O Relâmpago Vermelho

5 Capítulo 6 - Um inimigo e um novo amigo


Capítulo 6 — Um inimigo e um novo amigo

Como esperado, o início das aulas na academia cobriam a teoria básica da vida ninja, e muita coisa do que era dito, Naruto já havia lido nos livros introdutórios da biblioteca. Os professores tornavam o aprendizado mais rápido, simplificando muitas terminologias que Naruto não conhecia no livro, e o menino de cabelos ruivos não encontrava nenhuma dificuldade em seguir o que estava sendo dito.

Naruto era facilmente o menor da sua turma, tanto em idade quanto em altura, e seu status como pária da vila rapidamente o tornou alvo de chacota entre os colegas. Naruto tomou o hábito de se esquivar e esconder durante os intervalos das aulas, evitando assim boa parte dos seus perseguidores.

Seu professor de turma, Umino Iruka, sempre gritava para a sala ficar quieta, mas nunca repreendeu os seus assaltantes. Naruto se ressentia e se entristecia com o professor, percebendo o olhar de medo nos olhos do professor quando este se esquecia de fingir. Sem apoio de nenhum adulto e tendo que aguentar muito abuso dos colegas, Naruto decidiu que iria usar a situação ao seu favor e se aperfeiçoar em furtividade.

Foi quando ele estava treinando suas habilidades, esgueirando-se para a sua segunda semana de aula e tentando se aquecer da onda de frio, que Naruto se aproximou de uma cena.

A mesma gangue de três garotos que o persegue na academia se encontrava reunida em volta de uma garota pequena de cabelos curtos e olhos esquisitos, brancos sem pupila. Naruto havia lido sobre aquela família também nos livros de Konoha. Ela pertencia ao clã Hyuuga, conhecidos pelo doujutso Byakugan, os olhos que tudo veem. Naruto se aproxima, querendo saber porque estavam gritando.

— P-p-por fav-vor m-me dev-volve — gaguejou a menina, encolhida em si mesma como uma presa diante dos predadores.

Os garotos riram maldosamente.

— Quê, não ouvi — diz um deles, se aproximando ameaçadoramente e balançando um cachecol bege na mão.

— Olha esses olhos esquisitos, além de tonta é cega — comenta o outro. — Seu monstro!

Normalmente Naruto não interferiria, pois não era da sua conta. Porém a última palavra dita por um deles deixou-lhe vendo "vermelho".

Pegou um galho flexível do meio-fio, e se aproximou lentamente. Nada melhor para provar que seu treinamento estava dando certo do que enganar crianças idiotas.

A garota atrás estava chorando agora, escondendo os olhos nas mãos, talvez por isso não viu um dos bullies gritar como uma menininha quando um chicote invisível o atingiu na bunda.

— O que foi isso! — gritou o garoto, o líder grandalhão, esfregando seu traseiro e olhando em volta.

Dessa vez o som foi perceptível. Ziiiiiiiiip.

AIII! — berrou o magricela, agarrando seu traseiro e olhando aterrorizado em volta.
Nada estava visível.

Hinata olhou em volta, confusa por um momento, até reconhecer o ruivo escondido atrás da lata de lixo. Ele a olhou com os olhos azuis-violeta e piscou. Hinata sentiu seu rosto ficar vermelho. Infelizmente, aquela reação involuntária chamou atenção dos mais velhos para si.

— O que você pensa que está fazendo! — o grandalhão berrou e se adianta com o punho erguido. Hinata arregalou os olhos.

TCH-CHLACK!

Como em câmera lenta, do nada o que parecia um galho de árvore atingiu o punho fechado do garoto, fazendo-o uivar de dor, e uma figura pequena apareceu num flash vermelho à frente de Hinata.

— Deixem ela em paz — Naruto gritou, jogando o galho para o lado e tomando posição de luta na frente da garota.

Os garotos fizeram uma pausa e então, de repente, viraram as costas e fugiram.

Naruto fechou os olhos e riu — Heh, isso mesmo, fujam de medo seus covardes.

— Neji-nii-san! — a menina de repente falou com uma vozinha tão fina que fez Naruto querer coçar os ouvidos.

Atrás deles estava um garoto mais alto, de expressão séria. Ele usava uma faixa branca na testa e tinha os mesmos olhos da menina.

Os olhos do garoto mediram Naruto dos pés à cabeça, demorando-se no seu protetor de testa da Folha. Naruto estremeceu com a frieza naqueles olhos, aquele garoto com certeza não era boa gente.

Era por isso que os idiotas fugiram, então.

— Você é bem rápido — comentou o outro garoto com um tom de voz tão frio quanto seu olhar — Talvez você será um oponente digno para eu medir meu avanço.

— Huh — Naruto piscou, surpreso.

— Vamos Hinata — disse o garoto chamado Neji, virando as costas para os dois e se afastando.

Naruto se abaixou e pegou o cachecol de Hinata, sujo e um pouco rasgado. Ofereceu de volta à menina, que o pegou com mãos trêmulas e um "obrigada" baixinho.

Naruto acenou com a cabeça — Não deixe que eles te coloquem em categorias. A opinião deles reflete muito mais sobre o que eles são do que o que você é. Só você pode dizer o que você é. Eles me chamam de monstro toda a hora, mas eu sei que um dia vou me tornar o ninja mais poderoso dessa vila! E isso é o que me define.

A menina apenas o olhou com olhos arregalados. Depois de um ou dois segundos esperando uma resposta que nunca veio, Naruto coçou a nuca e se afastou. Hinata era estranha, mas o garoto chamado Neji era assustador.
Naruto esperava não encontrar aquele garoto tão cedo.

XXXXXX

Naquele dia, após a aula de leitura e escrita, a turma começou a aprender sobre chakra e técnica. Enquanto Naruto havia lido sobre a primeira palavra, o conceito da segunda estava perdido para ele. E por mais tímido que fosse, Naruto queria poder participar da discussão em sala.

Uma hora de tortura depois, a classe foi dispensada para o almoço. As crianças todas saíram correndo e Naruto se aproximou lentamente da mesa do professor, mantendo a cabeça baixa. Os adultos não gostavam quando ele os olhava nos olhos.

— Iruka-sensei?

O professor mexeu em alguns papéis e respondeu num tom casual — Sim, Naruto?

Naruto, que podia notar a tensão por trás do professor, se apressou a explicar — Poderia me explicar melhor o que seria uma técnica?

Por alguns segundos não ouviu resposta, então ergueu o rosto e olhou nos olhos do sensei — É que eu já li nos livros da biblioteca sobre o chakra e que você precisava dele para fazer ninjutsu, mas não sabia que o chakra é necessário para o taijutsu também, então acho que não entendi muito bem o conceito.

Enquanto falava, Naruto notou a tensão se esvair do corpo do professor.

— Bom Naruto, você já sabe então que nós ninjas utilizamos chakra para executar técnicas, certo?

Naruto assentiu com a cabeça.

— Uma técnica é uma habilidade que só foi possível executar com auxílio do chakra, com efeitos como andar sobre a água, cuspir bolas de fogo, ou criar ilusões. Nossas técnicas normalmente requerem uma certa sequência de selos.

Iruka-sensei então juntou as duas mãos e, em uma velocidade incrível, realizou uma série de selos. Houve uma explosão de fumaça e subitamente Naruto estava olhando para um clone exato seu. Deixando uma pequena exclamação de surpresa passar, Naruto se afastou por reflexo. Houve outra explosão de fumaça e Iruka-sensei voltou a ficar na sua frente.

— Essa técnica é chamada de técnica de transformação. É uma das técnicas de ninjutsu mais básicas, e nós iremos aprendê-la durante esse ano.

Animado, Naruto juntou as mãos e executou a sequência de selos o melhor que podia lembrar.

Nada aconteceu.

— Só fazendo os movimentos não será suficiente — disse o professor com um sorriso. Os olhos de Naruto se arregalaram: ninguém nunca havia sorrido para ele.

Iruka percebeu o olhar no rosto do garoto e tossiu — Bem, você pode ir agora.

XXXXXX

No intervalo, Naruto estava se esgueirando nos corredores, pretendendo encontrar um canto vazio para esperar o intervalo acabar, quando uma porta se abriu de repente.

— Ah, Naruto-kun — disse Mizuki-sensei — Porque não está lá fora com seus colegas?

Naruto balançou os ombros — Pensei em ficar aqui dentro um tempo.

Houve uma pausa e então o sensei abriu toda a porta e retrocedeu um pouco — Venha, eu tenho onigiris aqui.

— Onigiri? — pediu Naruto esperançoso, sentindo seu estômago roncar. Alguma coisa em Mizuki-sensei não era confiável, e Naruto não sabia explicar o porque, pois Mizuki havia sido legal com ele desde que eles se conheceram, porém como estava morrendo de fome e fugindo dos seus bullies, Naruto aceitou e entrou na sala. Mizuki fechou a porta atrás deles.

A sala do professor era pequena, com apenas a mesa de escritório, duas cadeiras e uma estante com livros, pergaminhos e canetas. Naruto olhou em volta curiosamente, até o professor abrir o bento e oferecer o que parecia ser deliciosos bolinhos para ele.

— Aqui Naruto, pode ficar à vontade.

— Puxa Mizuki sensei, você é tão legal! — exclamou o menino, pegando os hashis e agradecendo rapidamente antes de mergulhar na comida.

Não viu o sorriso de tubarão do professor — Não se preocupe Naruto, você pode se esconder na minha sala na hora do intervalo.

Naruto levantou a cabeça indignado — Não estou me escondendo!

Mizuki levantou as mãos em um gesto conciliador — Ei, eu entendo. Eu tive um amigo que também tinha problemas em se enturmar. Ele perdeu os pais quando era muito jovem e tentou compensar a perda fazendo palhaçadas.

— Eu não faço palhaçadas — resmungou Naruto com a boca cheia de arroz — Aposto que ninguém o chamava de monstro.

— Ei — chamou o professor, fazendo Naruto pausar a comida para olhá-lo. — Eu quero te ajudar, Naruto, portanto pode contar comigo com o que precisar. Somos amigos, certo?

Naruto piscou, achando estranho que o professor quisesse ser seu amigo, mas quem era ele para recusar amigos, certo? Fora jii-san e Kakashi-nii-san, Naruto não tinha ninguém para chamar de amigo. Além disso, seria bom ter um aliado dentro da academia, alguém com quem ele pudesse contar e conversar. Alguém que não o considerava como um monstro.

Depois de pensar por um tempo, Naruto assentiu — Tudo bem, podemos ser amigos. Você também pode contar comigo com o que precisar.

Mizuki-sensei sorriu amplamente.

— Fico feliz, Naruto-kun. Agora termine o seu almoço, está quase na hora de voltar.

XXXXXX

O escritório estava quieto por algum tempo. O Terceiro baforou seu cachimbo mais uma vez antes de olhar para o jovem na sua frente e suspirar.

— Você não pode ficar reprovando todos os times que encontra, Kakashi.

— Nenhum deles passou no teste básico, Hokage-sama — respondeu o Hatake ainda de joelhos com o rosto inclinado.

— Ah, o famoso teste do sino — o Terceiro comentou, nostálgico, com o olhar perdido no passado. — Se não me falha a memória, o objetivo do teste é testar o trabalho em equipe do time.

— E todos falharam sem exceção, Hokage-sama.

— Suas expectativas são muito altas, meu jovem — suspirou o velho — Conte-me sobre sua missão.

Kakashi fez uma pausa antes de responder — Os registros escolares reportam baixa inteligência, falta de foco e falta de respeito com os superiores nas tarefas escolares. No primeiro teste, Naruto fez 91%, porém seus pontos foram diminuídos por insubordinação em sala de aula e ele acabou com um score de 61%.

Hiruzen franziu a testa. — Quem está responsável pelos registros de Naruto?

— O professor responsável já foi removido e a função reatribuida à Mizuki-sensei.

— Hmm, parece que finalmente você está levando a sério essa missão — provocou o Terceiro, ficando novamente sério em seguida — Encontre esse professor e veja-o realocado para outra atividade fora da academia. Não vou ter crianças sendo prejudicadas por causa de preconceitos infundados.

— Hai, Hokage-sama.

— 91% no entanto... — Continuou o Hokage, balançando-se na cadeira. — Esse é um valor impressionante, ainda mais para um garoto tão novo quanto ele...

— Ele é... Uma criança muito inteligente. — admitiu Kakashi.

— Tal pai, tal filho... Talvez teremos mais um grande ninja nessa vila. E o seu trabalho é guiá-lo nesse caminho, Kakashi.

Kakashi fechou os olhos para esconder a dor profunda de se lembrar do seu sensei e assentiu. — Hai, Hokage-sama.

— Dispensado.

Assim que Kakashi saiu, Hiruzen se levantou e foi até a janela de seu escritório, olhando para a vila da folha envolta na escuridão da noite e pensando. Talvez fosse a hora de prestar uma visita a Naruto e sondar o menino um pouco.

Apenas para garantir que todo aquele conhecimento não tinha outra fonte senão a suposta grande inteligência do menino.

XXXXXX

Naruto estava voltando para casa, e utilizava outro caminho para esgueirar-se. Ele nunca usava o mesmo caminho, pois gostava de conhecer Konoha.

Foi quando ele passou por uma rua com um cheiro maravilhoso.

Naruto parou em frente ao restaurante, que lia em letras vermelhas Ramen Ichiraku.

Ao entrar no estabelecimento, vários moradores que estavam nas mesas próximas congelaram ao virem quem era. Naruto pensou por um instante que iria ser expulso do lugar, mas todo mundo se tornou pálido e assustado. Levantando-se, os fregueses saíram todos o mais depressa possível, deixando para trás pratos meio comidos.

Sentindo um arrepio correr pela sua espinha, Naruto sentou-se em frente ao balcão e conferiu o menu. O dinheiro em sua carteira era parco, mas ele julgou que poderia gastar um pouco só daquela vez.

O dono do lugar se aproximou com uma expressão fechada. Naruto esperou ser gritado, porém o homem só perguntou — O que vai querer?

— Huh, miso ramen — repetiu o primeiro item que se lembrou do menu, e menos de dez minutos depois um magnífico prato foi colocado em sua frente, fumegante, com um cheiro de dar água na boca e fazer seu estômago rosnar de fome.

Lentamente, Naruto provou um pouco, e uma sensação quente se espalhou pelo seu corpo. O gosto era delicioso, facilmente a melhor coisa que Naruto provara na sua curta vida. Ele facilmente inalou o resto, sobrando apenas o caldo grosso e suculento no fundo.

— Hey! — ouviu um grito atrás de si e a voz era horrivelmente conhecida.

Naruto tentou se encolher no balcão, esperando que não fosse com ele, porém estava sem sorte. Seu cabelo era como um farol no meio do escuro, facilmente reconhecível.

— Ei pessoal, é o tomate!

Os três garotos de mais cedo o cercaram no balcão, acompanhados de uma menina atarracada que estava na sua sala.

— Meu nome é Naruto — respondeu ele com a maior calma que conseguia. Lutar com a vantagem de não ser visto era uma coisa. Naruto não poderia lutar dentro de um estabelecimento comercial, não seria justo com o dono.

Os garotos provavelmente queriam se vingar da humilhação que sofreram mais cedo e esperaram o pegar desprevinido e em um lugar que ele não pudesse lutar sem que os outros habitantes chamassem a polícia Uchiha nele.

— O que disse, tomate? — o líder grandalhão fingiu não ouvir, o que provocou riso entre os outros — Nogi estava contando que você estava perguntando a Iruka-sensei o que é técnica.

— Sensei não podia nem acreditar! — exclamou a menina — Ele nos disse antes de você voltar para sala que você não sabia nada e era para gente te ajudar. — ela ergueu o nariz, como se a noção de ajudar Naruto fosse ridícula.

— Aaawww, o bebê precisa de ajuda pra trocar as fraldas? — o outro menino, um gordinho, se inclinou e pegou o prato de Naruto — Cadê a mamãe do tomate pra trocar as fraldas? Ah é, esqueci. Você não tem mãe.

Piscando, Naruto assistiu o menino gordinho tomar parte do seu caldo de ramen, pago com suas parcas economias de dias sem comer.

— Não é certo tirar sarro das pessoas que não tem pais — respondeu Naruto suavemente, embora dentro de si um sentimento de ódio estava começando a se formar.

— E o que você saberia sobre certo ou errado? Você não tem pais para te ensinar! — respondeu o grandalhão.

Naruto o olhou diretamente nos olhos — Como está o seu traseiro? Conseguindo sentar normalmente?

Imediatamente a atitude mudou de sarro para agressão aberta.

O grandalhão tentou empurrá-lo, mas Naruto se esquivou e se ergueu. No entanto, não viu a tigela de ramen que voou diretamente no seu peito.

— Ninguém te quer aqui, tomate! — gritou o gordinho. Naruto assistiu incrédulo o caldo grosso escorrer por suas roupas, arruinando-as e fazendo-o cheirar como um prato de ramen ambulante.

EI!!!

O dono do restaurante finalmente percebeu o que estava acontecendo e se aproximou, mas ao ouvir seu grito, as crianças tropeçaram em si mesmas para sair correndo.

Naruto observou o líquido oleoso pingar pelo chão todo sujo por um momento, em choque. Havia uma grande mancha preta no centro da sua camiseta laranja favorita que ele sabia que nunca mais sairia.

Ganhando controle dos seus movimentos, Naruto se abaixou lentamente de joelhos, recolhendo o prato que para seu alívio não quebrou. O dono o olhou com uma expressão que Naruto não reconheceu, e envergonhado, Naruto baixou a cabeça e se desculpou pela bagunça, colocando as moedas de pagamento no balcão e saindo sem dizer outra palavra.

Naruto correu o caminho inteiro para casa. Embora não estivesse sendo perseguido, sentia como se tivesse olhos acusadores queimando em suas costas, chamando-o de monstro, ou pária.

Em casa, ele começou a se trocar roboticamente. Foi só ao tentar desabotoar sua calça que percebeu que suas mãos estavam tremendo. Virou as palmas das mãos para cima, observando-as tremer por um momento antes de sentir um pingo em uma delas.

Pensando em goteiras, Naruto olhou para cima, mas nada veio do teto. Ao invés disso, ele sentiu um líquido escorrer pelos seus olhos. Ele estava chorando.

Pessoas normalmente choravam quando estavam com dor, ou porque estavam triste. Quando Buyo-chan morreu, Naruto certamente ficou muito triste. Suas emoções agora eram muito mais complicadas para ele definir.

Naruto começou a se sentir estranho. Havia uma sensação nebulosa tomando conta de seu corpo, afastando-o da sua consciência, que parecia estar sendo puxada para outro lugar. Havia um grande peso em seu peito, e distantemente ele ouvia seus suspiros rasgados e soluços sentidos, até que a escuridão deu lugar.

Ao invés disso, ele sentiu água sobre todas as suas roupas. Abrindo os olhos, Naruto percebeu que estava deitado no que parecia um esgoto enorme. Na sua frente havia uma grade e alguma coisa pequena segurando-a fechada.

Ali dentro, uma forma enorme respirou e a luz parca brilhou em uma presa enorme.

— Você é o monstro? — perguntou Naruto — O monstro que vive dentro de mim?

— Eu sou a Raposa das Nove-Caudas, o mais poderoso de todos os Bijuus — respondeu o animal enorme em uma voz profunda e retumbante — e você pequeno macaco, o que faz aqui em minha prisão? Veio me libertar?

— Então é realmente uma prisão... E você realmente está dentro de mim... — Murmurou Naruto, levantando-se e admirando as barras de ferro. A Kyuubi se moveu tão rápido que Naruto mal teve tempo de se afastar antes de um dedo peludo com um garra enorme quase cortá-lo ao meio.

— Ha, você foi enganado em pensar que era normal todo esse tempo garoto — A Kyuubi riu-se — Você é realmente o monstro que os outros macacos dizem.

— Não! Você é o monstro! — rebateu Naruto — Eu sou Naruto Uzumaki, futuro ninja mais poderoso da vila!

— Você soa muito como o outro macaco que me colocou aqui dentro — resmungou a raposa — Todos dessa raça infeliz humana pensam que são especiais, mas tudo o que sabem é destilar ódio e veneno nos outros.

— Não é verdade!

— Não? Mas você não acabou de me chamar de monstro?

Naruto se calou, percebendo que sim, chamara o Bijuu de monstro. Ele baixou a cabeça.

— Mas eu devo reconhecer que sou mesmo um monstro. Agora olhe o que todos esses macacos estão fazendo com você, uma criança. Da mesma forma que acontece com você, acontece com muitos outros. Sabe o que você deveria fazer?

— Humpf — bufou Naruto, cruzando os braços e não respondendo.

— Pirralho, pare já com essa insolência! — retumbou a Kyuubi — Se você quiser ser o ninja mais poderoso, tudo o que tem a fazer é falar comigo.

— Falar com você?

— Não me repita! — irritou-se a raposa — Eu detenho o conhecimento de todas as técnicas ninjas que seu pobre cérebro de macaco não conseguiria guardar. Posso te ensinar a ser o ninja mais poderoso, não só de Konoha, mas de todo o mundo.

Naruto arregalou os olhos. — Sério? Então me ensine!

— Deixe-me terminar! Pirralho insolente! — gritou a raposa mais uma vez. Naruto franziu o cenho, mas ficou quieto. — Eu tenho apenas uma condição.

— E qual seria? — quis saber o menino, desconfiado.

— Você usa do meu poder — a raposa então sentou-se dobrando as duas patas e apoiando a cabeça enorme nelas. Seus olhos vermelhos e cruéis estavam fixos na forma diminuta de Naruto — Será mais fácil aprender as técnicas deixando o meu poder fluir junto com se chakra. Depois que você aprender tudo o que eu julgar necessário, você pode continuar utilizando o seu próprio chakra.

Naruto piscou para a proposta, achando-a estranha. O que ele teria que abdicar em troca da ajuda da Kyuubi? O ruivo não acreditou nem por um segundo que a raposa estava oferecendo ensiná-lo da bondade do seu coração peludo. Não, algo estava errado.

— Pense nisso, pirralho. Agora saia, quero descansar.

E com um sopro, Kyuubi o baniu de volta para a consciência.

Naruto abriu os olhos e se sentou no chão do seu apartamento escuro, estremecendo ao perceber que ainda estava com as roupas molhadas de mais cedo.

A sensação pesada no peito transformou-se em pura tristeza ao perceber que sim, Naruto realmente tinha um monstro terrível dentro de si. Todo mundo sabia do ataque da Raposa das Nove-Caudas e seu efeito devastador em Konoha, matando muitas pessoas, inclusive o mais amado de todos os Hokages, Namikaze Minato.

A história contada era que o Quarto derrotou a raposa, mas isso não era verdade. De alguma maneira, Naruto acabou com a raposa presa dentro de si, e ele desconfiava que fora o Quarto que a prendera ali.

A questão era: porque? Porque Naruto? Porque não um ninja poderoso? O ataque aconteceu anos atrás, bem na noite quando Naruto nascera. O que significava que a raposa foi colocada dentro de si desde quando nascera. Será que era preciso ser recém nascido para ser uma prisão viva do monstro que dizimou Konoha anos atrás?

E aparentemente todos sabiam menos Naruto. Todos mentiram para ele, mesmo o que ele achou que se importavam com ele.
Emocionalmente exausto, Naruto rastejou na cama, nem se dando o trabalho de pegar as roupas sujas do chão.

O fato de que ninguém havia o contato só podia significar uma coisa: de alguma maneira, era perigoso que Naruto soubesse desse detalhe da sua vida.

Além disso, parecia ainda mais perigoso que ele demonstrasse conhecer a verdade.

Naruto teria que ter muito cuidado a partir de agora.

Continua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.