O Resgate de Hadassah

21 O Retorno da Rainha



​O tempo tem uma maneira peculiar de moldar o caráter e esculpir o destino. Cinco anos se passaram desde que o avião cruzara os céus de Nova York, levando uma jovem ferida em busca de si mesma. Agora, aos 26 anos, o sucesso de Hadassah Telles na Vanguard Media, em Toronto, era absoluto e incontestável.

​Ela já não era a assistente executiva que operava nas sombras. Hadassah comandava as reuniões de diretoria com uma postura impecável, ditava os rumos das campanhas publicitárias multimilionárias a pulso firme e fechava vendas de contratos internacionais que deixavam os concorrentes de joelhos. Seu chefe e fundador da agência, Richard Lâfrer, não apenas confiava cega e plenamente em seu taco; ele a idolatrava profissionalmente, tratando-a como a joia mais preciosa de seu império.

​Naquela tarde de sexta-feira, Hadassah estava de pé diante da imensa parede de vidro de sua cobertura no centro financeiro de Toronto. Vestia um terninho de alfaiataria sob medida na cor vinho, o cabelo ruivo cortado em um chanel moderno e sofisticado, e segurava uma taça de vinho tinto. Ela observava o movimento da cidade canadense quando o celular sobre a mesa de centro começou a vibrar. O visor mostrava o nome de Alycia.

​Hadassah atendeu com um sorriso nostálgico. — Alizinha?

​— Hadas! Pelo amor de Deus, me diz que as suas malas já estão prontas! — a voz espalhafatosa e animada de Alycia ecoou pelo viva-voz. — Meu casamento com o Patrick é na próxima semana e você prometeu que seria a minha madrinha de honra. Não ouse me dar um bolo corporativo!

​Hadassah suspirou, sentindo um frio familiar na espinha ao lembrar do território que jurara nunca mais pisar. Ela tentou recuar de forma diplomática:

​— Aly, querida, parabéns de novo... mas você sabe como está a minha agenda com a nova campanha da holding europeia. Eu posso mandar o melhor presente de Manhattan e fazer uma chamada de vídeo...

​— Nem pensar, Hadassah Telles! — Alycia a cortou, adotando um tom falsamente severo. — São cinco anos. Cinco! Você sumiu, se transformou na maior publicitária do Canadá, mas eu preciso da minha irmã de alma no altar comigo. O Patrick já organizou tudo. Você vem e ponto final.

​Percebendo que não teria escapatória contra o amor de sua irmã de coração, Hadassah sorriu, derrotada. — Tudo bem, Alizinha. Você venceu. Eu estarei aí no domingo.

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​Antes de arrumar as malas, Hadassah passou no escritório da presidência da Vanguard para alinhar os últimos detalhes de sua ausência. Richard Lâfrer, um homem de cabelos brancos e olhar generoso, assinou as últimas faturas e olhou para ela com profundo afeto paternal.

​— Allison e eu estávamos conversando ontem à noite, Hadassah — Richard disse, tirando os óculos e sorrindo de canto. — Você sabe que, para nós, você é muito mais do que a diretora de criação desta empresa. Você é como uma filha que a vida nos deu. Minha esposa torce por você em cada passo, e nós dois só queremos ver você feliz. Vá para esse casamento, divirta-se e clareie a mente. Mas volte logo, porque a Vanguard não tem o mesmo brilho sem a nossa ruiva no comando.

​— Obrigada, Richard. Vocês dois mudaram a minha vida — Hadassah respondeu com sinceridade, tocando o ombro do mentor antes de sair.

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​O domingo em Nova York trouxe um clima ameno e ensolarado. Quando o motorista particular parou diante dos portões de ferro da mansão Lioncort, o coração de Hadassah deu uma batida em falso. Ela desceu do carro esbanjando a elegância de uma mulher rica, independente e segura de si.

​A porta principal da mansão se abriu num estrondo. Alycia correu pelos degraus e jogou-se nos braços de Hadassah, chorando e rindo ao mesmo tempo.

​— Meu Deus, você está maravilhosa! Olha para esse cabelo! — Alycia exclamou, puxando-a para dentro.

​Logo atrás vinha Patrick Blake, o noivo. Um homem alto, de sorriso caloroso e postura atlética, que abraçou Hadassah com imenso respeito.

​— É uma honra finalmente conhecê-la, Hadassah. A Alycia fala de você vinte e quatro horas por dia — Patrick brincou, estendendo a mão.

​— O prazer é todo meu, Patrick. Cuide bem da minha menina — Hadassah respondeu entre risos.

​Os três entraram na imensa sala de estar da mansão e Patrick fez questão de servir três taças de um vinho tinto encorpado. Sentados nos sofás de veludo, a conversa fluiu animada. Alycia gesticulava contando os desastres da organização do bufê, Patrick ria das excentricidades da noiva, e Hadassah se sentia genuinamente feliz, envolvida pelo calor daquela recepção.

​O ambiente estava leve, repleto de gargalhadas, até que o som de passos firmes ecoou pelo hall de entrada.

​Jason Lioncort entrou na sala.

​O tempo havia sido generoso demais com ele. Aos 35 anos, Jason trocara a agressividade impulsiva da juventude por uma maturidade avassaladora. Ele vestia uma calça de alfaiataria cinza e uma camisa de linho azul-escura com as mangas dobradas até os cotovelos. O rosto estava mais marcado, a barba por fazer perfeitamente aparada e os cabelos escuros ligeiramente mais curtos. Mas foram os olhos azuis que paralisaram o ambiente.

​Ao focar em Hadassah, o olhar de Jason mudou. Não havia a fúria do passado ou o desespero do carma; havia uma intensidade sobrenatural, um magnetismo maduro que parecia despi-la de todas as suas defesas corporativas em um único segundo. Ele a comia com os olhos, mapeando o decote do terno vinho, as pernas cruzadas com elegância e a postura de rainha que ela adotara.

​— Boa tarde a todos — a voz de Jason ecoou, mais grave, profunda e aveludada do que nunca. Ele caminhou até o grupo, mantendo o controle absoluto de suas emoções. — Seja bem-vinda de volta, Hadassah.

​Hadassah sustentou o olhar, embora seu peito estivesse pegando fogo e seu coração corresse a mil por hora. — Obrigada, Sr. Lioncort. É bom ver que a agência continua em boas mãos.

​— Ora, parem com essa formalidade vocês dois! — Alycia interveio, bebendo um gole de seu vinho. — Jason, senta aqui e me ajuda a convencer a Hadas de que o fotógrafo que você contratou é um gênio, porque ela achou o portfólio dele conceitual demais!

​O resto da tarde seguiu em uma atmosfera surpreendentemente animada. Patrick e Jason engajaram em uma conversa descontraída sobre esportes, enquanto Alycia e Hadassah debatiam os detalhes do altar. Mas, durante cada risada, cada brinde e cada frase dita, os olhos de Jason permaneciam fixos em Hadassah. Toda vez que ela sorria, ele a acompanhava com o olhar; toda vez que ela gesticulava, ele devorava seus movimentos, deixando claro que os cinco anos de separação só haviam aumentado a fome que sentia por ela.

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​No início da noite, alegando o cansaço da viagem, Hadassah pediu licença e subiu as escadas em direção ao seu antigo quarto. Ao entrar, ela largou a bolsa na poltrona, tirou os sapatos de salto alto e soltou um longo suspiro, tentando acalmar os nervos que Jason havia bagunçado apenas com a sua presença.

​Ela mal havia dado três passos em direção ao closet quando ouviu duas batidas leves na porta. Antes que pudesse responder, a porta se abriu e Jason entrou, fechando-a suavemente atrás de si.

​Hadassah virou-se devagar, cruzando os braços. — Jason... Você não deveria estar aqui em cima.

​Jason não respondeu de imediato. Ele caminhou lentamente até ela, com as mãos nos bolsos da calça, desarmado de qualquer arrogância. Quando parou a um passo de distância, o silêncio do quarto foi preenchido apenas pelo som da respiração de ambos.

​— Cinco anos, ruivinha... — ele sussurrou, a voz carregada de uma ternura e de um desejo que faziam o peito dele subir e descer com força. — Cinco anos olhando para aquela casa da piscina vazia e imaginando se um dia você cruzaria aquela porta de novo. Você está tão linda. Tão madura. O Canadá te transformou em uma rainha.

​Hadassah sentiu a barreira de seu orgulho balançar diante da calmaria dele. Não havia brigas. Havia apenas a verdade nua e crua entre dois adultos.

​— Eu precisei ir, Jason. Você sabe disso — ela respondeu, a voz mansa, os olhos verdes amolecendo pela primeira vez. — Eu precisava ser a dona da minha própria história.

​— E você conseguiu — ele deu um passo à frente, retirando as mãos dos bolsos e erguendo-as devagar até tocar o rosto dela. Os dedos quentes e calejados de Jason acariciaram as bochechas de Hadassah com uma delicadeza extrema. — Eu tenho tanto orgulho de você, meu amor. Eu mudei. Eu esperei por você cada dia desses cinco anos. Eu não toquei em outra mulher. Eu limpei a minha vida para que, se um dia você voltasse... eu pudesse ser o homem que você merece.

​As lágrimas brotaram nos olhos de Hadassah. O toque dele acendeu o incêndio de sempre, mas desta vez, não havia nojo ou raiva; havia apenas a saudade acumulada por meia década. Ela cedeu. Hadassah deu um passo à frente e enterrou o rosto no peito largo de Jason, envolvendo a cintura dele com os braços.

​Jason a apertou contra si com uma força necessitada, escondendo o rosto nos cabelos ruivos dela, respirando o perfume floral que ele guardara no lenço por todos esses anos.

​— Senti tanta a sua falta... — ela sussurrou contra o peito dele.

​Jason segurou o queixo dela, erguendo o rosto de Hadassah, e a beijou.

​O beijo foi calmo, profundo, cheio de promessas e repleto de um desejo maduro que havia esperado o tempo certo para florescer. A língua dele invadiu a boca dela com doçura e firmeza, enquanto as mãos de Jason desciam pelas costas dela, puxando os quadris de Hadassah contra a sua masculinidade que já começava a dar sinais de alerta sob a calça. Hadassah arfou contra os lábios dele, apertando os ombros de Jason, entregando-se completamente àquele calor.

​Eles se separaram por um segundo para tomar ar, os lábios vermelhos e os olhos conectados por uma luxúria que estava prestes a levá-los para a cama, quando três batidas rápidas e autoritárias ecoaram na porta do quarto.

​TOC, TOC, TOC.

​— Vamos, vamos, pombinhos! Deixem isso para a noite de núpcias de vocês no futuro! — a voz animada e descontraída de Marta ecoou do outro lado do corredor. — O cerimonialista acabou de chegar no jardim e o ensaio do casamento da Alycia vai começar agora! Jason, Hadassah, desçam em cinco minutos! Não me façam subir aí com uma vassoura!

​Jason e Hadassah se separaram abruptamente, estancando no lugar. Eles se olharam por dois segundos e, de repente, soltaram uma gargalhada alta e cúmplice, aquela risada leve que há anos não compartilhavam.

​Jason passou a mão pelo rosto, rindo de canto e soltando um suspiro carregado de frustração bem-humorada. — A minha mãe tem um cronometragem impecável para estragar os meus melhores momentos.

​Hadassah ajeitou o blazer vinho com os dedos, sorrindo de forma radiante, os olhos verdes brilhando de expectativa. — Ela está certa. É o dia da Alycia. Temos que descer.

​Jason segurou a mão dela antes que ela caminhasse até a porta, puxando-a para um último selinho rápido e quente nos lábios.

​— Isso é só um adiamento, ruivinha — ele sussurrou perto do ouvido dela, a voz prometendo o mundo. — Nós vamos nos ver logo, logo. E dessa vez, eu não vou deixar você fugir antes do amanhecer.

​— Eu não pretendo fugir, Sr. Lioncort — ela respondeu com um piscar de olhos audacioso.

​Hadassah abriu a porta do quarto e desceu as escadas com um passo leve e o coração flutuando, sabendo que o tempo de separação havia terminado e que o verdadeiro recomeço de suas vidas estava prestes a ser escrito sob as regras do amor maduro.