O Relicário
11 Capítulo 11 - O Aviso
Notas iniciais
O DOMINGO AMANHECEU CLARO com um sol radiante nascendo no horizonte. Os pássaros que cantavam alegres pousados na sacada de Elisa pareciam zombar da infelicidade da garota.
Elisa não dormira nenhum momento. Seus ombros pareciam pesados. Na verdade todo seu corpo estava cansado como nos tempos dos treinos infindáveis. Ela passara horas pensando e pensando. Quando os sons da cidade despertando entraram pela janela e Elisa começou a sentir o desconforto natural após ficar horas na mesma posição, ela chegou à uma decisão.
É verdade que Elisa gostara de Nícolas desde o primeiro momento, mas ele nada fizera para que ela achasse que aquele doce sonho se tornaria realidade. Elisa era instruída o suficiente para saber muito sobre o amor, mesmo sem nunca ter amado. O verdadeiro amor é muito raro, e não surge assim do nada. Não existe amor à primeira vista. Existe fascinação à primeira vista. Existe admiração às primeiras palavras. O amor é algo maior, muito maior, para surgir assim de repente. O verdadeiro amor era como uma árvore que leva anos para crescer e se fortalecer, regada com respeito e nutrida com atenção. Mas a esperança de ser amada é algo que cega imediatamente, e Elisa realmente queria que estivesse errada e que o amor à primeira vista realmente existisse.
Elisa não podia culpar Nícolas e Helena. Pelo contrário, ela deveria ficar feliz pelos dois. Eles eram seus novos amigos e se eles estavam felizes então ela deveria ficar feliz por eles.
De repente alguma coisa fria tocou na sua perna e a garota estremeceu. Levando a mão debaixo das cobertas ela pegou o objeto: era o Relicário. Elisa sorriu ao olhar o seu presente de aniversário e pela primeira vez em horas seu coração se acalmou. Agora ela possuía uma joia que pertencera a seu pai e todos os seus parentes. Era reconfortante saber que sua família não lhe legara apenas regras absurdas para criar os seus filhos, mas também uma joia tão bonita e delicada.
Engraçado, pensou Elisa, O Relicário passou a noite junto do meu corpo e debaixo de várias cobertas, e mesmo assim a prata continuava fria.
Ela ficou intrigada com a joia, mas essas reflexões foram interrompidas por Glaux que entrara com a bandeja de café da manhã. Elisa colocou o Relicário no pescoço e se ajeitou na cama para receber a bandeja.
Durante toda manhã Elisa ficou mexendo em velhos livros. Eram exemplares que ficaram guardados por décadas nas estantes da Sala de Música, atacados por gerações de traças. A garota não se importava: havia livros ainda mais antigos em sua casa em Londres, mas eram obviamente melhor cuidados e por isso mesmo em melhor estado. Ela encontrou um alfarrábio encadernado em couro, todo escrito em inglês. Anotado numa letra garranchosa na contracapa havia uma “14 de Novembro de 1883”. Parecia um livro manuscrito contando uma história de piratas lutando entre si por causa de um tesouro.
Distraída com suas reflexões sobre amor e amizade e ocupada com os livros, já naquela tarde Elisa estava se sentindo muito melhor.
Na manhã seguinte, quando Glaux veio acordá-la, Elisa estava alegre e bem disposta de novo. Sua tutora não trazia a bandeja habitual.
— Você tem uma visita.
Elisa ergueu o rosto ansioso e sorridente:
— Quem é?
— A Srta. Helena Colúber.
Elisa tinha agora uma chance para demonstrar sua determinação em demonstrar felicidade pelos novos amigos. Ela trocou de roupa depressa e desceu.
Helena a esperava na sala de entrada observando, distraída, o teto de pedra. Elisa a convidou para o café da manhã enquanto conversavam. Helena tinha vindo convidar a inglesa para um grande evento de Nova Borgeby, um dos poucos que acontecia no fim do mundo daquela cidade.
— O Jogo de Abertura — disse Helena se servindo de suco de tamarindo.
— O Jogo de Abertura? — repetiu Elisa se servindo de um scone de morango.
— O Jogo de Abertura! Ai! — Helena pegou um scone de chocolate, mas o soltou desajeitadamente no próprio prato: o pão ainda estava quente e seus dedos arderam levemente.
Ela sorriu. E daí que queimou os dedos com chocolate: era chocolate! Helena estava realmente de bom humor.
— Será que Nícolas tem alguma coisa haver com toda essa alegria.
Helena riu constrangida e mordeu o scone com cuidado.
— É tão óbvio assim?
— Sim.
Percebendo que a amiga corara, Elisa decidiu mudar de assunto.
— Mas diga, como é esse jogo?
Feliz pela mudança, Helena desatou a explicar:
— Nova Borgeby é pequena e as pessoas são muito unidas na maior parte do tempo. Mas quando os Asgards e os Midgard jogam, então não existe mais nada. Nem pai, nem irmão, nem namorada e nem vizinho. Ou você é amarelo ou vermelho. Ou asgardiano ou midgardiano.
Elisa se lembrou de suas palavras sobre a violência no futebol há alguns dias. Parece que nem aqui nessa cidadezinha tão pacata, o futebol deixava de acirrar as competições.
— A rivalidade é muito forte, como entre gregos e troianos, entre corintianos e palmeirenses. Ruas inteiras decoradas ou de amarelo ou de vermelho. Os times eram formados pelos melhores jogadores, sem limite de idade. Todo mundo vai estar lá amanhã. Sério mesmo, toda a cidade. Não falta ninguém. Nem todos gostam de futebol, mas todos torcem por um dos times e ninguém deixa de comparecer a um jogo. O prefeito até decreta feriado municipal...
— O prefeito, quer dizer seu pai?
— Sim. Papai é um midgardiano ferrenho. Ele está super animado porque Midgard não perde um campeonato há seis anos. Ele tem certeza que o jogo de manhã vai mostrar como Midgard ganhará de novo no fim do ano.
— Eu quero ir sim. Será divertido.
As duas passaram horas conversando um pouco mais sobre o jogo e sobre a cidade de Nova Borgeby. Helena acabou almoçando no Casarão Flint e se surpreendeu como o almoço era perfeitamente normal se comparado ao café da manhã.
Helena adorou um prato inglês de purê de batatas com salsicha, acompanhado com legumes cozidos no vapor.
Depois do almoço as duas ficaram um tempo na Sala de Música e Elisa lhe mostrou o alfarrábio de couro. Ao vê-lo, Helena se lembrou de uma história:
— Você sabe por que esta casa é chamada de Casarão Flint?
— Não. Mas sabe, esse nome me é familiar. Só não consigo me lembrar.
Helena se levantou do sofá e começou a contar uma história.
— Foi há mais de cem anos. Essa casa pertencia a minha família. Apareceu um homem na cidade chamado Joseph Flint que tinha muito dinheiro. Na verdade tinha muito ouro.
— Como você sabe?
— Conta-se que ele pagava tudo com moedas de ouro. Comprou essa casa pagando uma fortuna fabulosa. Um baú cheio, é que o dizem.
— Ah, lembrei — disse Elisa excitada se levantando também — O Capitão Flint! Do livro “A Ilha do Tesouro”. É um dos livros que eu mais gosto. E esse cara dizia que chamava igual ao pirata do livro?
— Sim. E pagava tudo em ouro. Quer dizer, um homem chamado Flint gastando ouro. Claro que chamou a atenção — disse Helena.
— Obviamente.
— Então ele desapareceu.
— Quem?
— O Flint. Da noite para o dia. Ninguém mais soube de nada. Vários meses passaram e nenhum sinal dele. Foi meu bisavô, prefeito da cidade, que desapropriou a casa a pôs para leilão. Como ninguém mais comprava, ele mesmo recomprou a casa, que voltou pra minha família. A versão oficial, e que consta no registro da prefeitura, é que Joseph Flint provavelmente era um nome falso usado por um ladrão para gastar o dinheiro que roubara longe daqui. Mas quando o dinheiro acabou, ele fugiu sorrateiramente no meio da noite.
— E qual é a história não oficial? — perguntou Elisa.
— Que ele nunca saiu daqui. Dizem que ele era o próprio Flint do livro. O pirata sanguinário. E veio se esconder aqui, para gastar sozinho seu tesouro. Mas ele foi encontrado pelos outros piratas, que vieram no meio da noite e o assassinaram, escondendo seu corpo dentro das paredes do Casarão. Dizem que sua alma ainda assombra este lugar, pois foi aqui que ele morreu.
Elisa olhou para as paredes da Sala de Música.
— Legal! Legal! Legal! Uma história de emparedamento. E eu achando que isso era só na Inglaterra.
Helena riu alto da inglesa. Ela contando uma história macabra que assustava cada pessoa daquela cidade e Elisa ali, toda feliz. Seria só ela ou todos os ingleses eram assim doidos por fantasmas e histórias sangrentas?
Helena contou outras histórias e Elisa também contou algumas. Quando o sol começou a descer no horizonte, tingindo o céu de alaranjado, a filha do prefeito finalmente decidiu ir embora. As duas se despediram muito felizes depois de passarem o dia inteiro juntas.
Helena voltou para a própria casa caminhando alegre pelas ruas enquanto a noite engolia o dia. Quando estava perto de casa Helena foi abordada por uma mulher muito estranha.
Era uma velha baixa, coberta com um xale vermelho, muitos anéis e pulseiras brilhando com a pálida luz do fim do dia. Sua maquiagem era pesada e seus olhos escuros pareciam dois abismos sem fim. A cigana agarrou o braço de Helena e apesar de parecer frágil, era espantoso como a mão que a agarrava era forte.
— Se afaste dela. Cuidado!
Helena tentou se soltar, sem sucesso.
— Se afaste de Elisa! Se afaste.
A cigana a soltou e se afastou, mas sem desviar o olhar sombrio. A mulher não parecia andava, mas que deslizava sem tocar o chão. E quando ela entrou na sombra de uma árvore, ela disse:
— Ou ela será sua ruína!
Um vento frio tocou seu rosto e Helena fechou os olhos num arrepio. Mas quando reabriu os olhos, a cigana tinha desaparecido. A garota confusa virou a cabeça de um lado para o outro procurando a cigana.
Antes de entrar no portão de casa, ainda olhando para os dois lados da rua, Helena perguntou a si mesma:
— Quem diabos é essa velha?
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