O Relicário

21 Capítulo 21 - O Círculo Rúnico


NO SEGUNDO DIA DE AULA, na Terça-Feira, Nícolas se sentia muito menos incomodado com toda a situação. Era um preço pequeno a se pagar pela proteção de Helena: o sacrifício que fizera por ela valia a pena. Então foi com um pouco mais de ânimo que ele foi para a escola e aguentou a falação dos colegas.

Saindo da escola Nícolas foi para casa. Mas ele só ficou lá o tempo de almoçar, pois tão logo terminou de comer e o garoto foi para o Casarão Flint. Ele não sabia como deveria agir quanto a Elisa. A fascinação inicial que ele sentira pela britânica estava em baixa desde que fora obrigado a manter a aparência de um namoro, e nesses dias que passara no casarão ele ficara a maior parte do tempo na sala de música ouvindo Elisa tocar o piano (mas sem a mesma satisfação de antes) ou na própria sala de entrada fazendo flexões.

Quando entrou pela porta da entrada aquela tarde, Nícolas não ouviu música como nos dias anteriores e seguiu pelo corredor lateral até a porta da Sala de Música. Ele ouviu Elisa conversando, mas não ouviu Glaux, e, curioso, parou quieto para escutar atrás da porta:

— Um encontro? Sim, claro que posso ir. Mas porque nesse lugar? Sobre o que quer conversar Helena?...

— Helena? — Nícolas repetiu num sussurro.

—... “Assunto do meu interesse” não é bem tema especifico. Não, não estou recusando. Tudo bem, eu te encontro sozinha no campo de futebol às onze horas.

Nícolas retrocedeu sem barulho e sentou-se no sofá na sala de entrada, pensativo.

O que será que Helena queria com Elisa? Não seria ruim se as duas se encontrassem? Não era apenas o receio das duas saírem no tapa, havia a questão de Ophidia. A bruxa tinha ordenado que ficassem longe de Helena. Fosse por um motivo ou pelo outro, Nícolas decidira ir atrás de Elisa aquela noite: ele também estaria no campo de futebol ás onze horas.

As noites de Nova Borgeby eram bastante calmas. Havia algumas lanchonetes e dois restaurantes que abriam todas as noites até por volta das dez horas, e esse era o máximo de vida noturna dessa cidade. Até às dez e meia da noite as ruas da cidade estavam desertas. Nova Borgeby era, afinal, uma cidade pequena e pacata, com pessoas com hábitos caseiros.

As dez pras onze a cidade inteira estava vazia. Havia apenas algumas luzes acesas nas casas em que os donos provavelmente estavam confortavelmente vendo algum programa de televisão do horário nobre.

Nícolas achou difícil seguir Elisa. A garota nem chegou a olhar para trás, mas como não havia nenhuma outra alma viva pelas ruas e nenhum outro som além do vento, Nícolas achou que seus passos seriam ouvidos. Mas tudo correu bem até o campo de futebol. Havia uma árvore bem debaixo de um poste de luz, onde o rapaz foi se esconder para vigiar o campo e as garotas.

Helena já aguardava de pé exatamente sobre a borda do círculo branco do centro do campo. Nícolas forçou os olhos e percebeu que a Helena tinha um dos punhos fechado. Será que ela já preparava um golpe? O garoto se preparou para sair correndo se Helena ameaçasse levantar o braço contra Elisa.

— Então você veio — disse Helena, uma expressão ansiosa no rosto.

— Vim — disse Elisa com simplicidade — Eu fiquei curiosa. Aconteceram muitas coisas, mas ainda me considero sua amiga.

O sorriso que Helena ostentava fraquejou por um instante, mas continuou em seus lábios. Nicolas achou que Helena estava estranha. A ex-namorada não tinha aquele ar amigável da Helena que ele conhecia e pela qual se apaixonara.

— Amiga? Amiga não rouba o namorado da outra. Amiga não incrimina a outra para se fazer de vítima..

Elisa abriu a boca para responder, mas desistiu e continuou em silêncio.

Helena deu um passo para trás, saindo do círculo central. Elisa deu um passo para frente para se aproximar da filha do prefeito e entrou no círculo.

Aconteceu muito rápido. Helena se abaixou e pôs a pedra que estava segura na mão na linha branca do círculo e gritou:

— Claustra!

A pedra começou a brilhar como uma estrela do céu e ao redor do círculo outras três pedras também brilharam. As quatro pedras foram colocadas cada uma numa direção dos pontos cardeais. A luz que saiu de cada pedra cresceu rapidamente como uma parede de luz que se curvaram e se uniram no centro, formando uma cúpula de luz que cercou Elisa de todos os lados.

Elisa se aproximou da cúpula e a tocou: seus dedos recuraram instintivamente e a britânica sentiu um leve choque como se a parede fosse feita de algo mais do que luz, densa e firme como gelo ártico, mas que possuía uma corrente de energia que corria pela cúpula translúcida interligando as quatro pedras. No ponto em que tocara, a barreira vibrou e várias ondas se espalharam como a água agitada por um objeto. As ondas se diluíram e a barreira se tornou límpida, quase transparente, mas ainda visível.

— Impressionante! Uma barreira encantada feita com um círculo rúnico! Nunca vi esse feitiço sendo usado assim sem as marcas rúnicas inscritas na borda. As marcas estão apenas nas pedras. De novo: impressionante! Eu mesma não poderia tê-lo feito com maior precisão — disse Elisa se afastando da borda e se colocando no centro do círculo — Mas todo seu trabalho foi em vão. Eu não sou sua inimiga.

Nícolas ouviu essas palavras e seu coração se sobressaltou. De repente ele sentiu um medo terrível. Ele saiu correndo para a cúpula. Quando o viu, Helena rodeou a barreira para se aproximar dele.

— Pare Helena! Pare logo com isso!

Os olhos de Helena tinham um brilho obsessivo.

— Eu descobri a verdade. Ela é uma bruxa. Foi ela que nos separou.

— Não fui eu, foi Ophidia Heid! — contou Elisa com calma.

Nícolas e Helena olharam para Elisa dentro da barreira.

— Há oitocentos anos a Europa vivia com o terror das guerras entre reis-guerreiros que lutavam para aumentar seus territórios e seu poder. Hoje seu nome foi quase esquecido e algumas fontes a consideram apenas uma Sacerdotisa de Chalkos, um deus do caos do mundo antigo. Mas Ophidia era muito mais que isso, ela reunira vários clãs violentos em um poderoso exército que passou a assolar o norte da Europa. Ophidia conseguiu reunir os piores e mais violentos vikings daquela região, mas o soldado mais forte de seu exército era ela própria: uma feiticeira das trevas muito poderosa. Uma bruxa!

As coisas que Helena ouvia apenas reafirmava tudo que achava sobre Elisa. Nóctua lhe explicara que havia uma força muito grande por trás de Elisa e agora Helena sabia seu nome: Ophidia Heid. Mas ela ainda precisava saber como essa bruxa tinha ido parar na sua cidade.

— Isso não faz sentido! — disse Helena — Se isso aconteceu há tanto tempo, como Ophidia Heid veio parar aqui e agora?

O medo de Nícolas fez seu coração saltar para a garganta. Ele começou a bater na barreira com toda força, desesperado:

— PARE ELISA! Não fale nada! Não fale mais! PARE!

Mas os socos dele fizeram tanto efeito quanto se ele tivesse apenas tocado de leve. A barreira era forte como rocha sólida.

— Foi por causa de Selene, a Grande — continuou Elisa — Ophidia atacou Selene, pois a considerava um empecilho em seus planos. Mas ao invés disso, ela encontrou o seu fim. Ophidia foi derrotada por Selene e então aprisionada dentro deste relicário.

Elisa mostrou para Helena a joia que trazia no pescoço.

— Ophidia Heid é a inimiga para ser derrotada, não eu.

— Eu imploro Elisa! Por favor! — Nícolas estava quase às lagrimas e sua voz quebrou ao continuar, e só conseguiu falar em um sussurro baixo e desalentado — Pare! Pare! Pare!

Helena ficou confusa com a atitude de Nícolas. Ela achava que seu ex-namorado deveria estar ao seu lado depois de descobrir toda essas maldades e não mais preocupado com aquela garotinha falsa. Agora que ele sabia de tudo isso, porque ele ainda se preocupava com Elisa?

De repente surgiu um brilho verde muito intenso vindo do próprio relicário. A luz saiu da joia como uma névoa que rodeou Elisa dos pés a cabeça.

Helena se afastou um pouco ao sentir uma coisa ruim dentro do peito, como um peso que recaíra sobre o coração.

Nícolas parou de bater na barreira. O coração que há uns segundos quase saltara da garganta, agora parecia ter desaparecido, pois não conseguia mais senti-lo bater. Nícolas se sentia vazio por dentro. Ele não queria que mais ninguém se ferisse. Ninguém!

Um segundo depois todo seu corpo suou frio e tremeu quando ouviu de novo aquela voz forte e cruel:

— Elisa, Elisa, Elisa! E você sempre pareceu tão inteligente. Parece que ainda há lições para aprender. Esta é uma lição básica: é pela boca que o peixe morre!