O Relicário
25 Capítulo 25 - Aprendiz
Notas iniciais
DECEPÇÃO... DECEPÇÃO... DECEPÇÃO...
Essa palavra amarga ecoou pela cabeça de Helena a noite toda. Há pouco tempo Nícolas dizia palavras doces e apaixonadas em seu ouvido, mas agora parecia que ele não sentia mais nada por ela. Helena não sabia direito o que pensar sobre o ex-namorado. Ela tinha certeza que Nícolas não estava normal e que muito provavelmente ele estivesse sendo enganado com magia das trevas, mas mesmo assim doeu muito ouvir aquelas palavras.
Na mesma quarta-feira, Helena foi normalmente para a escola. Nos corredores e salas de aulas, o assunto era o mesmo: o misterioso círculo de grama queimada no campo de futebol. A maioria das pessoas não estava brincando quando espalhava o boato dos extraterrestres, elas realmente estavam acreditando nisso. Então quando Helena caiu na gargalhada, no meio do corredor ao ouvir falar dos ETs, a popularidade dela, que já não era das melhores, caiu um pouco mais. Algumas pessoas acharam que Helena não estava rindo da teoria, mas rindo deles.
Uma vez na sala de aula, Helena notou a falta de Nícolas.
— O que terá acontecido com ele? — disse Helena consigo mesma — Será que Elisa ficou tão mal que ele ficou cuidando dela?
Helena só tinha um objetivo na noite anterior, conseguir respostas. E ela conseguira. Mas agora Helena se perguntava se o preço pago não fora alto demais, e no fundo de sua mente surgiu uma pequena, mas inquietante, culpa. Até às nove e meia essa culpa tinha se desenvolvido em arrependimento. Quando o sino do intervalo soou, Helena não estava mais suportando ficar na escola, e dei um jeito de fugiu discretamente da escola.
Mas Helena também não queria ir para casa, ao invés disso ela seguiu por uma rua lateral até o começo da floresta e se embrenhou numa trilha. A filha do prefeito não estava simplesmente passeando, ela andava com passo certo. Estava ansiosa para contar tudo o que ouvira de Elisa. Depois de algum tempo andando em meio às árvores, Helena chegou a uma clareira onde havia apenas uma cabana de madeira. Parecia uma cabana de caça muito velha ao bom estilo europeu com uma chaminé rústica de pedra se erguendo num dos lados de onde se erguia uma estranha fumaça azulada.
Assim que entrou na cabana de cômodo único, Helena viu uma cama cuidadosamente arrumada à direita, um grande armário de madeira à esquerda e uma grande lareira a frente onde a já conhecida cigana mexia em um caldeirão no fogo da lareira. A origem da fumaça azul era o conteúdo do caldeirão. Depois de contornar uma mesa com duas cadeiras no centro, Helena se aproximou do caldeirão e viu uma grossa poção cinzenta que aos poucos ia se tornando azul enquanto borbulhava lentamente.
— O que é isso?
— Uma poção mágica poderosa capaz de curar qualquer coisa — respondeu a cigana num tom de voz tedioso.
Helena lançou um olhar intrigado para Nóctua, mas esta começou a rir. Um riso abafado dentro da boca fechada como se estivesse desacostumada a rir.
— É um simples chá, Helena. Apenas um chá calmante com ervas especiais. Você quer?
— Ah! Não, obrigada. Não é de calma que eu preciso. É de uma arma para matar Ophidia Heid!
Nóctua parou de mexer no caldeirão e virou-se para a garota. Sua expressão era de total espanto.
— Ophidia...? O que?
Helena contou tudo o que aconteceu na noite anterior. Quanto mais falava, menos culpa sentia. Era como se tudo que tinha feito pudesse ser justificado. Quando terminou de contar Helena tinha uma expressão triunfante, mas Nóctua ainda estava sem fala.
Quando finalmente falou, Nóctua tinha um tom de voz baixo, nada além de um sussurro amedrontado.
— A situação é pior do que eu imaginava. Muito pior.
Helena sentou-se na cadeira de madeira escura.
— Pior como? Nunca ouvi falar dela antes.
— Ah, sim, Ophidia Heid pode não ser tão famosa quanto Merlin ou Morgana, mas acredite Helena: ela não é menos poderosa. Faz séculos que esse nome não é pronunciado. Ela desapareceu há oito séculos, mas sempre houve rumores que ela não estava morta. Seus conhecimentos e poderes das trevas estão entre os maiores que este mundo já viu. Nem em meus piores pesadelos eu poderia supor um nome tão terrível quanto Ophidia Heid.
— Se ela é tão poderosa, como agora ela está aprisionada dentro do Relicário da Elisa?
— Por causa de Selene — disse Nóctua voltando a mexer o caldeirão — A Grande Selene! Tão grande quanto Merlin na arte da magia.
Helena se recostou na mesa. O aroma adocicado da tal poção estava lhe dando sono.
— Quem é Selene?
— Selene foi uma Sacerdotisa da Lua, a maior de todas. Mesmo hoje ela é considerada a maga mais poderosa dos últimos oitocentos anos. Selene... ah, Selene... não tem nada comprovado, mas existe uma lenda sobre as duas. Dizem que Ophidia Heid reuniu um vasto exército para derrotar Selene, mas essa foi a ultima vez que souberam dela. Ophidia desapareceu. Ninguém tem certeza se as duas chegaram a se enfrentar. Bem, agora nós temos certeza. Apesar do seu poder, Selene não conseguiu derrotar Ophidia. O quis diz muito sobre essa maga das trevas. Selene deve ter aprisionado Ophidia e toda sua maldade no Relicário, mas agora, séculos depois, o Relicário está em mãos fracas. Helena, isso é perigoso. Você precisa salvar o mundo, Helena. Você é quem irá salvar o mundo de Ophidia Heid.
Sentindo-se mais desperta, Helena se levantou e disse decidida:
— Então me treine. Eu estou pronta. Eu quero fazer isso, quero lutar contra Ophidia e Elisa, e recuperar meu namorado.
Nóctua abriu um sorriso cheio de segundas intenções, mas que Helena em sua inocência não percebeu. A cigana estalou os dedos da mão livre e surgiu uma caixa de madeira avermelhada sobre a mesa. Era uma caixa bonita, decorada com detalhes em ouro. Quando abriu a tampa Helena encontrou um pergaminho de couro e uma pedra achatada.
— O que eu devo fazer com isso? — disse pegando os dois objetos.
— Magia é 10% poder e 90% concentração. A coisa mais difícil é aprender a ter concentração. Ponha a pedra sobre a cabeça enquanto lê o pergaminho. Fique completamente parada e se concentre apenas na leitura. Se a pedra cair terá que recomeçar a ler.
Helena sentou-se no chão resmungando:
— Isso é moleza! Esse pergaminho é super leve, nem de longe é como os pesados livros grossos da biblioteca do colégio. Vou acabar rapidinho.
Helena se sentou, pôs a pedra sobre a cabeça e ergueu o pergaminho para deixá-lo desenrolar. A outra ponta do pergaminho caiu até o chão e continuou a se desenrolar em círculos ao redor de Helena, formando círculos e mais círculos até encher todo o chão disponível da cabana, cobrindo inclusive cama e a mesa. O único chão ainda visível era um espaço ao redor de onde estavam Nóctua e a lareira.
— Boa leitura! — disse a cigana simplesmente ao voltar a observar o conteúdo borbulhante do caldeirão, agora muito mais azul.
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