O Resgate de Hadassah
22 O Ensaio e a Taça de Vinho
O jardim da mansão Lioncort havia sido transformado em um cenário de testes para o grande dia. Uma passarela de madeira cercada por pequenas luzes brancas desenhava o caminho até o altar improvisado sob o imenso carvalho. Como Alycia não aceitava nada menos que a perfeição, o ensaio do casamento estava sendo levado a sério — ou quase isso, já que os padrinhos principais eram os responsáveis pelas maiores distrações da tarde.
Por serem a madrinha de honra e o padrinho principal, Hadassah e Jason precisavam caminhar juntos e se posicionar lado a lado no altar. Essa proximidade forçada após cinco anos de distância era o combustível perfeito para o empresário.
— Telles, acho que o cerimonialista disse que precisamos ficar mais colados — Jason sussurrou perto do ouvido dela enquanto fingiam escutar as instruções do organizador sobre como segurar o buquê.
Antes que Hadassah pudesse responder, a mão grande de Jason desceu discretamente pela cintura do vestido dela, puxando-a para trás de uma das imensas colunas de mármore do pátio externo. Em um movimento rápido e preciso, ele roubou um selinho estalado e quente de seus lábios.
— Jason! — ela repreendeu entre dentes, embora um sorriso radiante estivesse estampado em seu rosto. — Alguém vai ver! Comporte-se como o CEO que você finge ser.
— O CEO está de folga, ruivinha. E eu passei cinco anos em abstinência desses lábios. Estou apenas recuperando o tempo perdido — ele rebateu com um piscar de olhos audacioso, roubando mais um selinho rápido antes de voltarem para a fila de padrinhos como se nada tivesse acontecido.
O ensaio seguia divertido. Patrick errava o momento de entrar, Alycia brigava com o cerimonialista dizendo que a música estava três segundos atrasada, e Marta chorava de emoção a cada cinco minutos. Nos intervalos, Jason sempre encontrava uma desculpa para segurar a mão de Hadassah, roçar os ombros nos dela ou sussurrar promessas calientes que faziam as bochechas da ruiva corarem. A cumplicidade entre os dois havia voltado, curada pelo tempo e pela maturidade.
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A atmosfera leve sofreu um solavanco quando o salto alto de Tiffany estalou contra o piso do pátio. Tiffany, uma das amigas de faculdade de Alycia, nutria uma paixão platônica e obsessiva por Jason desde a adolescência e nunca havia engolido o fato de que uma "órfã acolhida por caridade" desfrutasse de tanto espaço na família Lioncort.
Aproveitando que Alycia, Patrick e Marta estavam em um debate acalorado com o buffet perto do altar, Hadassah afastou-se e foi até o pequeno bar montado para o ensaio no canto do jardim para pegar um refresco.
Tiffany desceu os degraus e parou logo atrás dela, cruzando os braços e medindo Hadassah de cima a baixo com um olhar carregado de desdém.
— Ora, se não é a filha pródiga que resolveu dar as caras — Tiffany começou, com uma voz falsamente doce que pingava veneno. — Cinco anos no Canadá, não é? Pensei que tivesse encontrado um lenhador milionário por lá para sustentar você.
Hadassah nem sequer se virou. Ela pegou a taça que o barman havia acabado de servir — um generoso e encorpado vinho tinto — e girou o líquido devagar, apreciando o aroma.
— O Canadá é um país maravilhoso, Tiffany. E, felizmente, eu sustento a mim mesma com o meu próprio trabalho. Recomendo a experiência, faz muito bem para a autoestima — Hadassah respondeu com uma calma avassaladora, virando-se de frente para a loira.
Tiffany inflou as narinas, irritada com a postura inabalável da ruiva. Em outros tempos, Hadassah teria avançado e resolvido aquela audácia na base da força física no meio do jardim. Mas a diretora de criação da Vanguard Media havia aprendido que a classe e o deboche fino feriam muito mais do que um soco.
— Você pode usar as roupas de grife que quiser, Hadassah, mas todo mundo aqui sabe de onde você veio — Tiffany sibilou, dando um passo à frente e diminuindo o tom de voz para que os outros não ouvissem. — Eu só não sabia que a morta de fome do orfanato conseguiria ficar tão bonita com o dinheiro dos outros. Mas não se anime. O Jason é homem para o meu nível social, não para o seu.
Hadassah olhou para a loira. Seus olhos verdes faiscaram por um breve segundo, mas o sorriso que se desenhou em seus lábios logo em seguida foi puro deboche corporativo.
— Sabe, Tiffany... o vinho daqui é realmente excelente — Hadassah disse, mantendo a voz mansa.
Com uma elegância milimétrica, Hadassah fingiu tropeçar levemente na ponta do próprio sapato. Num movimento calculado, sua mão inclinou-se para a frente e o conteúdo inteiro da taça de vinho tinto voou, em um arco perfeito, direto no decote generoso do vestido de linho branco e caríssimo de Tiffany.
O líquido escuro manchou o tecido instantaneamente, escorrendo pela pele da loira e encharcando a frente de sua roupa.
— AAAAAHHHHH! — Tiffany soltou um grito agudo, dando passos para trás e sacudindo os braços como se estivesse pegando fogo. — Minha roupa! Meu Deus, você ficou maluca, sua caipira?! Você estragou o meu vestido de grife!
Do outro lado do pátio, perto da mesa de som, Jason estava encostado em uma pilastra, observando a cena desde o início. Ao ver a precisão cirúrgica do "acidente" provocado por Hadassah, o empresário não conseguiu se conter. Ele soltou uma risada alta e divertida, cobrindo a boca com a mão para tentar manter a pose, os olhos azuis brilhando de puro orgulho da audácia de sua ruivinha.
Hadassah levou a mão à boca, fingindo um choque perfeitamente teatral, embora seus olhos estivessem rindo abertamente.
— Oh, meu Deus, Tiffany! Que desastre! — Hadassah exclamou, a voz transbordando um sarcasmo delicioso. — Você realmente deveria ser mais cuidadosa com a trajetória da bebida dos outros. O piso aqui é tão irregular, não acha? Que fatalidade.
— Você fez de propósito! Alycia! Jason! Olhem o que essa louca fez comigo! — Tiffany gritava, tentando limpar o decote com as mãos, o que só servia para espalhar ainda mais a mancha roxa pelo tecido branco.
Alycia e Marta correram na direção do bar ao ouvirem os gritos, seguidas por Patrick.
— O que aconteceu aqui? — Alycia perguntou, olhando para o vestido destruído da amiga e depois para Hadassah, que segurava a taça vazia com a maior cara de inocência do mundo.
— Foi um pequeno acidente doméstico, Alizinha — Jason interveio, caminhando até o grupo com passos lentos e um sorriso de canto impossível de esconder. Ele parou bem ao lado de Hadassah, passando o braço pelos ombros dela de forma protetora. — A Hadassah se desequilibrou com o vento. É uma pena pelo vestido, Tiffany, mas acho que o motorista pode te levar até a sua casa para você trocar de roupa antes que o vinho seque na sua pele. Seria horrível se você ficasse manchada para o resto do ensaio.
Tiffany olhou para Jason, esperando apoio, mas ao ver o braço dele colado ao corpo de Hadassah e o olhar de adoração que ele direcionava à ruiva, ela percebeu que havia perdido a guerra antes mesmo de começar.
— Vocês são dois idiotas! — ela esbravejou, pisando forte com o salto alto e caminhando em direção à saída da mansão, bufando de raiva.
Assim que a loira sumiu pelos portões, Alycia olhou para Hadassah e soltou uma gargalhada alta, batendo palmas. — Hadas, eu te amo! Aquele vestido branco era insuportável e ela estava tentando dar em cima do Patrick desde que chegou! Obrigado por isso!
— Eu não fiz nada, foi o piso — Hadassah piscou para a irmã de alma, fazendo Patrick e Marta rirem juntos.
Jason inclinou-se perto do ouvido de Hadassah, apertando a cintura dela com mais força enquanto os outros voltavam a se dispersar.
— Vinho tinto no decote, ruivinha? Você realmente aprendeu a ser cruel no Canadá — ele sussurrou, a voz rouca cheia de desejo e diversão. — Mas eu tenho que admitir... ver você defender o seu território me deu um tesão absurdo.
Hadassah virou o rosto para ele, os lábios a centímetros dos dele, o deboche dando lugar à promessa de um incêndio iminente. — Eu não estava defendendo o território, Sr. Lioncort. Só estava limpando o lixo do jardim. Agora, vamos voltar ao ensaio porque eu pretendo cobrar o valor daquela taça de vinho de você... e com juros bem altos hoje à noite.
Jason engoliu em seco, sentindo o sangue ferver. — Eu pago cada centavo, meu amor. Mal posso esperar pela cobrança.
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