Notas iniciais
Olá, sejam todos bem vindos à minha história.

Primeiramente eu devo avisar que amo esse enredo com todo meu coração.

A escrita é uma distração para mim. Um escape e uma forma de lidar com minha vida. Giarthio (e meus enredos de modo geral) é algo importante para mim, então devo agradecer por você dar uma chance para essa história.

O Reino de Giarthio, ou simplesmente Giarthio foi uma história que surgiu há três anos, mas eu acabei largando o enredo por parecer desafiador demais. Contudo, eu gosto muito de escrever e decidi dar mais uma chance para a história.
Já devo avisar previamente: EU ESTOU ESCREVENDO ESSA HIST?“RIA ENQUANTO POSTO e NÃO TENHO DIAS DEFINITIVOS PARA POSTAR.

Geralmente eu escrevo várias cenas de enredos antes de publicar, mas, como vocês devem perceber é minha primeira história aqui e eu decidi arriscar. Enredo diferente, método diferente e experiência diferente. Portanto, como eu sou uma pessoa com vida fora do site, que precisa lidar com obrigações e lazeres pessoais, não sei quando irei atualizar, embora tentarei o meu melhor.
Esse enredo é algo complicado, que exige pensar e raciocínio , tanto da parte de quem lê quanto de quem escreve. Então, você está ciente de que eu posso parar de escrever ou mudar o rumo da história, correto?
Então, se caso você não goste de capítulos incompletos e enredos sem pretensão de serem continuados... essa história não é para você. (mas, agradeço se der uma chance...)
Além disso Giarthio contém CAPÍTULOS LONGOS e temas que tratam de escolhas também possui uma classificação indicativa para maiores de 16 anos, podendo conter cenas de lutas, sangue, abandono, e abordar temas como ansiedade e desconfiança.
A história trata de uma temática na qual VOCÊ vai ajudar o personagem principal a se orientar perante a caminhos desconhecidos, então, meu caro leitor, você é uma peça importante aqui nesse enredo. Por isso, comentários e opiniões são muito bem vindos.
Sério, se me falarem o que vocês estão achando... isso vai me deixar super feliz.

Pars se orientar por aqui:

Primeiramente você terá a escolha das rotas sendo elas:
ROTA NORTE, ROTA OESTE, ROTA LESTE E ROTA SUL.

Após ter escolhido sua rota basta ir pelos capítulos com as opções indicadas, você terá algumas opções e escolherá aquela do seu agrado.

Um exemplo:
Rota leste-opção A

Se caso se perder não hesite em me perguntar, ok? Tentarei fazer o meu melhor para que tudo seja acessível.

Devo dizer, por fim, boa diversão.

Nossas escolhas nos fazem quem somos, mas se não sabemos para onde ir, deveríamos seguir a luz que um dia existira dentro de nós?

Pegadas eram vagarosamente cravadas na densa neve.

A criatura caminhava em um lento compasso e observava de longe, sentindo que algo não estava bem. Farejava algo por entre a densa neve, mas estava inseguro de seguir seu faro, pois poderia ser uma armadilha. A curiosidade precavida, aquele tipo de emoção a qual Teabyt bem compreendia, pulsava em seu olhar.

Ele temia armadilhas, afinal, estava enfrentando uma tempestade que não era prevista, e aquilo o assustava. A criatura já estava preparada para o frio, e seu único motivo para isso era a precaução, Teabyt tinha a tendência de estranhar o inesperado e a presença de uma pelagem quente também o ajudara com a nevasca repentina.

Os dentes batiam juntamente com os flocos que caiam no chão. Teabyt tinha a consciência de que cada floco de neve era único, e que eles haviam dobrado em quantidade por causa de um inverno que chegara sem aviso prévio. Os olhos ávidos e o faro praticamente impecável percorriam o cenário tentando entender a causa das pedras estarem brancas e das folhas terem sido cobertas por neve.

Olhava para o céu e sentia os lábios tremerem. Percebia as nuvens se escurecendo pouco a pouco e o vento ficando mais frio. Ele balbuciou uma frase pedindo piedade para alguma figura protetora e se perguntando o motivo de precisar encarar o que era mostrado no alto. Sabia que uma nevasca se aproximava e era maior do que muitas já vistas no reino, algo surreal e que simplesmente aparecera.

Aquilo era intrigante, mas também muito assustador.

O corpo de Teabyt tremia completamente, em partes com curiosidade para descobrir sobre a mudança climática e, por outro lado, com frio e temor. Precisava se esconder em algum lugar e deixar as dúvidas para outros que eram mais corajosos ou capacitados.

Ele poderia voltar para a casa. Ao olhar para as montanhas percebia que não estava longe e que daria tempo se caso corresse. A ventania fazia seus olhos marrons arderem, como se congelassem completamente. Talvez, se fosse esperto, estaria em um lugar quentinho, ou ao menos, melhor do que o cenário em que se encontrava.

Um pouco de neve caia em seus cabelos cacheados e descia por suas costas. Teabyt resmungou em um sobressalto e logo em seguida tentou se limpar. Ele estava quentinho, mas sua pelagem não era infalível, portanto, quanto mais a nevasca dava indícios de começar, mais Teabyt se questionava o motivo de não ter se afastado.

A criatura era medrosa. Sempre fora um covarde, portanto, era normal seus olhos estarem arregalados e sua boca estar aberta. Ele tremia conforme avançava, e se culpava por não estar andando na direção oposta e voltando pelo caminho que fizera. Não andava por heroísmo e muito menos por glória. Não seguia o odor desconhecido com pretensão de salvar milhares de pessoas e torcia baixinho para que o cheiro o levasse às pessoas que já estavam se ajudando com a tempestade.

Sabia que alguém estava em algum lugar da nevasca e esse fato o intrigava, quase tanto quanto a mudança de estação que parecera acontecer de um dia para o outro. Teabyt pensava que, a julgar pelo odor que não se mexia, ou havia uma pessoa com problemas ou uma casa quentinha. As duas opções indicavam que ele não poderia ficar parado, mesmo querendo muito. Enfrentar o desconhecido não era uma tarefa agradável para ele, contudo Teabyt sabia como era ficar imóvel no meio de uma nevasca, e por ter recebido ajuda na sua vez, tinha em mente que precisava retribuir, e se caso realmente existisse uma improvável moradia, pediria abrigo.

O vento ainda era suportável, fazendo com que a criatura conseguisse andar sem muito esforço. Às vezes cerrava os olhos para tentar se proteger da neve que caia. Percebia a paisagem completamente branca enquanto andava receoso, respirava com lentidão tentando não congelar. Passos cuidadosos eram a sua marca, e apenas por causa de seu faro era capaz de se orientar com um pouco mais de certeza em um cenário que parecia tão igual e monocromático.

O rastro o guiou até uma pedra grande e marrom, um local conhecido, entretanto não muito frequentado pela criatura. Teabyt se lembrava da última vez que esteve próximo à pedra e percebera que algumas árvores cresceram e algumas pedrinhas menores foram trazidas por animais. O grandioso arco, que simbolizava o ponto de ligação do reino, estava sólido e majestoso. As pedras marrons, que ficavam brancas por causa da neve, poderiam ser vistas de uma distância considerável. Era grande, bonito e fácil de ser localizado.

Formado por uma grande pedra e um interior oco, o enorme monumento chamava a atenção daqueles que decidiam se aventurar pelo reino. Entretanto, ele não estava fincado no chão apenas pela estética, mas também por indicar o centro. Partindo dele se ramificavam vários caminhos, que, apesar de não estarem indicados por placas, existiam.

O monumento de pedra, porém, não era a razão para qual Teabyt estava caminhando, mas sim, por causa do cheiro que estava embaixo dele. A criatura resmungou descontente ao perceber que nenhum abrigo fora construído próximo ao centro do reino, contudo arregalou os olhos de surpresa ao refletir que, se caso não havia ninguém morando perto das pedras, havia uma pessoa que não se mexia naquele lugar, e que provavelmente precisava de ajuda.

Seus dentes bateram de frio enquanto descia a pequena colina feita branca. Para sua sorte, o que seria a única coisa boa naquele clima inesperado, a quantidade de neve diminuía a diferença de altura entre a alta colina e o chão. Teabyt poderia amar escalar, mas por já ter estado em montanhas nevadas, tinha a consciência de que escaladas no verão com grama verde e clima ameno eram melhores do que encarar o instável tempo.

Ao se aproximar do grande arco de pedra conseguiu localizar uma silhueta caída no chão, por impulso correu até ela e percebeu que as feições da pessoa estavam rígidas de frio. Segurou as mãos pálidas e arroxeadas, logo depois checou a pulsação. A pessoa estava viva, mas inconsciente.

Teabyt não sabia há quanto tempo o corpo estava caído, tão duro quanto a pedra que estava em cima das cabeças dos dois. Alguém estava no chão soterrado por parte da neve. A criatura rapidamente limpou um pouco as roupas e os cabelos da silhueta, revelando sua aparência, que estava encolhida perante o frio.

Teabyt percebera, ao tentar tirar a neve de cima das vestes, que a pessoa utilizava uma jaqueta roxa, proveniente de pelos de algum animal e tingida com alguma tinta. O pedaço a mostra da vestimenta, já que a roupa roxa não estava completamente fechada, revelava uma blusa marrom. Ao olhar rapidamente percebia que o tecido era igualmente quente e provavelmente oriundo de uma lã.

A calça cinza possuía uma textura semelhante com a da jaqueta e as botas, de um tom parecido com a calça, eram feitas de couro e possuíam um cadarço que estava desamarrado. A criatura percebia que a figura parecia aquecida, embora caída com as mãos trêmulas de frio. Ele não culpava a pessoa desmaiada, pois mesmo com roupas quentes, ficar exposto à uma nevasca era assustador e prejudicial.

Contudo, uma dúvida surgia na cabeça de Teabyt, e era justamente o fato da silhueta estar tão aquecida.

A neve havia surgido de uma hora para outra, provavelmente começara de madrugada. Teabyt sabia que roupas de inverno poderiam ser compradas, arranjadas ou fabricadas mesmo fora de época, assim como existia a possibilidade de algum viajante que passava pelo local ter tentado aquecer a pessoa desmaiada. Mas, nenhuma das suposições fazia sentido na cabeça daquele que estava acordado.

Se caso a primeira ideia fosse a certa, deveria haver algum motivo para a silhueta estar tão agasalhada. A nevasca surgira sem avisos e, a não ser que alguém andasse sempre com roupas quentes, a figura deveria ter sido pega de surpresa pelo tempo congelante. Não existia nenhum sinal de pegadas, o que significava que grande parte da neve cobrira os rastros daquele que estava desmaiado, e automaticamente descartava a ideia dele estar no local há pouco tempo.

Considerando que a neve começara a cair no dia anterior e só se alarmara na manhã seguinte, não fazia sentido alguém aparecer com roupas com proteção para uma grande nevasca, já que ninguém era capaz de prever que o reino congelaria de modo tão brusco. Portanto, Teabyt estranhava o fato da pessoa parecer saber sobre algo, pois estava caída, aparentemente, antes de ser surpreendida.

A possibilidade de um viajante poderia ser boa, mas não parecia muito lógica. Ele não costumava andar para fora dos limites de sua casa, dessa forma, não era capaz de julgar se as estradas do reino, que estavam cobertas de neve, eram movimentadas. Portanto, alguém poderia estar com roupas quentes extras e ter vestido o desafortunado que desmaiara. A pessoa que passara já saberia da nevasca e tentara ajudar a silhueta.

Mas, não havia sentido em alguém apenas entregar roupas e não resgatar um corpo imóvel e que precisava de ajuda. Além disso, a neve não apresentava marcas recentes de carroças ou algumas pegadas. A suposta ajuda teria que ter passado pelo centro do reino muito antes, deixado algumas roupas e esquecido de resgatar a pessoa, o que seria uma coincidência um tanto improvável de acontecer.

Portanto, a segunda ideia possível era que a figura já sabia da nevasca, talvez antes do que a criatura.

Com cuidado, retirou a camada branca de seus cabelos revelando mechas loiras e lisas. Era um jovem. Um aldeão. Há anos a criatura não avistava alguém da aldeia, uma pessoa. Aquilo era inusitado. Um garoto estava encolhido na neve, com frio, desacordado e sem poder se defender.

A princípio, Teabyt pensava sobre aquele de cabelos loiros. Ele poderia ser útil, assim como poderia ser um fardo. Havia planos para o jovem, assim como a criatura mal sabia como ajudar. Ele se perguntava se conseguiria carregar uma pessoa desacordada até a casa em que morava, que era de difícil acesso em uma nevasca, ou talvez devesse tentar despertá-la. Quem sabe seria mais sensato deixá-la caída na neve e esperar que alguém mais preparado o encontrasse, afinal, talvez tentar abrigar uma pessoa enquanto uma tempestade se preparava para começar pudesse atrapalhar sua vida.

Além disso, não sabia nada sobre o jovem e muito menos onde ele morava. A criatura cogitou a possibilidade de tentar correr por um dos caminhos. Sabia que não havia muitas pessoas que moravam no centro do reino, mas se tivesse sorte poderia encontrar algum pequeno povoado ou andarilhos e assim avisar sobre um garoto desmaiado. Entretanto, aquilo soava arriscado demais, tanto quanto gritar por ajuda com todas as forças que estavam em seu corpo.

Pensou em tentar montar um abrigo com neve, se fosse rápido montaria um pequeno para proteger o jovem e correria para sua casa, e se caso tivesse tempo, faria um grande o suficiente para esconder os dois. Mas, ao se lembrar de que uma nevasca colossal começaria e que o abrigo seria feito de neve, voltou atrás. O risco de soterrar seria grande, e provavelmente ninguém apareceria para salvar os dois.

Teabyt passara perto do arco algumas vezes e percebera que aquele lugar poderia ser movimentado, mas apenas quando era conveniente. E em dias de nevasca, qualquer um que morasse nas redondezas estaria ocupado demais tentando se proteger. Existia uma aldeia grande, com várias pessoas, mas chegar até o local não era tão simples, era demorado e não era certeza que ele alcaçaria o destino, principalmente com a neve. Tentar ir sozinho não garantiria tempo de salvar o jovem antes da grande nevasca e ele não confiava que sua recepção seria agradável, mesmo se fosse acompanhado.

Outros caminhos também pareciam bons, e ao mesmo tempo, terríveis opções. Não existia atalho e todos os cantos soavam convidativos e amedrontadores. Olhava para os lados tentando descartar as soluções ruins, os caminhos que não tinham tanta possibilidade de sucesso.

O centro do reino parecia ter escolhas infinitas, e isso era uma verdade tão cortante quanto o vento frio.

Teabyt recuou por alguns segundos cogitando se seria sensato avançar. A pessoa que desmaiara poderia ter poderes mágicos, controlar o tempo ou prever o futuro. Suas orelhas abaixaram em um sinal de que poderia voltar para a casa se quisesse. O céu estava apresentando nuvens mais densas e o vento aumentando, contudo, era só ele se apressar.

Ele arregalou os olhos se perguntando quantas coisas o aldeão saberia a seu respeito. Teabyt refletia se ele deveria confiar no jovem, ou se o garoto confiaria nele. A reação daquele que estava caído na neve poderia ser a salvação ou a ruina da criatura. Poderia mudar a vida daquele que estava acordado para melhor ou para pior.

O vento aumentava e a neve gélida caía nos cabelos da criatura.

Teabyt não podia deixar alguém congelar, não seria sensato e ele se culparia por isso. Entretanto, estava com medo, era covarde e não queria morrer na neve.

Ele não sabia o que fazer, entretanto, antes que pudesse decidir entre tentar voltar para seu lar ou pensar em como ajudar o jovem desacordado, sentiu uma mão segurar sua perna.

“E-ei.” A silhueta murmurou com dificuldade. “Te-tem alguém ai?” Perguntou baixinho sentindo os dentes baterem de frio.

Teabyt deu um salto, sentindo seus pelos se arrepiarem com medo. Olhou para o jovem que se mexia levemente sem conseguir abrir os olhos. A respiração dele era pesada e cansada, embora não demonstrasse sinais visíveis de machucados. A criatura se abaixou e disse no mesmo tom de voz.

“Eu estou aqui, não tenha medo.”

O desacordado queria assentir, contudo não sentia nada além de dor. Ele xingava baixinho sentindo as forças que possuía se esvaindo aos poucos. A cabeça girava de uma maneira enjoativa e ele tentava abrir os olhos, mas estava congelando.

Ele sentia o nariz congelar quando a neve caia nele. Tentava se lembrar de onde estava ou de como chegara ao local, mas não era tão fácil. Mal se recordava de já ter passado por um dia tão gélido. Ou melhor, não tinha lembranças de nenhum dia vivido e isso era, no mínimo, estranho.

A pessoa segurava com força a perna de Teabyt, pois não conseguia gritar sobre a fraqueza que sentia e muito menos sobre o tanto que precisava de ajuda. Estava confuso, não conseguia se recordar de seu nome, sua história e muito menos o que fazia em um lugar congelado. Sentindo suas mão perderem o movimento, soltou a perna.

“Droga.” Murmurou para ele mesmo com os lábios congelados. O jovem espirrou, estava com um frio inexplicável, estava perdido, sabia que seu destino seria morrer na neve.

Um chacoalho repentino aconteceu e o jovem sorriu por dentro. Sabia que alguém ainda estava do seu lado. Ele iria pedir ajuda e tentar descobrir o que estava acontecendo independente da dor e preguiça que sentia.

Aquele de cabelos loiros abriu os olhos com completa dificuldade e viu uma silhueta de algo que parecia humano, mas possuía chifres. Ele sentiu seu corpo latejar, provavelmente sua mente desesperada e confusa estava pregando uma peça no garoto. Ergueu a cabeça, mas estava pesada demais, despencou na neve.

Novamente a voz aflita apareceu. A pessoa sentiu uma mão trêmula segurar sua cabeça e a erguer.

“Ei! Ei! Você está bem?!” Perguntou em uma voz esganiçada, que fez os ouvidos do aldeão doerem.

“Si-sim...” Ele murmurou com muita dificuldade, ainda tendo sua cabeça sustentada pelo dono da voz. A pessoa sabia que não estava bem, mas preferia não deixar quem tentava o ajudar ajustado, pois a julgar pela mão trêmula já estava suficientemente desesperado.

“Então... por que não abrrre os olhos?” Perguntou novamente hesitante enquanto puxava o “R” de modo nervoso. “Só um pequeno esforço, por favorr.”

O loiro balançou sua cabeça em negação. Sabia o que queria dizer, mas não tinha forças para isso. Gostaria de gritar com toda sua força que estava congelando e só queria um lugar quentinho e uma explicação sobre o que estava acontecendo, mas você não conseguia.

A voz cutucou seu nariz gelado, e você reparou que as mãos dela pareciam feitas de pelo, imaginou uma luva quentinha e alguém bem agasalhado.

“Eu estou ficando assustado.” Murmurou. “Você está morrto?” Perguntou, mais para ele próprio do que para o aldeão. Ele subitamente se perguntou quanto tempo faltava para a própria vida sair totalmente de seu corpo.

O jovem negou. Mesmo de olhos fechados, conseguiu imaginar uma expressão sugestiva na cara daquela silhueta.

“Então... abrre os olhos, você parece morrto, está me assustando.” Confessou, ainda hesitante. “Você não pode estar morto, eu vi sua pulsação.” A criatura completou. “Isso deveria ser impossível.”

Teabyt sabia que o garoto estava vivo, mas ver alguém congelando e com lábios arroxeados na sua frente era algo amedrontador. O jovem estava gelado e parecia perder seus movimentos aos poucos, sendo apavorante. Teve medo de carregar a pessoa e acabar derrubando seu frágil corpo. A criatura tinha que esperar a possibilidade dele abrir os olhos.

O jovem compreendeu que ele parecia querer ajudar, mesmo ele tendo uma voz que incomodava e uma dificuldade de ficar calado. Os ouvidos doíam e seu corpo estava estático. Tomou fôlego e tentou novamente.

O garoto viu que seus olhos não estavam mentindo, e aquele que foi o motivo de seu espanto, recuou para trás, assustado com sua reação. A boca do jovem estava entreaberta juntamente com o estômago embrulhado. Sua mente parecia confusa ao olhar para quem tentara te acordar.

Teabyt era a criatura mais surpreendente e bizarra que ele já vira. Possuía galhadas na cabeça e estava coberto de pelos, uma grossa camada que cobria até seus joelhos. Tinha cascos no lugar dos pés, além de um pescoço maior do que um pescoço comum e um nariz pontudo e um tanto longo. Sua pele era negra e era mais clara nas bochechas, como uma maquiagem.

“Está tudo bem?” Ele perguntou, ainda tremendo. O garoto sabia que a criatura também estava assustado, talvez decepcionado com o modo que o jovem o encarava. Mas, ele estava com muito medo para pensar em trocar de expressão.

“O- onde estamos?” O garoto murmurou com dificuldade.

Teabyt arqueou as sobrancelhas de modo confuso.

“Você não sabe onde estamos?!” Perguntou surpreso.

Você negou.

Ele abriu os braços e disse com uma empolgação sincera.

“Estamos no reino de Giarthio!” Riu baixinho, sentindo suas bochechas ficarem vermelhas de vergonha. “Ou apenas Giarthio, se você preferir.”

Giarthio. Ele pensou sobre esse nome tentando se lembrar de mais alguma coisa, mas parecia nunca ter ouvido tais palavras na vida. O garoto realmente estava perdido e não sabia o motivo para isso. Teabyt olhou para as feições confusas do jovem, mas nada disse. Provavelmente já tinha entendido o quanto ele estava desnorteado.

“Sei que ainda não nos aprrresentamos. Mas, quando te achei você estava aqui caído na neve! E eu quis te ajudar.” Ele disse hesitante novamente, mudando o peso de um casco para o outro. “Desculpe se te assustei.”

“Relaxa...” A figura murmurou tentando encontrar forças.

“Eu sou Nisky.” A criatura estendeu sua mão para ajudar o loiro a se levantar do chão branco. Ele sentia a mão peluda e quentinha da criatura. “E você, quem é?”

Ele não se lembrava de seu nome. Resolveu ser sincero.

“Eu não sei.”

Teabyt a principio riu, mas arregalou os olhos novamente ao ver que o jovem não estava brincando.

“Você não sabe?” Perguntou surpreso.

“Não.” A figura levou as mãos a cabeça, pois estava latejando. “É como se eu não conseguisse me lembrar de nada.” Ele suspirou. “Eu não sei quem sou e...”

Contudo o garoto perdeu as palavras e se surpreendeu ao olhar para suas roupas quentes. Havia um colar em seu pescoço, que não fora notado, nem por ele, nem por Nisky. Ao segurá-lo se deu conta de que era uma chave dourada com uma inscrição.

Os olhos dos dois se arregalaram, a chave estava em bom estado, embora um pouco enferrujada. Uma frase estava um pouco apagada, mas o jovem franziu o cenho para tentar ler.

“Richary Behtacaloo?” O jovem perguntou desentendido. “Isso é um nome?”

“Talvez seja o seu, de qualquer forma, você precisa de um.” A criatura sorriu.

Nisky parecia apreensivo, contudo curioso. O jovem desmaiado possuía uma corrente que continha uma chave. Teabyt não sabia a função do objeto e a julgar pela cara do garoto, ele também não sabia. A neve aumentava.

Teabyt não tinha certeza se deveria confiar em Richary, os dois mal se conheciam e o loiro poderia estar escondendo coisas. Talvez ele causara a nevasca, mas parecia realmente não se lembrar de nada. Os olhos verdes e confusos pareciam sinceros.

A criatura olhou para o céu e estremeceu. Não daria mais tempo para voltar para a casa ou ir por um longo caminho. Deixar Richary no chão não parecia certo e, ao julgar pela situação, o garoto tinha tanto medo de Teabyt do que o contrário. Eles tinham que se abrigar juntos, era o mais sensato.

Richary tentava se lembrar de algo, mas apenas tremia de frio e desconforto. Não sabia seu nome, onde estava e nem se tinha família. Virava a chave por entre os dedos e percebia que, do lado oposto ao suposto nome, estava um símbolo meio apagado. Aquilo não fazia sentido nenhum.

“Abra o maior tesouro?” O garoto murmurou tentando desvendar as letras gravadas. “A frase não tem final...” Disse cabisbaixo. “O que você acha que significa?”

Nisky negou qualquer palpite, pois não conseguia pensar em nada.

“Você tem família?” Teabyt perguntou na esperança dele se lembrar de algo. “Quando essa tempestade passar você pode ir para a casa.” Ele não queria se apegar ao garoto, seria ruim para ambos os lados.

Ele negou e Nisky resmungou baixinho.

A criatura olhou para o céu e arregalou os olhos de modo nervoso. Eles precisavam se apressar, caso contrário seriam soterrados. Ele estava aflito.

“Então...” Ele falou tentando amenizar o silêncio. “Você é um sem rumo na vida, certo?”

Richary assentiu, embora se sentisse um tanto ofendido. Nisky percebeu as expressões dele e se desculpou.

“Desculpe, Richary eu quis dizer que você é um perdido... que você está perdido.” Ele balançou a cabeça freneticamente. “E-eu... eu atrapalho tanto! Eu falo demais!” Gritou. “Me desculpe!”

“Está tudo bem.” O garoto tentou acalmá-lo “Sim, eu estou perdido.” Respondeu.

Teabyt pensou um pouco, olhou para o céu, depois para Richary Behtacaloo. Tirou a neve das galhadas com uma feição de incomodo e respondeu com os olhos arregalados.

“Seguinte. Em menos de horas uma tempestade feia de neve vem aí. Com o risco de soterrar.” O loiro estava com a expressão apavorada, não queria ser soterrado. “Mas, tem duas chances da gente se salvar.” Prosseguiu. “Nós temos duas opções.” Teabyt comentava enquanto olhava para seus olhos de modo apreensivo. “Na verdade temos mais, mas só considerro essas duas viáveis.” Confessou. “Vamos andar em uma dessas direções.” Apontou para a direita e depois para a esquerda.

Richary assentiu, ele não sabia nada sobre os caminhos possíveis e, ao julgar pela perda de memória, sentia que não tinha escolha a não ser confiar na criatura.

“Giarthio é um reino muito bonito!” Comentou olhando para o céu e checando as nuvens. “Aqui existem vários lugares.” Olhou para o garoto. “Florestas, vilas, montanhas, cavernas, matas, lagos...” Teabyt respirou fundo. “Mas, não temos tempo para ver tudo isso, portanto, decidi que teremos mais chances de sobrreviver se formos para leste ou oeste.”

“Existe algum lugar onde saibam quem eu sou?” Richary perguntou desesperado. A ideia de estar sem memória não soava bem.

“Eu não sei...” Nisky respondeu. “E não sei se dá tempo de descobrir, mas eu queria que você escolhesse...” Torceu as mãos. “Se não for pedir muito...” Abaixou a cabeça. “Eu poderia escolher, mas, honestamente? Faz um tempo que não saio de casa.”

O jovem percebeu que a voz da criatura ficara mais baixa, envergonhada e menos frenética. Sua confissão parecia sincera e, por algum motivo, dolorosa. Ele odiava o fato de ter que escolher uma direção, já que mal conseguia levantar e se vi dolorido e cansado, entretanto, protestar apenas perderia tempo e Nisky parecia preocupado com a nevasca. Richary também queria viver, então decidiu aceitar.

“Certo, quais são as opções?”

O vento aumentava juntamente com o sotaque carregado daquele com galhadas.

“Se tomarmos o caminho leste iremos para perto da vila.” Ele prosseguiu. “A parte boa é que podemos achar várias pessoas, e a ruim é que a vila não é tão perto assim.” Richary murmurou um palavrão com frustração. “No caminho para a vila temos uma estrada rochosa, na qual podemos encontrar cavernas e quem sabe alguém morando nela. Acontece que a estrada é plana e baixa e, por estarmos com muita neve, a gente pode atolar.”

Richary tentava entender. Tinha acabado de acordar, estava dolorido, cansado e com frio. Ficara desmaiado na neve por horas, quem sabe até por um dia inteiro, e para piorar não parecia ter lembranças de quem era. Ele não queria escolher, mas a julgar pelas feições de Teabyt, ele precisaria.

O estômago do jovem estava embrulhado, Richary estava com fome e sabia que ia precisar encarar uma longa caminhada, mesmo com as pernas bambas depois de um desmaio.

“Certo.” Ele disse analisando a possibilidade. “Mas, e a comida?”

“Acho que não teria problema em você ficar o resto do dia sem comer, terria?” Nisky deu de ombros ao olhar para a feição indignada do jovem. “Mas, lá perto das cavernas é o lugar onde animais escondem comida, além disso, existem algumas árvores frutíferras.” Prosseguia à medida que observava as nuvens de modo apreensivo. “Como essa neve começou sem aviso prévio, vai dar para salvar algumas coisas...”

Richary Behtacaloo se perguntava o que significava dizer que a neve tinha caído sem avisar, entretanto, preferiu não interromper Teabyt.

“Podemos pegar alguns galhos para fazer uma fogueira e nos proteger do frrio. Além disso, a gente estarria consideravelmente longe da vila, mas não significa que ninguém morra lá!” Completou. “Talvez existam pessoas que se abrriguem nas caverrnas e poderiam até dividir a comida conosco.”

“Então estaríamos quentes e de barriga cheia, né?”

“Bo-bom...” A criatura gaguejou. “Te dou a certeza de que existem cavernas, árvorres para pegarmos madeira e frutinhas. Só que eu não posso garantir que o alimento estará em um ótimo estado ou que haverrá outras pessoas abrrigadas.” Ele pegou um pequeno galho no chão e balançou a cabeça com desaprovação. “Tsc. Os galhos estão molhados demais, não sei se darria para acender.”

O jovem estremeceu. Se aquecer era uma parte essencial de sua sobrevivência.

“E quanto ao outro caminho?” Questionou sentindo seu nariz congelar.

“Já na parte oeste temos uma cachoeira, uma parte mais desconhecida e antiga do reino, podemos encontrar habitantes, mas não é tão seguro quanto a vila ao leste.” Ele falava. “Existe uma caldeira lá, ainda não sei se ainda está ativa, mas acho improvável não existir nada no local.” Prosseguia. “Podemos passar a noite na velha caldeira, mas o caminho não é tão simples.” Nisky olhou para a esquerda indicando a vegetação. “Existem videirras no chão e uma florresta se decidirmos continuar por lá. Contudo, o risco da nevasca nos soterrar é mínimo.”

“Velha cadeira?” Richary perguntou baixinho, colocando as mãos nos bolsos para tentar se aquecer.

“Hm-uh.” Teabyt assentiu. “Existia um velho trem em Giarthio, mas ele foi substituído e desmontado. A parte que o maquinista ficava, um vagão com uma caldeirra, ainda está no lugar. Mas, provavelmente, está velha e enferrujada agorra.” A criatura estreitou os olhos quando uma forte rajada de vento surgiu. “Não sei o quanto você sabe sobre caldeirras, mas assim como elas são extremamente quentes com o fogo, podem ser bem geladas ao vento frrio.” Aquele com galhadas estremeceu. “Sobre a comida, acho que podemos tentar caçar. Há uma floresta não muito distante e alguns animais prrecisam cruzá-la, além disso algumas pessoas podem, ainda, viver na floresta, embora não seja certeza.”

“Acho que estou entendendo.” Falou Richary.

“Me avise se estiver confuso, tá bom?” Nisky enrubesceu levemente, pois parecia estar jogando muitas informações. “Resumindo, no caminho oeste, nós temos proteção, fogo e caça, mas não é certeza que tudo estará disponível. Não sei se conseguirrei caçar e você parrece estar em condições piores do que eu.” Prosseguiu. “No leste temos abrigo e podemos tentar achar alimento, nos dois lugares pode ou não existir alguém perto.”

Tudo aquilo era confuso demais e Richary precisava pensar. O lado oeste possuía uma caldeira, mas ela poderia estar em péssimo estado, além de que cortes na ferrugem poderiam contaminar. Não era certeza que existiria uma caça, mas ao menos, teriam fogo. O lado leste era mais perto de uma vila, o que seria um ótimo lugar para Richary tentar entender quem era e saber mais sobre suas origens, já que teria contato com mais pessoas. Existia uma caverna, mas o aquecimento não parecia certeiro.

O solo do caminho da direita era baixo e com fácil risco de soterramento, já na esquerda era desafiador, com plantas que podiam prender os pés, fazendo os dois caírem. A parte oeste era mais antiga, então talvez não encontrassem muita gente no lugar. Além disso, ao considerar que Nisky não citara o norte, o sul ou qualquer outra direção, aqueles dois deveriam ser os melhores caminhos.

O caminho leste possuía abrigo, comida e maior possibilidade de existir pessoas, contudo, o aquecimento não era provável. O oeste possuía uma caldeira que resolveria a maior parte dos problemas, se ela ainda existisse. Os dois solos pareciam complicados, e Richary não sabia nada a respeito de amigos ou família, portanto, não era certeza que ele morara na vila ao leste.

A criatura com galhadas estava apreensiva, o tempo parecia se esgotar. Os dois desconhecidos tinham que confiar um no outro e o objeto em seu pescoço não parecia de grande ajuda.

O garoto olhou para os dois caminhos e respirou fundo, ele estava apavorado, mas sabia que não desistiria facilmente. Teabyt tremia, mas assentiu avisando que não questionaria ou interferiria na escolha. Uma tempestade iria chegar e eles poderiam fugir para a caverna ou a caldeira.

Só dependia dele, portanto, enquanto apertava a chave em suas mãos, pensou em uma coisa que pareceu aquecer seu gélido rosto.

Richary descobriria mais sobre sua própria história.

Você escolhe.

ROTA LESTE.

Ou

ROTA OESTE.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.