O Renascer

1 Primeiro suspiro


Notas iniciais
Boa leitura :3

Londres, 1850.

Mais um dia presa nesta gaiola que chamo de vida.

Todos os dias a mesma coisa: sou obrigada a ouvir minha mãe dizer que eu devo agradecer todos os dias por fazer parte da nobreza, como se eu me importasse com isso.

O que eu sempre quis foi poder fugir deste mundo capitalista. Me refugiar em qualquer lugar onde eu possa viver em uma casa de madeira, no alto da montanha, sentindo o vento em meus cabelos e o ar puro entrando em meus pulmões, gelado como o mais belo nascer do dia.

Vivendo num mundo onde ser alva e meiga é o essencial à uma mulher, eu desejo apenas ser eu mesma, sem fazer o tipo boneca de porcelana, sem opiniões e pensamentos, vivendo apenas para o maridos e os filhos.

Mesmo que eu queira me casar, não quero ficar apenas em casa, mofando no sofá da sala.

Quero poder ajudar na navegação, viajar pelos mares, fazer contato com outras culturas, ser importante como Maya Christine Darkshadow, não apenas como a esposa de "Fulado de Tal".

Meu pai sabe que eu me entendo muito bem com esses assuntos, só porque sou mulher não tenho o direito de tratar dos negócios da família.

Ele sempre me diz: "Você precisa arrumar logo um noivo, pois quando eu não estiver mais aqui, quem cuidará dos negócios será seu marido".

Ora, onde já se viu! Eu deveria cuidar disso, não meu marido! Com isso, aparecem vários lordes entojados que só pensam em nossos bens, sem se importarem com meus sentimentos ou me entenderem.

Eu busco alguém que me entenda, que seja meu companheiro para todas as horas e que respeite, acima de tudo. Alguém que peça minha ajuda, que meu deixe ajudar quando for preciso, que entenda e reconheça meu valor.

A minha sorte é que eu consigo usar as roupas que gosto, ignorando aqueles rosas que cegam meus olhos, e dando lugar aos meus lindos vestidos pretos e roxos, principalmente. Dos claros aceito apenas os verdes e azuis.

Mas com isso, vem as reclamações: "Bem que você poderia ser como as garotas", "devemos achar logo um noivo que aguente as suas esquisitices".

Posso entendê-la já que com 21 anos, estou na idade de casar, mas não compreendo o por que de não entenderem o meu jeito. As vezes eu sinto como se ninguém pudesse me entender, apenas os meus pensamentos.

Quando eu era mais nova, me sentia mal por ser diferente, por não pertencer a essa realidade, mas hoje posso dizer que entendo um pouco mais sobre a vida, e que ninguém pode mudar meu jeito de ser, mesmo que eu tenha que aceitar certas imposições da sociedade.

Eu queria ser livre. Como nos meus sonhos, onde eu posso correr e sentir o vento bagunçar meus cabelos, a chuva lavar minha alma. Sentir a liberdade por entre os dedos e a terra nos pés, sem ninguém para me parar ou me dizer que aquilo não é certo. Poder esperar o sol nascer e a noite cair, olhando para as nuvens ou para a lua cheia, brilhante e única, como se me dissesse: "você não precisar temer a nada ou a ninguém, apenas olhe para mim", me seduzindo para me hipnotizar e me transformar.

A única pessoa que me entende é a Elizabeth, minha melhor amiga. Apenas com ela posso dividir meus segredos e contar sobre meus sonhos. Ela me diz que gostaria de ter sonhos assim, pois também deseja ser livre, mas sua família é ainda mais estranha: eles quase não saem durante o dia e vivem dizendo que ela precisa ser uma dama para se preparar para o dia em que se tornará uma verdadeira Van Der Haufer, mesmo que ela não faça ideia do que isso signifique.

Ela sempre reclama de ser pálida, por ser muito loira e de olhos claros, mas o que a deixa diferente são seus cabelos cacheados.

Eu, com meus cabelos lisos castanhos e olhos também castanhos estou muito satisfeita. Melhor ser comum do que muito diferente. Não gosto de ser notada pelos olhos maliciosos da aristocracia, sempre vendo as mulheres como bens, como se um dia pudessem nos prender em circos ou em casas de prostituição.

Eu sinto que por detrás de dos vestidos esvoaçantes e paletós de gala estão escondidos os piores segredos do submundo de Londres, onde jovens são vendidas como mercadorias, dadas como mortas à suas famílias e rapazes são feitos de escravos em outros países e regiões ou forçados a vender ópio, por exemplo.

Desde criança consigo sentir as intenções das pessoas, algo que emana de seus corpos e mostra sua verdadeira alma. Isso já salvou a minha família uma vez, quando um lorde invejoso e mal-caráter tentou colocar fogo em nossa casa para que tomasse o lugar de meu pai perto da rainha. Naquele dia, aquele senhor estava muito vermelho em volta, com uma maldade muito grande emanando de si, como se planejasse algo ruim. Contei para meus pais e eles me deram um voto de confiança, por ser uma criança, que tem como conveniência que não minta. Dito e feito. Quando o senhor estava prestes a fazê-lo, os empregados de meu pai, que estavam esperando por um oportunidade, viram o lorde jogar uma das velas no chão, para que pegasse fogo no carpete. Eles logo apagaram o fogo e o lorde. Não sei o que aconteceu com ele, provavelmente foi morto. Desde então, eles passaram a entender um pouco mais sobre mim, mesmo que não parem de reclamar do meu jeito.Eu espero um dia saber o que há comigo.

Não que eu ache ruim sentir essas coisas, pois isso pode me livrar de muitas situações ruins, mas às vezes seria melhor ser como as outras pessoas, que aceitam seu fatídico e simples destino, onde todos estamos fadados a morrer um dia, sendo uma doce jovem que aceita qualquer casamento arranjado sem amor, apenas para satisfazer os desejos egoístas da sociedade e que passa a vida inteira trancada em seu casarão, com seus filhos e outras damas que fingem a felicidade, ao lado de maridos adúlteros que as trocam por mulheres da noite, apenas para se sentirem mais homens e mais poderosos.

Posso sentir essas intenções passando pela cabeças das "amigas"de minha mãe a cada vez que ela as pergunta: "como foi seu dia?". Uma vida cheia de mentiras e máscaras de bailes, usadas para satisfazer o ego da alta sociedade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.