O Relicário
5 Capítulo 5 - Suco Rosa Especial
QUANDO NÍCOLAS ENTROU EM CASA o cheiro da deliciosa comida da sua mãe chegou até ele e o garoto sentiu o estômago pesado. A sala da casa demonstrava qual era o principal assunto daquela família: havia estantes com troféus e medalhas, alguns bem antigos e outros mais novos. Todos esses prêmios eram do mesmo esporte: futebol.
Ademar Geremaro já foi jogador profissional na juventude, mas isso foi antes do acidente em campo. Ele pisou na bola, literalmente, e sofreu um dano permanente no joelho esquerdo. Ele nunca se recuperou. Ademar voltou para a sua cidade natal, abriu uma loja de artigos esportivos e criou uma família. Desde que seus filhos nasceram, ele tem dedicado sua vida para fazer de Nícolas e Adelfo os maiores jogadores de futebol.
Nícolas entrou na cozinha onde sua família já estava almoçando, sentados ao redor de uma mesa redonda.
— Ah, filho, chegou bem na hora! — disse Dona Célia — Vamos almoçar!
— Não, obrigado, mãe! Eu estou cheio.
BLÉM!
O pai bateu os talheres no próprio prato e ergueu a cabeça.
— O que você comeu?
— Não começa pai...
— Eu não acredito. Você quebrou a dieta! — disse Ademar enquanto se levantava.
— Pai... — Nícolas parecia muito incomodado.
— Você quebrou a dieta!
— Pai...
— VOCÊ... QUEBROU... A... DIETA!
Ademar começou então um discurso, mil vezes repetido antes. Mas isso não o impediu de repeti-lo pela milésima primeira vez.
— Eu tenho um sonho...
Nícolas mal ouvia as palavras do pai. Seu discurso era sempre igual e já foi feito tantas vezes que Nícolas, Adelfo e Dona Célia poderiam repeti-lo, palavra por palavra.
—... porque um dia vocês se tornarão jogadores profissionais...
Quando Nicolas se sentou desanimado ao lado do irmão, Adelfo sussurrou para ele:
— A culpa é sua!
—... e apenas com comprometimento e total dedicação é que esse objetivo será alcançado e...
E ele continuou e continuou.
— Pai, me desculpe. O que o senhor queria que eu fizesse? Passasse fome?
— Sim — respondeu Ademar num tom como se fosse a coisa óbvia a se fazer.
— Agora já chega — Dona Célia se levantou e disse com firmeza para o marido — Ademar, pare de brigar com o menino. Ele não ia ficar de jejum.
Ademar disse alguma coisa ininteligível, algo entre um resmungo e um rosnado. Por uns instantes ele se conteve pela esposa, então algo passou por sua mente e sua expressão tornou-se obsessiva de novo.
— Tudo bem, você quebrou a dieta, mas agora vamos consertar isso...
— Ah não! — começou Nícolas — Não, não, não!
— Ah sim! Célia, por favor, pegue a jarra que eu fiz hoje cedo.
Célia abriu a geladeira e pegou uma grande jarra de vidro com suco cor-de-rosa e a colocou sobre a mesa. Adelfo e Nícolas olharam a jarra com o mesmo horror.
— O Jogo de Abertura será daqui oito dias. Os Asgards nunca perderam uma partida enquanto eu joguei por eles, e nunca perderemos enquanto um Geremaro estiver no time. Você precisa ser desintoxicado, garoto. É por isso que tem que beber o Suco Rosa Especial.
Entre várias frutas e legumes, mas principalmente beterraba, o Suco Rosa Especial criado pelo Ademar Geremaro tinha o objetivo de melhorar o desempenho físico dos filhos. Aliado aos treinamentos rígidos, Ademar tinha realmente conseguido que seus filhos tivesse um ótimo condicionamento físico. Eles eram os melhores jogadores da cidade.
Na verdade, suco rosa não tem gosto ruim. É o paladar convencional que está desacostumado com comidas muito doces ou muito gordurosas. Depois de cada um tomar um copo enorme do Suco Rosa Especial, Ademar obrigou os filhos a uma maratona de treinos exaustivos que continuou pelo resto do dia e só terminou à noite.
Nícolas e Adelfo sentiam dor pelo corpo todo quando finalmente se deitaram aquela noite. A casa dos Geremaro não era grande, e os irmãos dividiam o mesmo quarto. Uma cama encostada a parede da direita, outra cama na parede da esquerda e um grande guarda-roupa de madeira na parede do fundo.
Exaustos, eles deitaram cada um em sua cama. O banho ajudara um pouco, mas eles ainda sentiam o corpo dolorido. Eles estavam tentando dormir, mas enquanto o sono não vinha eles continuaram olhando para o teto, incapazes agora de moverem sequer um dedo.
De repente, Adelfo quebrou o silêncio.
— Ela é muito bonita.
— Elisa é mesmo bonita — disse Nícolas displicente.
Adelfo pareceu confuso.
— Eu falava da Helena — falou Adelfo abrindo um sorriso sugestivo — Você está interessado na loirinha?
Nícolas não respondeu. Ele pensara na estrangeira o dia todo. Ele sempre gostara de Helena, desde que era criança. E a morena sempre estava em seus pensamentos. Mas não hoje. Hoje Elisa estava lá o tempo todo. Enquanto se alongava, corria e pulava, a imagem de Elisa vinha de repente. Ele nem sabia o que pensar sobre a garota. Á primeira vista ela era alegre e triste, normal e doida.
— Hey, Nic. Responde! Você está interessado na Elisa?
— Não, claro que não. Deixa eu dormir.
Elisa continuou nos pensamentos de Nícolas até o garoto adormecer.
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