dispensados por hoje – Liang disse, rindo.

– Mas mestre não seria melhor nos preparar e... – Hu não permitiu que o amazona continuasse a fala.

– Descanso também faz parte do treinamento – o homem de meia-idade respondeu.

– Sendo assim – Yu puxou o amazona pelo braço e disse – vamos aproveitar esse dia para “descansar”...

Mousse percebeu a ausência da sua gatinha e indagou, preocupado: — Cadê Lianhua? Ela estava aqui até agora...

– Ah, daqui a pouco ela deve aparecer – Yu disse, com uma voz maliciosa – agora vem que eu quero te fazer uma “massagem” bem gostosa no quarto...

– Hum... mal posso esperar... – Mousse respondeu na mesma malícia.

Notas finais
Um lembrete: ler e não comentar, é feio u.u