O Relicário

23 Capítulo 23 - Vitale Vinculum


A NOITE ESTAVA FRIA e Nícolas sentiu um arrepio enquanto carregava uma Elisa desacordada. Agora não havia mais luzes nas janelas e as casas estavam às escuras. As únicas luzes que iluminavam o caminho dele vinham dos postes de luz. Novamente ele ouviu seus próprios passos e seu medo de ser descoberto agora era muito maior. Como explicaria o estado da garota?

Eram vários quarteirões do campo até o Casarão Flint, mas os braços de Nícolas nem sentiram o peso de Elisa. Sua mente estava totalmente ocupada com mil pensamentos conflitantes. Ao mesmo tempo em que ele procurava uma desculpa que justificasse as ações de Helena, ele sentia repulsa por suas ações. A decepção era grande demais.

Foi com alguma dificuldade que Nícolas tocou a campainha. Logo ele ouviu o som de passos leves sobre o piso de pedra até que finalmente, a porta se abriu.

— De novo? — exclamou Glaux dando um passo para o lado permitindo que o garoto entrasse.

Sem que fosse preciso pedir, Nícolas levou Elisa escada acima para o quarto dela. Com cuidado, ele a deitou na cama e se afastou. Glaux se aproximou e tomou uma das mãos de Elisa. Nícolas observou uma expressão nova no rosto de Glaux: preocupação. Era a primeira vez que via a tutora demonstrar alguma coisa além da careta séria de sempre. Uma das sobrancelhas da inglesa estava erguida, a testa enrugada e os olhos negros tinham um brilho diferente.

Para Nícolas, Glaux sempre parecera indiferente com o mundo. Era como alguém da realeza que te olha do alto de sua majestade e que mesmo estando ao seu lado, parece muito distante das pessoas à volta. Mas só agora ele se lembrava: Glaux criara Elisa desde bebê. É impossível para qualquer pessoa criar alguém desde tão cedo e por tanto tempo sem sentir nada por essa pessoa. Glaux só parecia fria por algum tipo de convenção social que lhe ensinaram, mas por dentro ela era perfeitamente normal e se preocupava agora com a saúde e o destino de Elisa assim como ele.

— O que aconteceu?

Em um piscar de olhos a expressão de Glaux voltou a sua frieza habitual.

Nícolas começou a contar a partir do telefonema e foi até o momento que Elisa e Helena se encontraram no campo de futebol. Depois disso Nícolas teve dificuldade em explicar o que aconteceu em seguida:

— Helena mexeu numa pedra e apareceu um tipo de parede. Parecia um campo de força ou algo assim...

— Hum! Pedra... parede... ah... essa parede formava um círculo? — perguntou Glaux.

— Sim, formava.

Glaux soltou a mão de Elisa e levantou-se, indo observar a noite pelas portas abertas da sacada.

— Um Círculo Rúnico! É uma barreira mágica poderosa capaz de prender qualquer um, até mesmo uma Heinz. E o que aconteceu depois?

Nícolas continuou a história pela parte que Elisa começou a falar várias coisas sobre Ophidia. Ele implorara para que ela não falasse nada, mas Elisa falou e falou. Nícolas parou pela segunda vez. Sua voz tinha quebrado ao se lembrar dos gritos. Com esforço, mas ainda com a voz embargada, ele contou da luz verde que saíra do Relicário e torturara Elisa com uma espécie de eletricidade verde...

— Não! — Glaux voltou-se para Elisa, um olhar muito sério, até para ela — O Toque de Tisífone. A situação é muito pior.

— O que é o Toque de Ti... ti o que?

— Tisífone. É uma deusa grega e naquela mitologia representava o Castigo. Bruxos maus há muito tempo criaram o feitiço perfeito para infringir dor aos seus inimigos. O nosso corpo é composto de um sistema complexo de nervos que transmitem impulsos elétricos até o cérebro. Quando qualquer parte do corpo é ferido, um impulso é gerado e informa ao cérebro sobre o dano e que então soa um alarme para nos avisar do ferimento: esse alarme é a dor. Pode ser com maior ou menor intensidade, dependendo do tipo e tamanho do ferimento. Quando o Toque de Tisífone, ou Castigo Grego, atinge o corpo ele cria impulsos de ferimento e o cérebro responde com dor. O feitiço age em todo o sistema nervoso ao mesmo tempo, criando a sensação de mil golpes de espada cortando a carne. Eu nunca usaria esse feitiço, mesmo contra meu pior inimigo. E eu nem contei a pior parte...

Nícolas ergueu a cabeça, assustado.

— Pior... tem pior?

— Infelizmente, sim! Esse feitiço é como uma pedra enorme atirada num lago. As ondas criadas se espalham para todos os lados, depois reverberam nas margens e criam novas ondas que se chocam e entrechocam. É preciso muito tempo até que as ondas percam força e o lago volte a se acalmar.

— Quer dizer que Elisa vai sofrer assim por muito tempo? — disse Nícolas com uma nota de desespero da voz.

— Eu não sei — disse Glaux indiferente — A intensidade da dor da tortura depende muito da vontade do bruxo que lançou o feitiço. O tempo que dura é incerto. Pode variar entre alguns minutos, algumas horas ou alguns dias.

Nícolas voltou seu olhar para Elisa e se ajoelhou ao lado da cama.

“É culpa minha! Eu deveria ter impedido Helena”, pensou o rapaz. “Eu não quero mais ninguém sofra, ninguém... ninguém... ninguém...”.

— Acho que uma Poção de Alívio concentrada poderá ajudar Elisa. Mas para aumentar a eficácia, o tempo também aumenta. Pelo estado dela, acho que vou precisar concentrá-la pelo menos quatro vezes — Glaux olhou no relógio de pulso e continuou — É uma questão de matemática. A poção original leva três horas e concentrá-la quatro vezes... agora é quase meia-noite. A poção ficará pronta apenas por volta do meio-dia... ei, o que? Nícolas! Nícolas! Me solta!

Nícolas tinha se levantado, corrido para Glaux e antes que ela pudesse o impedir, o garoto pegou as duas mãos dela e segurou forte.

— Não há mais nada que podemos fazer agora? Doze horas é tempo demais. Elisa está sofrendo agora. Não tem nada que podemos fazer... nada que eu possa fazer? Nada?

Glaux parou de tentar se livrar das mãos do garoto. De repente ela se esqueceu de tudo que sabia sobre Nícolas e o garoto se tornou uma página em branco. De certa forma, era a primeira vez que a tutora olhava para o rapaz: Glaux nunca realmente vira Nícolas. Ele sempre fora apenas um peão para os planos de Ophidia, um rapaz bonito que servira de intriga entre Elisa e Helena. Será que ela se enganara sobre o rapaz? Só tinha uma maneira de descobrir: testando-o.

— Existe um meio de ajudar Elisa agora — disse Glaux lentamente e Nícolas soltou o aperto de suas mãos — Mas exige um tipo de sacrifício que eu não poderia te pedir.

— Qual? Qual? — disse ele pressuroso.

— Trata-se da Poção da Empatia. Duas pessoas que dividam essa poção dividem também as sensações mais fortes que ambos sentirem. Em resumo, como Elisa está sofrendo tanto, essa dor será dividida meio a meio com você. Para ela será um alívio, já que doerá menos. Mas para você será um tormento, pois metade da dor dela será transferida para você. Entende porque eu não poderia pedir isso para você?

Nícolas olhou de Glaux para Elisa e de volta para Glaux:

— Não importa, eu já estou acostumado com a dor. Os treinos do meu pai às vezes me deixavam morto de cansaço, os músculos doendo e o corpo pesado. Eu aguento!

Os lábios de Glaux tremeram por um instante como se fosse sorrir, mas a tutora continuou inexpressiva.

Glaux saiu do quarto e voltou alguns minutos depois trazendo uma bandeja que colocou no criado-mudo. Havia apenas uma taça de cristal cheia de um líquido transparente e uma garrafinha de vidro arroxeada.

— Essa é a poção? — perguntou Nícolas — Parece água.

— É porque é água mesmo.

Nícolas se calou.

Com um pequeno “pop”, Glaux tirou a rolha da garrafinha e pingou duas gotas na taça. A água tornou-se verde escura imediatamente. Depois borbulhou como se fervesse, mas sem soltar vapor algum. Então o líquido mudou para azul claro, depois para azul escuro, até que ficou escura como petróleo. Então ela parou de borbulhar e a superfície ficou lisa. Dez segundos depois a poção foi ficando cada vez mais clara até voltar a ser transparente como a água pura do começo, apesar de que da taça agora erguia um leve vapor na superfície como água fervente recém-tirada do fogo.

Glaux tomou a taça nas mãos, virou-se para Nícolas e disse:

— Tem certeza de que quer fazer isso? Não tem volta depois de tomar. Esse é o tipo de poção cujo resultado é incerto e completamente inesperado. O efeito pode durar alguns minutos ou alguns meses...

— Me dá logo essa droga! Estamos perdendo tempo — disse Nícolas decidido.

Glaux explicou que seria mais fácil se Elisa estivesse lúcida, mas mesmo desacordada poderia feito. Mas para a poção ter o efeito certo, primeiro o próprio Nícolas faria a garota beber um gole generoso. Depois seria a vez dele.

Assim como lhe foi dito, Nícolas sentou-se na cama e ergueu a cabeça de Elisa o suficiente para que ele conseguisse fazer a inglesa beber pelo menos metade da taça. Ele teve o cuidado de fazer isso aos poucos para Elisa não engasgar. Depois foi sua vez: Nícolas ficou de pé, respirou fundo e virou a taça, bebendo a poção num só gole.

Aconteceu muito rápido. O líquido desceu pela garganta, morno e agradável, aquecendo seu peito. Em um segundo esse calor se espalhou do peito até a ponta dos dedos das mãos e dos pés. No segundo seguinte esse calor se transformou num calor ardente e cada pedaço do seu corpo estava como em fogo. Nícolas se dobrou segurando a barriga. Parecia que os treinos do seu pai não eram tão pesados assim. Ele tombou de lado e caiu na cama deitado ao lado de Elisa.

— Isso é apenas a metade da dor? Parece que eu corri uma maratona em marcha de cem metros rasos... ahhhhhhhhhhhhh!

Respirando com dificuldade e suando muito, Nícolas colou os braços junto ao corpo e fechou os olhos. O calor diminuiu um pouco, mas a sensação era de uma corrente elétrica atravessando seu corpo. Vez ou outra um ou outro músculo se mexia num espasmo involuntário enquanto uma dor baixa, mas profunda e contínua o impedia de sentir qualquer outra coisa.

Nícolas virou o rosto para o lado de Elisa bem na hora em que ela abriu os olhos:

— Nícolas... o que você... — disse numa voz fraca.

— Poção da Empatia — disse Glaux — Ele está dividindo sua dor, literalmente.

Elisa ficou com uma expressão muito séria e quando falou, ela tinha um tom bravo:

— Como pode ter permitido isso? Porque você...

Mas ela parou de falar quando uma nova onda de dor lhe tirou as palavras.

— Ele insistiu. E parece que funcionou, pois você acordou. Mas enfim, eu tenho que ir. Preciso preparar uma Poção de Alívio para curar a dor da sua tortura e ela é demorada.

— Mas uma simples Poção de Alívio não vai ajudar — disse Elisa.

— Normalmente não, mas eu vou concentrá-la quatro vezes. Será forte o bastante.

E dizendo isso, saiu da sala com passo apressado.

Elisa e Nícolas se entreolharam lado a lado, os dois tentando não demonstrar a dor que sentiam.

— Porque fez isso? — perguntou Elisa finalmente depois de alguns minutos.

Ele não respondeu de imediato. A verdade é que ele também não sabia o porquê. O que Nícolas sabia de fato era o medo terrível que tinha de Ophidia.

— Eu não tenho certeza. Você já sofreu tanto na vida, acho que eu quero você não se machuque ainda mais — a voz do garoto saiu fraca também.

Os dois ficaram se olhando por uns instantes. Nícolas queria conseguir expressar tudo o que sentia. Ele queria encontrar as palavras que explicasse a sua necessidade e urgência de ajudar tanto Helena, por quem ainda tinha muitos sentimentos, quanto Elisa, que ele aprendera a gostar como uma grande amiga.

— Obrigada por não me deixar sozinha! — disse Elisa.

Nícolas ensaiou um sorriso envergonhado, mas os músculos do rosto doeram.

— Hoje eu entendo os empregados lá de casa. Eles sabiam da Ophidia e tinham medo de mim. Sempre foi só Glaux e eu. Mas bem... você sabe como ela é... Glaux não é uma companhia das mais animadas... ou falantes.

— Sim, percebi — riu-se Nícolas, mesmo doendo um pouco — Ela me dá um pouco de medo às vezes. Um arrepio de frio sabe.

Elisa riu.

Nícolas tentou rir, mas uma nova onda de dor se espalhou por todo corpo e ele não conseguiu resistir:

— Ahhhhhhh! — gritou.

Para abafar o grito Nícolas levou a mão direita à boca e a mordeu. Mesmo assim se ouviu um gemido agudo e o rapaz cravou os dentes mais fortemente. Nervosa, Elisa pegou a mão esquerda dele e a apertou tentando dar-lhe força para suportar. Alguns segundos depois a onda diminuiu e Nícolas soltou a mão dos dentes, as marcas vermelhas bem definidas, um filete de sangue escorrendo de um dos ferimentos. Elisa quis tocar na mão direita dele, mas sentiu medo de aumentar a dor e ficou quieta.

Glaux entrou, atraída pelo grito e logo viu o estado de Nícolas. Sem falar nada, ela puxou um lenço do bolso e o enrolou na mão machucada do garoto, sem se importar com os pequenos gemidos que ele soltava. Depois abriu uma gaveta e entregou dois panos, um para cada um, e disse:

— Sei que está sendo difícil, mas se ficar se mordendo não vai ajudar. Ao contrário. Se quiserem morder alguma coisa, mordam esses panos. Agora me deixem trabalhar que eu estou perdendo tempo.

Nícolas olhou para a mão enrolada com o lenço e viu que uma mancha vermelha tingiu o tecido. Seu sangue ainda deve ter escorrido mais um pouco antes de estancar. Ele nunca tinha sentido dor igual, era pior do que dez treinos do seu pai. Lágrimas de dor e vergonha rolaram dos seus olhos e ele sentiu vontade de chorar e se entregar a dor.

Mas quando encarou Elisa, ela estava lhe estirando língua. Nícolas ficou confuso por um instante. Então Elisa usou as mãos para puxas os lábios e esticar a boca, formando uma careta. E depois dessa veio outra careta, e mais outra. Será que Elisa tinha enlouquecido? Mas antes que pudesse chegar a uma conclusão, ele riu de outra careta que Elisa puxando os cantos dos olhos e apontando língua de novo. Era impossível não rir e ele não resistiu. Mesmo que doesse, ele riu timidamente. A garota riu com ele.

— Para, para! Está doendo!

Elisa parou, mas ela ainda tinha um sorriso sapeca no rosto.

— Como você consegue sorrir? — perguntou Nícolas.

— Se esqueceu dos meus anos de treinamento Heinz? A dor que sinto é grande, maior que qualquer outra, mas chega perto de algumas bem terríveis que eu tentava esquecer.

Os dois ficaram em silêncio por uns instantes.

— Afinal, o que você treinou? Antes eu achava que eram apenas diferentes tipos de esportes e conhecimentos escolares, mas agora que sei que você é uma bruxa...

— Maga! Por favor! — Elisa falou incomodada — O termo bruxa se desgastou muito e hoje meu povo só a usa para os elementos perversos.

— Desculpe — Nícolas se apressou a dizer.

— Tudo bem. Então... eu aprendi esportes diversos sim. Eu não menti. Eu só não contei que além dos esportes, da gramática, geometria e ciências, eu também aprendi alquimia, feitiços e encantamentos. Eu não sou lá muito boa em poções, apesar de conhecer a teoria. Meu estudo favorito sempre foi metalurgia.

Por um momento Nícolas achou que não tinha ouvido direito.

— Você disse metalurgia?

— Sim, é o que eu mais gosto. Os Heinz são famosos por duas coisas: os grandes poderes mágicos e o poder das armas que fabricamos. Claro, é um estudo que será aprofundado apenas no curso intermediário e eu mal acabei o básico. Sabe, é lindo ver o metal vermelho de calor sendo forjado e mudando de forma. Até agora eu só aprendi a fazer anéis e pulseiras com feitiços simples. Por exemplo, tem um bracelete que eu fabriquei que permite respirar debaixo d’água...

Os dois continuaram conversando por algum tempo até que o sono de ambos sobrepujou a dor que sentiam e eles conseguiram dormir.