O Reino dos Morangos
4 Estranhos
Capítulo Quatro: Estranhos
Durante a década seguinte, muitas raças foram descobertas, a maioria está sendo estudada, outras possuem tão poucos espécimes que foram esquecidas. Uma das que mais chamou atenção foram os Mapiuns, pois estavam em grande número e nunca ninguém suspeitara de sua existência, ao contrário dos vampiros, fadas, lobisomens, duendes e todos os outros, não havia registro anterior da espécie nem em contos infantis. Tratava-se de algo como os lobisomens; ao passo que estes eram metamorfos capazes de se transformarem em lobos ou cães, os mapiuns podiam se transformar em um animal especifico dentro da diversidade de marsupiais. Através de estatísticas confiáveis, o Controle de Raças declarou em maio de 2145 que a raça Mapium representava 30% da população australiana, algo como 650 mil pessoas e que havia poucos espalhados por outros países, menos de 500. Tal isolamento foi explicado pelo fato de que os mapiuns só mantinham relações extraconjugais com seres da mesma raça, já que seu aparelho reprodutor era demasiado estranho, as mulheres possuíam duas vaginas e os homens, o pênis bifurcado, e de tais uniões resultava-se sempre um outro mapium. Tal anomalia também foi responsável pelo fato de que muitos da raça tornaram-se celibatários e em alguns casos, homossexuais. O país arcou com a nova espécie e cedeu a paradisíaca Ilha Fraser (declarada patrimônio mundial séculos antes) para a criação de uma ALC exclusiva à espécie, chamada o Anjo da Tasmânia. No entanto, atraídas por fim poderem se relacionar com outras raças, alguns mapiuns, ao invés de migrarem para a Ilha de Fraser, se dirigiram para O Reino dos Morangos.
Foram descobertos também os Faunos, criaturas que permanecem sempre com o mesmo aspecto humanóide, mas com a parte inferior do corpo de um bode e dois chifres no topo da testa, sendo maiores nos espécimes masculinos. Como nem todo cruzamento entre faunos resulta em outro fauno e por sua aparência exótica, estes estavam em um número muito pequeno e se refugiavam em florestas, não tendo qualquer contato urbano. O primeiro fauno foi avistado na Floresta Amazônica, nos primeiros meses da construção d’O Reino dos Morangos, o qual se tornou também seu refúgio. Havia lá também sátiros, que eram versões menores e mais humanóides dos faunos, que resultam do cruzamento de um fauno macho com uma humana fêmea.
É fácil distinguir um fauno de um sátiro. Os faunos são oriundos dos sonhos das árvores tropicais e possuem o dom da imortalidade enquanto, ao menos uma das setenta e três, cujo os sonhos lhe deram vida, continuasse em pé. Os sátiros, ao contrário dos seus pais faunos, são capazes de aprender qualquer idioma naturalmente e até mesmo assumirem a aparência totalmente humanóide, caso desejassem. Mas o que os tornam mais parecidos com humanos do que com faunos, é sua expectativa de vida. Um sátiro não é capaz de viver um numero maior de dias do que a sua própria mãe vivera, nem mesmo se fosse transformado em vampiro.
Os sátiros tornaram-se responsáveis pelo registro de seus parentes faunos no Controle das Raças, assim como as árvores que os originaram, pois era vital que não fossem derrubadas durante a expansão das ALC. N’O Reino dos Morangos, tornou-se costume cobrir os troncos e os galhos das árvores-mães-de-fauno com as frutas símbolo do reino, encantadas por fadas para que nunca murchassem.
Os vampiros encaixaram-se bem na crença popular. Não adoecem, apenas se tornam portadores de doenças e as transmitem pelo sangue. Suas feridas cicatrizam com uma velocidade anormal, e é quase impossível exterminá-los, além de não envelhecerem. Sua cútis perde grande parte de sua pigmentação após a transformação e isso muito os agrada, por isso evitavam o sol, que não os queima vivos, como nas lendas, e sim apenas escurece sua pele rapidamente.
Por terem os órgãos sexuais, como quase todos os outros, inutilizados, são incapazes de se reproduzir, portanto, novos vampiros só são criados através da transformação. Tal rito acabou sendo chamado de O Beijo e consistia, basicamente, do ato de o vampiro-pai retirar todo o sangue de sua cria e nutrir o corpo com parte do seu, logo após. Constatou-se que criaturas como mapiuns, fadas, faunos e lobisomens podiam ser Beijadas com sucesso.
As fadas mostraram-se o maior mistério dentre todas as raças. Assim como os faunos, são formadas por sonhos, mas neste caso mais inteligentes que as árvores, como humanos, lobisomens, vampiros e mapiuns. Como todos sonham todos os tipos de sonhos, a variedade feérica é imensa, assim como também suas habilidades especiais. Nenhuma fada é como a outra em nenhum aspecto e há até mesmo as que se assemelham com animais. Mas independente de sua forma, seu corpo não é tangível e apenas pessoas que conhecessem bem a si próprias são capazes de vê-las, mas é impossível tocá-las. Até onde se sabe, uma fada existe enquanto houver sonhos ou uma grande quantidade de boas sensações ao seu redor, não havendo necessidade de nada, nem de dormir, comer – nada. São a pura essência dos sonhos.
Sobreviver num mundo onde as criaturas cada vez sonham menos tornou-se quase impossível para as fadas. Entretanto, durante a Inquisição, na Idade Média, quando as pessoas se tornaram mais mesquinhas e racionais, as fadas descobriram uma forma de não se extinguirem. Caso achassem um raro humano sonhador, podiam compartilhar de seu corpo. Feito isso, o sonhador teria sua aparência física mudada com o passar dos anos e sua personalidade misturada imediatamente à da fada, ambas as medidas são necessárias para que a alma do humano e a fada vivam em equilíbrio.
Tal processo, conhecido como Desabrochar, pode ocorrer a qualquer momento, embora seja mais comum durante a infância do humano. Todo sonhador pode dar lar a uma fada, até mesmo sem que sua permissão seja concedida, mas é mais adequado que as fadas persuadam seus hospedeiros, já que um Desabrochar forçado pode resultar em conflitos de personalidade por toda a vida da meia-fada. Uma vez unidos, o corpo usado tem seu desenvolvimento levemente retardado e menos necessidades fisiológicas, como beber água, dormir, até mesmo respirar e torna-se também menos dependente de sonhos, o que salva a fada. Em contra partida, seus poderes feéricos são diminuídos drasticamente e só podem ser usados caso a meia-fada tenha sonhos ou sensações suficientes juntos de si. Essas meias-fadas acabaram sendo chamadas de devaneios, delírios ou até mesmo donzelas ou paladinos, dependendo do gênero.
Embora envelheçam devagar e possuam o corpo mais resistente, os delírios não são imortais. Caso o corpo morra, a fada simplesmente se desprende deste e volta a ser incorpórea, apenas mantendo algumas de suas memórias de quando compartilhava um corpo humano.
Um determinado grupo de delírios destacou-se, vindo a serem chamados de demônios. A diferença básica entre eles e os delírios comuns são as fadas das quais são formados, estas se alimentam de sonhos menos puros que as outras, que normalmente são ligados à ira, sexo, vingança, fome, desespero e acabaram sendo consideradas fadas más. Preferem se alimentar de uma grande quantidade de sensações do que de sonhos, já que, apesar de serem mais fracas, são mais fáceis de achar, ainda mais no aspecto deturpado que preferem.
Os lobisomens são metamorfos como os mapiuns, capazes de se transformarem ou em lobos ou em cães de uma raça específica e sua forma humana é completamente normal. Grande parte deles, embora não todos, possui um terceiro aspecto: uma junção medonha de homem e cão, ou lobo, dependendo do caso, que se torna muito grande e destrutiva. Durante o Conselho dos Males de Sangue, os lobisomens foram proibidos de tomar esta forma fora das ALC. Os lobisomens caninos foram vulgarmente chamados de Roedores e os lupinos de Lunáticos.
Até 2369, onde nossa história ocorre, foram estas as raças que formavam a maioria n’O Reino dos Morangos, nosso cenário. É necessário saber que, seres como lobisomens, fadas e sátiros, possuem familiares humanos, e estes também receberam autorização para viverem no reino.
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