O Reino
1 Prólogo
Notas iniciais
— Boa noite, cidadãos de Meyer! Estamos de volta dos comerciais!— Gary, o apresentador, gritou, fazendo palmas gravadas fossem ouvidas.
Endireitei a minha postura quando voltamos ao ar. Meu pai estava ao lado, sorrindo como nunca. Passei a mão pelo meu vestido verde, sentindo as camadas. Tentava pensar em algo que não fosse aparecer na TV. Já havia feito isso muito outras vezes, mas sempre ficava nervosa.
— Você parece nervosa— meu pai disse, mas sem desviar o olhar do apresentador.
Estávamos nos bastidores, nos preparando para entrar. O diretor do estúdio iria nos indicar para entrarmos e nos juntarmos a família Real, o que poderia ser a qualquer hora.
— Eu não estou. Mas se estivesse, você se importaria, papa?— perguntei, forçando um sorriso, que logo foi desmanchado.
— Não seja mal criada, Olívia!— esbravejou, agora desviando a sua atenção para mim.
Cruzei os braços, observando o estúdio. Fechei os olhos e suspirei. Sim, eu estava nervosa.
— Muito provável que você aí de casa esteja assistindo este programa só para saber qual é o anúncio que a família Real de Meyer tem a fazer e pelo grande sorteio das selecionadas, mas não culpo vocês, eu também estou muito ansioso! Sem mais delongas, o rei Charles irá fazer o primeiro anúncio!— ele disse, apontando para Charles.
Os três nobres estavam sentados em tronos sob em palco mais elevado e iluminado. O trono do rei vinha por primeiro, seguido da rainha e do príncipe. O rei possuía cabelos castanhos com alguns fios grisalhos. A sua expressão transmitia bondade e alegria, tal como me lembrava. A rainha estava sorrindo, mas os seus olhos eram opacos, não transmitiam brilho algum. Talvez fosse tristeza? Não sabia, nunca cheguei a conhecê-lá. O príncipe mais velho possuía cabelos castanhos iguais ao do pai, e olhos verdes, iguais aos da mãe. Ele parecia nervoso, desconfortável. Eu o entendo. Também estaria assim se fosse obrigada a ter que escolher alguém para me casar entre 35 candidatas.
— Olá, boa noite a todos— disse o Rei— Desde que Meyer foi fundada, nossos antepassados lutaram bravamente pelo que era certo para que a paz prevalecesse. Hoje, conseguimos prosperidade e nós estabelecemos como uma nação respeitável, tudo graças ao ao trabalho árduo que temos feito dia a após dia. Essa vitória é sua, é minha e de todos nós!
A família Real aplaudiu as palavras assim como todos presentes no estúdio. Depois que se cessaram, ele continuou.
— É com um imenso prazer que eu anuncio um tratado de paz e de apoio entre Meyer e a França. E com grande alegria, eu convido para entrar os monarcas deste país tão nobre!— disse o rei, com um sorriso estampado em seu rosto.
Meu pai deu uma última ajeitada no terno, e estendeu o seu braço para mim. O aceitei a contragosto, e quando o diretor fez o sinal, nos dois entramos na frente da câmera juntos. Forcei mais um sorriso, pois nos os soberanos da Françatemos que parecer perfeitos.
Todos os membros da família Real se levantaram e fizeram uma reverência para nós. Eu e meu pai retribuímos as reverências. Dirigi um olhar discreto para o príncipe. Ainda estava nervoso.
Sentei em meu lugar, que era um trono menor do que todos os outros inclusive o de meu pai. Era vermelho e extremamente confortável, mas nada comparado ao meu próprio. Meu pai não havia sentado, ainda estava de pé, ao lado do rei Charles.
— Posso dizer que também estou muito feliz com a nossa aliança. Juntos, seremos muito mais fortes— mais palmas— Porém, não quero tomar o momento que tantas garotas esperaram. Para ser sincero, estou igualmente ansioso para saber quem serão as selecionadas.
Risadas no auditório. Meu pai e o rei Charles se sentaram, e então, Gary assumiu o comando do programa.
— Se as majestades falaram, então está falado! Mas antes de conhecermos essas adoráveis damas, tenho o prazer de conversar com o homem do momento, o príncipe Isaac— disse Gary, chamando o príncipe para o centro do palco.
Após um aperto de mãos, os dois se viraram diante das câmeras, e então, eu não pude mais ver o rosto do príncipe.
— Então, Alteza, ansioso para conhecer as belas damas com quem passará um bom tempo?— Gary perguntou, levantando as sobrancelhas.
Isaac hesitou, mas logo recuperou a sua postura. Ele parecia ser tão sério.
— Sim, e bastante nervoso para ser sincero. Mas creio que será uma boa Seleção— respondeu, dando um sorriso contido.
— É assim que se fala, Alteza. Outra pergunta: Como é de conhecimento geral, a Seleção abrange garotas de reinos aliados de Meyer, então esta preparado para conhecer garotas de outros lugares?
— Acho que será muito interessante. É sempre muito bom conhecer pessoas de outras culturas— mais um sorriso, mas deste vez, a sua voz vacilou.
Gary assentiu.
— Muito bem, Alteza, obrigada pelas respostas sinceras. Agora é o momento que todos esperavam. Senhoras e senhores, unam-se ás minhas felicitações para as seguintes damas!
Gary se afastou do príncipe para que este não pudesse ver as fichas em sua mão. Isaac ainda estava no centro do palco, olhando para um telão que iria aparecer para nós as fotos das selecionadas. A Seleção começava naquele exato momento, e eu, estava na primeira fila para o espetáculo.
— Senhorita Clara Eastwood, de Meyer da província Goldenwall, Quatro.
A foto de uma menina morena apareceu no telão. O seu rosto era pequeno, mais parecido com o de uma boneca. Não podia ver a reação de Isaac do meu trono, mas talvez estivesse animado.
— Senhorita Charlotte Callaghan, de Meyer da província Florian, Dois.
Os seus cabelos eram pretos e a pele um pouco morena. Os seus olhos eram azuis como duas safiras, e os lábios vermelhos. Parecia ser mais velha.
Virei para o meu pai. Por mais que estivesse divertido, queria ir embora. Estava exausta. O dia havia sido corrido, pois além de termos voado da França até aqui, passei o resto da tarde com as minhas criadas me preparando para o Jornal Oficial.
— Já podemos ir? Estou cansada— cochichei para ele.
— Não vamos até o sorteio acabar— falou, com a sua costumeira expressão brava.
Não desisti.
— Mas eu estou exausta, poderia cair dormindo aqui mesmo e...
— Senhorita Olívia Lafayette d' Deville, a princesa da França!
Levei um susto assim que ouvi o meu nome. Desviei o olhar para o telão, conferindo se era eu mesma. E era. Loira, olhos verdes e uma coroa imensa na cabeça. Sou eu.
— O que?!— falei, ainda impressionada.
Os olhares foram se movendo para mim. A câmera que antes estava fixada em Isaac passou a me encarar. Todos bateram palmas. A rainha me lançou um sorriso me parabenizando, o rei possuía um sorriso satisfeito. Olhei para o meu pai. Parecia tão feliz quanto os outros.
Olhei para o príncipe, que estava me encarando naquele momento. Parecia mais surpreso que eu.
Não podia ser. Aquilo era um engano. Tinha que ser um.
Eu não poderia estar mais ferrada.
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