O Relicário
4 Capítulo 4 - Chá com Leite
AINDA NAQUELA NOITE o prefeito telefonou para o celular de Glaux para combinarem um horário para a reunião.
Na manhã seguinte, Helena e o prefeito saíram juntos de casa. Henrique estava meio formal com uma camisa branca e uma gravata azul clara. Os dois caminharam sem pressa de sua casa até a praça, onde encontraram com Nícolas, Astride, Kirsten, Hans e Gretel parados defronte ao Casarão Flint olhando hesitantes para o lugar que todos de Nova Borgeby sempre temeram e que entrariam pela segunda vez em dois dias.
Mas havia algo diferente na visão no Casarão. Todas as janelas da fachada estavam abertas e em várias delas se viam cortinas branquíssimas ondeando com o vento. Eles atravessaram o conhecido jardim caótico e o prefeito bateu na porta.
Glaux abriu a porta com um sorriso de Monalisa e fez um gesto com outra mão para que eles entrassem. Todos ficaram de boca aberta, tal era o espanto de cada um deles. Lia-se perfeitamente na expressão de cada um: não podia ser a mesma casa. Não tinha como ser o mesmo lugar sombrio e lúgubre do dia anterior.
A sala de pedra estava clara como o dia, a luz brilhando nas cortinas brancas. O chão, as paredes e a mobília estavam tão imaculadamente limpos como se fossem novos e a casa recém-construída. Uma brisa morna entrava pela janela, mas a pedra fria não deixava que o ambiente esquentasse.
Glaux levou os convidados para a sala de refeições, onde uma mesa comprida estava preparada. Ao lado do leite, um grande bule de prata exalava o agradável cheiro de chá, mas também havia duas jarras com suco de laranja, além de potes de geleias diversas. Em cestas de vime havia pães variados e croissants. Dois bolos com frutas secas também exalavam um cheiro gostoso, provavelmente tinham acabado de sair do forno, pois seu aroma subia junto com o vapor. Involuntariamente, todos respiraram fundo e sentiram a profusão de aromas que enchiam a sala. No entanto, havia muito mais coisas, algumas que eles não conheciam e outras que pareciam fora de lugar, como um salame escuro e uma faca afiada sobre uma tábua de madeira.
A madeira avermelhada estava escondida sob uma toalha branca com bordas douradas tão brilhantes que reluziam como fios de ouro. Elisa entrou por uma porta lateral trazendo uma jarra fumegante com leite. Ela pôs a jarra de vidro na mesa e exclamou:
— Já são nove horas? Nossa!
Elisa curvou a cabeça num cumprimento e fez o mesmo gesto de Glaux à porta, desta vez convidando os novos amigos para se sentarem.
— Bom dia! Bem vindos à minha casa!
— Que isso? Quanta formalidade — disse Hans.
— Quanto tato! — disse Gretel ríspida — Ela está sendo educada, seu troglodita! Apenas agradeça. Obrigado, Elisa!
Hans olhou com impaciência para a irmã.
Elisa se sentou à cabeceira, perto da porta. Glaux foi se sentar na outra ponta da mesa. Quando todos se acomodaram, Elisa disse:
— Podem se servir! Fiquem à vontade!
Enquanto as pessoas timidamente começavam a se servir, Astride disse:
— Estou curiosa com você, Elisa — disse se servindo de leite quente na xícara de porcelana delicada — Eu gostaria de saber mais sobre você.
Astride misturou café ao leite, deu uma mordida numa fatia de bolo de frutas e olhou para Elisa esperando uma resposta. Seus amigos olharam nervosos para Astride. Era óbvio que todos estavam curiosos, mas ninguém tinha coragem de perguntar.
— Eu até poderia falar sobre mim — disse Elisa calmamente se servindo de chá preto — Mas só se você falasse sobre você também.
Astride quase se engasgou com o bolo.
— Fa-Falar sobre mim?
— Sim, claro — e sob o olhar de todos, misturo leite ao chá — Por acaso acha que apenas vocês estão curiosos sobre mim. Eu estou curiosa sobre vocês também.
Astride respirou com força para se recuperar do susto e por um instante se esqueceu da curiosidade sobre a pessoa de Elisa e perguntou:
— Você pôs leite no chá?
— Sim — disse Elisa e bebeu um gole da xícara — Porque o espanto?
— É que eu nunca vi alguém colocar leite no chá.
— Mas é tão comum na Inglaterra!
— Bem, não é comum aqui.
Elisa sorriu.
— Vamos fazer assim: você conta algo de si e eu conto alguma coisa de mim. Melhor ainda: você me faz uma pergunta para saciar sua curiosidade.
— Que tipo de pergunta?
— Qualquer uma. Se eu puder responder, então eu irei. E isso vale para todos vocês. Cada um se apresenta, diz algo de si e então me pergunta alguma coisa. Você primeiro que, aliás, foi quem começou a brincadeira — disse Elisa para Astride.
Astride olhou de Elisa para os outros na mesa. Então ela percebeu a oportunidade única da situação. Mas bem quando poderia perguntar qualquer coisa, de repente, a mente de Astride ficou vazia e silenciosa. Por um instante constrangido, Astride olhou para os lados e notou a beleza daquela casa e então lhe ocorreu uma pergunta:
— Elisa, bem... eu queria saber como é a sua casa em Londres.
— Não é assim que funciona, Astride — Elisa colocou mais chá e mais leite — Primeiro diga algo de si. Depois eu respondo sua pergunta.
Astride corou intensamente. Falar de si mesma não é algo que ela faça normalmente.
— Bem... — começou ela e bebericou do chá preto enquanto pensava — Meu nome é Astride Becker. Sou filha de Emil Becker, dono da sorveteria. Eu sou, assumidamente, uma nerd. Gosto de estudar, gosto e sei tudo sobre livros e filmes de ficção científica. Não sou popular, mas tenho a sorte de ter vários amigos, sendo que todos eles estão sentados nessa mesa...
Um clima estranho pairou: algo próximo da pena. Alguns beberam para se ocupar, outros olharam para os lados ou o teto. Elisa percebeu o clima e falou lentamente:
— Elisa Mara Varanus Galad Heinz.
Astride levantou a cabeça para a Elisa:
— Pode rir, eu sei que dá vontade — disse ela calmamente — Meu nome é grande demais, estranho demais. Herança de família. Mara era o nome da minha mãe. Varanus era meu avô, pai do meu pai, e Galad Heinz é o sobrenome que herdei da família do meu pai. Na minha família nós não escolhemos os sobrenomes que damos aos filhos. Existe, inclusive, um livro explicando todas as regras para os nomes. A parte mais longa do livro são as páginas dando exemplos de nomes de todos os meus antepassados.
Alguns riram.
— Estante 3, prateleira 5, contando de baixo para cima, três volumes de capa azul.
Glaux falou isso com tédio, com certeza por ter decorado uma informação inútil.
— Ah, é, desculpe, Miss Glaux. Eu esqueci. Não é apenas um livro, são três. E em três línguas diferentes: inglês, francês e alemão arcaico — completou Elisa, e comeu o último pedaço do croissant.
— Porque um nome tão longo? — perguntou Nícolas.
Elisa soltou uma gargalhada alta e clara. Era incrível como o som de sua risada era cristalino.
— E p-pergunta pra mim? — disse a garota engasgando no meio do riso.
Kirsten olhava para o salame perto dela torcendo o nariz. Elisa percebeu.
— Não quer provar o Black Pudding?
— Eu não como carne — disse Kirsten imediatamente, mas continuou olhando para o salame — Espera... você chamou isso de pudim?
— Sim, chamei.
Elisa se levantou e foi até a tábua. Cortou uma fatia do Black Pudding e voltou para a própria cadeira.
— Pois parece um tipo de salame... — disse Hans sentado ao lado de Kirsten.
— E tem razão — disse Elisa dando uma mordida — É um salame. Na verdade é um tipo de linguiça de carne de porco com vários temperos e... — Elisa deu outra mordida —... Sangue de porco.
Todos fizeram caretas de nojo, inclusive o prefeito.
— Sabe, o Black Pudding é muito apreciado na Inglaterra em várias refeições, até mesmo no café da manhã.
— Eu achava que a comida na Europa fosse melhor que a nossa, com pratos finos e chiques — disse Kirsten.
— Acho que você está pensando na culinária francesa, que é bem mais leve. A culinária inglesa é mais pesada e calórica. Então, porque não fala de si?
Kirsten tinha se servido de chá preto e uma torrada pura (sem manteiga nem nada), mas mal havido tocado em ambos. Ela era bem diferente dos demais e tinha um ar superior.
— Meu nome é Kirsten Rosenbauer. Eu sou uma garota comum do Rio de Janeiro...
Hans começou a rir alto. Todos os amigos riram juntos. Até o prefeito riu.
— O que? — disse Kirsten sem entender.
— Sério Kirsten? — disse Helena — Garota comum?
— Do Rio de Janeiro? — disse Gretel.
— Você sabe que Nova Borgeby fica a umas 2 horas do Rio de Janeiro né? — perguntou Astride.
Kirsten fechou a cara e voltou a olhar para Elisa:
— Realmente não tem muita coisa para falar de mim — insistiu Kirsten. Ela então abriu um sorriso meio malicioso — Então, Elisa, como são os garotos ingleses da sua escola?
O sorriso da garota desapareceu mais rápido que um raio. O riso geral parou abruptamente diante daqueles olhos que de repente pareciam tão tristes. Falando muito baixinho, Elisa respondeu num tom como quem pede desculpas:
— Eu ... a ...
Glaux se remexeu na cadeira, mas permaneceu em silêncio.
— Eu não ouvi — disse Kirsten.
Elisa respirou fundo e repetiu:
— Eu nunca fui à escola.
Após um instante de silêncio, os garotos começaram a falar ao mesmo tempo.
— Como assim?
— Por quê?
— Nunca foi à escola?
— É outro dos costumes da minha família — a voz de Elisa, sempre tão alegre, tornara-se tão pesada. Elisa nem mais parecia uma adolescente. Era como uma velha falando de um passado muito distante — Somos educados em casa. Também temos um livro que fala sobre as regras de ensino dos Heinz. Glaux também deve saber a localização exata. E sinceramente, esse eu teria destruído aos quatro anos idade se eu soubesse como aquela coisa afetaria minha vida.
A sala ficou mortalmente silenciosa por alguns instantes.
— Como são os garotos ingleses da minha escola? — disse Elisa — Bem, os ingleses não tem necessariamente um modelo de beleza, então nem todos se preocupam com a aparência. Não estou dizendo que ingleses são desleixados, ao contrário. Mesmo o mais simples filho da Inglaterra, bonito ou não, cuida do corte de cabelo e do estado de suas roupas com perfeição. Agora, alguns ingleses são... — Elisa corou ao continuar —... Muito bonitos! Daniel Radcliffe que o diga...
Kirsten e as meninas ao redor da mesa deram risinhos de aprovação.
Hans, que revirou os olhos para esses risinhos, começou a falar alto e rápido:
— Eu vou experimentar esse chá com leite, talvez seja bom, nunca se sabe. Ah, torradas. Gosto de torradas. Adoro torradas. Amo torradas. O que eu passo nelas? Olha, geleia de morango, geleia de jabuticaba... — Hans pegou um pote grande e roxo com rótulo branco e azul — Quee-queens-be-berry, Queensberry, geleia de mirtilo... mas o que raios é mirtilo?
— Mirtilo ou Blueberry é uma fruta azul muito popular na Europa. Eu gosto muito de Blueberry — disse Elisa de volta ao seu tom animado e com uma expressão alegre no rosto.
Hans ficou em dúvida quanto aquela geleia estranha, um tom escuro meio roxo meio vermelho. Então ficou confuso com outra coisa:
— O que é isso?
Hans soltou o vidro da geleia azul-avermelhada e pegou outro pote escuro. Por um instante ele ficou em dúvida se o vidro ou a pasta dentro que era escuro. Quando o destampou ele viu uma pasta pegajosa muito escura, algo entre marrom e preto. E o cheiro... Hans afastou o pote de si e tampou novamente. Incapaz até de reclamar, ele apenas pôs o pote o mais longe de si.
Elisa se levantou novamente e foi até Hans. Ela pegou o pote que Hans soltara. Ela o destampou e o aproximou do rosto. Elisa aspirou aquele aroma forte e disse com voz sonhadora:
— Ah, marmite! Ame ou odeie! Eu amo!
E sem esperar voltar para seu próprio lugar, apanhou uma torrada e simplesmente empurrou-a para dentro do pote. Quando puxou para fora a torrada estava coberta com uma cola marrom. Muito desajeitada, Elisa deu uma grande mordida, mas incrivelmente sua boca ainda estava limpa.
Glaux, sempre inexpressiva, abriu um raro sorriso.
— Eu odeio marmite!
Elisa tentou rir de boca cheia. E mesmo com a voz engrolada, ela conseguiu dizer:
— Well, i hove!
Elisa riu de novo. Ela fez força para engolir e repetiu:
— Well, i love!
— O que é marmite afinal? — perguntou Hans.
— Suor condensado com cola e sal — respondeu Glaux indiferente.
Elisa se voltou indignada para sua tutora:
— Blasfêmia! Retire o que disse!
— Tudo bem, tudo bem. Essa “coisa” é feita com o extrato de levedura obtida como subproduto da fabricação de cerveja. Pessoalmente, não suporto isso. O gosto é tão forte que até o cheiro disso aí é salgado.
— ‘Algado e delichioso’ — disse Elisa de boca cheia.
Glaux a olhou severamente, e percebendo seu olhar, Elisa forçou-se para engolir.
Confuso entre o amor e o ódio das duas anfitriãs a aquela pasta, Hans acabou preferindo passar uma simples manteiga na torrada. Depois de uma mordida e de um gole do chá com leite, Hans se sentou mais reto na cadeira e disse para Elisa:
— Acho que é minha vez. Eu sou Hansel Christian, irmão mais velho da Gretel...
—... Mas não são gêmeos? — disse Elisa, agora comendo o restante da torrada em mordidas pequenas.
— Somos! — disse Gretel meio azeda.
— Somos, é verdade. Mas eu nasci primeiro. Sou mais velho...
— Sessenta segundos! Apenas sessenta segundos! E por esses míseros segundos você acha que pode mandar em mim.
— Cuidar de você é minha obrigação como irmão mais velho.
— Porque você é chato, isso sim! Chato!
Elisa sorriu. Irmãos brigando, ainda mais gêmeos, era algo clichê, mas divertido de se assistir.
— Hans, pode fazer sua pergunta antes que Gretel pule no seu pescoço?
Hans e Gretel riram. Ele pensou um pouco sobre o que perguntaria e disse:
— Sua família tem muitas regras e parece que também tem muito dinheiro. Como é sua família? Vocês são nobres ou algo assim?
De repente, o ambiente esfriou muito. O sol que entrava pelas janelas era insuficiente para aquecê-los. Quase se podia ver uma fina névoa sobre a cena.
Glaux ficou muito séria. Elisa abriu um sorriso estranho: era amistoso, mas não possuía nenhum calor. Quando falou ela usou um tom baixo e suave, mas que pôde ser ouvido facilmente por causa do silêncio que o frio trouxe.
— Os Heinz são uma família bem antiga. Em casa, em algum lugar, tem uma tapeçaria bordada à mão mostrando a árvore genealógica da minha família. São cinco séculos do nome Heinz. Mas minha linhagem é ainda mais antiga. Se eu sou nobre? Não. Não sou. Se somos ricos? Bem, somos sim. E muito. Na verdade sou rica porque os Heinz têm posses que se valorizaram muito com passar do tempo. É como enterrar uma moeda de prata e séculos depois desenterrar quinhentas.
Apesar de Elisa sorrir, alguma coisa em seus olhos manteve a sala fria como as noites do inverno britânico.
— E sua família, como eles são? Devem ser bem liberais para te emancipar tão jovem e deixar que viajasse sozinha, só com a tutora.
Elisa demorou a responder.
— Pelo contrário. Eles não são nada liberais. Heinz são controladores e arrogantes, gostam de ser obedecidos e nunca contrariados. Existem livros e mais livros sobre as regras que temos que obedecer. Existe essa regra forçando a emancipação do primogênito menor de idade no caso de faltar ambos os progenitores e não houver alguém da linhagem de sangue maior de idade para assumir a tutoria legal.
Todos ficaram em silêncio. Na verdade os garotos mal entenderam alguns daqueles termos legais. Como costumava fazer nesses momentos, Helena buscou o pai, mas viu nele uma expressão muito séria. O prefeito era um homem com pouco senso de humor, mas ele sempre tinha um sorriso carismático para qualquer um que o visse. Era difícil vê-lo com ar tão grave.
— Papai... ?
O prefeito olhou para a filha e percebeu a preocupação dela.
— O que ela quis dizer, Helena, é que não possui pais ou qualquer outro parente.
Os garotos abaixaram a cabeça, silenciosos. Quando Elisa quebrou o silêncio, ela falou com uma voz que pretendia ser indiferente, mas havia uma inconfundível nota de desesperança:
— Não se preocupem com esse assunto. Eu venho de uma família muito pequena. Filhos únicos de filhos únicos. Meus pais se foram quando eu era apenas um bebê. Faz muito tempo. Eu cresci sozinha e já me acostumei com isso.
Gretel queria quebrar o clima gelado criado pela pergunta do irmão. Ela provou sua xícara pela metade: seu chá preto estava quente há uns 30 segundos e agora parecia saído de uma geladeira. Gretel tornou a se servir de chá quente, mordeu o croissant e disse:
— Então, acho que é minha vez. Meu nome é Gretel Christian. Meus pais são fabricantes de Gruyère Nova Borgeby...
— Espera, seus pais fabricam queijo Gruyère? — perguntou Elisa interessada.
— Sim. Na verdade meus pais e outras quatro famílias da cidade.
— Sério?
— Sim, Mis Heinz, é o que sustenta a nossa maravilhosa cidade. Cinco fabricantes do melhor queijo nobre deste hemisfério — começou o prefeito cheio de orgulho — Eu te garanto a qualidade do nosso queijo Gruyère Nova Borgeby. Claro, a supremacia do nosso queijo leva em conta...
— Pai... — disse Helena.
—... a raça dos animais, a alimentação correta...
— Pai, não é hora para discursos.
— Porque não? Elisa pareceu muito interessada...
Helena fez uma cara de insatisfação como se essa não fosse a primeira vez que o pai começava a discursar para seus amigos.
— Já que tocou no assunto então não conta para Elisa o verdadeiro motivo de esta cidade viver de queijo? — perguntou Helena.
Henrique Coluber se remexeu desconfortavelmente na cadeira.
— Então eu digo — começou Helena — Tem cinco pequenas fábricas de queijo caseiro nessa cidade, mas apenas um fornecedor de leite. Verdade que temos uma floresta na região, mas é a única coisa natural, pois todas as outras terras ao redor dessa cidade são pastos de um só fazendeiro que só se interessa em leite. E este seria o senhor, meu pai. ...
— E como é minha filha, essas terras também pertencem a você.
— Hey! — disse Gretel impaciente — Posso fazer minha pergunta agora?
Henrique sorriu brevemente. Helena se calou, mas continuou séria.
Gretel tentou pensar em algo que desanuviasse aquele clima frio, mas não conseguia pensar em nada. Ela deu outra mordida no croissant e mastigou para ganhar tempo. Ela olhou distraidamente para os lados e percebeu o quão limpo estava aquele lugar. As paredes de pedra impecáveis, as cortinas que brilhavam de tão brancas. O lustre no teto tinha um brilho prateado peculiar que ela nunca vira antes, talvez ele fosse de prata de verdade. E lhe ocorreu uma pergunta:
— Como conseguiram limpar o Casarão Flint em apenas uma noite?
Elisa sorriu e aquele largo sorriso sozinho aqueceu toda a sala de novo.
— Bem, posso resumir em três palavras. Foi-Com-Mágica!
Todos riram a essas palavras. Até Glaux riu baixinho.
— Certo, certo — disse Elisa ainda rindo — Três palavras: Com-As-Mãos. Miss Glaux e eu trabalhamos ontem o resto do dia e a noite inteira. Nós nem dormimos na verdade.
— Sim, mas, mesmo assim...
— Lançamento de disco e dardo, salto em distância, maratona e luta grega — Glaux respondeu olhando para Gretel.
Ninguém entendeu nada.
— O que uma coisa tem haver com a outra? — perguntou Gretel.
Mas Nícolas disse de repente:
— Pentatlo! Outra das regras da sua família? — ele parecia ao mesmo tempo surpreso e impressionado.
— Sim — disse Elisa simplesmente. Ela se cansou do chá. Depôs a xícara para o lado e se serviu da jarra de suco de laranja. As pedras de gelo retiniram levemente no cristal.
Nícolas olhava de Elisa para Glaux ainda surpreso.
— O que é pentatlo? — perguntou Helena curiosa.
— É uma competição com cinco provas — respondeu Nícolas — E as provas que Glaux citou são do pentatlo grego, praticado nos jogos olímpicos da Grécia Antiga. Já é difícil treinar para apenas um desses esportes, quanto mais todos os cinco.
— Eu ainda não entendi o que tem esse pentatlo haver com a limpeza — disse Gretel.
— É uma questão de força e resistência — disse Nícolas — Lançamento não exige apenas pontaria, como também força nos braços. Enquanto que salto em distância precisa de força nas pernas. Maratona é completamente diferente. Não é de força que precisa, mas resistência e fôlego para continuar correndo por quilômetros. E luta grega, bem, é uma luta!
Agora todos tinham a mesma expressão surpresa e admirada de Nícolas.
— Você sabe lutar? — perguntou Astride.
— Sim — Elisa continuava respondendo monossilabicamente.
Astride, tão nerd e tão fisicamente fraca, olhou para Elisa com novo respeito. Mas ao contrário dela, Helena se mostrava intrigada e séria, e não disse nada.
— Minha vez, eu acho. Eu sou Nícolas Geremaro. Eu gosto de futebol. Meu pai acha que tenho chance de jogar num time profissional. Eu não ligo muito pra isso. Eu treino e jogo porque gosto.
Nícolas falava com uma grande confiança. É verdade que ele gostava muito de futebol e não ligava para os sonhos de fortuna e fama do pai. Ele treinava seus braços e pernas já fortes por pura diversão. Nícolas não era do tipo que recusava um desafio. Daquela mesa diferente ele provara de tudo: uma torrada com marmite, fatias de Black Pudding e uma xícara de chá com leite. Ele não gostou do marmite, mas aprovou a linguiça escura.
— Minha pergunta pra você é bem simples: você sabe jogar futebol?
Elisa olhou para Nícolas com uma expressão nervosa e falou com voz impaciente:
— A Inglaterra é a pátria do futebol e eu sou inglesa! Acha que eu não sei jogar futebol?
Nícolas ficou sem graça.
— Desculpe. Realmente desculpe.
— Tudo bem — disse Elisa mais relaxada — Vamos começar de novo. Refaça a pergunta.
Nícolas repensou sua pergunta e disse:
— Você joga futebol?
Todos olharam para Elisa com ansiedade. Mas a garota abriu um sorriso quase debochado e disse:
— Não. Nem sei jogar!
Elisa riu com gosto. Mesmo confusos com as bruscas mudanças de humor de Elisa, todos acabaram rindo junto com a garota. Nícolas foi um dos que riu mais alto.
— Embora de vez em quando eu goste de ir ao Stamford Bridge ver o Chelsea jogando, eu acho que os torcedores de futebol são muito violentos, tanto na vitória como na derrota, não importa a parte do mundo que você esteja. Isso me desanima um pouco para o esporte...
Nícolas imitou bem a própria Elisa ao começar a gargalhar repentinamente. Depois de uns trinta segundos, ele falou, ainda entrecortando fala e riso:
— Você acha futebol... haha... violento? Haha... olha só quem fala... haha Senhorita-Luta-Grega! Haha
Elisa não se sentiu envergonhada: ela destampou a gargalhar alto junto com Nícolas. Os dois riram sozinhos. Aos poucos eles se acalmaram e foi parando.
— Só faltou você, Helena — disse Elisa. Ela ainda sorria animada.
Helena estava anormalmente quieta já há alguns minutos. Ela era sempre muito animada e falante. Era a vida em qualquer lugar em que estivesse. O centro das atenções e dos olhares. No começo do café da manhã ela estava tão curiosa como todos sobre a garota nova. Mas agora ela estava confusa por causa de várias coisas que ouvira.
Elisa era imensamente rica, ela própria afirmara. Elisa tinha treinamento árduo física e intelectualmente. A família de Elisa não era nobre, mas era mais antiga que a cidade de Helena. Ao pensar em tudo isso, a pergunta que faria depois de se apresentar, surgiu tão naturalmente como se sempre quisesse tê-la feito desde o primeiro momento.
— Eu sou Helena Coluber. Tenho 16 anos. Não sou tudo o que os outros pensam de mim. Nem tão inteligente nem tão bonita. Eu me esforço para mim mesma.
Helena tentou uma voz cordial, mas estava claro em seu olhar como ela se sentia ansiosa com o que disse a seguir.
— Elisa, exatamente como você veio parar em Nova Borgeby? E por quê?
Elisa não respondeu. Ela levou a mão ao copo de suco de laranja, e tomou um gole bem demorado.
— Foi ideia minha — disse Glaux — Há cerca de um mês Elisa terminou todos os estudos e treinamentos que os Heinz exigem dos filhos nessa idade. Então ela está livre para tirar suas primeiras férias em cinco anos. Por acaso, há duas semanas, li sobre esta cidade no jornal, falava do achado e inauguração de uma estátua centenária, e na hora me pareceu um bom lugar para férias.
Nesta altura já eram quase onze horas e o prefeito gritou que tinha um compromisso. Depois disso, um a um, eles foram se despedindo e saindo. À porta do Casarão Flint, Elisa cumprimentou Helena, a última a sair.
— Obrigada por ter vindo, Helena. Seus amigos são muito legais.
— Eles são seus amigos também, Elisa. Não notou como todos gostaram de você?
Helena já ia saindo pela porta, mas voltou e disse:
— Acho que eu fui mal-educada com você mais cedo e aquela minha pergunta impertinente.
— Não precisa se preocupar...
— Mas eu só quero que saiba — continuou Helena — É que eu gostei de você. Sério! Eu acho que podemos ser muito boas amigas.
Elisa sorriu tristemente, e antes que Helena pudesse evitar, ela se jogou sobre Helena num abraço muito apertado. As duas compartilharam o sentimento de solidão de Elisa, e Helena considerou que aquela garota sem pais era realmente doce e que nada de mal poderia vir dela. Elas se cumprimentaram novamente, e Helena foi para casa com o coração muito mais leve.
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