O Relicário
10 Capítulo 10 - Não foi assim...
ELISA PAROU PARA observar o Casarão Flint. Incrível como pouco tempo antes aquele lugar era vazio e sombrio, mas agora estava completamente diferente com todas as janelas iluminadas, uma música boa tocando. Ele transmitia uma energia alegre e cheia de vida.
Elisa entrou no Casarão e não se surpreendeu com as dezenas de adolescentes enchendo o lugar: fora ela que recomendara Helena falar com Gretel. A música contagiara várias pessoas a dançarem, enquanto outras estavam aproveitando a mesa do buffet num canto. Música e comida à vontade, diferente daquelas festas regradas onde os adultos controlavam e havia hora pra tudo: hora de cachorro quente, hora da janta, hora de cantar parabéns e finalmente, após esperar a noite inteira, hora do bolo.
Glaux deixara aperitivos diversos (alguns empilhados lindamente em pirâmides simétricas) e o bolo já partido e separado em pedaços decorados em bandejas de prata. Dois garçons cuidavam de substituir as bandejas vazias do buffet e distribuir refrigerantes para os convidados.
Elisa carregava um embrulho vermelho com um laço branco pequeno. Ela circulou um pouco entre os adolescentes dançando, pegou um canapé de queijo e comeu-o devagar enquanto observava as pessoas. Ela encontrou Nícolas e Helena conversando e foi na direção deles. Ao se aproximar, viu Nícolas entregar um embrulhinho pequeno para a inglesa.
— Eu não sabia o que comprar — Nícolas dizia para Helena — Então pensei em algo útil para uma atleta como você.
Helena rasgou o papel e abriu uma caixinha: era um par de luvas esportivas de couro. Nícolas parecia meio envergonhado do presente, mas Helena abriu um enorme sorriso.
— Uau! São lindas! Eu estou mesmo precisando, esqueci as minhas em Londres.
Helena pulou no pescoço de Nícolas, animada. O garoto ficou ainda mais sem graça, mas sorriu. Elisa mordeu a língua discretamente, segurando seus ciúmes. Os dois se separaram e olharam para a loira:
— ELISA — gritou Helena feliz e também pulando no pescoço da garota — Que bom que veio!
Helena admirou o presente de Elisa (um vestido rosa claro parecido com os modelos leves e esvoaçantes que Helena geralmente usava) com os olhos brilhando. Ela também abraçou o vestido como se segurasse um tesouro valioso. Elisa lembrou-se da infância solitária da inglesa e entendeu que aquela era provavelmente a sua primeira festa. O coração de Elisa se sentiu aquecido ao ver a felicidade de Helena.
A festa prosseguiu animada. Livres dos adultos, os adolescentes dançavam mais ousados, felizes pela liberdade. Helena não estava dançando, ela ficava andando perto da parede, conversando e animando todos que estavam desacompanhados. Nicolas nem tentou dançar, ele ficou perto do buffet olhando para o salão e sorrindo com uma cara de bobo.
Elisa dançou um pouco, comeu canapé, bebeu suco de graviola. Tudo isso fazia parte de sua encenação de que tudo estava bem e que não estava morrendo de ciúmes de Nicolas por um beijo que aconteceu apenas em um sonho. Mas depois de meia-hora ela começou a se sentir deprimida de novo e saiu discretamente do salão, seguindo pelo mesmo corredor de antes e entrou na mesma Sala de Música. Uma semana antes aquele lugar parecia cenário de filme de terror, mas agora estava completamente renovado. Os móveis pareciam no mesmo lugar, mas ainda assim o cômodo estava diferente.
A Sala de Música estava vazia. Pelas altas janelas descortinadas ela podia vislumbrar o céu negro pontilhado de estrelas. A música mudara e agora Elisa ouvia uma canção mais lenta, boa para dançar abraçado com seu par. Mas ela não tinha um par.
Elisa reconheceu o piano desta vez, uma bela caixa de madeira perto das janelas. Ela não sabia o que fazer agora que já mostrara sua máscara de garota popular e feliz.
— Incrível este lugar, não é? — disse uma voz as suas costas.
A garota estava tão distraída com seus pensamentos que não reconheceu imediatamente.
— Sim, muito — respondeu automaticamente.
— O que faz aqui sozinha?
Elisa então reconheceu a voz e se virou nervosa:
— Ah... eu... nada, não, Nícolas.
O garoto se aproximou. Mesmo sendo vários centímetros mais baixo que ela, Nícolas parecia da mesma altura que Elisa. Ela pensando no rapaz e ele aparece do nada.
— O que te incomoda? — perguntou Nícolas chegando mais perto.
— Nada — disse Elisa.
— Não é verdade. Eu vivo te observando, Elisa, e se tem algo que aprendi, é que seus olhos nunca mentem. E no momento eles estão tristes, sem brilho. Então vamos de novo: o que te incomoda?
Elisa corou profusamente. Nícolas a observava? Nícolas a obervava! Porque ele fazia isso? Será que ele... mas ela nunca poderia perguntar...
— Porque você me observa? — disse a garota abaixando a cabeça de vergonha.
Nícolas também parecia nervoso e corado e deu mais um passo a frente.
— Eu gosto de você.
Elisa ergueu a cabeça rapidamente. Sozinhos naquela sala, com uma música romântica tocando ao longe e um céu estrelado como pano de fundo, os dois perceberam como era um momento especial. Elisa quis dar um passo a frente, mas não conseguiu, suas pernas não obedeciam e ela simplesmente se balançou no mesmo lugar. Mas nenhuma outra palavra ou movimento foram necessários de sua parte. Nícolas se aproximou mais e agora estava tão perto que ela podia ver-se refletida naqueles olhos escuros.
Quando os lábios dele tocaram os dela, Elisa sentiu como um choque elétrico percorrer seu corpo. Os braços dele a envolveram e ela queria abraçá-lo também, mas seus braços estavam moles e inertes. Todo o mundo parecida ter parado. Ela não escutava som algum, além do barulhinho das suas bocas coladas. Elisa não sentia nem mesmo o chão, era como se flutuasse em meio às nuvens. Tudo que existia além dela era Nícolas com seus braços fortes mantendo seu corpo junto ao ele e um beijo que parecia durar uma vida inteira.
Elisa estava gritando por dentro de novo, mas desta vez era de felicidade. E se esse grito pudesse ser ouvido pelo mundo, ele ensurdeceria todos os habitantes do planeta.
Parada do lado de fora, observando pela porta entreaberta, Helena estava paralisada de terror, incapaz de mover um dedo para fugir daquela cena que lhe era dolorosa, obrigada então a continuar assistindo. Sua visão embaçou, os olhos marejados de lágrimas.
De repente, Elisa não sentiu mais os braços de Nícolas ou o seu beijo. Ela abriu os olhos. Tudo desaparecera. Não havia nada nem ninguém ao seu redor, apenas uma névoa verde brilhante que a rodeava como se estivesse no olho de um furacão.
Em meio a nevoa surgiu uma gargalhada fria. Ela vinha de todos os lados. Elisa virava a cabeça de um lado para o outro, mas não conseguia ver ninguém. Quando a gargalhada parou, uma voz cruel disse:
— Não foi assim... não foi assim que aconteceu... não foi assim...
Elisa tampou os ouvidos com as mãos e gritou:
— Pare! Por favor, pare!
— NÃO FOI ASSIM!
Elisa acordou em sua cama, exatamente do mesmo jeito que dormira. Ela se mexeu no colchão e tentou voltar a dormir. Chorando baixinho, as lágrimas escorrendo pelo rosto, Elisa não conseguiu descansar aquela noite.
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