O Reino de Lúcifer

1 Capítulo Único.


Fechei os olhos e tentei lembrar-me do meu nome. Já estava ali há tanto tempo que me esquecera dele. Mas lembrava de como chegara ali.

Era o dia das mães. Uma noite escura e fria.

Minha casa tinha dois andares. A cozinha, a sala, a sala de jantar, a copa e dois lavabos no primeiro, e o meu quarto, o quarto do meu irmão, o quarto dos meus pais e o banheiro no segundo. Ela tinha um cano que ia da cozinha ao meu quarto. Servia para que minha mãe e eu nos comunicássemos quando eu estava fazendo dever e precisava de ajuda, mas minha mãe estava fazendo jantar. Aí nos falávamos pelo cano.

Travis, meu irmão, usava o cano com outra finalidade. Ele tinha um estojo de química, e sabia fazer um soro que soltava uma fumaça fétida. E ela ia direto ao meu quarto.

Ele tinha vinte anos.

Éramos apenas eu, minha mãe e Travis.

Mas, voltando à história, eu estava no meu quarto, com as luzes apagadas, vendo um filme de terror, deitada em minha cama. As únicas luzes acesas eram as do corredor do segundo andar e a da cozinha, onde meu irmão estava fazendo seu dever de química. Só mais uma desculpa para encher meu quarto de fedor. Minha mãe estava no seu quarto, do lado direito do meu, lendo um romance.

E foi aí que eu escutei passos. Desliguei a TV. Eram rítmicos, pesados, arrastando-se para frente do meu quarto. Pela fresta embaixo de minha porta, observei duas sombras escuras viradas para mim. Percebi, logo depois, que eram pés. Depois de alguns segundos a frente da minha porta, ele se moveu pesadamente ao quarto de minha mãe.

Olhei para o cano e vi uma fumaça verde saindo dele. Achei estranho. A fumaça fétida, clássica de meu irmão, era branca. E só percebi o que era quando a fumaça chegou nos meus olhos.

Ácido.

Com os olhos ardendo como se estivessem derretendo, corri para o corredor e fechei a porta de meu quarto. E notei que ficara cega.

Escutei um tiros. Dois gritos desesperados varreram o silencio da noite. E percebi que um deles saíra de minha boca.

Tateei até encontrar a porta do quarto da minha mãe. Abri-a. Entrei, e tateei até encontrá-la.

Morta.

Seu corpo inerte estava perdendo calor sobre a cama, e em sua cabeça havia um buraco de bala ensopado com sangue.

Duas mãos surgiram de algum lugar atrás de mim, e me enforcaram. Eu gritei desesperada. Chutei. Esperneei. De repente, ouvi outro tiro. Mas eu estava viva. Então quem...?

Aí eu percebi que conhecia as mãos que tentaram me sufocar. E sabia que ele se suicidara.

Meu irmão.

*****

Cresci. Estava morando longe dali, com meus 20 anos. Sozinha. E no meu quarto, novamente no dia das mães, escutei uma voz, sussurrando meu nome no vazio. Ainda não conseguia ver. É claro que não. Estava cega desde os 12. Desde aquela noite.

Senti uma presença a minha frente. Reconheci o medo se aflorando em mim.

Travis. Mas como? Ele estava morto!

-- Olá, maninha... – sussurrou – Vim te buscar...

Ele emitiu um rosnado, que com certeza, não era humano.

-- Quem é você? – perguntei.

-- Ah, você me conhece. Meu nome está no livro mais famoso do mundo.

De repente, eu pude ver. Mas eu preferia continuar cega.

O que estava diante de mim era um monstro. Uma pele coriácea branca recobria o corpo levemente humanoide, como um fantasma. Seus olhos eram costurados como numa cirurgia, com um focinho animalesco enorme, com dentes de 30cm. Cobras saiam da sua boca, onde deveria estar a língua. Mais cobras surgiam em sua pele, devorando-o lentamente. Os braços eram longos, e tocavam o chão. Mas ele não tinha pernas, nem mãos. Onde ele tocava o chão, havia apenas uma poça de sangue. Ele emergia dela, como se atravessasse o chão.

Aí eu entendi. A Bíblia é o livro mais famoso do mundo. E lá, ele é nomeado como...

-- Lúcifer. – Disse.

-- E aí, maninha, o que me diz? Quer dar um passeio?

Ele me agarrou e me levou para baixo. Mergulhei no sangue, e sufoquei sem ar.

E quando abri os olhos novamente, vi sofrimento. Fogo. Castigos.

Eu estava no inferno.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!