O Relâmpago Vermelho
1 Capítulo 1 - O Pária da Vila
Notas iniciais
Naquela manhã, uma criancinha de intensos cabelos vermelhos foi a primeira pessoa a se levantar no orfanato. Seu físico era minúsculo, uma mistura de sua genética e leve desnutrição. As crianças mais velhas estavam sempre roubando sua comida porque ninguém parecia se preocupar com o garoto esquisito com marcas de bigode animal no rosto.
— Ohayo, buyo-chan — disse suavemente para o pequeno rato cinzento que apareceu em sua janela. Não era um animal de estimação, pois morava nos campos, Naruto invejava aquela liberdade e resolveu não trancar o bicho atrás de alguma gaiola. Ele também queria ter liberdade para fazer o que quisesse.
— Hoje é um grande dia, sabe por que buyo-chan?
O ratinho ficou observando o menino correr para puxar um calendário debaixo do colchão, pois o quarto só tinha espaço para um futon e um baú pequeno com roupas e cobertas.
— Olha buyo-chan, é 10 de outubro, meu aniversário hoje — contou o menino com um sorriso no rosto. Sempre em seu aniversário, o terceiro Hokage lhe levava para comer uma coisa gostosa. Ele se perguntou o que seria dessa vez.
Seu aniversário nunca fora muito animado, em geral, pois era uma data triste para Konoha, embora Naruto não tivesse descoberto ainda o porquê. O terceiro sempre dizia que explicaria depois e que ele aproveitasse o máximo do dia, e Naruto sempre o obedeceu.
— Agora que tenho cinco anos, talvez vovô Hiruzen me conte porque meu aniversário é uma data triste e porque ninguém gosta de mim — comentou a criança inocentemente para seu amigo, animando-se ao visualizar a possibilidade de ter suas dúvidas explicadas.
Desde muito cedo, Naruto notou que os aldeões não gostavam muito dele. Enquanto as crianças no orfanato não podiam receber muita atenção naturalmente, Naruto parecia inspirar uma raiva inexplicável nos adultos, o que levava a todo tipo de abuso das crianças mais velhas. Ele já tivera suas roupas roubadas, cortadas ou pintadas, seus cabelos vermelhos já foram raspados e eram constante motivo de chacota, seus braços já tinham sido quebrados duas vezes durante brigas e suas cicatrizes no rosto eram odiadas pela matrona responsável.
Desde cedo, Naruto também notou que havia um mascarado que o seguia a todos os lugares. Nunca havia comentado com ninguém pois não sabia se era normal, mas Naruto sempre teve seus sentidos extremamente aguçados. Podia sentir uma "força" em cada pessoa, visível ou não, e conseguia determinar sentimentos para aquela "força". Algumas pessoas tinham "força" maiores do que outras, algumas eram boas e algumas pareciam bem sinistras. Sua audição também era extremamente desenvolvida, por isso ele pode notar qualquer um que o estivesse seguindo e se a intenção era boa ou ruim. Esses "poderes", por assim dizer, livraram Naruto de vários espancamentos e armadilhas das crianças mais velhas.
Enquanto se olhava no espelho (um pedaço rachado que ele resgatou do lixo e o guardou embaixo do colchão com o calendário), Naruto observou seu rosto magro e quase saudável, olhos azuis e cabelos vermelho fogo, perguntando-se qual dos pais havia herdado aquela aparência. A matrona sempre o mandava pentear aqueles "cabelos vermelhos esquisitos" então Naruto podia concluir que eram raros em Konoha. Ele nunca havia visto ninguém com cabelos daquela cor por ali, o que apenas corroborava sua teoria.
Fosse quem fossem seus pais, Naruto podia concluir duas coisas: que pelo menos um deles não era naturalmente de Konoha e que pelo menos um deles havia feito algo de muito, muito ruim, e Naruto sendo filho deles, recebia o ódio gerado por suas ações.
Mesmo que o Sandaime se recusasse a lhe contar, Naruto sabia que poderia descobrir sozinho.
Afastando aqueles pensamentos, Naruto balançou a cabeça e saiu do quarto, indo até o refeitório. Por ter acordado cedo, não havia ninguém para roubar sua comida e por isso a matrona não podia se recusar a alimentá-lo.
Um prato foi praticamente jogado em sua frente e Naruto reparou em como sua porção de comida era muito menor do que a dos outros. Mesmo assim, o menino fez uma reverência para a matrona.
— Arigato gozaimasu, Shio-san.
A mulher já havia virado as costas e sua ajudante estava encarando Naruto com uma careta de ódio. Naruto fingiu não perceber e começou a comer.
— O pirralho demônio conseguiu comer hoje, droga. — uma falou com a outra em voz baixa, mas graças à audição
— Se não fosse as ordens do Hokage-sama, eu o deixaria morrer de fome — replicou a matrona mais velha.
— Quem sabe assim ele não morre e faz um favor para todos nós?
As duas soltaram risadinhas e continuaram preparando o café da manhã. Naruto mexeu a colher no mingau sem gosto, de repente perdendo a fome, apesar da barriga roncando. Ele ouvia aquele tipo de coisa desde que se entendia por gente.
Obrigou-se a comer até a última colherada, pegou seu prato e o depositou na pia. Então saiu correndo para fora dos portões da instituição, animado para o dia. Com certeza seu vovô faria seu dia muito melhor!
Naruto sentou-se na mureta de cimento, aguardando a chegada do Sandaime. Notou preguiçosamente a aproximação do ninja mascarado, que estava "escondido" no telhado. Naruto sabia que pessoas normais não tinham escolta ninja todos os dias, a não ser que pagassem u bom dinheiro por elas. Já que Naruto não era só pobre, era miserável, só podia concluir que a escolta era para protegê-lo das intenções odiosas e assassinas que os aldeões tinham dele.
Naruto ficou por muito tempo ali e observou como o sol se aproximava do meio do céu, sinalizando a hora tardia, porém o vovô ainda não tinha aparecido. Quando Naruto estava pensando se algo havia acontecido com o velho, percebeu uma "força" por perto. Uma figura se aproximava rapidamente, mas não era o Sandaime. Era um ninja poderoso, mas nem tanto quanto o seu jiji.
De repente o ninja apareceu em sua frente. Sua máscara branca tinha a forma de um pássaro.
— O sandaime Hokage-sama informa que não poderá comparecer em sua reunião e pede que isso lhe seja entregue.
Naruto piscou, mas o ninja já desapareceu em um redemoinho de folhas. Atrás dele, havia um saco pequeno e pardo. Naruto pegou-o e espiou dentro, notando várias notas enroladas. Piscou. Era dinheiro suficiente para passar o mês.
Tirou as notas da bolsa para contá-las. Com aquele valor, Naruto poderia até iniciar uma pequena polpança em sua carteira de sapo. Não pretendia ficar naquele orfanato por muito tempo.
— Ora, ora, ora, o que temos aí Naru-chan? Parece que alguém conseguiu meter a mão no dinheiro de Shio, huh?
Naruto se virou para encarar a gangue de valentões do orfanato. Eram quase adolescentes, de 10 a 11 anos, crianças que não tinham a mínima chance de serem adotadas novamente e resolveram praticar pequenos delitos. Eles aterrorizavam e espancavam as outras crianças que não seguiam suas ordens e costumavam roubar comida e dinheiro das cuidadoras do orfanato. O líder deles, um menino de cabelos castanhos rente à cabeça e uma horrível cicatriz no meio do rosto, tinha o olhar mais cruel que Naruto já tinha visto.
Naruto ficou calado, mas enfiou as notas no bolso da calça. Os meninos perceberam e fizeram uma careta de raiva. O líder se aproximou ficando na frente do ruivo. Naruto olhou para cima.
— Se você não devolver esse dinheiro vamos contar à Shio quem é que anda pegando o dinheiro dela escondido.
— Eu ganhei esse dinheiro — disse Naruto — é meu presente de aniversário.
O menino riu — Aniversário? Porque não falou antes? Tome isso de presente.
Naruto viu o que ia acontecer, mas não teve tempo de reação. O soco foi surpreendentemente forte, e o ruivo caiu de costas com o nariz doendo horrivelmente.
Os outros riram e se aproximaram rapidamente. Um tentou acertar um chute, mas Naruto rolou para o lado, evitando o golpe.
Ele podia ser pequeno e fraco, mas era rápido.
Levantou-se para fora do alcance e desatou a correr.
— Peguem ele! — Naruto ouviu atrás e fez uma careta, correndo o mais rápido que podia.
Sabia que era inútil, mas pelo menos se tivesse sorte de ser visto por algum policial, podia pedir ajuda. Infelizmente, Naruto foi logo cercado e imobilizado pelos capangas. Seu nariz escorria sangue profusamente, dificultando sua respiração.
O líder apalpou seu bolso e tirou as notas que vovô tinha lhe dado, soltando um assovio.
— Com esse dinheiro podemos comprar o que quiser aqui.
— Devolva — pediu Naruto com raiva. Ele tentou se libertar, mas havia dois meninos o segurando muito mais fortes e mais velhos.
— Cale a boca, pirralho — um menino grande e gordo para a idade mandou, dando-lhe um chute no estômago.
— Vou guardar isso aqui e procurar no quarto do pirralho — disse o líder embolsando as notas — Acabem com ele.
— Com prazer, Toru — o gordinho respondeu.
Cinco meninos foram para cima de Naruto, que tentou se defender, mas era apenas um menino que acabara de fazer cinco anos. Eles o derrubaram e começaram a chutá-lo em todo o corpo. Naruto tentou se levantar duas vezes, mas levou um chute na cabeça e caiu de novo, zonzo. Sentiu três dentes de leite serem arremessados para fora da boca junto com o sangue.
Eles não paravam. Com um de seus olhos bons, Naruto olhou o ninja mascarado que o seguia. Porque você não interfere? Se perguntava o menino, mas o ninja nenhuma vez se mexeu.
No próximo chute, Naruto vomitou seu café da manhã junto com sangue. Os meninos riram.
Naruto estava à beira da inconsciência. Sua visão entrava e saía de foco. Os sons ficaram distantes. Um calor inesperado parecia surgir em sua barriga, perto do umbigo. Era a sensação mais estranha que já tinha sentido, como se algo estivesse invadindo seu sistema.
— Olha ele está se transformando em demônio! — disse um dos meninos. Dua voz parecia assustada.
— Acabe com essa coisa logo, Shiro!
Naruto viu com seu olho "bom" quando um deles levantou um pedaço de pau. Ele tentou se afastar mas seu corpo parecia não obedecê-lo. Estranho, porque por um momento Naruto pensou em ver garras em sua mão e uma energia vermelha o rodeando.
— O que diabos está acontecendo aqui?
Uma voz masculina entediada falou. Ao ouvir, Naruto sentiu seus atacantes fugirem imediatamente. Ele sentiu uma mão agarrar seu ombro e se encolheu com a dor lancinante. Tudo o que viu foram cabelos brancos arrepiados e uma máscara cobrindo a boca. Então tudo ficou preto.
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Quando acordou, Naruto descobriu que não estava em sua cama, mas em uma sala no hospital. Ao seu lado, reconheceu a figura do Sandaime, que conversava em voz baixa com uma enfermeira.
— Jiji?
O Sandaime se virou, dispensando a enfermeira, mas não dispensando o ninja mascarado que estava escondido no canto escuro do quarto.
— Como está se sentindo, Naruto?
Naruto pensou um pouco — Com fome — falou honestamente.
O Sandaime riu — Podemos sair para comer alguma coisa.
— Ramen? — pediu o ruivo esperançoso.
Naruto tinha ataduras por todo o corpo e seus músculos e ossos ainda doíam. Mas os ferimentos mais graves pareciam ter se curado. E ninguém ousaria mexer com ele ba presença do Sandaime. O ninja continuou o seguindo e logo mais outros mascarados se reuniram. Provavelmente para proteger o Hokage também, pensou Naruto.
Naruto esperou estarem em uma mesa do Ichiraku para perguntar — Meus pais foram pessoas ruins?
O Sandaime claramente não estava esperando uma pergunta dessas. — Porque diz isso, Naruto?
— Bem, as pessoas claramente me odeiam e eu não me lembro de ter feito nada de errado, então só posso supor que foram meus pais que fizeram algo ruim. Eles eram maus?
O Sandaime levou um tempo para admirar o quão articulado e maduro era Naruto. Até ontem ele tinha quatro anos, e seu corpo era pequeno para a idade, mas seu cérebro era claramente superior.
Naruro podia se parecer muito com Kushina, mas a seriedade, gentileza e inteligência eram todas do pai.
— Não Naruto, eles não eram maus. Eram shinobis exemplares que amavam e honravam essa vila.
— Mesmo que não eram de Konoha?
Mais uma vez, o Sandaime se surpreendeu. Como o menino podia saber?
— E o que o levou à essa conclusão? — o Sandaime sondou, mantendo sua voz suave e amigável para não assustar Naruto.
O ruivo sorveu o caldo do miso ramen e sinalizou outro para a garçonete. Hiruzen aguardou até que o menino ordenasse mais um prato para então respondê-lo.
— Eu acredito que minha aparência não seja muito comum em Konoha. Eu nunca vi ninguém com o mesmo cabelo que eu.
O Sandaime riu, mesmo que por dentro estivesse preocupado. Não era para Naruto ter tanta consciência de sua situação assim, o que poderia levar a problemas m um grande "p" maiúsculo. A inteligência de Minato, de fato.
— Você não pode fazer uma afirmação dessas se não conhece todos os habitantes de Konoha — disse o velho.
— Talvez — concedeu o pequeno ruivo — Mas sei que todos consideram meu cabelo esquisito. Você sabe o porque jiji?
Com uma pergunta direta daquelas, Hiruzen ficou tentado em contar tudo para o menino, mas olhando para o pequeno corpo espancado do garoto, o velho Hokage estremeceu e descartou a possibilidade. Naruto era só uma criança. Uma criança que estava sofrendo nas mãos daqueles que deveriam cuidar dele.
Seu sangue ferveu ao lembrar do relatório de Kakashi. Se o jounin adolescente não tivesse chegado à tempo e nocauteado Naruto, eles iriam lidar com um desastre. O Anbu responsável pela guarda do ruivo fora destituído, claro. Hiruzen não poderia tolerar traidores em suas fileiras. Ele esperava que Ibiki estivesse fazendo um bom estrago no rapaz tolo.
Concentrou-se em Naruto, que ainda esperava por uma resposta.
— As pessoas não podem odiar o que não conhecem, elas não odeiam você, Naruto. Elas só estão com medo, e o medo trás o ódio e desespero. — respirou e se debateu por um momento, antes de acrescentar — Sua mãe realmente não nasceu em Konoha, mas em outra vila muito distante. Mas ela amava e era leal à folha.
— De onde ela era? — perguntou o ruivo curiosamente.
— De uma aldeia que foi destruída a muito tempo. Agora vamos andando rapaz — disse o Sandaime energeticamente — Eu tenho uma surpresa para você.
— Uma surpresa? — o menino indagou, lançando um olhar desejoso para seus pratos sujos, fazendo o Sandaime bufar. Melhor impedi-lo agora antes que coma o estoque inteiro de ramen do Ichiraku. Isso ele puxou da mãe, com certeza. Pensou o Sandaime com carinho.
Eles saíram do restaurante e começaram a andar em direção ao orfanato.
— Agora que já tem cinco anos, está na hora de aprender a se cuidar sozinho. Afinal, todos os ninjas devem saber como se cuidarem.
— Eu vou sair do orfanato? — Naruto perguntou com tanta alegria que o velho Hokage estremeceu com culpa.
— Você agora pode morar em um ótimo apartamento e ter seu próprio canto para se desenvolver. O que acha?
— DEMAIS!!!
O velho sorriu com a animação do menino. Quando chegaram ao orfanato o Sandaime pediu que Naruto reunisse seus pertences e o encontrasse no portão do lado de fora.
Naruto só não correu pois não queria chamar atenção da gangue outra vez. No entanto, eles não estavam em nenhum lugar.
Suspirando aliviado, Naruto abriu a porta e entrou no quarto. Congelou.
Seu quarto parecia ter sido atingido por um furacão. As cortinas rasgadas, roupas espalhadas e seu colchão rasgado ao meio e descartado.
Parecia que o líder da gangue havia procurado por mais dinheiro em seu quarto.
Viu o calendário em pedaços e o vidro quebrado como se tivesse sido pisado.
Lá, Naruto viu um brilho cinzento e minúsculo no chão.
Em um instante ele estava se ajoelhando e olhando para um ratinho morto, seu corpo cinzento claramente esmagado.
— Buyo-chan.....
Naruto não chorou pelos xingamentos, abusos físicos e psicológicos que sofria diariamente. Não se lembrava de ter chorado alguma vez, por mais dolorido que fosse o golpe. Mas ele finalmente chorou e soluçou sobre o corpo de um ratinho cinzento do campo em seu quarto.
Sob um monte de soluços dolorosos e sob as lágrimas que banhavam o cadáver do rato, Naruto fez uma promessa.
"Buyo-chan... Eu prometo que vou me tornar mais forte e vingar sua morte... Vou me esforçar e me tornar o melhor ninja que essa vila já viu... Então assim ninguém nunca mais vai ousar matar aqueles que eu amo."
Continua...
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